Part 1
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BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES
* * * * *
Director litterario
_LUCIANO CORDEIRO_
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Proprietario e fundador
_MELLO D'AZEVEDO_
BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES
*Director litterario--LUCIANO CORDEIRO*
_Proprietario e fundador--MELLO D'AZEVEDO_
* * * * *
CHRONICA DE EL-REI D. PEDRO I
POR
_Fernão Lopes_
ESCRIPTORIO
_147, Rua dos Retrozeiros, 147_
LISBOA
1895
LISBOA
Impresso na Typ. do «Commercio de Portugal» _35, Rua Ivens, 41_
1895
*DUAS PALAVRAS*
Realisando corajosamente a boa, a piedosa idea de republicar as chronicas impressas do--Pae da Historia Nacional,--como Herculano apellidou Fernão Lopes, Mello d'Azevedo, o editor d'esta modesta e patriotica bibliotheca podera, hoje, ainda! suprir qualquer explicação prefacial com as palavras do nosso grande historiador moderno, quando ha mais de meio seculo tracejava o perfil do encantador--«escripvam»--do bom Rei Dom Duarte:
--«Tão raros, ou tão pouco lidos andam os antigos escriptores portuguezes que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que apenas de nome os conheçam, _e frequentes vezes nem de nome_.»
Hoje, ainda!...
Fernão Lopes é quasi exclusivamente conhecido de nome, e já agora arejemos toda a nossa idea, mais exactamente toda a nossa observação positiva e directa: nem de nome o conhece muito litterato gloriosamente emproado pelas novas camarilhas do elogio mutuo na fama e na faina da renovação da Historia e da Arte nacional... por estampilha francelha.
Uma das causas da mingua, a bem dizer, absoluta, de vulgarisação dos nossos antigos escriptores, dos nossos melhores monumentos litterarios, da nossa historia, até, indicamol-a já n'outra publicação d'esta bibliotheca: é o espirito estreitamente, inconsequentemente monopolista dos eruditos ou dos que se querem dar ares de taes; é a superstição das reproducções mais ou menos arbitrariamente chamadas fieis, conservadoras de uma ortographia, de uma disposição typographica até, obsoleta, indigesta, inacessivel á leitura corrente, á assimilação immediata, actual, affectiva da multidão.
Em volta d'esta causa ou concorrendo e emparelhando com ella, muitas outras se teem accumulado e subsistem, por tal maneira renitentes e acrescentadas, que póde affirmar-se, como facto incontestavel, que as palavras doridas de Herculano teem hoje, mais do que quando elle as escreveu,--ha 56 annos!--uma applicação perfeitamente exacta e justa.
Conhecia-se mais, muito mais, então, Fernão Lopes, ou qualquer outro dos nossos antigos escriptores, do que hoje se conhecem e leem. Basta citar ou vêr o trabalho litterario d'esse tempo, comparando-o com o do nosso.
Quando eu, e certamente muitos dos leitores, iniciámos a nossa vida intellectual, lia-se, estudava-se, explicava-se o Camões nas escolas. Naturalmente, insensivelmente iam penetrando nos nossos corações e nos nossos cerebros em formação as ideas e os sentimentos de honra, de intrepidez, de amor da Patria, com tantas outras lições generosas, estimulantes, grandes, que as bellas estrophes transvasam nos espiritos sãos e frescos. Lia-se tambem o Freire d'Andrade, um massador de grandes discursos e de grandes bombardadas rhetoricas, d'accordo, mas que nos encantava, que nos ensinava muitas cousas interessantes, que nos enlevava, que nos fazia pensar em grandes cousas: nas terriveis batalhas da vida, nos sacrificios e nos esforços valentes com que ellas se vencem.
Um dia, era eu ainda um rapaselho, apanhei entre os velhos livros de meu pae:--que sabia de cór o Virgilio, o Camões, e que me recomendava o Tito Livio, o João de Barros, etc,--apanhei, pois, um volume, que nunca mais vi, e que era uma edição em 8.° da _Chronica de Dom Pedro_ por Fernão Lopes, exactamente a que vamos lêr agora.
Devia ser a edição do Padre Pereira Bayão, do seculo 18.°, inferior á chamada da Academia sobre a qual é feita a nossa.
Como eu li sofregamente, deliciosamente, o velho livro!
Como me soube bem aquella prosa simples, ampla, forte--permittam-me a expressão;--aquelle _contar_ ingenuo, vivo, e ao mesmo tempo tão magestoso pela sincera e nobre lealdade do chronista--que não era um adulador Real, nem um _fingidor_ litterario!
Chronista! Historiador é que póde francamente chamar-se-lhe.
Foi a primeira revelação que tive de Fernão Lopes e só desejo que tão agradavel seja a dos que pela primeira vez travarem agora conhecimento com elle.
Poderia dizer que a vão travar simultaneamente com outros escriptores, de que Fernão Lopes se serviu ou que se serviram d'elle, mas como já disse n'outra publicação, a nossa _Bibliotheca_ não pôde ainda entrar na tentativa das edições criticas e por isso estes pequenos prefacios não devem ensaiar essa feição que os levariam longe.
Nem mesmo podemos dar do author mais do que uns breves traços dispersos que aliás se encontram facilmente em publicações muito accessiveis.
Fernão Lopes nasceu não se sabe onde, ainda no seculo 14.°, parece, como diz Herculano, que pouco antes ou durante--«a gloriosa revolução de 1380,»--sendo collocado por Dom João I, juncto d'algum ou d'alguns dos filhos. Em 1418 confiou-lhe o Rei de Boa Memoria, a guarda e serviço,--constituido então independente,--da--«torre do castello da cidade de Lisboa,»--a primitiva Torre do Tombo.
Ali começou a fazer-se entre as--«escripturas»--dos velhos e modernos tempos, o grande historiador, a quem Dom Duarte por carta de 19 de março de 1434,--isto é por uma das suas primeiras iniciativas de Rei, dava--«carrego de poer em caronyca as estorias dos reys que antigamente em Portugal foram»,--com 6$000 reis de tença annual, uns escassos 60$000 de hoje. No cargo o confirmou o cavalleiroso Affonso V por Carta de 5 de junho de 1449.
Teve uma longa vida Fernão Lopes, sendo em 1455 substituido por Gomes Eannes de Azurara que, briosamente e sem favor, lhe chama:--homem de communal (descomunhal) sciencia e authoridade.»
Fez-se a substituição--«por seu prazimento e por fazer a elle mercê como é rasom de se dar aos boõs servidores,»--sendo--«já tão velho e fraco que por si non podia bem servir»--e sobrevivendo ainda, 5 annos, pelo menos.
Andaria nos 80.
É uma complicada questão, a de ter Fernão Lopes escripto outras chronicas além das que teem logrado chegar, sob o seu nome, até nós, e a de se terem outros escriptores apropriado, mais ou menos de trabalhos d'elle. As conhecidas são a de Pedro I que vamos republicar, a de Dom Fernando, e a de João I. Como diz, justamente, Herculano:--«para a gloria de Fernão Lopes são monumentos sobejos»--estes tres monumentos.
Mas que pena que não tenhamos d'elle a historia d'aquelle--«grande desvayro»--dos amores de Ignez de Castro e que a gentil figura nos apareça apenas como uma obsessão cruel do extraordinario monarcha que procurara já distrahir-se um pouco nos braços de Theresa Lourenço, a bemaventura mãe de Dom João I.
_L. C_.
Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*PROLOGO*
Deixados os modos e definições da justiça, que, por desvairadas guisas, muitos em seus livros escrevem, sómente d'aquella para que o real poderio foi estabelecido, que é por serem os maus castigados e os bons viverem em paz, é nossa intenção, n'este prologo, muito curtamente falar, não como buscador de novas razões, por propria invenção achadas, mas como ajuntador, em um breve mólho, dos ditos de alguns que nos aprouveram. Á uma, por espertar os que ouvirem, que entendam parte do que fala a historia; á outra, por seguirmos inteiramente a ordem do nosso arrazoado, no primeiro prologo já tangida.
E porquanto el-rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça, de que a Deus mais praz que cousa boa que o rei possa fazer, segundo os santos escrevem, e alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é necessaria ao rei, se o é assim ao povo: vós, n'aquelle estilo que o simplesmente apanhámos, o podeis lêr por esta maneira.
Justiça é uma virtude, que é chamada toda virtude; assim que qualquer que é justo, este cumpre toda virtude; porque a justiça, assim como lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão, e isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança, e assim podeis entender dos outros vicios e virtudes.
Esta virtude é mui necessaria ao rei, e isso mesmo aos seus sujeitos, porque, havendo no rei virtude de justiça, fará leis por que todos vivam direitamente e em paz, e os seus sujeitos sendo justos, cumprirão as leis que elle puzer, e cumprindo-as não farão cousa injusta contra nenhum. E tal virtude, como esta, póde cada um ganhar por obra de bom entendimento, e ás vezes nascem alguns assim naturalmente a ella dispostos, que com grande zelo a executam, posto que a alguns vicios sejam inclinados.
A razão por que esta virtude é necessaria nos subditos, é por cumprirem as leis do principe, que sempre devem de ser ordenadas para todo bem, e quem taes leis cumprir sempre bem obrará, cá as leis são regra do que os sujeitos hão de fazer, e são chamadas principe não animado, e o rei é principe animado, porque ellas representam, com vozes mortas, o que o rei diz por sua voz viva: e porém a justiça é muito necessaria, assim no povo como no rei, porque sem ella nenhuma cidade nem reino pode estar em socego. Assim, que o reino, onde todo o povo é mau, não se pode supportar muito tempo, porque, como a alma supporta o corpo e partindo-se d'elle, o corpo se perde, assim a justiça supporta os reinos e partindo-se d'elles perecem de todo.
Ora, se a virtude da justiça é necessaria ao povo, muito mais o é ao rei; porque se a lei é regra do que se ha de fazer, muito mais o deve de ser o rei que a põe e o juiz que a ha de encaminhar, porque a lei é principe sem alma, como dissemos, e o principe é lei e regra da justiça com alma. Pois quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra sem alma, tanto o rei deve ter excellencia sobre as leis: cá o rei deve de ser de tanta justiça e direito, que cumpridamente dê ás leis a execução; de outra guisa, mostrar-se-hia seu reino cheio de boas leis e maus costumes, que era cousa torpe de vêr. Pois duvidar se o rei ha de ser justiçoso, não é outra cousa senão duvidar se a regra ha de ser direita, a qual, se em direitura desfalece, nenhuma cousa direita se pode por ella fazer.
Outra razão por que a justiça é muito necessaria ao rei, assim é porque a justiça não tão sómente aformoseia os reis de virtude corporal, mas ainda espiritual, pois quanto a formosura do espirito tem avantagem da do corpo, tanta a justiça no rei é mais necessaria que outra formosura.
A terceira razão se mostra da perfeição da bondade, porque então dizemos alguma cousa ser perfeita, quando fazer pode alguma semelhante a si, e portanto se chama uma cousa boa, quando sua bondade se pode estender a outros, ao menos, sequer por exemplo, e então se mostra, por pratica, quanto cada um é bom, quando é posto em senhorio.
Porém, cumpre aos reis ser justiçosos por a todos seus sujeitos poder vir bem, e a nenhum o contrario, trabalhando que a justiça seja guardada, não sómente aos naturaes de seu reino, mas ainda aos de fóra d'elle, porque, negada a justiça a alguma pessoa, grande injuria é feita ao principe e a toda sua terra.
D'esta virtude da justiça, que poucos acha que a queiram por hospeda, posto que rainha e senhora seja das outras virtudes, segundo diz Tullio, usou muito el-rei Dom Pedro, segundo vêr podem os que desejam de o saber, lendo parte de sua historia.
E pois que elle, com bom desejo, por natural inclinação, refreou os males, regendo bem seu reino, ainda que outras minguas por elle passassem, de que penitencia podia fazer, de cuidar é, que houve o galardão da justiça, cuja folha e fructo é honrada fama n'este mundo e perduravel folgança no outro.
*CAPITULO I*
_Do reinado de el-rei Dom Pedro, oitavo rei de Portugal, e das condições que n'elle havia_.
Morto el-rei D. Affonso, como haveis ouvido, reinou seu filho, o infante Dom Pedro, havendo então de sua idade trinta e sete annos e um mez e dezoito dias. E porque dos filhos que houve, e de quem, e por que guisa, já compridamente havemos falado, não cumpre aqui arrazoar outra vez; mas das manhas, e condições, e estados de cada um, diremos adiante, muito brevemente, onde convier falar de seus feitos.
Este rei Dom Pedro era muito gago, e foi sempre grande caçador e monteiro, em sendo infante e depois que foi rei, trazendo grande casa de caçadores e moços de monte e de aves, e cães, de todas maneiras que para taes jogos eram pertencentes.
Elle era muito viandeiro, sem ser comedor mais que outro homem, que suas salas eram de praça em todos logares por onde andava, fartas de vianda, em grande abastança.
Elle foi grande criador de fidalgos de linhagem, porque n'aquelle tempo não se costumava ser vassalo, se não filho e neto ou bisneto de fidalgo de linhagem; e por usança haviam então a quantia que ora chamam maravidis, dar-se no berço, logo que o filho do fidalgo nascia, e a outro nenhum não.
Este rei accrescentou muito nas quantias dos fidalgos, depois da morte de el-rei seu padre, cá não embargando que el-rei D. Affonso fosse comprido de ardimento e muitas bondades, tachavam-no, porém, de ser escasso, e apertamento de grandeza. E el-rei Dom Pedro era em dar mui ledo, em tanto, que muitas vezes dizia que lhe afrouxassem a cinta, que então usavam não mui apertada, porque se lhe alargasse o corpo por mais espaçosamente poder dar; dizendo que o dia que o rei não dava, não devia ser havido por rei.
Era ainda de bom desembargo aos que lhe requeriam bem e mercê, e tal ordenança tinha n'isto, que nenhum era detido em sua casa por cousa que lhe requeresse.
Amava muito de fazer justiça com direito. E assim como quem faz correição, andava pelo reino, e visitada uma parte não lhe esquecia de ir vêr a outra, em guisa que poucas vezes acabava um mez em cada logar de estada.
Foi muito mantenedor de suas leis e grande executor das sentenças julgadas, e trabalhava-se quanto, podia das gentes não serem gastadas por azo de demandas e prolongados pleitos.
E se a Escriptura affirma que, por o rei não fazer justiça, vem as tempestades e tribulações sobre o povo, não se póde assim dizer d'este, cá não achamos, em quanto reinou, que a nenhum perdoasse morte de alguma pessoa, nem que a merecesse por outra guisa, nem lh'a mudasse em tal pena por que pudesse escapar a vida.
A toda gente era galardoador dos serviços que lhe fizessem, e não sómente dos que faziam a elle, mas dos que haviam feitos a seu padre, e nunca colheu a nenhum cousa que lhe seu padre desse, mas mantinha-a e accrescentava n'ella.
Este rei não quiz casar: depois da morte de Dona Ignez, em sendo infante, nem depois que reinou, lhe prove receber mulher; mas houve amigas com que dormiu, e de nenhuma houve filhos, salvo de uma dona, natural de Galliza, que chamaram Dona Thereza, que pariu um filho que houve nome Dom João, que foi mestre de Aviz em Portugal e depois rei, como adiante ouvireis, o qual nasceu em Lisboa onze dias do mez de abril, ás tres horas depois do meio dia, no primeiro anno do seu reinado. E mandou o el-rei criar, em quanto foi pequeno, a Lourenço Martins da Praça, um dos honrados cidadãos d'essa cidade, que morava junto com a igreja cathedral onde chamam a praça dos Canos, e depois o deu, que o criasse, a Dom Nuno Freire de Andrade, mestre da Cavallaria da ordem de Christo.
*CAPITULO II*
_Como el rei de Castella mandou pelo corpo da rainha Dona Maria, sua madre, e da carta que enviou a el-rei de Portugal, seu tio_.
N'esta sezão que el rei Dom Pedro começou de reinar, ordenou el-rei de Castella de enviar pelo corpo da rainha Dona Maria, sua madre, que se finara em Portugal vivendo ainda el-rei Dom Affonso, seu padre, como em alguns logares d'este livro faz menção; e fez saber por sua carta a el-rei Dom Pedro, seu tio, como havia vontade de a trasladar, para a pôr em Sevilha, na capella dos reis, com el-rei Dom Affonso, seu padre; e ordenou, para irem com o corpo da rainha, o arcebispo de Sevilha e outros prelados de seu reino, e dês-ahi mandou diante, para correger todas as cousas que cumpriam para o corpo ir honradamente, Gomes Peres, seu dispenseiro mór, ao qual o corpo havia de ser entregue, para ordenar tudo o que mister fazia á sua trasladacão, para quando os prelados viessem, que achassem tudo prestes e se partissem logo.
A el-rei Dom Pedro prouve d'isto muito, e escreveu-lhe que mandasse por elle, quando por bem tivesse: e el-rei de Castella enviou logo aquelle seu dispenseiro, e foi-lhe entregue o corpo, na cidade de Evora onde jazia, para ordenar seus corregimentos, segundo a ordenança que lhe era dada. E quando o arcebispo, e os outros prelados e gentes vieram pelo corpo da rainha, trouxeram a el-rei Dom Pedro uma carta de el-rei de Castella, seu sobrinho, que dizia n'esta guisa.
«Rei, tio. Nós, el-rei de Castella e de Leão, vos enviamos muito saudar como aquelle que muito prezamos e para que queriamos tanta vida e saude, com honra, como para nós mesmo.
«Rei, fazemos-vos saber que vimos uma carta de crença que nos enviastes por Martim Vasques e Gonçalo Annes de Beja, vossos vassalos, e disseram-nos de vossa parte a crença que lhes mandastes.
«E rei, tio, nossa tenção é de vos amar, e guardar sempre os bons dividos que comvosco havemos, e fazer sempre por vossa honra como por nossa mesma.
«E porquanto a nosso serviço e vosso cumpria haverem de ser declaradas algumas cousas conteudas nas posturas que entre nós havemos de pôr, assim sobre casamentos de vossos filhos com nossas filhas, nós falámos com o dito Martim Vasques e Gonçalo Annes toda nossa tenção, e enviamos allá sobre isto João Fernandes de Melgarejo, chanceller do nosso sêllo da puridade, e rogamos-vos que o creaes do que vos da nossa parte disser.
«Outro sim enviamos, para trazer o corpo da rainha, nossa madre, para a enterrar aqui em Sevilha, o arcebispo d'esta cidade e outros prelados de nossos reinos, e rogamos-vos que essas joias que ella deixou, que as mandeis dar ao dito João Fernandes, e nós agradecer-vol-o-hemos. Dada, etc.»
El-rei Dom Pedro fez outorgar o corpo da rainha Dona Maria, sua irmã, áquelle embaixador de el-rei de Castella; e foi-lhe feita grande honra, assim por el-rei, como pelos prelados que por ella vinham. E muito acompanhada até ao extremo, e d'ahi até á cidade de Sevilha, a saiu el-rei seu filho a receber com muita clerezia e grandes senhores e fidalgos que ahi eram com el-rei. E feitas suas exequias mui honradamente, foi posto o seu corpo na capella dos reis, a cerca de el-rei Dom Affonso, seu marido, onde ora jaz.
Sobre os casamentos dos filhos de el-rei Dom Pedro com as filhas de el-rei de Castella, por que João Fernandes era enviado, foram faladas muitas cousas com el-rei de Portugal, e não se accordando por então em algumas d'ellas, depois acertaram todas suas avenças, como adiante ouvireis.
*CAPITULO III*
_Das cartas que o papa, e el-rei da Aragão enviaram a el-rei de Portugal sobre a morte de el-rei, seu padre_.
El-rei Dom Pedro escrevera ao papa, e a el-rei de Aragão, por novas, quando el-rei Dom Affonso morreu, como seu padre era morto, e elle alçado por rei em Portugal.
E tendo cada um cuidado de lhe responder, chegaram lhe n'esta sezão suas respostas. E a letra do papa dizia assim:
«Innocencio, bispo, servo dos servos de Deus, ao muito amado, em Christo, filho Dom Pedro, mui nobre rei de Portugal, saude e apostolical benção.
Porquanto, muito amado filho, por tuas letras, e fama, fomos certificado como o mui claro, de nobre memoria, el-rei Dom Affonso teu padre, se finou d'este mundo, sua morte foi a nós, e é, mui grande nojo e tristeza. E não sem razão o devemos ser, quando em nosso coração cuidamos nas bondades e virtudes de que sua real alteza era muito ennobrecida, por cuja razão o muito amavamos, desejando-lhe que, entre todos os principes do mundo, o Senhor o accrescentasse, e estendesse seu real estado, com prolongamento de bem aventurados dias, nos quaes, acabando sua honrada velhice, a ti, seu primogenito filho, deixasse o regimento e successão do reino em firme concordia com teus visinhos.
E pois assim é que o Senhor Deus, em cuja mão é o poderio de dar a cada um vida e morte, lhe prouve de piedosamente o levar d'este mundo, nós pômos fim e acabamento á nossa dôr e tristeza, consolando-nos n'este Senhor que dá e priva e tolhe, quando quer que lhe praz, no qual havemos firme esperança que nos altos ceus dará bom galardão e gloria á alma de el-rei, teu padre, pois, emquanto n'este mundo viveu, se trabalhou de o servir com bons merecimentos, e lhe aprouve com dignas virtudes.
E assim, muito amado filho, piedosamente te consolamos, que te consoles no Senhor Deus, e consideres em tua vontade como succedes no regimento de teu padre, o qual, por exemplo da vida, se mostrou sempre ser fiel catholico.
Porém, requeremos á tua real clareza, que sempre, com firme desejo, vivas em temor do Senhor Deus, honrando a sua santa igreja, e, sendo favoravel ás ecclesiasticas pessoas, as mantenhas sempre em seus direitos e liberdades; e que sejas amador e defensor das viuvas e dos orfãos, alçando os aggravos aos teus subditos, que lhes não seja feita injuria; e que, sem recebimento de alguma pessoa, sempre sejas honrador e amador da justiça, de guisa que, por tuas obras, sejas chamado por nome de rei que bem rege: e sei certo, se o assim fizeres, que sempre em teus dias viverás em paz e folgança, havendo Deus em tua ajuda, e a sua santa igreja te haverá em sua encommenda, sendo prestes para toda a tua honra e cumprimento de justas petições. Diante em Avinhão, etc.»
N'outra carta, de el-rei de Aragão, eram conteudas estas razões:
«Muito alto e mui nobre Dom Pedro, pela graça de Deus, rei de Portugal e do Algarve: Dom Pedro, por essa mesma graça, rei de Aragão, e de Valencia, e de Mayorca, e de Sardenha, e de Corsega, e conde de Barcelona e de Rossilhão, saude, como a rei que temos em logar de irmão, que muito amamos e prezamos, e de que muito fiamos, e para que queriamos muita honra e boa ventura, com tanta vida e saude como para nós mesmo.
«Rei, irmão. Recebemos vossa letra, pela qual nos significastes a morte do mui alto e mui honrado el-rei Dom Affonso de Portugal, vosso padre, a que Deus perdoe. E por essa mesma nos fizestes saber que vós, assim como seu primogenito e herdeiro dos ditos reinos, ereis levantado por rei de Portugal. Das quaes novas, em verdade, Rei irmão, houvemos desprazer e prazer juntamente: desprazer da morte do dito rei, o qual sabiamos que nos amava como seu filho e nós a elle como a nosso muito amado padre; mas como da morte nenhuma pessoa seja isenta, e o dito rei seja saido da miseria d'este mundo, doendo-nos d'ella, se por nós alguma cousa pudesse ser feita, muito prestes eramos de o fazer, porém rogamos a Deus, em cuja mão é vida e morte de cada um, que receba sua alma com os seus santos no paraiso, fiando n'elle que o ha feito. Prazer outro sim houvemos mui grande, Rei irmão, quando soubemos que ereis alçado em rei de Portugal e do Algarve, pela successão herdeira a vós por direito pertencente, e crendo saber que, assim como nós tinhamos o dito rei em conta e logar de padre, assim entendemos de ter a vós em conta de nosso irmão, e fazer por vós toda cousa que seja honra e prazer vosso, e proveito de vosso senhorio, esperando certamente, de vós, que fareis semelhante por nós, e por nossos reinos e terras.
E porquanto, irmão Rei, segundo é conteudo em vossa letra, vós desejaes saber o bom estado de nossa pessoa, e da rainha, e de nossos filhos, a prazer vosso vos significamos que somos todos sãos e em boa disposição de nossas pessoas, mercês a Deus: rogando-vos, mui caramente, que de vosso bom estado e real casa, nos certifiqueis por vossa carta, e sêde certo que nos fareis assignado prazer. D'ante em Saragoça, etc.»