# Chronica de el-rei D. Pedro I

## Part 7

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/chronica-de-el-rei-d-pedro-i-16633/index.md

E sendo el-rei doente, em Lisboa, da dôr de que se então finou, fez chamar Diogo Lopes Pacheco e outros, e disse-lhe que elle sabia bem que o infante Dom Pedro, seu filho, lhe tinha má vontade, não embargando as juras e perdão que fizera, da guisa que elles bem sabiam; e que, porquanto se elle sentia mais chegado á morte que á vida, que lhes cumpria, de se pôrem em salvo fóra do reino, porque elle não estava já em tempo de os poder defender d'elle, se lhe algum nojo quizesse fazer. E elles se partiram logo de Lisboa, e se foram para Castella, andando então o infante Dom Pedro ao monte, além do Tejo, em uma ribeira que chamam de Canha, que são oito leguas da cidade: e el-rei de Castella os recebeu de bom geito, e haviam d'elle bem fazer, e mercê, vivendo em seu reino seguros e sem receio.

E depois que o infante Dom Pedro reinou, deu sentença de traição contra elles, dizendo que fizeram contra elle, e contra seu estado, cousas que não deviam de fazer; e deu os bens de Pero Coelho a Vasco Martins de Sousa, rico-homem, e seu chanceller-mór, e os de Alvaro Gonçalves e Diogo Lopes a outras pessoas, como lhe prouve. E fez el-rei, em alguns d'estes bens, tantas e taes bemfeitorias, e outras repartio em tantas partes, que depois que elle morresse nunca os mais podessem haver aquelles cujos foram, nem tirar áquelles a que os assim dava.

Semelhavelmente, fugiram de Castella, n'esta sesão, com temor de el-rei, que os mandava matar, Dom Pedro Nunez de Guzman, adeantado-mór da terra de Leão, e Mem Rodrigues Tenorio, e Fernão Godiel de Toledo, e Fernão Sanchez Calderon, e viviam em Portugal, na mercê de el-rei Dom Pedro, crendo não receber damno, tambem os portuguezes como os castelhanos, porque razoada fé lhes dera ousado acoutamento nas fraldas da segurança, a qual--não bem guardada pelos reis--fizeram calladamente uma tal avença, que el-rei de Portugal entregasse presos, a el-rei de Castella, os fidalgos que em seu reino viviam, e que elle, outrosim, lhe entregaria Diogo Lopes Pacheco, e os outros ambos que em Castella andavam. E ordenaram que fossem todos presos em um dia, por que a prisão de uns não fosse avisamento dos outros, e que aquelles que levassem presos os castelhanos até ao extremo do reino, recebessem os portuguezes que trouxessem de Castella.

*CAPITULO XXXI*

_Como Diogo Lopes Pacheco escapou de ser preso, e foram entregues os outros, e logo mortos cruelmente_.

Feito aquelle tracto d'esta maneira, foram em Portugal presos os fidalgos que dissemos.

E n'aquelle dia que o recado de el-rei de Castella chegou ao lugar, onde Diogo Lopes e os outros estavam, para haverem de ser presos, aconteceu que essa manhã muito cedo fôra Diogo Lopes á caça dos perdigões. E presos Pero Coelho e Alvaro Gonçalves, quando foram buscar Diogo Lopes, acharam que não era no logar, e que se fôra pela manhã á caça.

Cerraram então as portas da villa, que nenhum lhe levasse recado para o perceber, e attendiam-no assim, estando para o tomar á vinda.

Um pobre manco, que sempre em sua casa havia esmola quando Diogo Lopes comia, e com quem algumas vezes jogueteava, viu estas cousas como se passaram, e cuidou de o avisar no caminho antes que chegasse ao logar, e soube escusadamente contra qual parte Diogo Lopes fôra, e chegou ás guardas da porta que o deixassem sair fôra, e elles, de tal homem nenhuma cousa suspeitando, abrindo a porta o deixaram ir.

Andou elle, quanto poude, por onde entendeu que Diogo Lopes viria, e achou-o já vir com seus escudeiros, mui desegurado das novas que lhe elle levava. E dizendo o pobre a Diogo Lopes que lhe queria falar, quizera-se elle escusar de o ouvir, como quem pouco suspeitava que lhe trazia tal recado.

Afincando-se o pobre que o ouvisse, contou-lhe então áparte como uma guarda de el-rei de Castella, com muitas gentes, chegaram a seu paço para o prender, depois que os outros foram presos, e isso mesmo de que guisa as portas eram guardadas, por que nenhum saisse para o avisar.

Diogo Lopes, como isto ouviu, bem lhe deu a vontade o que era, e medo de morte o fez torvar todo, e pôr em grão pensamento.

E o pobre lhe disse, quando o assim viu:--Crê-de-me de conselho, e ser-vos-ha proveitoso: apartae-vos dos vossos, e vamos a um valle não longe d'aqui, e alli vos direi a maneira como vos ponhaes em salvo.

Então disse Diogo Lopes aos seus que andassem por alli a perto caçando, cá elle só queria ir com aquelle pobre a um valle, onde lhe dizia que havia muitos perdigões.

Fizeram-no assim, e foram-se ambos áquelle logar, e alli lhe disse o pobre, se escapar queria, que vestisse os seus saios rotos, e assim, de pé, andasse quanto podesse até á entrada que ia para Aragão, e que com os primeiros almocreves que achasse, se mettesse de soldada, e assim, com elles de volta, andasse seu caminho, e por esta guisa, ou em um habito de frade, se o depois haver pudesse, se puzesse em salvo no reino de Aragão, cá por força havia de ser buscado pela terra.

Diogo Lopes tornou seu conselho, e foi-se de pé, d'aquella maneira, e o pobre não tornou logo para a villa. Os seus aguardaram por mui grande espaço; e vendo que não vinha, foram-no buscar contra onde elle fôra: e andando em sua busca, acharam a besta andar só, e cuidaram que caira d'ella, ou lhe fugira, e buscaram-no com maior cuidado.

Foi a detença, em isto, tão grande, que se fazia já muito tarde, e vendo como o achar não podiam, levaram a besta e foram-se ao lugar, não sabendo que cuidassem em tal feito. E quando chegaram, e viram de que guisa o aguardavam, e souberam da prisão dos outros, ficaram mui espantados, e logo cuidaram que era fugido: e perguntados por elle, disseram que caçando só, se perdera d'elles, e que buscando-o acharam a besta e não a elle, e que n'aquillo foram detidos até áquellas horas, e que não sabiam que cuidassem, senão que jazia em algum logar morto. Os que cuidado tinham de o prender, foram-no buscar por desvairadas partes. E do que lhe adveiu no caminho, e como passou por Aragão, e se foi a França para o conde Dom Henrique, e de que guisa lhe fez roubar os campos de Avinhão, e de outras cousas que lhe advieram, não curamos de dizer mais, por não sair fóra de proposito.

Quando el-rei de Castella soube que Diogo Lopes não fôra tomado, houve grão queixume e não poude mais fazer: então enviou Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, bem presos e arrecadados, a el-rei de Portugal, seu tio, segundo era ordenado entres elles. E quando chegaram ao extremo, acharam ahi Mem Rodriguez Tenorio, e os outros castelhanos, que lhe el-rei Dom Pedro enviava. E alli dizia depois Diogo Lopes, falando n'esta historia, que se fizera o troco de burros por burros.

E foram levados a Sevilha, onde el-rei então estava, aquelles fidalgos que já nomeámos, e alli os mandou el-rei matar a todos.

A Portugal foram trazidos Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, e chegaram a Santarem, onde el-rei era. El-rei, com prazer de sua vinda, porém mal magoado porque Diogo Lopes fugira, os saiu fóra a receber, e, sanha cruel, sem piedade os fez por sua mão metter a tormento, querendo que lhe confessassem quaes foram na morte de Dona Ignez culpados, e que era que seu padre tratava contra elle, quando andavam desavindos por azo da morte d'ella. E nenhum d'elles respondeu a taes perguntas cousa que a el-rei prouvesse.

E el-rei, com queixume, dizem que deu um açoute no rosto a Pero Coelho, e elle se soltou então contra el-rei em deshonestas e feias palavras, chamando-lhe traidor, á fé perjuro, algoz e carniceiro dos homens. E el-rei, dizendo que lhe trouxessem cebola, vinagre, e azeite para o coelho, enfadou-se d'elles, e mandou-os matar.

A maneira de sua morte, sendo dita pelo miudo, seria mui estranha e crua de contar, cá mandou tirar o coração pelos peitos a Pero Coelho, e a Alvaro Gonçalves pelas espaduas. E quaes palavras houve e aquelle que lh'o tirava, que tal officio havia pouco em costume, seria bem dorida cousa de ouvir. Emfim, mandou-os queimar. E tudo feito ante os paços onde elle pousava, de guisa que comendo olhava quanto mandava fazer.

Muito perdeu el-rei de sua boa fama por tal escambo como este, o qual foi havido, em Portugal e em Castella, por mui grande mal, dizendo todos os bons que o ouviam, que os reis erravam mui muito indo contra suas verdades, pois que estes cavalleiros estavam, sobre segurança, acoutados em seus reinos.

*CAPITULO XXXII*

_De algumas cousas que el-rei Dom Pedro de Castella mandou fazer, e como fez paz com el-rei de Aragão entrando em seu reino_.

Nós deixámos, antes d'isto, el-rei Dom Pedro de Castella em Sevilha, prendendo e matando como lhe vinha á vontade, e contámos a morte de alguns que depois matou, com outras cousas que se, em Portugal, em esta sesão passaram, no anno de trezentos e noventa e oito.

E depois que se fez aquelle feio escambo dos cavalleiros de um reino ao outro, segundo ouvistes em seu logar, mandou el-rei Dom Pedro matar de mui cruel morte Dom Pero Nunez de Guzman, adiantado-mór da terra de Leão, que era um d'elles; e mandou matar Guterre Fernandez de Toledo, seu reposteiro-mór, e trouxeram-lhe a cabeça d'elle. E Gomez Carrilho, filho de Pero Rodriguez Carrilho, indo mui ledo em uma galé, em que el-rei fingiu que o mandava para lhe entregarem a villa de Aljazira, para estar ahi por fronteiro, e o patrão cortou-lhe a cabeça, que mandou a el-rei, e deitou-lhe o corpo ao mar, e foi presa a mulher e os filhos d'este Gomez Carrilho.

E mandou matar um cavalleiro de Castella, que chamavam Diego Guterrez de Ceballos. E deitou fóra do reino Dom Vasco, arcebispo de Toledo, depois que matou seu irmão Guterre Fernandez, e mandou-lhe tomar quanto tinha, que sómente um livro não levou comsigo, nem outra roupa senão a que tinha vestida, e foi-se para Portugal, e morreu em Coimbra.

Mandou prender Dom Samuel Levi, seu thesoureiro-mór, e grão privado do seu conselho, e quantos parentes tinha pelo reino, em um dia; e tomou a elle, e aos outros todos, quanta riqueza lhe achou, e foram-lhe dados grandes tormentos, e nas taracenas de Sevilha preso morreu.

Em este anno, cuidou el-rei Dom Pedro haver guerra com el-rei Vermelho de Granada, que diziam que tinha a parte de el-rei de Aragão. Este rei Vermelho lançara rei Mafoma fóra do reino, mas logo fez preitesia com el-rei Dom Pedro, que o não turvasse com el-rei Mafoma seu inimigo, pero que houvesse el-rei gram sanha d'elle, porque lhe em tal tempo quizera fazer guerra.

E isto assocegado, no mez de janeiro de tresentos e noventa e nove, foi-se el-rei a Almançan, com muitas companhas que comsigo levava, para entrar no reino de Aragão. E foram d'esta vez em sua ajuda seiscentos portuguezes, e ia por capitão d'elles o mestre de Aviz, Dom Martim de Avelal, bom fidalgo e muito honrado, e de que se todos tiveram por contentes. E ganhou el-rei de Castella, em Aragão, d'esta vez, alguns logares.

E o cardeal de Bolonha, legado do papa, falou com el-rei que desse logar a se não espargir tanto sangue como estava prestes, cá el-rei de Aragão, com todo seu poder, estava disposto para pelejar com el-rei de Castella, cá via que por guerra guerreada não podia igualar com elle.

E tinha el-rei de Castella, então, seis mil de cavallo e muita gente de pé. E receiando-se de el-rei Vermelho de Granada, que lhe diziam que tinha feito liga com el-rei de Aragão para lhe fazer guerra, se mais durasse aquella contenda, pela qual se desencaminharam muito seus feitos, fez paz com el-rei de Aragão, fingida e contra sua vontade; e foi que el-rei de Aragão enviasse fóra do reino o conde Dom Henrique, e Dom Tello, e Dom Sancho, seus irmãos, e os cavalleiros e escudeiros de Castella que com elles estavam em Aragão,--e que el-rei de Castella lhe tornasse todos os logares que lhe tomados tinha de seu reino, e d'ahi em diante fossem amigos. E foram d'isto feitas escripturas, e apregoada a paz no arrayal, e prouve d'isto muito a quantos alli eram, porque a guerra que faziam era muito contra sua vontade.

*CAPITULO XXXIII*

_De algumas entradas que el-rei este anno fez no reino de Granada, e como el-rei Vermelho se veiu pôr em seu poder, cuidando de ser seguro, e el-rei o mandou matar_.

Como el-rei veiu de Aragão e chegou a Sevilha, juntou suas gentes por fazer guerra a el-rei Vermelho de Granada, dizendo que queria ajudar el-rei Mafoma, e que por seu azo fizera paz com Aragão contra sua vontade.

E veiu-se para elle el-rei Mafoma, com quatrocentos de cavallo, e entrou em companha de el-rei. E chegou el-rei a Antequera e não a poude tomar, e tornou-se, e mandou entrar os seus na veiga de Granada, que eram seis mil de cavallo, e venceram os christãos duas pelejas, e foram dos mouros mortos e captivos, e foi preso o mestre de Calatrava, e Sancho Perez d'Ayala, e outros.

E cuidando el-rei Vermelho que faria prazer a el-rei Dom Pedro, fez grande gasalhado ao mestre e aos outros, cuidando de amansar a vontade de el-rei; e soltou o mestre, e alguns cavalleiros dos outros, e deu-lhe de suas joias, e enviou-os a el-rei.

Elle agradeceu-lhe mui pouco tão grande presente, mas a poucos dias fez outra entrada, e ganhou quatro logares de mouros, e pôz recado em elles, e tornou-se a Sevilha.

Os mouros combateram um d'estes logares, que chamam Sagra, e furando o muro e entrando-o por força, preitejou-se Fernão del Gadilho, que o tinha, e foi posto em salvo, e veiu-se para el-rei: e el-rei mandou-o matar.

E deu el-rei volta, outra vez, em Granada, e ganhou outros logares, e tornou-se a Sevilha.

Os mouros aggravaram-se todos, dizendo a el-rei Vermelho que, por a contenda que elle havia com el-rei Mafoma, entrára já el-rei trez vezes na terra, e que se perdia o reino de Granada.

El-rei houve d'isto receio, e vendo que não podia levar adiante aquillo que começara, houve conselho de se vir pôr em poder e mercê d'el-rei de Castella, e que el-rei, dês que o visse, haveria piedade d'elle, e teria com elle alguma boa maneira. E partiu logo de Granada, com quatro centos de cavallo e duzentos de pé, e chegaram ao alcaçar de Sevilha, onde el-rei estava, e fizeram-lhe grandes referencias, e el-rei os recebeu mui bem.

Então lhe fallou um mouro por el-rei de Granada, dizendo entre outras cousas, que bem se poderia defender de el-rei Mafoma, que era seu contrario, mas d'elle, que era seu rei e senhor, não se podia defender, e que, havido conselho sobre isto, o melhor accordo que achara era pôr-se em seu poder e mercê, á qual pedia que tomasse aquelle feito em sua mão, e que o punha em seu juizo, e que, se sua vontade era de outra guisa, fosse sua mercê de mandar pôr, elle e os seus, além mar em terra de mouros.

El-rei respondeu ao mouro que lhe prazia muito da vinda de el-rei e dos seus, e que, sobre a contenda d'el-rei Mafoma, elle teria em ello boa maneira como se livrasse.

El-rei Vermelho, e os outros fizeram por isto grão reverencia a el-rei, tendo que seu feito estava bem, e foram-se mui alegres para as pousadas que lhe el-rei mandou dar na judiaria da cidade.

A cubiça, que é raiz de todo mal, fez logo saber a el-rei como el-rei Vermelho trazia muito haver, em aljofar e pedras e joias, e houve grão desejo de cobrar tudo. E mandou ao mestre de São Thiago que o convidasse n'outro dia para a ceia, e os maiores honrados que com elle vinham: e foram cear com elle até cincoenta.

Acabada a ceia, estando seguros e nenhum ainda levantado, chegou Martim Lopez, com homens armados, e prendeu el-rei e todos os outros. E foi logo buscado el-rei, e acharam-lhe tres pedras balaches mui nobres e mui grandes, e acharam a um mouro pequeno, em um correio, setecentas e trinta pedras balaches, e a um seu pagem cincoenta grãos de aljofar, grossos como avelãs esburgadas, e a outro moço, tanto aljofar, grado como hervanços, em que poderia haver uma oitava de alqueire, e aos outros, a quem achavam aljofar, a quem pedras, e tudo levaram a el-rei.

E n'essa hora foram outros homens de armas á judiaria, e prenderam todos os outros mouros; e todas as dobras e joias, que lhe acharam, tudo levaram a el-rei.

E foi el-rei levado preso, e todos os seus á taracena, e d'ahi a dois dias foi tirado a um campo, que dizem Tablada, elle e trinta e sete cavalleiros mouros, e alli os mandou el-rei matar todos. E foi el-rei Dom Pedro o primeiro que deu uma lançada a el-rei Vermelho, que estava em cima de um asno, vestido em uma saia de escarlata, e disse:--Toma, porque me fizeste fazer má preitesia com el-rei de Aragão.--E o mouro respondeu por sua aravia, dizendo:--Pequena cavalgada fizestes.

E enviou el-rei Dom Pedro a cabeça de el-rei Vermelho, e dos outros trinta e sete, a el-rei Mafoma de Granada, e elle enviou-lhe alguns captivos.

E posto que el-rei Dom Pedro dissesse muitas razões a colorar este feito, por mostrar que o fizera sem encargo de sua consciencia, todos os seus o tiveram por mui grão mal, e lhes prouvera muito de não ser assim.

*CAPITULO XXXIV*

_Das avenças que el-rei de Castella fez com el-rei de Aragão, entrando em seu reino, e como as depois não quiz guardar_.

El-rei Dom Pedro, que vontade tinha de tornar outra vez á guerra de Aragão, dizendo que a paz que fizera fôra contra sua vontade, por receio de el-rei Vermelho, fez liga com el-rei de Navarra, que fossem amigos e se ajudassem, e mandou aos seus que se percebessem: e nenhum não pensava que fosse contra Aragão, com que havia paz.

E encobertamente, antes que o el-rei soubesse, por lhe tomar algumas villas, em tanto entrou em Aragão, e tomou logo seis castellos, e cercou a villa de Calatayud. E tendo o cerco sobre ella, ganhou treze castellos d'essa comarca.

El-rei de Aragão, que estava em cabo de seu reino, quando isto soube, ficou espantado, e mandou a Provença, onde andava o conde D. Henrique e seus irmãos e os outros fidalgos de Castella desterrados do reino, fazendo guerra, que o viessem ajudar, e que lhes daria grandes soldos e os herdadaria em seu reino.

Em tanto foi assim afincada a villa de Calatayud, que a tomou el-rei Dom Pedro por preitesia, e deixou recado em ella, e tornou-se a Sevilha.

E receiando-se d'el-rei de França, por a morte da rainha Dona Branca sua mulher, que mandara matar, fez então sua mui firme amisade com el-rei Duarte de Inglaterra, e com o principe de Galles, seu filho, que se ajudassem contra quaesquer outros. E entrou logo em Aragão, e chegou a Calatayud, que estava já por elle, e ganhou por ahi derredor sete logares.

E quando entrou por força Carinana, mandou matar quantos no logar havia, que não ficou sómente um. E a razão por que dizem que os assim mandou todos matar, foi porque elle tendo-a cercada e não a podendo tomar, alçou o cerco de sobre ella, e os da villa, quando os viram assim partir, começaram de bradar do muro dizendo seus doestos e maldições, cada um como lhe prazia; e el-rei teve d'isto grande melancolia, e mandou tornar suas gentes sobre o logar, e tão rijamente lhe deu o combate que a entrou logo por força; e por isto mandou fazer aquella grande mortandade.

E cercou mais a cidade de Tarraçona e tomou-a. E tendo-a cercada, chegou o mestre de São Thiago de Portugal, Dom Gil Fernandes de Carvalho, com quinhentos cavalleiros e escudeiros mui bem guisados, em sua ajuda, que lhe enviára el-rei Dom Pedro, seu tio. Entre os quaes ia Martim Vasques de de Goes, e Gonçalo Mendes de Vasconcellos, e Martim Affonso de Mello, e Alvaro Gonçalves de Moura, e Nuno Viegas, o velho, e Rui Vasques Ribeiro, e outros muitos e bons fidalgos.

E d'alli partiu el-rei, e tomou Turiel e onze logares outros, e tomou mais a cidade de Segorbe, e a villa de Monvedro, e veiu-se á cidade de Valencia. E havendo uns oito dias que el-rei estava sobre ella, soube que el-rei de Aragão e o infante Dom Fernando, seu irmão, e o conde Dom Henrique, e Dom Tello, e Dom Sancho, e as outras gentes por que el-rei de Aragão mandara, eram todos juntos para vir pelejar com elle, e que seriam trez mil de cavallo.

El-rei Dom Pedro, que vontade não havia de pelejar com elles, partiu-se de Valencia, e foi-se para Monvedro. E el-rei de Aragão chegou até duas leguas do logar, e poz sua batalha e não achou com quem pelejar, e tornou-se. E da ribeira de Monvedro viu el-rei Dom Pedro levar quatro galés suas a seis de Aragão, que as tomaram, e pesou-lhe muito d'ello.

Alli se começaram de tratar avenças entre os reis de Aragão e de Castella, a saber, que casasse el-rei Dom Pedro com Dona Joanna, filha de el-rei de Aragão, e Dom João, primogenito de Aragão com Dona Beatriz, filha de el-rei Dom Pedro, e isto com certas condições. E alli onde se juntaram para firmar as avenças, foi requerido el-rei Dom Pedro, e disse que se não achava n'aquella preitesia, e que o não requeressem mais, e d'alli se veiu para Sevilha.

E dizia el-rei Dom Pedro que, n'estes tractos, fôra fallado secretamente, que pois elle casava com filha de el-rei de Aragão, e tomava com elle tal divido, que matasse ou prendesse primeiro o infante Dom Fernando, seu irmão, e o conde Dom Henrique, que eram seus inimigos, e que pois o não fizera, que não curava de suas preitesias.

E bem parece isto ser verdade, porque el-rei de Aragão, a poucos dias, mandava prender, depois que comeu, o infante Dom Fernando, seu irmão, que tivera convidado esse dia, porque diziam que se queria ir, com as gentes que tinha, para a guerra de França. E porque se não deu á prisão, foi logo morto, e Luiz Manuel, e Diogo Perez Sarmento com elle. E todos os do reino lh'o tiveram a mui grão mal, por ser seu irmão, e mui nobre senhor como era.

E depois fez fala el-rei de Aragão com el-rei de Navarra, que matassem o conde Dom Henrique, e fingiram que falassem em um castello todos tres sobre outra cousa. E porque Dom João Ramires d'Arellano, camareiro de el-rei de Aragão, que o conde escolhera que tivesse o castello emquanto elles fallassem, não quiz consentir em ser feita tal morte, escapou o conde aquelle dia de não ser morto.

*CAPITULO XXXV*

_Como el-rei Dom Pedro entrou outra vez em Aragão, com sua frota de naus e galés, e das cousas que alli fez_.

Partiu el-rei outra vez de Sevilha, em começo do anno de quatro centos e dois, aos quinze annos do seu reinado, e entrou em Aragão pelo reino de Valencia, e ganhou Alicante e outros logares. E chegando a cerca de Burriana, viu galés, e outros navios, que traziam mantimento a Valencia, de que estava mui minguada, e tornou-se do caminho por lhes dar torva, e poz seu arrayal onde chamam o Grao, na ribeira do mar, que é meia legua da cidade, e esperava cada dia sua frota, e galés de Portugal que lhe haviam de vir em ajuda, e todas estavam já em Cartagena, não havendo tempo com que partir.

El-rei Dom Pedro, não sabendo novas de el-rei de Aragão, chegou um escudeiro a elle, e disse que el-rei de Aragão e o conde Dom Henrique, com todos os outros senhores e gentes, que poderiam ser tres mil de cavallo, afóra muitos homens de pé, vinham mui encobertamente por pelejar com elle, antes que d'alli partisse; e que vinham pelo mar, a geito d'elles, doze galés e outros navios com mantimentos, e que tres noites havia que não faziam fogo, por não serem descobertos, e que ao outro dia seriam com elle.

El-rei, ouvindo isto, partiu logo d'alli e foi-se a Monvedro, que eram quatro leguas. Outro dia, grande manhã, chegou el-rei de Aragão, e pousaram todos entre Monvedro e o mar, uma legua da villa, e suas galés e naves a cerca, e foi acorrida a cidade por mar e por terra. E a cabo de doze dias chegou a frota de el-rei de Castella, que eram vinte galés suas e quarenta naus, e dez galés de Portugal, que lhe enviava seu tio em ajuda.

