# Chronica de el-rei D. Pedro I

## Part 2

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*CAPITULO IV*

_Da maneira que el-rei D. Pedro tinha nos desembargos de sua casa_.

Pois d'este rei achamos escripto que era muito amado de seu povo, pelo manter em direito e justiça, dês-ahi boa governança que em seu reino tinha, bem é que digamos de cada cousa um pouco, por vêrdes parte dos modos antigos.

Na ordenança de todos os desembargos, tinha el-rei esta maneira: quantas petições lhe a elle davam, iam á mão de Gonçalo Vasques de Goes, escrivão da puridade, e elle as dava a um escrivão, qual lhe prazia, o qual tinha encargo de as repartir, e dar cada uma aos desembargadores a que pertenciam; e as petições que eram desembargos de commum curso, aquelles, por que deviam passar, mandavam logo fazer as cartas a seus escrivães, de guisa que n'aquelle dia, ou no outro seguinte, eram as partes desembargadas, e o escrivão que o assim não fazia, perdia a mercê de el-rei por ello.

As outras petições, que eram de graça e mercê, que pertenciam á sua fazenda, fazia-as pôr em ementa a seu escrivão, e este escrevia por sua mão as petições que assim levava, cujas eram, e de que cousa, e este escripto ficava na mão do desembargador; e quando as depois desembargava com el-rei, se achava mais petições postas na ementa, que aquellas que lhe elle mandara pôr, visto o escripto que em seu poder ficava, por tal erro perdia a mercê de el-rei; e como aquella ementa era desembargada com el-rei, diziam os desembargadores a cada uma pessoa a mercê que lhe el-rei fazia, e mandavam a seus escrivães que lhe fizessem logo as cartas, e n'esse dia haviam de ser feitas, ou no outro o mais tardar, sob a pena que dissemos.

E se ahi havia taes porfiosos que andavam mais após el-rei, afincando-o com outras petições depois que haviam desembargo de sim ou de não, ou moravam mais tempo na côrte, se era honrado pagava certa pena de dinheiro, e se pessoa refece davam-lhe vinte açoutes na praça, e mandavam-no para casa; e trazia el-rei inculcas que lhe soubessem parte de taes homens, por se cumprir n'elles sua ordenação.

Por el-rei não ser annojado de vêr duas vezes as mercês que fazia, uma por ementa e outra por cartas, e por aquelles que o requeriam haverem mais toste seu desembargo, fazia-se d'esta guisa: quando el-rei outorgava algumas mercês a alguem, os que lhe haviam de dar desembargo escreviam logo na ementa, perante el-rei, a maneira como lh'as dava, e em cada um desembargo punha el-rei seu signal, e o chanceller estava presente, quando podia, para vêr como as el-rei desembargava. E tanto que os desembargadores tinham as cartas feitas e assignadas, mandavam-nas ao chanceller com o rol da ementa que el-rei assignara, por não pôr duvida em alguma d'ellas, e logo n'esse dia haviam de ser selladas, ou no outro até ao jantar.

Se el-rei ia a monte ou á caça, em que durasse mais de quatro dias, por nenhuns serem detidos por elle, juntavam-se os que tinham as petições das graças e viam aquillo que cada um pedia, e se lhe parecia que não era bem de lh'o el-rei fazer, escreviam-lhe pelo meudo por qual razão, e as que viam que devia outorgar, punham-lhe isso mesmo por quê, e assignavam todos a ementa, e levava-a um d'elles a el-rei, por lhe dizer a razão que os movera a fazer ou não cada uma cousa; e d'esta guisa haviam as gentes bom desembargo, e el-rei era fóra de muito nojo e afincamento.

Se alguns concelhos haviam de recadar com elle, mandava-lhe que enviassem em escripto cerrado e sellado, por um porteiro, tudo o que mister haviam, e logo lhe el-rei taxava que houvesse por dia quatro soldos, e mais não, e el-rei, visto o que lhe pediam, livrava-o logo, sem outra detença, como achava que era direito. E se tal cousa era que cumpria de esse concelho enviar a elle alguns bons homens, e entendidos, mandava el-rei que não enviassem mais de um, por fazer o concelho mais pouca despeza; e mandava que tal como este não houvesse por dia mais que vinte soldos.

*CAPITULO V*

_De algumas cousas que el-rei Dom Pedro ordenou por bem de justiça e prol de seu povo_.

Assim como este rei Dom Pedro era amador de trigosa justiça n'aquelles que achado era que o mereciam, assim trabalhava que os feitos civeis não fossem prolongados, guardando a cada um seu direito cumpridamente.

E porque achou que os procuradores prolongavam os feitos como não deviam, e davam azo de haver hi maliciosas demandas, e o peior, e muito de estranhar, que levavam de ambas as partes, ajudando um contra o outro, mandou que em sua casa, e todo o seu reino, não houvesse advogados nenhuns; e encommendou aos juizes e ouvidores que não fossem mais em favor de uma parte que outra; nem se movessem por nenhuma cobiça a tomar serviços alguns por que a justiça fosse vendida, mas que se trabalhassem cedo de livrar os feitos, de guisa que brevemente, e com direito, fossem desembargados, como cumpria. E sabendo que eram a ello negligentes, que lh'o estranharia nos corpos e haveres, e lhe faria pagar ás partes toda perda que por ello houvessem.

Isto assim ordenado, soube el-rei, a cabo de pouco tempo, que um seu desembargador, de que elle muito fiava, chamado por nome mestre Gonçalo das Decretaes, levara peita de uma das partes que perante elle andavam a feito, pela qual julgou e deu sentença. E el-rei, sabendo isto, houve mui grande pezar, e deitou-o logo fora de sua mercê por sempre, e degradou elle e os filhos a dez leguas de onde quer que elle fosse: porém, diziam todos os que isto viram, que aquelle de que elle levara a peita tinha direito n'aquelle pleito.

Então ordenou el-rei, e pôz defeza em sua casa e todo seu senhorio, que nenhum que tivesse poderio de fazer justiça, não filhasse peita nenhuma dos que houvessem pleitos perante elles; e se lhe fosse provado que a tomára, que morresse por ello, e perdesse os bens para a corôa do reino. E se taes juizes e officiaes tomassem serviços de quaesquer outros que perante elles não houvessem pleitos, que perdessem a sua mercê, salvo se fosse de homem que não houvesse demanda em todo seu senhorio, que aduz poderia ser achado. E mandou, ao corregedor da côrte e ouvidores, que não conhecessem de feitos nenhuns, salvo se fossem entre taes pessoas de que os juizes das terras não podessem fazer direito, senão quando lhe viessem por appellação ou aggravo.

Sabendo, outrosim, el-rei, como alguns, que eram casados, deixavam suas mulheres e filhos que tinham, e tomavam barregãs, com que áparte faziam vivenda, e outros taes que com suas mulheres as tinham em casa: mandou, e pôz por lei, que qualquer casado que com barregã vivesse, ou a tivesse dentro em sua casa, se fosse fidalgo ou vassalo, que d'elle ou de outrem tivesse maravidis, que os perdesse, e segundo os estados das pessoas, assim ordenou as penas do dinheiro e degredo, até mandar que publicamente, pela terceira vez, elles e ellas por isto fossem açoutados. E quando diziam a el-rei que se aggravavam muitos de tal ordenança como esta, respondia elle que assim o entendia por serviço de Deus e seu, e prol d'elles todos. E esta ordenança mesma, e penas, pôz nas mulheres que barregãs fossem de clerigos de ordens sacras.

Elle defendeu e mandou, em Lisboa, que nenhuma mulher de qualquer estado que fosse, não entrasse dentro no arrabalde dos mouros, de dia nem de noite, sob pena de ser enforcada. E mandou que qualquer judeu ou mouro, que depois de sol posto, fosse achado pela cidade, que com pregão publicamente fosse açoutado por ella.

Falando el-rei um dia nos feitos da justiça, disse que vontade era, e fôra sempre de manter os povos de seu reino n'ella, e estremadamente fazer direito de si mesmo. E porquanto elle sentia que o mór aggravo que elle e seus filhos, e outros alguns de seu senhorio, faziam aos povos de sua terra, assim no tomar das viandas por preço mais baixo do que se vendiam, que porém elle mandava que nenhum de sua casa, nem dos infantes, nem d'outro nenhum que em sua mercê e reinos vivesse, que cargo tivesse de tomar aves, que não tomasse gallinhas, nem patos, nem cabritos, nem leitões, nem outras nenhumas cousas acostumadas de tomar, salvo compradas á vontade de seu dono; e sobre isto pôz pena de prisão, e dinheiros, ás honradas pessoas, e aos gallinheiros e pessoas vis, açoutados pelo logar hu as tomassem, e deitados fóra de sua mercê.

Mandou mais aos estribeiros seus e de seus filhos, e a todos os de sua terra, que não mandassem a nenhum logar por palha doada, salvo se a houvesse de haver de fôro; mas que pelo azemel, que fosse por ella, mandasse pagar pela carga cavallar de palha, ou de restolho empalhado, três soldos e pela carga asnal, dois. E o azemel que por ella fosse, e a d'esta guisa não pagasse, que pela primeira vez fosse açoutado e talhadas as orelhas, e pela segunda fosse enforcado: e outra tal pena mandava dar ao lavrador que não empalhasse toda a palha que houvesse.

E quando lhe diziam que punha mui grandes penas por mui pequenos excessos, dava resposta dizendo assim, que a pena que os homens mais receavam era a morte, e que se por esta se não cavidassem de mal fazer, que ás outras davam passada, e que boa cousa era enforcar um ou dois, pelos outros todos serem castigados, e que assim o entendia por serviço de Deus e prol de seu povo.

Elle corregeu as medidas de pão de todo Portugal, e ordenou outras cousas por bom paramento e proveito de sua terra, das quaes não fazemos mais longo processo por não saber quanto prazeriam aos que as ouvissem.

*CAPITULO VI*

_Como el-rei mandou degolar dois seus criados, porque roubaram um judeu e o mataram_.

Este rei Dom Pedro, emquanto viveu, usou muito de justiça sem affeição, tendo tal igualdade em fazer direito, que a nenhum perdoava os erros que fazia, por criação nem bem querença que com elle houvesse. E se dizem que aquelle é bem aventurado rei que por si esquadrinha os males e forças que fazem aos pobres, e bem é este do conto de taes, cá elle era ledo de os ouvir, e folgava em lhes fazer direito, de guisa que todos viviam em paz. E era ainda tão zeloso de fazer justiça, especialmente dos que travessos eram, que perante si os mandava metter a tormento, e se confessar não queriam, elle se desvestia de seus reaes pannos, e por sua mão açoutava os malfeitores; e pelo que d'ello muito pasmavam seus conselheiros e outros alguns, annojava-se de os ouvir, e não o podiam, quitar d'ello por nenhuma guisa.

Nenhum feito crime mandava que se desembargasse salvo perante elle, e se ouvia novas de algum ladrão ou malfeitor, alongado muito d'onde elle fosse, falava com algum seu de que se fiava, promettendo-lhe mercês por lh'o ir buscar, e mandava-lhe que não viesse ante elle até que todavia lh'o trouxesse á mão. E assim lh'os traziam presos do cabo do reino, e lh'os apresentavam hu quer que estava. E da mesa se levantava, se chegavam a tempo que elle comesse, por os fazer logo metter a tormento, e elle mesmo punha n'elles mão quando via que confessar não queriam, ferindo-os cruelmente até que confessavam.

A todo logar onde el-rei ia, sempre acharieis prestes com um açoute o que de tal officio tinha encargo, em guisa que como a el-rei traziam algum malfeitor, e elle dizia:--chamem-me foão, que traga o açoute,--logo elle era prestes, sem outra tardança.

E pois que escrevemos que foi justiçoso, por fazer direito em reger seu povo, bem é que ouçaes duas ou três cousas, por vêrdes o geito que n'isto tinha.

Assim adveiu que pousando elle nos paços de Bellas, que elle fizera, dois seus escudeiros que gram tempo havia que com elle viviam, sendo ambos parceiros, houveram conselho que fossem roubar um judeu que pelos montes andava vendendo especiaria e outras cousas. E foi assim, de feito, que foram buscar aquella suja préa, e roubaram-no de tudo, e, o peior d'isto, foi morto por elles. Sua ventura, que lhe foi contraria, azou de tal guisa que foram logo presos e trazidos a el rei, alli hu pousava.

El-rei, como os viu, tomou gram prazer por serem filhados, e começou-os de perguntar como fôra aquillo. Elles, pensando que longa criação e serviço que lhe feito haviam, o demovesse a ter algum geito com elles, não tal como tinha com outras pessoas, começaram de negar, dizendo que de tal cousa não sabiam parte.

Elle, que sabia já de que guisa fôra, disse que não haviam por que mais negar, que ou confessassem como o mataram, senão, que a poder de crueis açoutes lhe faria dizer a verdade.

Elles em negando viram que el-rei queria pôr em obra o que lhe por palavra dizia, confessaram tudo assim como fôra; e el-rei, sorrindo-se, disse que fizeram bem, que tomar queriam mister de ladrões e matar homens pelos caminhos, de se ensinarem primeiro nos judeus, e depois viriam aos christãos.

E em dizendo estas e outras palavras, passeava perante elles de uma parte á outra, e parece que lembrando-lhe a criação que n'elles fizera, e como os queria mandar matar, vinham-lhe as lagrimas aos olhos, por vezes. Depois, tornava asperamente contra elles, reprehendendo-os muito do que feito haviam. E assim andou por um grande espaço.

Os que hi estavam, que aquesto viam, suspeitando mal de suas razões, afincavam-se muito a pedir mercê por elles, dizendo que por um judeu astroso não era bem morrerem taes homens, e que bem era de os castigar por degredo ou outra alguma pena, mas não mostrar contra aquelles que criara, pelo primeiro erro, tão grande crueza.

El-rei, ouvindo todos, respondia sempre que dos judeus viriam depois aos christãos.

Em fim d'estas e outras razões, mandou que os degolassem.

E foi assim feito.

*CAPITULO VII*

_Como el-rei quizera metter um bispo a tormento porque dormia com uma mulher casada_.

Não sómente usava el-rei de justiça contra aquelles que razão tinha, assim como leigos e semelhantes pessoas, mas assim ardia o coração d'elle de fazer justiça dos maus, que não queriam guardar sua jurisdicção, aos clerigos tambem, de ordens pequenas, como de maiores. E se lhe pediam que o mandasse entregar a seu vigario, dizia que o puzessem na forca e que assim o entregassem a Jesus Christo, que era seu Vigario, que fizesse d'elle direito no outro mundo. E elle por seu corpo os queria punir e atormentar, assim como quizera fazer a um bispo do Porto, na maneira que vos contaremos.

Certo foi, e não o ponhaes em duvida, que el-rei, partindo de entre Douro e Minho, por vir á cidade do Porto, foi informado que o bispo d'esse lugar, que então tinha gram fama de fazenda e honra, dormia com uma mulher de um cidadão, dos bons que havia na dita cidade, e que elle não era ousado de tornar a ello, com espanto de ameaças de morte que lhe o bispo mandava pôr.

El-rei, quando isto ouviu, por saber de que guisa era, não via o dia que estivesse com elle, para lh'o haver de perguntar.

E logo, sem muita tardança, depois que chegou ao logar, e houve comido, mandou dizer ao bispo que fosse ao paço, que o havia mister por cousas de seu serviço. Falou com seus porteiros, que depois que o bispo entrasse na camara, lançassem todos fóra do paço, tambem os do bispo como quaesquer outros, e que ainda que alguns do conselho viessem, que não deixassem entrar nenhum dentro, mas que lhe dissessem que se fossem para as pousadas, cá elle tinha de fazer uma cousa em que não queria que fossem presentes.

O bispo, como veiu, entrou na camara onde el-rei estava, e os porteiros fizeram logo ir todos os seus e os outros, em guisa que no paço não ficou nenhum, e foi livre de toda a gente.

El-rei, como foi áparte com o bispo, desvestiu-se logo e ficou em uma saia de escarlata, e por sua mão tirou ao bispo todas as suas vestiduras, e começou de o requerer que lhe confessasse a verdade d'aquelle maleficio em que assim era culpado: e em lhe dizendo isto, tinha na mão um grande açoute para o brandir com elle.

Os criados do bispo, quando no começo viram que os deitavam fóra, e isso mesmo os outros todos, e que nenhum não ousava lá de ir, pelo que sabiam que o bispo fazia, dês ahi juntando a isto a condição de el-rei e a maneira que em taes feitos tinha, logo suspeitaram que el-rei lhe queria jogar de algum mau jogo, e foram-se á pressa ao conde velho, e ao mestre de Christo Dom Nuno Freire, e a outros privados de seu conselho, que accorressem asinha ao bispo.

E logo tostemente vieram a el-rei, e não ousaram de entrar na camara, por a defeza que el-rei tinha posta, se não fôra Gonçalo Vasques de Goes, seu escrivão da puridade, que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobrevieram de el-rei de Castella a gram pressa. E por tal azo e fingimento houveram entrada dentro na camara, e acharam el-rei com o bispo em rasões, da guisa que havemos dito, e não lh'o podiam já tirar das mãos. E começaram de dizer que fosse sua mercê de não pôr mão n'elle, cá por tal feito, não lhe guardando sua jurisdicção, haveria o papa sanha d'elle; demais, que o seu povo lhe chamava algoz, que por seu corpo justiçava os homens, o que não convinha a elle de fazer, por muito malfeitores que fossem.

Com estas e outras rasões, arrefeceu el-rei de sua mui brava sanha, e o bispo se partiu de ante elle, com semblante triste e turvado coração.

*CAPITULO VIII*

_Como el-rei mandou capar um seu escudeiro, porque dormiu com uma mulher casada_.

Era ainda el-rei Dom Pedro muito cioso, assim de mulheres de sua casa, como de seus officiaes e das outras todas do povo, e fazia grandes justiças em quaesquer que dormiam com mulheres casadas ou virgens, e isso mesmo com freiras.

Onde aqueeceu que em sua casa havia um corregedor da côrte a que chamavam Lourenço Gonçalves, homem mui entendido e bem razoado cumpridor de todas as cousas que lhe el-rei mandava fazer, e não corrompido por nenhuns falsos offerecimentos que trasmudam os juizos dos homens. E porque o el-rei achava leal e bem verdadeiro, fiava d'elle muito, e queria-lhe grande bem.

E era este corregedor muito honrado de sua casa e estado, e muito praceiro e de boa conversação, e seria então em meia idade. Sua mulher havia nome Catharina Tosse, briosa, louçã e muito aposta, de graciosas manhas e bem acostumada.

Em esta sesão vivia com el-rei um bom escudeiro, e para muito, mancebo, e homem de prole, e n'aquelle tempo estremado em assignadas bondades, grande justador e cavalgador, grande monteiro e caçador, luctador e travador de grandes ligeirices, e de todas as manhas que se a bons homens requerem,--chamado por nome Affonso Madeira,--por a qual rasão o el-rei amava muito e lhe fazia bem gradas mercês.

Este escudeiro se veiu a namorar de Catharina Tosse, e mal cuidados os perigos que lhe advir podiam de tal feito, tão ardentemente se lançou a lhe querer bem, que não podia perder d'ella vista e desejo: assim era traspassado do seu amor. Mas, porque lugar e tempo não concorriam para lhe fallar como elle queria, e por ter aso de a requerer ameude de seus deshonestos amores, firmou com o aposentador tão grande amisade que para onde quer que el-rei partia, ora fosse villa ou qualquer aldeia, sempre Affonso Madeira havia de ser aposentado junto, ou muito perto do corregedor. E havia já tempo que durava este aposentamento, sempre cerca um do outro; tendo bom geito e conversação com seu marido, por carecer de toda suspeita.

Affonso Madeira tangia e cantava, afóra sua apostura e manhas boas já recontadas, de guisa que por aso de tal achegamento, com longa affeição e falas ameude, se gerou entre elles tal fructo, que veiu elle a acabamento de seus prolongados desejos.

E porque semelhante feito não é da geração das cousas que se muito encobram, houve el-rei de saber parte de toda sua fazenda, e não houve d'ello menos sentido que se ella fora sua mulher ou filha. E como quer que o el-rei muito amasse, mais que se deve aqui de dizer, posta de parte toda bemquerença, mandou-o tomar dentro em sua camara, e mandou-lhe cortar aquelles membros que os homens em mór preço tem: de guisa que não ficou carne até aos ossos, que tudo não fosse corto. E pensaram Affonso Madeira, e guareceu, e engrossou em pernas e corpo, e viveu alguns annos engelhado do rosto e sem barbas, e morreu depois de sua natural morte.

*CAPITULO IX*

_Como el-rei mandou queimar a mulher de Affonso André, e de outras justiças que mandou fazer_.

Quem ouviu semelhante justiça, do que el-rei fez na mulher de Affonso André, mercador honrado, morador em Lisboa, andando justando na rua nova, como era costume, quando os reis vinham ás cidades, que os mercadores e cidadãos justavam com os da côrte, por festa?

Estando el-rei presente, e havendo informação certa que sua mulher lhe fazia maldade, entendeu que então era tempo de a achar e tomar em tal obra; e, por inculcas, muito escusamente foi ella tomada com quem a culpavam, e mandou-a queimar, e degolar a elle. E o marido, continuando a justa, quando cessou, soube d'isto parte, e foi-se a el-rei por se queixar do que lhe feito haviam. E el-rei, como o viu, antes que lhe elle fallasse, pediu-lhe a alviçara do que mandara fazer, dizendo que já o tinha vingado da aleivosa de sua mulher e do que lhe punha as cornas, e que melhor sabia elle quem ella era, que elle.

Que diremos de Maria Roussada, mulher casada com seu marido, que dormira com ella por força (a que então chamavam roussar), por a qual cousa elle merecia morte? E tendo já d'ella filhos e filhas, viviam ambos em gram bemquerença, e ouvindo-a el-rei chamar por tal nome, perguntou por que lh'o chamavam, e soube da guisa como tudo fôra, e que se avieram que casassem ambos por tal feito não vir mais á praça: e el-rei, por cumprir justiça, mandou-o enforcar, e ia a mulher e os filhos carpindo traz elle.

Não valeu, estando el-rei em Braga, rogo de quantos com elle andavam, que pudesse escapar a vida a Alvaro Rodrigues de Grade, um dos bons escudeiros de entre Douro e Minho, e bem aparentado, porque cortou os arcos de uma cuba de vinho a um pobre lavrador, que lhe logo el-rei não mandou cortar a cabeça, tanto que o soube.

E porque o seu escrivão do thesouro recebeu onze libras e meia sem o thesoureiro, mandou-o enforcar, que lhe não poude valer o conde, nem Beatriz Dias, manceba d'el-rei, nem outro nenhum.

E foram aquelle dia, com estes dois, onze mortos por justiça, entre ladroes e malfeitores.

Não fique por dizer de um bom escudeiro, sobrinho de João Lourenco Bubal, privado d'el-rei e do seu conselho, alcaide mór de Lisboa, o qual escudeiro vivia em Aviz, honradamente e bem acompanhado. E foi a sua casa, por mandado do juiz, um porteiro, para o penhorar, e elle, por cumprir vontade, depenou-lhe a barba e deu-lhe uma punhada.

O porteiro veiu-se a Abrantes, onde el-rei estava, e contou-lhe tudo como lhe adviera. El-rei, que o áparte ouvia, como acabou de falar, começou de dizer contra o corregedor que ahi estava:

--Accorrei-me aqui, Lourenço Gonçalves, cá um homem me deu uma punhada no rosto, e me depennou a barba! O corregedor, e os que o ouviram, ficaram espantados por que o dizia. E mandou á pressa que lh'o trouxessem preso, e não lhe valesse nenhuma egreja. E foi assim feito, e trouxeram-lh'o a Abrantes, e alli o mandou degolar, e disse:--Dês que me este homem deu uma punhada e me depennou a barba, sempre me temi d'elle que me désse uma cutelada, mas já agora sou seguro que nunca m'a dará!

Assim, que bem podem dizer d'este rei Dom Pedro, que não saíram em seu tempo certos os ditos de Solon, philosopho, e d'outros alguns, os quaes disseram que as leis e justiça eram taes como a teia da aranha, na qual os mosquitos pequenos, caindo, são retidos e morrem n'ella, e as moscas grandes e que são mais rijas, jazendo n'ella, rompem-n'a e vão-se: e assim diziam elles que as leis e justiça se não cumpriam senão nos pobres, mas os outros que tinham ajuda e accorro, caindo n'ella, rompiam n'a e escapavam.

El-rei Dom Pedro era muito pelo contrario, cá nenhum, por rogo nem poderio, havia de escapar da pena merecida; de guisa que todos receiavam de passar seu mandado.

*CAPITULO X*

_Como el-rei mandava matar o almirante; e da carta que lhe enviou o duque e commum de Genova, rogando por elle_.

El-Rei Dom Pedro queria gram mal a alcoviteiras e feiticeiras, de guisa que por as justiças que n'ellas fazia, mui poucas usavam de taes officios.

