Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)
Chapter 8
E entre as cousas sustanciaes em que falaram e em que tomaram conclusão, foi ser necessario El-Rei D. Affonso ir em pessoa ao duque de Brogonha pedir-lhe gente e ajuda contra Castella, e que em caso que pelas differenças em que então andava com o duque de Loreina lh'a não podesse dar, ao menos tomaria d'elle duque de Brogonha tal segurança para elle Rei de França, sem receio de sua guerra mais livre e poderosamente o poder ajudar. E para o fazerem todos em sua ajuda com menos cargo, a todos cumpria justo titulo, que era dispensação Apostollica para El-Rei D. Affonso poder casar com a Rainha D. Joana sua sobrinha, pois dos reinos que a ella pertenciam, como seu marido se intitulara. E que logo alli se apartassem quatro pessoas de cada parte, para em breve consultarem e praticarem sobre a gente, dinheiro e cousas que para sua empresa cumpriam, e porem tudo em boa ordem. E disse mais que por quanto havia por certo que os castelhanos ás vezes folgavam vender fortalezas, que elle sempre houvera por melhor e mais barato compra-las por dinheiro, que por guerra, e que o dinheiro e sua pessoa com toda a gente de seu reino, elle lh'a offerecia para isso e para todo o mais que a sua honra e estado cumprisse.
E depois d'El-Rei D. Affonso lh'o remercear tanto quando tamanha esperança para suas necessidades requeria, se sairam já de noite, e do meio da salla onde se primeiro viram já com tochas se despedio d'elle El-Rei de França. O qual enviou dizer depois a El-Rei D. Affonso, que para elle convidar alguma gentil dama, como era usança e cortezia do seu reino, lhe pedia que quizesse d'elle tomar em tanto cincoenta mil escudos d'ouro. Mas El-Rei D. Affonso com palavras publicas de singular agardecimento, e com respeitos secretos que a seu estado real cumpriam se enviou por então escusar.
Aqui fez El-Rei de França conde d'Abranches D. Fernando d'Almada, filho do outro conde Alvaro Vaz d'Almada, que morreu na batalha com o Infante D. Pedro, como atraz fica.
CAPITULO CXCVII
_De como foram a Roma embaixadores d'El-Rei de França e d'El-Rei D. Affonso requerer a despensação para poder casar com a Rainha D. Joana sua sobrinha_
E para cumprimento das conclusões em que ficaram, ordenou-se logo embaixada ao Papa sobre o requerimento da despensação, em que d'El-Rei D. Affonso foram embaixadores o conde de Penamacôr, e o doutor João Teixeira, que depois foi Chanceller Mór, e Diogo de Saldanha, homem prudente e de grande autoridade, que seguiu a parte da Rainha D. Joana, e d'El-Rei de França foram o monseor de Sam Valher, e um grande letrado governador do parlamento de Granobra, cabeça do Delfinado.
E juntos estes embaixadores acompanhados de muita e nobre gente, fizeram seu caminho a Roma por terra, onde como pessoas que representavam tamanhos dois Reis como era o de França e o de Castella e Portugal, foram logo com grande honra recebidos.
E El-Rei D. Affonso aparelhou sua ida ao duque de Borgonha, que era em campo sobre a cidade de Namsy em baixa Allemanha, contra o duque de Lorreina com que tinha guerra. E ante de sua partida El-Rei de França lhe disse, que por a pouca seguridade que tinha do duque de Borgonha, por ser muito orgulhoso, duvidava que tomando a cidade de Namsy sobre que estava, e destruindo o duque de Lorreina, por seguir novidades quereria entrar por França, e que com receios d'isto pelos segurar tinha sua gente na frontaria, que daria causa elle lhe não poder dar tanta ajuda, como sem isso faria. Porém que se por seu meio d'El-Rei D. Affonso elles ambos ficassem verdadeiros amigos, e se liassem por casamentos dos filhos, como o duque por todalas razões devia querer, elle em sua ajuda poeria a corôa de França com todo seu poder, e que El-Rei D. Affonso devia requerer o duque que fosse com elle em pessoa; porque era bom capitão, e tinha muita gente e singular artilharia, e que sendo El-Rei D. Affonso d'estas amizades meio segurador, cada um d'elles teria receio de as per si quebrar, pelo não ter por contrairo, com as quaes muito cedo se faria pacifico Rei de Castella.
CAPITULO CXCVIII
_De como El-Rei D. Affonso se foi vêr com o duque de Borgonha, e como logo se seguio a morte do dito duque_
N'esta confiança que El-Rei D. Affonso tomou de tudo assi acabar, partiu no Novembro mui alegre, e com muita aspereza de neves e frios incomportaveis chegou a Camansam e Almansa, lugares mais acerca do arraial do duque, d'onde El-Rei por terra regellada e toda cuberta de neve se foi vêr com o duque, e viram-se e abraçaram-se ambos a pé sobre o meio de um grande rio todo tão regellado, que por elle seguramente passavam bestas e carretas como por uma forte ponte, e d'alli se tornaram ao arrayal do duque, que hi perto estava, onde o duque sobre as cousas com que logo soube que El-Rei a elle ia, lhe disse que elle Rei de Portugal era entrado com um homem, em que não havia virtude nem verdade, dizendo-o por El-Rei de França, e que para o crêr não quizesse logo outra prova, se não que tendo enviado a elle que no mundo era tal e tão excellente Rei, e com requerimentos e mostranças de tanta paz, amor, e liança, logo após elle mandara muita gente d'armas em ajuda do duque de Lorreina seu inimigo e para contra elle. Porém que elle tinha ao mesmo Rei de França em tão pouca estima, que com um só page, que mostrou, ousaria dar-lhe batalha e esperar victoria. Mas pois que elle Rei D. Affonso por assi lhe cumprir queria sua concordia, que por lhe comprazer era d'ella contente, e lhe prometia leal e verdadeiramente, não sómente de estar em toda paz e amizade que se entre elles podesse, mas que elle faria cumprir a El-Rei de França todo o que em sua demanda lhe tinha prometido e prometesse.
E com esta conclusão finalmente se partiram, para nesta sustancia do lugar a que tornavam concordarem e firmarem suas capitullações.
E d'hi a poucos dias praticando El-Rei D. Affonso como isto se bem faria, veio sobre o cerco do duque de Borgonha, e contra elle a mesma gente d'armas d'El-Rei de França com outra muita do duque de Lorreina. E o duque com quanto tinha muito menos gente e era de fome e de frios mui trabalhada, não aguardou ser em seu arrayal combatido, mas sahio fóra a esperal-os, e no campo lhes deu a batalha, em que foi desbaratado e vencido com mortes e grande perda de sua gente, e querendo salvar-se por uma ponte já um pedaço da peleja, achou contrairos que a guardavam. Dos quaes pelejando sem ser então conhecido, a um domingo, bespora dos Reis Magos do anno de mil e quatrocentos e setenta e sete, foi morto, e depois se conheceo no campo por os sinaes de seu corpo que um seu fisico d'elle deu, e tambem por uma cellada rica que um seu page trazia, junto da qual pareceu que jazia, como jazia o corpo do dito duque. Cuja morte que logo a El-Rei D. Affonso foi notificada, pôs a elle e a todolos portugueses em publico nojo e muita tristeza, com que deu suspeita aos franceses de o haverem por contrairo, e esteve em condição para d'elles receber por isso mais dano e perigo, que bom trato nem serviço.
E na morte e perda do duque de Borgonha acabou El-Rei D. Affonso de verdadeira e sustancialmente perder toda esperança de seu desejo e proposito; porque em sua vida do duque estava toda a obrigação para El-Rei de França ajudar a El-Rei. E em sua morte foi o contrairo; porque como por ella El-Rei de França se vio livre e desocupado dos receios que do duque tinha, logo sem medo nem vergonha do que tinha prometido, desamparou o negocio de Castella, e entendeo do seu proprio, que foi haver e cobrar muitas terras da alta Borgonha e Picardia, que o duque lhe tinha tomadas, e por seu fallecimento ficaram sem resistencia. E porém El-Rei de França mandou logo recado a El-Rei D. Affonso, pedindo-lhe com palavras de grande esperança, que em tanto se fosse, como logo foi, aposentar-se em Paris, onde esteve até o Maio, que El-Rei de França andou sempre em sua guerra, fazendo e acabando o que lhe cumpria.
CAPITULO CXCIX
_Da resposta que os embaixadores houveram em Roma ácerca da despensação que requereram_
Os embaixadores dos Reis que eram em Roma, com muita instancia e efficacia requereram ao Papa Sixto quarto a despensação sobre que principalmente foram enviados, em que por parte de El-Rei D. Fernando de Napoles, por ser casado com uma irmã d'El-Rei D. Fernando de Castella, e por outros senhores que favoreciam sua parcialidade, por causas de eminentes e oferecidos danos que alegaram, houve para a despensação se não conceder grande e total contrariedade. Porque o Papa por ventura aconselhado n'isso catholicamente, consirando como El-Rei D. Fernando com a Rainha D. Izabel sua mulher eram pacificos Reis de Castella, e El-Rei D. Affonso era n'elles em forças e poder mui desigual, houve por grande mal e perjuizo da christandade conceder a dita despensação, em caso que parecesse razão por ser direito conceder-se, por não dar com ella causa e titulo de uns e outros se guerrearem com mortes de christãos, e guerras continuas que se não escusavam, o que o Papa devia evitar especialmente; que ajuda d'El-Rei de França para El-Rei D. Affonso sempre em Roma se houve por mui duvidosa.
E estando n'estas duvidas e debates chegou a Roma nova da morte do duque de Borgonha, com que o Papa fazendo por ella o poder d'El-Rei de França mui mais livre e despejado para sem contradição se quizesse poder dar uma grande ajuda, houve o direito e justiça d'El-Rei D. Affonso para a sobcessão de Castella por de mór efficacia, com fundamento do qual o Papa tomou um meio, que mais verdadeiramente foi clara denegação, o qual foi, que por quanto pelas razões alegadas, a El-Rei D. Affonso por si, sem França, a dita despensação não se devia conceder, e que com a inteira ajuda d'El-Rei de França era razão que se desse, que por tanto a elle mesmo Rei de França se devia de dar tomando-a elle com seu cargo.
CAPITULO CC
_Da conclusão que El-Rei D. Affonso tomou com El-Rei de França, quando com elle se vio a segunda vez_
Com esta resposta se vieram os embaixadores, que acharam El-Rei D. Affonso já em Paris. D'onde enviou logo o conde de Penamacôr a El-Rei de França, que era na cidade de Raz dar-lhe conta da embaixada. O qual volveo logo, com determinação que os Reis ambos no mesmo Raz logo se vissem, para onde El-Rei D. Affonso logo partio, e El-Rei de França a cavallo e vestido casi na maneira da primeira vista o veio receber, e foi com elle a seu aposentamento, que foi em uma mui grande e honrada Abadia de Conegos Regrantes, em que El-Rei e toda sua gente se alojou.
Alli esteve El-Rei D. Affonso alguns dias, esperando a cautelosa e inutil determinação, ou mais certo desesperação d'El-Rei de França, que lh'a deu com certos apontamentos, que para discretos era clara escusa do que se pedia, com que El-Rei D. Affonso se despedio para Portugal. E tão mal despachado como a desaventura do tempo ordenou; porque assi como vivendo o duque de Borgonha, El-Rei de França por ganhar sua paz, ajudara de necessidade a El-Rei D. Affonso, assi por sua morte achando muita da sua terra desocupada para a poder cobrar, não curou d'isso, nem foi muito de culpar El-Rei de França por maiores promessas que fizera; porque para dar gente e dinheiro a Rei estranho, com que para isso ganhasse reino de empresa tão duvidosa, e leixar perder e não cobrar sua propria terra, o direito e rasão que o a isso obrigasse seria escuro e máo d'achar.
CAPITULO CCI
_Como o Principe cercou a villa d'Alegrete e a tomou, e d'outras cousas que no reino se seguiram andando El-Rei D. Affonso em França_
E tornando ás cousas do reino de Portugal, tanto que El-Rei D. Affonso partiu de Lisboa para França, o Principe D. João seu filho na entrada de Janeiro se foi logo entre Tejo e Odiana, d'onde mandou continuar a guerra contra Castella, em que se faziam grandes e danosas entradas. E porque a villa d'Alegrete estando o Principe em Touro foi manhosamente tomada por D. Affonso de Monroy, Mestre que se disse d'Alcantara, que a esse tempo seguia o partido d'El-Rei D. Fernando, o Principe em que havia reaes bondades e virtudes, e o esforço do coração não falecia, no mez de Fevereiro de mil quatrocentos setenta e sete, lhe pôs tal cerco e a mandou combater assi rijamente, que por partido se rendeo, e lhe foi entregue com muita sua honra e louvor, e porém não sem dano e mortes dos cercadores e cercados.
E durando o dito cerco d'Alegrete foi tambem posto estreito cerco em Castella a Touro, e a Crasto Nunho, e a Cantallapedra, que ainda estavam por El-Rei D. Affonso. E o Principe determinando de lhes soccorrer, fez muita gente prestes que mandou com o almirante Lopo Vaz d'Azevedo, e com Fernão Martins Mascarenhas capitão dos ginetes, e da villa de Pinhel onde chegaram, se tornaram por serem certificados que o soccorro com que iam, pela muita maior força dos cercos postos, se não podia por elles dar sem seu manifesto perigo. E em fim os capitães cercados, Pero de Mendanha, Alcaide de Crasto Nunho e Affonso Peres de Biveiro, capitão de Cantallapedra como nobres fidalgos e leaes servidores, por partidos que lhe fizessem nunca se deram, nem leixaram de ter as fortallezas até que lhe foi mandado por El-Rei D. Affonso, andando em França, visto como os não podia soccorrer que o fizessem, pelo qual a salvamento de suas honras e pessoas entregaram as fortalezas. E com as bandeiras reaes de Portugal tendidas, por Castella se vieram a estes reinos; porque assim tomaram por partido.
E n'este anno de mil e quatrocentos e setenta e sete, houve o Principe de Pedro Pantoja, cavalleiro castelhano, as fortalezas de Zagalla e Pedra Bôa, que são do Mestrado d'Alcantara, junto com Albuquerque, em que pôs seus alcaides e capitães, e por ellas lhe deu em Portugal a villa de Santiago de Cacem, que é do Mestrado de Santiago. As quaes fortalezas com outras rendas n'este reino, depois deu o Principe ao dito D. Affonso de Monroy, porque seguisse e servisse a El-Rei D. Affonso seu padre, como na guerra sempre serviu bem e fielmente até ás pazes. Outro si porque no anno em que El-Rei D. Affonso entrou em Castella a fortaleza de Noudal que é Mestrado d'Avis, por engano e astucia de guerra se tomou, e a este tempo era em poder de Martim de Sepulveda, fidalgo castelhano, o Principe por concerto o trouxe a seu serviço com promesssas que lhe fez. As quaes depois com elle cumpriu, a contentamento do dito Martim de Sepulveda segundo era obrigado. E sendo El-Rei D. Affonso em França, o Principe fez côrtes geraes em Mantemór-o-Novo, onde para estas necessidades da guerra lhe foi pelo reino outorgado dinheiro, para que lançaram pedidos.
CAPITULO CCII
_De como El-Rei D. Affonso desapareceu em França, e o Principe seu filho por seu mandado se alevantou por Rei em Portugal_
E volvendo a El-Rei D. Affonso que era em França, despedido elle de Ras como atraz fica, se foi com sua gente a Ruão, onde esperando pelo aviamento que se dava á sua embarcação, repousou muita parte do verão, e d'alli se foi pelo rio abaixo até a Aynafrol, que é porto de mar, onde a frota e cousas da armada para sua vinda se aparelhavam, e alli esteve o mez de Setembro, no qual tempo sentindo elle que a esperança para as cousas de Castella não lhe respondiam conforme a seu proposito, e que não fôra por fallecimento de seu esforço, cuidado e diligencia, pois em Portugal e Castela, e em Roma, em França e Borgonha, tinha procurado todo o que para sua empresa pareceo conveniente e necessario, e todo lhe falecera, vendo já cerrados todolos outros caminhos de que esperasse conseguir desejado effeito, crendo que tantas contrariedades não podiam ser sem vontade de Deus, determinou entresi como desconfiado já de remedio leixar este mundo e seus debates, e sem ser conhecido ir-se a Jerusalem, onde propôs servir a Deus, e para o cometer e fazer sem dos seus ser sentido, custumou por alguns dias ir só em romaria ante manhã junto com Aynafrol, e assi tambem retraido escrevia de sua mão algumas cousas, que logo metia em um cofre de que trazia a chave, dando a entender que por se haver de meter no mar em tempo de inverno fazia ou reformava seu testamento.
E em fim um dia ante manhã, vinte e quatro dias de Setembro de mil e quatrocentos e setenta e sete, El-Rei cavalgou como sohia, e levou comsigo a cavallo Soeiro Vaz e Pedro Pessoa, ambos seus moços da camara, e a elle aceptos, e dois moços d'esporas. E mandou a Estevão Martins seu capellão, que o fosse aguardar á estrada de hi meia jornada, onde logo com elle se ajuntou. E d'hi fez tornar a Aynafrol um dos moços d'esporas a que deu a chave do cofre que leixava, com mandado que o abrissem, como abriram, em que leixava uma carta para El-Rei de França com remoques dissimulados reportados á sua desaventura, em que tambem lhe dava conta do fundamento que tivera para sua partida, que era servir a Deus; porque assi lhe fizera voto de o fazer depois da morte da Rainha sua mulher, sendo o Principe seu filho em idade para reger seus reinos como era, pedindo-lhe amparo, favor, e ajuda para os seus que em seus reinos ficavam. E outra carta para o Principe seu filho, em que lhe dava uma triste conta da sua viagem, encomendando-lhe e mandando-lhe por sua benção que logo se alevantasse e intitulasse por Rei. E outra d'esta sustancia para todolos do reino, que como a proprio e verdadeiro Rei obedecessem ao Principe. E outra para os seus que alli leixara, que estivessem á obediencia e ordenança do conde de Farão, com que todos foram tão tristes, e fizeram tão dorosos prantos como a razão ensina, que em terras tão estranhas e em tanto desamparo, e a Rei tão amado devia ser.
E as cartas escriptas e ordenadas para Portugal, enviou logo ao Principe Antão de Faria, seu camareiro, que a esse tempo hi se acertou, e era lá ido com visitação e outras cousas entre o pae e o filho secretas, e por este apressado aviamento que ás cartas se deu, o Principe solenisou logo seu alevantamento em Santarem no alpendere de S. Francisco, a dez dias de Novembro de mil e quatrocentos e setenta e sete. O que não foi sem muitas lagrimas e grande tristeza sua e de quantos hi eram.
E ante que o moço d'esporas d'El-Rei chegasse com a chave, já os portugueses vendo sua desacostumada tardança eram por ella em desesperado pensamento. Nem o foi menos o monseur de Lebret, que com El-Rei para melhor ser aviado e servido sempre andava, acusando com irosas e graves reprensões a negligencia dos portugueses, por leixarem ir El-Rei assi só e de noite em terras alheias, nem elle se escusava de muita magoa por não dar d'elle melhor conta.
E porém por todolos caminhos e por toda a terra com gente de pé e de cavallo fez e mandou com muita trigança infindos avisos, dando voz que El-Rei de Portugal que lhe fôra encomendado era fugido contra prazer e serviço d'El-Rei de França. Pelo qual todolos franceses ouvida esta fama, leixadas todas suas cousas seguiram ávante pelos caminhos de Roma, em que não podiam errar; porque de uma parte corria o rio de Ruão, que não podia passar, e da outra era o mar. Os quaes troteiros tanto que d'El-Rei acharam nova, logo de uns em outros correram e seguiram com tão apressurada diligencia, que a dois dias foram em continente com elle, que de noite estava já aposentado em uma villagem, e jazia já, onde na pousada e camara entrou com elle um gentil homem francês, e porque os portugueses negaram El-Rei, conveio a elle por ser fóra da duvida acorda-lo e reconhece-lo; porque El-Rei por dissimulação d'aquelle apartamento, por não ser por caminhos em alguma differença conhecido, não comia nem dormia apartado, mas com todos familiarmente, e tanto que El-Rei foi conhecido, o francês com muito acatamento lhe pedio perdão pelo espertar, dando a culpa aos seus pelo encubrirem, e lhe não dizerem a verdade. E leixando-o na cama se sahio, e da parte d'El-Rei de França fez logo ajuntar todo o lugar, por que mui sem rumor em toda a noite foi guardado e velado, d'onde ainda que quizera já não podera sahir. E logo n'aquella noite a gram pressa este gentil homem fez messegeiros, uns a El-Rei de França, que por acertamento não era de hi longe, e outros a Aynafrol aos portugueses e a Monseor de Lebret, detendo El-Rei na mesma casa em que o achára, e fazendo-o mui bem servir.
O conde de Penamacôr com tanta sua magoa, como foi a culpa d'este caso por ser a isso mais obrigado por ser seu camareiro mór, era já em caminho em busca d'El-Rei, com determinação de nunca sem elle tornar a Portugal, e pelo aviso que houve de ser já achado, foi logo com elle, e porque o achou forte para sua tornada, avisou logo e enviou chamar o conde de Farão, e D. Alvaro seu irmão e outros senhores aceptos, que logo não com menos pressa que alegria o foram vêr, e d'elles e de uma carta consolatoria que hi veio d'El-Rei de França, se leixou vencer para tornar e desistir de seu proposito.
CAPITULO CCIII
_De como El-Rei D. Affonso embarcou em França e se veio a Portugal, e se vio com o Principe seu filho_
E para embarcar, por algum pejo que teve dos que o conheciam, não tornou a Aynafrol, mas por outro caminho em que por seu desporto todos os principaes juntamente comiam e folgavam, vieram a uma angra do mar que dizem a Oga, onde para a pessoa d'El-Rei estava já prestes uma carraca que mandara fretar a Antona, e alli vieram logo de Aynafrol as outras naus de França, para todos embarcarem como embarcaram, e fizeram logo vella, e em poucos dias foram ancorar através d'Antona á ilha d'Oyque, onde El-Rei houve rebate de novas de oitenta urcas d'allemães que vinham contra franceses. E porém por ventos contrairos não poderam as urcas entrar, e a El-Rei conveio sair da ilha não pela banda do Norte por onde entraram, mas pelas agulhas que dizem logar mui perigoso.
E d'alli no mez d'Outubro fez vella, e com um pouco de temporal que sobreveio uns navios em que vinham cavallos não poderam aguardar a conserva, e vieram-se diante a Portugal, por que o Principe da vinda d'El-Rei seu padre foi logo avisado, sendo havia muito pouco alevantado já por Rei, como atrás disse.
Arribou El-Rei em Cascaes, onde logo foi certificado que o Principe seu filho era já obedecido e intitulado por Rei, e foi surgir a Oeiras, e ao outro dia sahio em terra, e no mesmo dia veio hi logo o Principe seu filho, que em o vendo com lagrimas de tanto prazer e alegria, como foram de paixão e tristeza as de Santarem, quando em sua vida e por sua obediencia se alevantou por Rei. E com muita reverença com os giolhos em terra lhe beijou as mãos, ás quaes com palavras de Principe tão excellente, e filho tão bom e tão obediente como elle era, logo renunciou e depôs o titulo de Rei, de que por cumprir seu mandado e por haver sua benção mais que por cobiça de reinar se intitulara.
Com este despejo e bondade do Principe ficou El-Rei e todolos de sua companhia muito descarregados e alegres, e El-Rei logo com razões e causas muito de louvor quizera obrigar o Principe para não desistir do nome de Rei e do hereditario cetro que já tinha, mas elle com outras de não menos honestidade que merecimento, sempre se escusou, e como quer que depois El-Rei lhe movesse e rogasse que todavia se chamasse e fosse Rei de Portugal, e que elle se contentaria ser Rei dos Algarves com a parte d'Africa, onde na guerra dos mouros folgaria servir a Deos e n'ella acabar, o Principe pelo amor e grande acatamento que lhe tinha nunca o quiz aceitar, e sempre o contrariou, de maneira que El-Rei D. Affonso não leixou o nome inteiro de seus reinos, nem o Principe em sua vida acrecentou o seu.
E d'alli d'Oeiras se veio El-Rei a Lisboa, e para o vêr vieram logo a Princesa D. Lianor, e o duque e duquesa de Bragança, e assi todolos senhores do reino, onde estiveram depois de Janeiro de mil e quatrocentos e setenta e sete. E de Lisboa se foi El Rei a Montemor-o-Novo, onde esteve o verão, e no fim d'elle se foi a Evora durando ainda a guerra de Castella, que se continuava e fazia com muitas entradas e grandes cavalgadas.