Chronica de el-rei D. Pedro I

Part 4

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Segundo testemunho de alguns, que seus feitos d'este rei de Castella escreveram, elle foi muito cumpridor de toda cousa que lhe sua natural e desordenada vontade requeria: em tanto que dizendo nós, pelo miudo, tudo o que feiamente se poderia ouvir de seus feitos, caíriamos em reprehensão, que não eramos escasso de contar os males alheios, mormente taes que são pregoeiros de má e vergonhosa fama, porém muito menos d'aquelles que achamos escriptos, dos principaes diremos, e mais não.

Este rei foi muito arredado das manhas e condições que aos bons reis cumpre de haver, cá elle dizem que foi mui luxurioso, de guisa que quaesquer mulheres que lhe bem pareciam, posto que filhas-d'algo e mulheres de cavalleiros fossem, e isso mesmo donas de ordem ou de outro estado que não guardava mais umas que outras. Era muito cubiçoso do alheio por má e desordenada maneira, e não queria homem em seu conselho, salvo que lhe louvasse sua razão e quanto fazia. Matou muitas honradas pessoas, d'ellas sem razão por lhe darem bom conselho, e outras sem porque, e por ligeiras suspeitas, em tanto que muitos bons se afastavam d'elle muito anojados, por temor da morte: cá nenhum não era com elle seguro, posto que o bem servisse, e lhe elle muita mercê e honra fizesse. E deixados os achaques que a cada um punha por os matar, sómente, em breve, das mortes digamos, e mais não.

No segundo anno de seu reinado foi morta D. Leonor Nunez de Gusman, manceba que fôra de el-rei seu padre, e madre do conde Dom Henrique, que depois foi rei; e posto que alguns digam que foi por mandado da rainha Dona Maria, sua madre, certo é que ella não mandaria fazer tal cousa sem consentimento de el-rei seu filho. E deu el-rei a sua madre todos os bens de Leonor Nunez.

Mandou el-rei matar Garcia Lasso da Veiga, um grande fidalgo de Gastella e muito aparentado de genros e parentes e amigos, por suspeita que d'elle houve.

Mandou matar tres homens bons da cidade de Burgos, a saber, Pero Fernandez de Medina, e João Fernandez, escrivão, e Affonso Garcia de Camargo.

Idem, cercou Dom Affonso Fernandez Coronel, na villa de Aguilar, e entrou-o por força, e mandou-o matar, e Pero Coronel seu sobrinho, e João Gonçalvez d'Eça, e Pero Dias de Quesada, e Rodrigo Annes de Beema, e João Affonso Carrilho, mui bom cavalleiro.

Mandou el-rei pedir a el-rei de França que lhe desse por mulher uma das filhas do duque de Bourbon seu primo, e de seis filhas que elle tinha, escolheram os mensageiros uma, que chamavam Dona Branca, moça de 18 annos e bem formosa, e receberam-na em seu nome. E como el-rei Dom Pedro isto soube, mandou que lh'a trouxessem logo, e enviou el-rei de França com ella o visconde de Cardona e outros grandes cavalleiros de sua terra, que lh'a trouxeram mui honradamente; e deu-lhe com ella mui grão casamento em oiro e prata e outras riquezas, e foram então feitas as dobras que chamaram de Dona Branca, e os reaes de Castella de el-rei Dom Pedro.

E emquanto os mensageiros foram tratar este casamento, tomou elle por manceba Maria de Padilha, que andava por donzella em casa de Dona Isabel de Menezes, filha de Dom Tello de Menezes, mulher de Dom João Affonso de Albuquerque, que a criava. E tal vontade poz el-rei n'ella, que já não curava de casar com Dona Branca quando veiu, tendo já da outra uma filha que chamavam Dona Beatriz.

E por conselho de Dom João Affonso de Albuquerque, pero muito contra vontade d'el-rei, ordenou de fazer suas bôdas em Valhadolid, e foram feitas uma segunda feira. E logo á terça seguinte, como el-rei comeu, a cabo de uma hora, deixou sua mulher, que não valeu rogo nem lagrimas da rainha Dona Maria sua madre, nem da rainha de Aragão sua tia, que o pudessem ter que se não partisse, e levou tal andar que foi essa noite dormir á aldeia de Pajares, que são dezeseis leguas de Valhadolid, e em outro dia chegou a Montalban, onde estava Dona Maria de Padilha. E tinha el-rei, quando partiu, e alguns dos que com elle iam, mulas em certos lugares, pero não chegaram com elle mais de tres; e foi por isto grande alvoroço entre os senhores e fidalgos do reino que alli eram, e alguns foram logo partidos d'el-rei.

Depois, por afincado conselho, tornou el-rei a Valhadolid e esteve com sua mulher dois dias, e nunca mais puderam com elle que alli assocegasse; e partiu-se e nunca a mais quiz vêr. E o visconde e cavalleiros, que com ella vieram, se partiram sem mais falar a el-rei.

Sendo viva esta rainha Dona Branca, não havendo mais de um anno que el-rei com ella casara, pareceu-lhe bem Dona Joanna de Castro, filha de Dom Pedro de Castro, que chamaram da Guerra, mulher que fôra de Dom Dïego de Alfaro, e commetteu-lhe por outrem que casasse com elle. E ella não querendo, porque el-rei era casado, disse elle que tinha razões por que o não era: e mandou aos bispos de Avila e de Salamanca que pronunciassem que podia casar. E elles, com medo, disseram-no assim, e foram recebidos na villa de Qualhar, dentro na igreja, solemnemente, pelo bispo de Salamanca que os recebeu ambos. Em o outro dia partiu el-rei d'alli, e nunca mais viu esta Dona Joanna: e ella chamou-se sempre rainha, pero não prazia a el-rei d'ello.

A rainha Dona Maria tomou comsigo sua nora e foi-se para Outerdesilhas, e dês-ahi mandou-a el-rei levar guardada a Revollo, que a não visse sua madre nem outro nenhum, e depois a teve presa em Medina-Sidonia e alli a mandou matar, sendo então a rainha com idade de vinte e cinco annos, muito sisuda e bem acostumada.

E elle teve ordenado de mandar matar Alvaro Gonçalves Mourão, e Dom Alvaro Perez de Castro, irmão de Dona Ignez, madre de Dom João e de Dom Diniz, filhos de el-rei Dom Pedro de Portugal, sendo então infante; e foram percebidos por Dona Maria de Padilha, que lh'o mandou dizer, e assim escaparam de morte.

Mandou matar em Medina del Campo, um dia pela festa, em seu paço, Pero Rodriguez de Vilhegas, adiantado mór de Castella, e Sancho Rodriguez de Rojas; e foi morto um escudeiro de Pero Rodriguez.

Mandou matar, em Toledo, vinte e dois homens bons, do commum, porque foram em conselho de se alçar a cidade de Toledo, por não matarem n'ella a rainha Dona Branca, segundo todos d'aquella vez cuidaram, entre os quaes mandava matar um ourives velho de oitenta annos; e um seu filho de dezoito annos, tendo-o para o matar, disse a el-rei que lhe pedia por mercê que antes mandasse matar a elle que seu padre, e el-rei mandou-o assim fazer: pero mais prouvera a todos que el-rei não mandara matar nem um nem outro.

E mandou matar quatro cavalleiros bons d'essa cidade, a saber, Gonçalo Mendes, e Lopo de Vellasco, e Tello Gonçalves Palomeque, e Lopo Rodrigues, seu irmão.

Quando entrou a villa de Toro, onde estava a rainha sua madre, saiu a rainha a elle, do alcaçar, por seu mandado, e mandou matar Dom Pero Esteves, que se chamava mestre de Calatrava, alli onde vinha junto com ella, e Rui Gonçalves de Castanheda que a trazia de braço, e Affonso Telles Giron, e Martim Affonso Tello, todos quatro a redor da rainha. E ella, quando os viu matar, tão a cerca de si, caiu em terra como morta, e levantaram-na, bradando e maldizendo seu filho, e a poucos dias lhe pediu que a mandasse a Portugal para el-rei seu padre, e assim o fez: e ahi morreu depois, segundo tendes ouvido.

Mandou el-rei mais matar Gomes Manrique de Hornamella, e outros; e ordenou um torneio em Outerdesilhas, de cincoenta por cincoenta, por matar n'elle o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, que era no torneio. E el-rei não quiz descobrir este segredo a outrem, e porem não se fez aquelle dia.

*CAPITULO XVII*

_Como se começou o desvairo entre el-rei Dom Pedro de Castella e o conde Dom Henrique, seu irmão, o qual foi aso porque se o conde foi fóra do reino_.

Pois havemos de fazer menção, ao diante, da guerra e grande desvairo que depois houve entre o conde Dom Henrique e el-rei Dom Pedro, seu irmão, necessario é que contemos primeiro como se começou sua desavença e de que guisa se elle partiu do reino: e isto, antes que entremos na guerra de Castella com el-rei de Aragão, em cuja ajuda elle depois veiu.

Onde sabei que morto el-rei Dom Affonso sobre o cerco de Gibraltar, que foi na era de mil e trezentos e oitenta e oito annos, no mez de março, e tomando todos por seu rei o infante Dom Pedro seu primogenito filho, sendo então em idade de quinze annos, e estando na cidade de Sevilha,--partiram do arrayal com o corpo de el-rei, para o virem soterrar a Castella, muitos dos senhores e fidalgos que eram alli com elle, assim como o infante Dom Fernando, filho de el-rei de Aragão, marquez de Tortosa, sobrinho do dito rei Dom Affonso, filho da rainha Dona Leonor sua irmã, e Dom Henrique conde de Trastamara, e Dom Fradarique mestre de São Thiago, seu irmão, filhos de Leonor Nunez, e do dito rei Dom Affonso, e Dom João Affonso de Albuquerque, e outros senhores, e mestres, e ricos-homens. E passando o corpo de el-rei perante a villa de Medina Sidonia, que era de Leonor Nunez, ella se foi dentro ao lugar; porquanto Affonso Fernandez Coronel, que a tinha por ella, lhe disse que a não queria mais ter. E foi por esta entrada, que Leonor Nunez fez n'aquelle logar, mui grande murmurio entre os senhores e cavalleiros que levavam o corpo d'el-rei, cuidando que ella se punha alli em esforço dos filhos e parentes seus, que alli vinham.

E Dom João Affonso de Albuquerque, quando viu aquella ficada que os filhos e parentes de Leonor Nunez faziam com ella n'aquelle logar, que era bem forte, tratou com alguns que o conde Dom Henrique e Dom Fradarique seu irmão, estivessem n'aquella villa como presos. E soube-o Leonor Nunez, e tomou mui grão medo. E trataram com ella, segurando-a Dom João Nunez de Lara que tinha sua filha esposada com Dom Tello, seu filho d'ella, cuidando ella que tal segurança fosse firme.

E saiu-se do logar ella e seus filhos, e Dom Pedro Ponce de Leon, e Dom Fernão Perez Ponce seu irmão, mestre de Alcantara, e Dom Alvaro Perez de Guzman, e outros seus parentes, e houveram todos accordo de se apartar de el-rei, receando-se muito de irem a Sevilha, onde el-rei Dom Pedro estava, e serem presos. E logo n'esse dia que partiram de Medina, se foram a Moram, que é uma villa e castello bem forte a cerca de terra de mouros, e não segurando ainda de estar alli, foram-se para Aljazira, que tinha Dom Pero Ponce, e Dom Fradarique se tornou para a terra da ordem de São Thiago.

A rainha Dona Maria, com seu filho el-rei Dom Pedro e todos os que eram em Sevilha, saíram fóra da cidade receber o corpo de el-rei, e foi-lhe feito mui honradamente tudo aquillo que cumpria, e soterrado na egreja de Santa Maria, na capella dos Reis.

El-rei D. Pedro, sabendo a partida de seus irmãos e dos outros fidalgos, e como estavam em Aljazira, mandou saber secretariamente que maneira tinham, e achou que se apoderavam do logar o mais que podiam; e mandou lá galés armadas, e Guterre Fernandez de Toledo por capitão: e o conde D. Henrique, e os outros vendo que lhes não cumpria estar alli, tornaram-se para Moram, onde estava Dom Fernão Rodriguez Ponce.

Em isto foi-se Dona Leonor Nunez a Sevilha, e posta de parte a segurança que lhe feita tinha, mandou-a el-rei guardar mui bem no alcaçar, e trataram depois, por parte de el-rei, com o conde Dom Henrique, e com os outros senhores, de guisa que se vieram todos a Sevilha para el-rei. E o conde ia vêr cada dia sua madre, com a qual estava Dona Joanna, filha de Dom João Manuel, sua esposa. E houveram accordo, a madre com o filho, que houvesse ajuntamento com sua esposa, por se não desfazer o casamento segundo rugiam; e fel-o assim, e pezou d'isto muito a el-rei, e á rainha sua madre, e a outros muitos, e por isto defendeu el-rei que a não fosse nenhum mais vêr: e levaram-na d'alli para Carmona, e o conde Dom Henrique fugiu para as Asturias, por quanto lhe disseram que o mandava el-rei prender. Depois foi levada Dona Leonor, sua mãe, a Talavera, e alli a mandou matar a rainha Dona Maria por Affonso Fernandez de Olmedo, seu escrivão, como já tendes ouvido.

O conde Dom Henrique estando nas Asturias, ouviu como el-rei mandara matar sua madre, e depois Garcia Lasso, adiantado de Castella, e não ousou de estar alli, e foi-se a Portugal para el-rei Dom Affonso: e quando el-rei Dom Pedro fez vistas com seu avô em Cidade Rodrigo, como dissemos, rogou el-rei Dom Affonso a seu neto que perdoasse ao conde, e elle perdoou-lhe, e tornou-se o conde para as Asturias, cá não ousou de se ir para el-rei.

E elle nas Asturias, soube el-rei como abastecia Gijon, e foi-se lá, e cercou o lugar, onde estava sua mulher Dona Joanna, cá elle não se atreveu de o esperar alli, e foi-se em tanto a uma montanha mui forte que dizem Montojo, e os de Gijon pleitearam com el-rei que perdoasse ao conde, e a el-rei prouve, e tornou-se.

E quando el-rei houve de fazer suas bôdas em Valhadolid com Dona Branca, segundo contámos, chegou o conde Dom Henrique e Dom Tello seu irmão, e trazia o conde seiscentos homens de cavallo e mil e quinhentos de pé; e sendo em Cijalles, duas leguas d'onde el-rei estava, mandou-lhe dizer que não ousaria de entrar na villa, salvo com toda sua gente, porquanto se receava de alguns que eram na côrte. E el-rei mandou-o segurar: não se fiaram do seguro, e houveram de pelejar com el-rei, que sahiu a elles. Depois, foram de accordo com elle, e ficaram em sua mercê.

Casou el-rei com Dona Branca, e deixou-a em outro dia, e foi-se para Dona Maria de Padilha. E d'essa idéia foi desavindo d'elle Dom João Affonso de Albuquerque que governava a casa d'el-rei. E tratou-se depois que Dom João Affonso estivesse em Portugal, se quizesse, e que seus castellos e bens, que havia em Castella, fossem seguros: prometteu-lh'o el-rei assim, e depois que Dom João Affonso foi em Portugal, cercou-lhe el-rei Medelin, e cobrou-o, e fel-o derribar, e depois cercou Albuquerque, e não o podendo tomar, partiu-se d'alli, e deixou por fronteiros, em Badalhouce, o conde Dom Henrique e o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão.

Partido el-rei d'alli, enviou o conde seu recado a Dom João Affonso, que fossem todos trez amigos, e entrassem por Castella, e a elle prouve muito, e firmaram seu preito de ser assim; e houveram Dom Fernando de Castro em sua ajuda, que estava em Galliza, e começaram de entrar por Castella, fazendo n'ella grande estrago.

N'isto mandou el-rei Dom Pedro João Affonso de Henestrosa, seu camareiro-mór, a Arevalo onde estava a rainha Dona Branca, sua mulher, que a trouxesse ao alcançar de Toledo, e elle trazendo-a pela cidade, disse ella que queria ir primeiro fazer oração á igreja de Santa Maria, e dês-que foi dentro na igreja, não quiz mais sahir d'ella, receando-se de ser morta ou presa. João Affonso não se atreveu de a fazer sahir da igreja contra sua vontade, e tornou-se para el-rei. Os moradores de Toledo falando sobre isto, houveram piedade da rainha, e accordaram de a não deixar prender nem matar n'aquella cidade, e determinaram de pôr por ella os corpos, e quanto haviam. E mandaram primeiro por Dom Fradarique mestre de São Thiago, e colheram-no dentro com suas companhas, e mais enviaram suas cartas ao conde Dom Henrique, e a Dom João Affonso d'Abuquerque, e a Dom Fernando de Castro, fazendo-lhe saber sua intenção; e tiveram com Toledo, por parte da rainha, a cidade de Cardona, e Cuenca, e o bispado de Jaen e Talavera. Que cumpre dizer mais: os infantes Dom Fernando e Dom João, primos d'el-rei, e muitos senhores e cavalleiros, se partiram d'elle por ajudar a tenção dos outros, em guisa que não ficaram com el-rei mais de seiscentos de cavallo. E todos aquelles senhores lhe mandavam dizer que prestes eram para o servir e fazer seu mandado, com tanto que tomasse sua mulher, e vivesse com ella e não regesse o reino pelos parentes de Dona Maria de Padilha, nem os fizesse seus privados: e el-rei não quiz cair em tal preitesia.

N'isto adoeceu Dom João Affonso de Albuquerque, e el-rei mandou encobertamente tratar com o physico, que pensava d'elle, que lhe faria mercês e que lhe desse com que morresse; e elle fel-o assim, segundo depois foi sabido; e os vassalos de Dom João Affonso prometteram de não enterrar o seu corpo até que esta demanda fosse acabada, e elle assim o mandou em seu testamento. E quando aquelles senhores ordenavam conselho sobre aquillo que lhes convinha fazer, falava em lugar de Dom João Affonso, Ruy Dias Cabeça-de-Vacca, que fôra seu mordomo-mór. E eram as gentes d'estes senhores todos até cinco mil de cavallo, e muita gente de pé.

Acima vendo el-rei como perdia as gentes por esta guisa, houve conselho de se pôr em poder d'elles, na villa de Toro, e alli partiram elles logo os officios do reino e da casa d'el-rei entre si, de guisa que a el-rei não prouve; e então foram enterrar o corpo de Dom João Affonso, tendo que sua demanda era já acabada.

El-rei sentindo-se como preso, segundo a maneira que com elle tinham, fingiu que queria ir á caça, e uma grande manhã cavalgou, e foi-se para Segovia, e foram-se os infantes para el-rei por suas preitesias, e começou-se de desfazer a companhia que se antes juntara. E o conde Dom Henrique, e Dom Tello e Dom Fradarique, seus irmãos, ficaram a uma parte, e seriam por todos até mil e duzentos de cavallo, e muitos homens de pé. E houveram entrada em Toledo, e foi el-rei á cidade, e cobrou-a, e elles deixaram-na, e foram-se.

Depois lhes enviou rogar a rainha Dona Maria que se fossem para Toro, onde ella estava, receando-se del-rei, seu filho; e foram-se allá, e chegou ahi el-rei com suas gentes, e pelejaram nas barreiras, e não poude el-rei ahi assocegar por mingua d'agua, e partiu-se d'ahi.

E depois que se el-rei foi, partiu-se o conde Dom Henrique para Galliza, uns diziam que para se ajuntar com Dom Fernando de Castro, outros affirmavam que o fazia o conde por não ser cercado. E quizera el-rei partir empoz elle, e depois houve em conselho de tomar primeiro a villa de Toro; e cercou-a outra vez, e tratou com Dom Fradarique, seu irmão, e do conde Dom Henrique, que ficava na villa por guarda, que se fosse para elle: e elle fel-o assim. E em outro dia cobrou el-rei a villa, por uma porta que lhe deram, e prendeu Dona Joanna, mulher do conde Dom Henrique, e fez matar alguns do lugar, e mais aquelles cavalleiros que foram mortos acerca da rainha sua madre, como dissemos.

Quando o conde Dom Henrique soube como el-rei cobrara a villa de Toro, e matara aquelles cavalleiros que tinha por sua parte, e que o mestre Dom Fradarique, seu irmão, era já com el-rei de accordo, entendeu que lhe não cumpria mais aporfiar na guerra, nem estar mais tempo no reino e preitejou com el-rei, que lhe desse cartas de seguro para se ir para França: e a el-rei prouve disto, e deu-lh'as.

E soube o conde como el-rei mandara ao infante Dom João e a Diego Perez Sarmento seu adiantado-mor, e a todos os outros cavalleiros e officiaes das comarcas por onde elle cuidava que o conde fosse, que lhe tivessem o caminho e o matassem; assim como depois matou todos os senhores e homens de estado que foram na companhia da demanda que se levantou contra elle por razão da rainha Dona Branca.

E o conde partiu de Galliza, e foi pelas Asturias, por quanto por aquella comarca não havia mandamento d'el-rei, pensando elle pouco que fosse por alli, e passou trigosamente, e foi-se pela Biscaia, onde estava Dom Tello seu irmão, e d'ahi se passou por mar á Rochella, onde achou el-rei de França, que havia guerra com os inglezes, e tomou d'elle soldo.

E d'esta guisa foi sua desavença com el-rei Dom Pedro seu irmão, e partida do reino de Castella, durando n'estas desavenças, todas que ouvistes n'este capitulo, passados de sete annos.

*CAPITULO XVIII*

_Como e por qual aso se começou a guerra entre Castella e Aragão_.

Andando em sete annos que el-rei Dom Pedro de Castella reinava, na era de mil e trezentos e noventa e quatro, estando el-rei em Sevilha, mandou armar uma galé para ir folgar e vêr a pescaria que faziam nas covas das almadravas. E foi em uma galé a São Lucas de Barrameda, e achou ahi, no porto, dez galés de catalães e um lenho de que era capitão um cavalleiro aragonez, que diziam Mosse Frances de Emperellores, as quaes iam, por mandado de el-rei de Aragão, em ajuda de el-rei de França contra el-rei de Inglaterra.

E entrando elle capitão n'aquelle porto por tomar refresco, achou ahi dois baixeis de plazentinos carregados de azeites, que iam para Alexandria, e tomou os, dizendo que eram navios de genovezes, com que os catalães haviam guerra então.

El-rei lhe mandou dizer que pois aquelles baixeis estavam em seu porto, que os não quizesse tomar, ao menos por sua honra d'elle, pois estava de presente. E elle respondeu que aquellas gentes eram inimigos d'el-rei d'Aragão, e que os podia tomar de boa guerra. E el-rei lhe mandou dizer, outra vez, que fosse certo, se os deixar não quizesse, que mandaria prender em Sevilha todos os mercadores catalães que ahi eram, e tomar-lhes todos seus bens.

O capitão das galés por tudo isto não o quiz fazer, e vendeu logo alli os baixeis por setecentas dobras, e foi-se seu caminho, sem mais falar a el-rei.

E el-rei houve d'isto grande melancolia, e não sem razão, mas a vingança foi desarrazoada; porque assim como de pequena faisca se accende grande fogo, achando coisa disposta em que obre, assim el-rei Dom Pedro com destemperada sanha, por tomar d'aquillo vingança, moveu crua guerra contra Aragão, de sangue e fogo, por muitos annos, como ora brevemente ouvireis; cá elle mandou logo prender em Sevilha todos os mercadores catalães que ahi eram, e escrever lhes todos seus bens, e outro dia partiu-se á pressa por terra, e fel-os todos pôr em cadeias, e vender quanto lhes acharam.

E mandou logo a el-rei de Aragão fazer-lhe queixume de Mosse Frances, da pouca honra e cortezia que n'elle achara, mandando-lh'o rogar por duas vezes, e que porém lhe requeria que lh'o entregasse para d'elle haver emenda, e anadiu mais que tirasse uma commenda que dera a Dom Pedro Moniz de Godoi, que era homem a que bem não queria, e se estas cousas fazer não quizesse, que fosse certo que lhe faria guerra.

E el-rei de Aragão deu sua resposta, que lhe pesava do nojo que a el-rei fôra feito, e que como aquelle cavalleiro tornasse para seu reino, que elle o ouviria e faria justiça, de guisa que el-rei de Castella fosse contente; e que a commenda que havia dada a Dom Pedro Moniz, pois a el-rei não prazia d'ello, que cataria outra cousa de que lhe fizesse mercê, mas que até que al lhe désse, que lh'a não podia tirar sem grande sua mingua.

O mensageiro, que bem sabia a vontade de el-rei Dom Pedro, não foi contente d'esta resposta, e desafiou o logo, e seu reino.

El-rei de Aragão disse que el-rei de Castella não havia justa razão para fazer isto, e que o deixava em juizo de Deus, e mandou logo aperceber sua terra.

*CAPITULO XIX*

_Como el-rei de Castella entrou por Aragão e das cousas que fez n'este anno_.

El-rei de Castella, emquanto mandou a Aragão o recado que haveis ouvido, antes que a resposta de lá viesse, com desejo de tomar vingança, mandou á pressa armar sete galés e seis naus; e metteu-se el-rei n'ellas, cuidando de achar na costa de Portugal aquelle cavalleiro, e chegou até Tavira, e soube que era passado, e tornou-se para Sevilha; e mandou el-rei as galés á ilha de Iviça, e começou-se a guerra por todas as partes.

N'isto começou-se a era de mil trezentos e noventa e cinco, em cuja sesão morreu el-rei Dom Affonso de Portugal, a que este rei Dom Pedro, seu neto, mandara pedir ajuda para esta guerra, segundo antes havemos contado; e vendo el-rei de Aragão a não boa maneira que el-rei de Castella com elle queria ter, fel-o saber ao conde Dom Henrique e a alguns cavalleiros castelhanos que andavam em França por medo de el-rei Dom Pedro, e o conde com elles vieram-se para elle, e el-rei os recebeu mui bem e deu ao conde certos castellos em que tivesse suas gentes, e soldo para oitocentos de cavallo.