Part 8
A frota de Aragão, quando viu a de Castella, houve receio, e metteu-se no rio de Culhera. El-rei Dom Pedro entrou logo na frota, e foi-se pôr na bôca do rio, cuidando tomar as galés de Aragão. E estando alli, começou de ventar o levante, que é travessia n'aquelle logar, e mostrando o mar sua grande braveza, cuidaram todos que quebrassem suas galés em terra: e el-rei de Aragão, com todas suas gentes, aguardavam em terra por ellas, crendo todavia, por o vento que se esforçava cada vez mais, que de todo ponto eram perdidas. E a galé de el-rei perdera já tres calabres com suas ancoras, e sobre o quarto estava seu feito. Ao sol posto cessou a tormenta, e foi el-rei em mui grão perigo, e partiu d'alli deixando seus fronteiros, e tornou-se para Castella.
El-rei de Aragão cercou Monvedro e não o poude tomar, e partiu d'alli, e foi-se andar por seu reino em tanto.
E deu outra vez volta el-rei de Castella, e partiu de Sevilha, e entrou por Aragão, e tomou alguns logares. E os da villa de Orihuela, cuidando de ser cercados, fizeram-no saber a el-rei de Aragão, e veiu logo com seu poder, a duas leguas de onde el-rei de Castella estava, e abasteceu-a de viandas de que era minguada.
E el-rei Dom Pedro não quiz pelejar com elle, mas esteve alguns dias por aquella terra, e tornou-se para Sevilha, e achou novas como as suas galés, que andavam pelo mar, tomaram cinco galés de Aragão, e foi-se logo a Cartagena, onde estavam, e mandou matar toda a gente d'ellas, que não escapou sómente um, salvo os que sabiam fazer remos, porque os houve mister.
D'alli partiu el-rei Dom Pedro para Murcia, sabendo como el-rei de Aragão cercara Monvedro, e foi cercar a villa de Orihuela que dissemos, e ganhou a villa e o castello, e tornou-se para Sevilha. Os de Monvedro, afincados do cerco e sendo minguados muito de viandas, requeriam muito a mercê de el-rei que lhes accorresse; e el-rei, porque lhes não podia accorrer senão por batalha, não era ousado de o fazer, cá elle não queria pelejar com el-rei de Aragão, receiando-se dos seus, de que muito não fiava. E porém buscava outras maneiras de guerra e não por batalha, cá el-rei Dom Pedro por muitos que mandara matar, e pelos do reino que sabia que eram d'elle mal contentes e o desamavam, não se atrevia a pôr o campo.
Os de Monvedro minguados de viandas, em guisa que já comiam as bestas e ratos, deram a el-rei de Aragão o logar por preitesia. E eram dentro, para o defender seiscentos homens de armas, afóra peões e bésteiros, e os mais d'elles ficaram com o conde Dom Henrique, por grande receio que haviam de el-rei, não embargando o accorrimento que d'elle haver não puderam.
*CAPITULO XXXVI*
_Como o conde Dom Henrique entrou por Castella com muitas companhas, e foi alçado por rei; e como el-rei Dom Pedro mandou desamparar todos os logares que em Aragão tinha filhados_.
Monvedro ganhado por el-rei de Aragão, foi-se para Barcelona, e vieram alli alguns capitães das companhias por que elle mandava, e firmaram com elle de ser alli no fevereiro seguinte, para entrar em Castella com o conde Dom Henrique. El-rei Dom Pedro soube d'isto parte e foi-se a Burgos, onde mandára juntar suas gentes. Entanto aquelle e os capitães das companhias, eram juntos, e partiram de Saragoça para entrar em Castella.
E vinham ahi capitães de Aragão, a saber, o conde de Denia, e Dom Filippe de Castro, e outros cavalleiros; e de França, Mosse Beltrão de Claquin, e o conde das Marchas, e o sr. de Bain, e o marechal de Andemar, marechal de França, e outros cavalleiros. E de Inglaterra, Mosse Boitro de Carvabai, Mosse Estacio, e Mosse Martim de Gorimai, e Mosse Guilhem Allinante, e Mosse João de Obrens, e muitos outros cavalleiros e homens de armas de Inglaterra, e de Guiana, e de Gasconha, e d'outras nações.
E chegaram todos á viila de Alfaro, e não curaram d'ella, e foram outro dia a Calahorra, cidade não forte, e preitejaram-se os do logar com o conde, e acolheram-no dentro com aquellas gentes, as quaes alli foram certificadas como el-rei Dom Pedro estava em Burgos, e que não havia vontade de pelejar com elles. E houveram accordo, dizendo ao conde Dom Henrique que pois tanta boa gente era contente de o aguardar em esta cavalgada, que se chamasse rei de Castella.
E elle, á primeira, começou-se de escusar de o fazer; dês-ahi, como é doce cousa reinar, antes de muitas palavras outorgou que lhe prazia, e foi alçado então por rei: e pediram-lhe, os que com elle vinham, grandes mercês e officios no reino, e elle mui de grado lhe outorgava tudo, dando o que ganhado tinha, e promettendo o que era por ganhar; cá em tal tempo assim lhe cumpria de o fazer. E foi isto no anno de mil e quatrocentos e quatro.
Partiu d'alli el-rei Dom Henrique caminho de Burgos, onde era el-rei Dom Pedro, e chegou a Navarrete, o qual se lhe deu nem ousando de esperar combate, e foi combatida Briviesca, e tomou-a.
El-rei Dom Pedro, sabendo tudo isto, sabbado de Ramos, bem pela manhã, mandou matar João Fernandez de Tovar, por queixume que houve de seu irmão, e, sem dizer cousa nenhuma aos seus, cavalgou por se partir logo. E vieram a elle os maiores da cidade, dizendo que os não deixasse, cá o conde era oito leguas d'alli: e não prestando nenhuma cousa suas razões, quitou-lhe a menagem, e partiu-se logo, e foram com elle alguns cavalleiros, e seiscentos mouros de cavallo, que andavam na guerra em sua ajuda, que lhe dava el-rei de Granada. E muitos dos seus ficaram em Burgos, a que prazia de tudo isto, e quem se d'elle partia não ousava de tornar mais a elle.
E aquelle dia que el-rei d'alli partiu, mandou suas cartas a todos os que por elle tinham as fortalezas que em Aragão ganhara, que as desamparassem, e destruissem se pudessem, e se viessem para elle. E elles fizeram-no assim, mas muitos d'elles se foram para el-rei Dom Henrique, e aqui cessou então de todo a guerra de Aragão, a qual ia em onze annos que durava.
Certamente perdera-se o reino de Aragão todo, se fortuna tão cedo não abreviara os annos da vida d'este rei Dom Pedro, cá onze vezes que elle em Aragão fez entrada, ganhou cincoenta e dois logares aqui contidos, afóra outros muitos que aqui não são nomeados. E chegou el-rei Dom Pedro a Toledo, e poz recado na cidade, e d'ahi partiu para Sevilha.
Os de Burgos, vendo que se não poderiam defender de el-rei Dom Henrique, mandaram-lhe seus recados e receberam-no na cidade, e coroou-se alli por rei, e vieram a elle muitos procuradores das villas e cidades do reino, e receberam-no por senhor, em guisa que do dia da coroação a vinte e cinco dias, foi todo o reino a seu mandado: e elle recebia todos graciosamente, e a nenhum era negado cousa que pedisse. E deu el-rei Dom Henrique alli muitas terras áquelles senhores e cavalleiros que vinham com elle, assim estrangeiros como seus naturaes, e mandou a Aragão por sua mulher e filhos, e foi recebida honradamente.
D'alli partiu e veiu-se a Toledo, e foi na cidade grande revolta se o receberiam ou não, porque a uns prazia que o recebessem, outros eram de todo em contrario; pero finalmente houveram accordo de o acolher em ella, e foi recebido com grande prazer.
*CAPITULO XXXVII*
_Como el-rei Dom Pedro de Castella enviara uma sua filha a Portugal, e como elle partiu de Sevilha com temor que houve dos da cidade_.
El-rei Dom Pedro estando em Sevilha, soube novas d'estas cousas todas, e posto em grão pensamento, accordou com os seus de enviar pedir ajuda a el-rei de Portugal, seu tio. E por lhe dar mór cargo de se mover a lhe fazer tal ajuda, enviou-lhe dizer que bem sabia como era posto casamento da infante Dona Beatriz, sua filha, com o infante Dom Fernando seu primogenito filho, e que porém lhe mandava a dita infante e toda a quantia do haver que era posto de lhe dar ao tempo do casamento, e que essa Dona Beatriz ficasse herdeira dos reinos de Castella, e de Leão. E mandou-a logo de Sevilha, e com ella Martim Lopez de Trujillo, um homem de que elle muito fiava, e mais certa quantia de dobras que deixara a esta infante Dona Maria de Padilha, sua madre, com joias, e aljofar, e outras cousas.
E partida Dona Beatriz de Sevilha para Portugal houve el-rei Dom Pedro novas como el-rei Dom Henrique caminhava de Toledo para Sevilha, e accordou de enviar pelo thesouro que tinha no castello de Almodovar, que era todo em moedas de prata e de oiro, e fez armar uma galé em que o poz, com todo o haver que tinha na cidade, e entregou a galé a Martim Yanhez, seu thesoureiro, e mandou-lhe que se fosse a Tavira, villa de Portugal no reino do Algarve, e que alli attendesse a galé, até que elle fosse. E tambem mandou carregar muitas azemolas de seus thesouros, e levou comsigo mui grande haver de oiro, e pedras, e aljofar assim do que tomara a el-rei Vermelho e aos seus, como de outro muito que tinha junto, e isso mesmo da prata toda a que poude levar.
E el-rei estando assim para partir de Sevilha, disseram-lhe como os da cidade se alvoroçavam contra elle, e o queriam roubar alli onde estava: e com grão temor que houve, partiu-se logo para Portugal. E levou comsigo Dona Constança, e Dona Isabel, suas filhas, cá Dona Beatriz, a maior, havia já mandada, como dissemos. E iam com el-rei Dom Pedro, Martim Lopes de Cordova, mestre d'Alcantara, e Diogo Gomes de Catanheda, e Pero Fernandez Cabeça-de-vacca, e outros.
E segundo alguns escrevem, como el-rei partiu de Sevilha, taes ahi houve, dos que iam com as azemolas do haver, que vendo como el-rei fugia do reino por aquella guisa, se tornavam para a cidade com o que levavam, e outras saiam do logar e lhe roubaram parte d'aquelle haver. E Misser Gil Boca-negra, seu almirante, que era genovez, armou em Sevilha uma galé e outros navios, e foi tomar a galé do haver, em que ia Martim Yanhez para Tavira, no rio Guadalquivir, cá ainda não era mais arredado. E era o haver, que ia em ella, trinta e seis quintaes de oiro, e outras muitas joias, de que el-rei Dom Henrique depois houve a maior parte.
*CAPITULO XXXVIII*
_De como el-rei Dom Pedro de Castella fez saber a seu tio que era em seu reino, e como se el-rei escusou de o vêr, e lhe fazer ajuda_.
El Rei de Portugal, em esta sesão, pousava nos paços de Vallada, que são a cerca de uma villa que chamam Santarem, e era isto no mez de maio. E quando el-rei Dom Pedro, mandou sua filha Dona Beatriz, como anteagora ouvistes, para casar com o infante D. Fernando, por azo de haver melhor ajuda de el-rei seu tio, soaram primeiro novas em Vallada, onde pousava el-rei, que el-rei de Castella lhe mandava duas suas filhas, que estavam já nas Alcaçovas, que são d'alli vinte leguas; mas não sabiam dizer certamente porque as mandava a el-rei, nem em que intenção. El-rei de Portugal, que parte não sabia que el-rei seu sobrinho era em tal pressa posto, cuidando que as infantes vinham por outra maneira, porém que não era mais que aquella uma, mandava correger casas e camaras em seus paços, em que ellas bem podessem pousar.
El-rei de Castella partiu de seu reino, e tão trigoso andar poz no caminho, sem se detendo em nenhum logar, que antes que sua filha chegasse onde el-rei de Portugal estava, a achou elle no caminho em que vinha. E chegou el-rei Dom Pedro a Serpa, e d'alli a Beja, e dês-ahi a Coruche, que eram vinte e uma leguas d'onde el-rei seu tio estava, e d'alli lhe fez saber como vinha, e a ajuda e accorrimento que lhe d'elle cumpria, e isso mesmo o casamento de sua filha com o infante Dom Fernando, seu filho.
El-rei de Portugal, como isto soube, teve bem assaz em que cuidar, e mandou-lhe dizer que não fosse mais adiante, mas que estivesse alli até que visse seu recado. E mandou chamar o infante Dom Fernando seu filho, que não era ahi, e com elle e com seus privados houve conselho sobre este feito, e foi falado por alguns que o visse e acolhesse em seu reino, e que o ajudasse a cobrar sua terra. Dês-ahi, cuidando bem n'isto, acharam que o não podia el-rei fazer sem grandes trabalhos, e gasto, e mui grão damno de seu reino, e, o peior de tudo, não ter nenhumas azadas razões como tal feito podesse vir a acabamento, quejando cumpria, porque, el-rei Dom Henrique, seu irmão, tinha já toda Castella a seu mandar, salvo alguns logares, tão poucos, de que não era de fazer conta; e com isto haviam lhe grande odio todos os do reino, assim grandes como pequenos. De guisa que bem era de cuidar quanto todos fariam por cobrar em elle; pois quem houvesse de lançar fóra de Castella el-rei Dom Henrique e todos os da sua parte, assim por batalha como por guerra guerreada, grão poderio lhe convinha ter, e, não se fazendo segundo seu desejo, ficava ao depois em grande homisio e guerra com elle. Recebel-o outrosim em seu reino, e não trabalhar de o ajudar, era-lhe grande vergonha e prasmo; dês-ahi, vendo-o e falando-lhe, não se poderia escusar d'elle.
Porém accordaram que o mais são conselho era que o não visse elle nem o infante seu filho, buscando algumas rasões coloradas por que parecesse que direitamente se escusava.
Então foi a Coruche o conde Dom João Affonso Tello, onde el-rei de Castella estava esperando a resposta de seu tio, cuidando de ser aposentado em Santarem, e disse-lhe como el-rei vira seu recado, e soubera parte da sua vinda de que guisa era, e que elle de boa mente o recebera em seu reino e o ajudara a cobrar sua terra, como era razão e direito, mas que por então não estava em ponto de o poder fazer como cumpria, porque d'aquellas vezes que lhe elle fizera ajuda, assim por mar como por terra, os fidalgos de seu reino vieram d'elle e de suas gentes mui mal contentes e escandalisados; e que vinham em sua companha taes, com que alguns houveram razões, e que era por força haver entre elles grandes bandos e arruidos, o que a serviço d'ambos pouco cumpria. Além d'isto, que sabia bem como o infante Dom Fernando, seu filho, era sobrinho da rainha Dona Joanna, que então novamente entrara em Castella, irmã de sua madre Dona Constança, filha de Dom João Manuel, e que não entendia de postar com elle que lhe muito prouvesse de tal ajuda. E foi assim certamente, segundo alguns escrevem, que o infante deu grão torva, porém razoada, em este feito. Com estas e outras razões escusou o conde el-rei seu senhor, que elle áquelle tempo o não podia vêr, nem lhe fazer mais ajuda da que feita havia; e despediu-se d'elle, e foi-se para a pousada.
*CAPITULO XXXIX*
_Como el-rei de Castlla partiu de Coruche, e se foi de Portugal; e quaes enviaram em sua companha_.
Não embargando as razões que dissemos, e outras muitas que faladas foram entre el-rei de Castella e o conde sobre o feito de seu negocio, bem entendeu el-rei Dom Pedro que o fim de todos seus ditos era não haver el-rei seu tio vontade de lhe dar acolhimento em seu reino, nem lhe fazer ajuda por nenhuma guisa: e houve d'isto tão grande queixume, que não poude com sua vontade que o logo não desse a entender por algum modo.
E depois que o conde com elle falou, e se despediu e se foi para a pousada, ficou el-rei triste e melancolioso, e com torvado gesto tomou dobras, que tinha na mão, e deitou-as por cima de um alpendre das casas onde pousava. Um cavalleiro de sua companha, vendo isto que el-rei fazia, disse-lhe, como sorrindo, por que deitara assim aquellas dobras, cá melhor fôra dal-as a alguns dos seus, a que prestassem; e el-rei lhe respondeu dizendo: «não cureis d'isso, cá quem as semeia as virá depois colher»; dando a entender, se seus annos tão poucos não foram, que elle lhe fizera de bom talante guerra, por não achar então em elle ajuda nem acolhimento nenhum. E houve seu accordo de se ir a Albuquerque e deixar ahi as filhas e todas suas cargas; e chegando ao logar não o quizeram em elle acolher, antes se lançaram dentro alguns dos que iam em sua companha.
E el-rei, vendo como seus feitos iam cada vez peior, mandou dizer a el-rei de Portugal, seu tio, que pois lhe outra ajuda fazer não queria, que lhe enviasse carta de seguro, por que podesse passar por seu reino: e isto fazia elle temendo-se do infante Dom Fernando de Portugal, por ser sobrinho da mulher de el-rei Dom Henrique, como dissemos.
A el-rei de Portugal prouve muito, e enviou a elle o conde de Barcellos, que ouvistes, e Alvaro Peres de Castro, que se fossem com elle pelo reino, e o puzessem em salvo em Galliza. E elles se foram por elle, e começaram de andar seu caminho, e quando chegaram á Guarda, segundo alguns contam, disseram elles alli a el-rei que se queriam tornar e não podiam ir mais com elle, porquanto se receiavam do infante Dom Fernando, que os enviara ameaçar por irem assim em sua companha, e que el-rei lhes deu então seis mil dobras, e duas cintas de prata, e dois estoques, que se fossem com elle até Galliza. E se assim adveio por esta guisa, isto foi fingido que elles disseram, cá o infante não tinha razão de lhes tal cousa mandar dizer, pois, com seu accordo, fôra ordenado em conselho que o acompanhassem até fóra do reino. E dizem que chegaram com elle até Lamego, e mais não. E á partida lhe furtou o conde uma filha de el-rei Dom Henrique, seu irmão, que el-rei levava presa comsigo, de idade de quatorze annos, que chamavam Dona Leonor dos leões, porque el-rei Dom Pedro, por queixume que de seu padre havia, sendo esta moça em poder de sua ama, nada de mui poucos mezes, com grão crueldade a mandou tomar, e, esfaimados os leões que criava antes por um dia, no curral onde andavam mandou que lh'a lançassem em camisa, e foi assim feito como elle mandou. E os leões vieram, e chegaram-se a ella, e prouve a Deus que lhe não fizeram nenhum nojo, mas assim como se d'ella houvessem piedade, se chegavam a ella sem lhe fazerem outro mal. Foi isto dito a el-rei por alguns seus, e mandou-a el-rei tirar d'alli, e entregar áquelles que a criavam, e poz-se porém em ella tal guarda, que nunca seu padre a poude haver. E levava-a el-rei então comsigo, e o conde a trouxe a el-rei de Portugal, e depois foi entregue a el-rei Dom Henrique, seu padre.
*CAPITULO XL*
_Como el-rei Dom Pedro chegou a Galliza, e matou o arcebispo de São Thiago, e se foi para Inglaterra_.
Partiu de Lamego el-rei de Castella, assaz desamparado e com mui pouca gente, cá não iam com elle mais que até duzentos de cavallo, e chegou a Monte-rei, uma villa de Galliza, e d'alli escreveu a Logronho, e a Soria, e a Samora, que tinham sua voz, que se esforçassem, cá elle lhes accorreria.
E fez saber a el-rei de Navarra, e ao principe de Galles, como era em Galliza, e queria saber que esforço tinha em elles, e esperou alli o arcebispo de São Thiago, e Dom Fernando de Castro, seu alferes-mór e adiantado em terra de Leão e das Asturias, o qual antes d'isto viera a Galliza por seu mandado, e falou com todos os prelados, e cavalleiros, e escudeiros, e cidades, e villas, e fortalezas, de guisa que todos tiveram sua voz.
E estiveram tres somanas, havendo conselho se era melhor ir-se a Samora, e d'ahi caminho de Logronho, pois el-rei Dom Henrique, com suas companhas, estava em Sevilha; ou ir-se a Bayona de Inglaterra catar seus accorros com o principe de Galles. E teve-se el-rei antes ao conselho da ida de Inglaterra, que tornar outra vez a seu reino, porque tão pouco se fiava nos que tinham voz por elle, como nos outros que não eram da sua parte.
E partiu de Monte-rei, e foi ter o São João a São Thiago de Galliza, e alli houve accordo com os seus de matar o arcebispo, e tomar-lhe as fortalezas. E onde Dom Sueiro vinha seguro, a seu mandado, dia de São Pedro, que lhe mandara el-rei dizer que viesse ao conselho, entrando pela cidade foi morto á porta da igreja de São Thiago, por Fernão Perez Turrichão, e Gonçalo Gomez Gallinhato, e dois cavalleiros que lhe mal queriam, a que el-rei mandara que o matassem, e mataram mais Pero Alvarez, deão de São Thiago, homem mui letrado e bem sisudo, e el-rei o olhava de cima da igreja, como se tudo isto fazia. E tomou el-rei quanto haver o arcebispo tinha no castello da rocha, e deu as fortalezas a Dom Fernando de Castro, e fel-o conde de Trastamara, e de Lemos, e de Sarria, d'onde soía ser conde el-rei Dom Henrique, para elle e para todos seus herdeiros lidimamente nascidos.
E Dom Alvaro Perez, seu irmão, e André Sanchez de Gres, que vinham vêr el-rei, quando souberam a morte do arcebispo, tornaram-se para suas terras com medo, e tomaram voz d'el-rei Dom Henrique.
El-rei partiu d'alli, e foi-se para a Corunha, e n'aquelle logar lhe chegou recado do principe de Galles, que se fosse para o senhorio de Inglaterra, e que elle lhe ajudaria a cobrar o reino. E partiu el-rei da Corunha, e levou comsigo vinte e duas naus, e uma galé, e uma carraca, e deixou Dom Fernando de Castro em Galliza, e commetteu-lhe todo seu poderio, e el-rei ia na carraca com suas filhas todas tres, e o thesouro todo que comsigo levava, que eram trinta e seis mil dobras em oiro amoedado, porque todo o outro thesouro deixara na galé que Martim Yanhez havia de levar a Tavira, e levava muitas joias de oiro, e de aljofar, e de pedras de grão valor. E passou o mar, e chegou a Bayona, onde ia corregendo seus feitos, de que mais por ora dizer não queremos.
*CAPITULO XLI*
_Como el-rei Dom Henrique chegou a Sevilha, e da alliança que fez com el-rei de Portugal_.
El-rei Dom Henrique partiu de Toledo, sabendo tudo o que adviera a el-rei Dom Pedro em Sevilha, e isso mesmo em Portugal, e como se fôra depois a Galliza. E chegou a Cordova, onde o receberam com grão prazer, e d'ahi levou caminho de Sevilha, sabendo que tinha voz por elle, onde foi recebido com tão grão festa que, pero el-rei chegou pela manhã a cerca do logar, passava de meio dia quando entrou em seu paço.
E partiu el-rei com os seus, e com aquellas companhas que com elle vinham, em guisa que todos foram mui contentes, e mandou-os para suas terras; pero ficaram com elle Mosse Beltrão de Claquin, e outros senhores, com alguns inglezes e bretões, que eram todos companhias, até mil e quinhentas lanças.
E esteve el-rei em Sevilha quatro mezes, e antes que d'alli partisse, escreveu a el-rei Dom Pedro de Portugal, como queria haver paz e amisade com elle, e que elle enviaria taes, ao extremo, de que fiava por seus procuradores, para tratarem avença entre elles, e que el-rei Dom Pedro mandasse ahi outros, que com seus feitos fossem concordados.
E foi assim de feito, que enviou el-rei Dom Henrique Dom João, bispo de Badalhouce, e Diego Gomez de Toledo, cavalleiro, e el-rei de Portugal enviou Dom João, bispo de Evora, e Dom Alvaro Gonçalves, prior do Hospital; e juntaram-se todos na ribeira de Caya, no extremo dos reinos.
E alli trataram, pelos ditos reis, que fossem fieis amigos um do outro, e houvessem paz e concordia, e que el-rei de Castella trabalhasse, a todo seu poder, que el-rei de Aragão fosse amigo de el-rei de Portugal pela guisa que o elle era, e que el-rei de Aragão deixasse vir para Portugal a infanta Dona Maria, filha do dito rei Dom Pedro, mulher que fôra do infante Dom Fernando, marquez de Tortosa, com todo o seu, ou viver na terra qual ella antes quizesse; e louvaram e approvaram as avenças que em outro tempo foram feitas em Agreda, entre el rei Dom Fernando e el-rei Dom Diniz, seus avós.
Outrosim, Mafamede, rei de Granada, tratou logo amisade com el-rei Dom Henrique, e ficou por seu amigo.
E partiu el-rei de Sevilha, e foi-se a Galliza, e cercou em Lugo Dom Fernando de Castro, que tinha voz de el-rei Dom Pedro, e não o poude tomar, e preitejou com el-rei, que se lhe el-rei Dom Pedro não accorresse até cinco mezes, que deixasse o reino e lhe entregasse todas as fortalezas, e se quizesse ficar em sua mercê, que lhe desse a villa de Castro Exarez, d'onde sua linhagem se chamava de Castro, e elle conde, depois que lh'a el-rei Dom Pedro dera, e que em este tempo não se fizesse guerra de uma parte á outra, a qual cousa lhe Dom Fernando mui mal teve.