Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)
Chapter 7
E postas e ordenadas com espantosa vista as azes de uma parte e da outra para encontrar, sendo já casi sol posto, El-Rei mandou dizer ao Principe que com sua benção rompesse logo, o qual por lhe obedecer e cumprir o que tanto desejava, depois de em ambas as batalhas se fazer pelas trombetas sinal de batalha, elle e assi seus capitães com singular destreza e maravilhoso esforço, deram assi rijamente nas batalhas contrairas, que nem podendo ellas soffrer nem resistir tanta força, logo uma após outra foram desbaratadas e postas em fugida.
E para aquella hora ante da peleja deu o Principe á sua gente por apellido S. Jorge e S. Christovão, S. Jorge por padroeiro de Portugal, e S. Christovão por devoção de Jorge Corrêa, commendador do Pinheiro, que na mesma hora lh'o lembrou; era alferes do Principe que levava sua bandeira Lourenço de Faria, homem fidalgo, que n'este dia e em todolos outros por sua obediencia e esforço o fez como bom cavalleiro, e o Principe por tal o reconheceu sempre.
E assi como as batalhas do Principe no desbarato fizeram a estas d'El-Rei D. Fernando, assi a batalha grande d'El-Rei D. Fernando fez na d'El-Rei D. Affonso, que sem alguma força nem resistencia a rompeu logo, e destroçou com damno e mortes de muitos, e não foi sem causa ser assi, porque na batalha do Principe era a frol dos fidalgos e nobre gente de Portugal, que falleceram n'esta d'El-Rei D. Affonso, e mais na batalha d'El-Rei D. Fernando vinha muita e mui grossa gente d'armas encubertados, além dos ginetes, e mais lançaram diante de si uma gram soma d'espingardeiros, que ao romper fizeram com seus tiros fronteiros duvidar e enfiar os cavallos e a gente da batalha d'El-Rei D. Affonso. Na qual sendo elle com sua bandeira dos dianteiros, acharam-se com elle ao tempo do encontrar mui poucos, entre os quaes eram D. Gomez de Miranda, Prior de S. Marco em Castella, e Bispo que depois foi de Lamego em Portugal. E por tanto vendo-se em alguma maneira da victoria desesperado, conveio-lhe volver e procurar por sua salvação, parecendo-lhe que pois a sua batalha onde a mais força estava fôra desbaratada, que a do Principe seu filho em que havia menos gente e de que não havia vista nem recado, tambem seria perdida. Pelo qual havendo já suas cousas por chegadas ao derradeiro estremo de desaventura, vendo já diante entre si e a ponte de Touro muita gente contraira, crendo que sem ser morto ou preso se não podia já á dita ponte recolher, foi aconselhado por Pedralvares de Souto-Maior, conde de Caminha, e por João de Porras, e por outros poucos que o sempre acompanharam, que por aquella noite se acolhesse á fortaleza de Crasto Nunho, que estava por elle, e assi o fez.
O Principe aquelle dia e hora não menos avisado que bem afortunado capitão, como se viu com sua gente em segura e perfeita victoria, por se lhe não seguir do longo encalço algum perigoso revés, logo a mais que pôde recolheu para a sua bandeira. E porém alguns seus e pessoas principaes esquentados e favorecidos do prospero vencimento que seguiam, por não terem no seguimento o resguardo que deviam, no cabo do encalço tornaram a ser mortos e presos, porque os castelhanos das batalhas destroçados que fugiam, refizeram-se com uma batalha de El-Rei D. Fernando, que acerca de uma legoa na reçaga estava, com que achando-se muito mais fizeram sobre os portuguezes volta, os quaes sendo já atalhados e cingidos da outra batalha grande, que desbaratara a El-Rei D. Affonso, não se poderam salvar.
E porém o Principe depois do desbarato que fez, alli onde acabou de recolher sua gente, esteve no campo em um corpo çarrado sem nunca mover atrás sua bandeira, a que muitos da batalha vencida d'El-Rei D. Affonso por seu bem e salvação se recolheram, com os quaes, e com outros que fóra do tempo necessario sobrevieram de Touro, refez uma grossa batalha, com que aquella noite ficou pacifico senhor do campo. No qual algum dos Reis, cuja era a querela e esperança de vencer, não aturou nem esteve; porque como disse tambem El-Rei D. Fernando não foi em pessoa propria na sua batalha, que venceu a El-Rei D. Affonso, mas como era pratico guerreiro, por vêr como as cousas de tamanha ventura sobcediam, apartou-se fóra em uma batalha, e quando logo vio vencidas e desbaratadas suas tamanhas e primeiras batalhas, pelas batalhas do Principe que eram menos em gente, crendo que assi o seriam as outras suas pelas d'El-Rei D. Affonso, foi aconselhado que se recolhesse como recolheo, e se foi a Çamora. Pelo qual sua gente achando-se no campo sem Rei, nem certo capitão que a regesse, com temor da batalha do Principe que viam refeita, não sendo bem certificados do destroço d'El-Rei D. Affonso, se refizeram tambem junto com ella em uma outra batalha de que uns e outros não se viam tanto como ouviam; porque a este tempo a noite era já casi çarrada, e todo o mal que de uma parte e da outra se fazia era sómente de gritas e tocar de trombetas e atabales que nunca cessavam.
Alli D. Vasco Coutinho, que depois foi conde de Borba, prendeu D. Anrique, conde d'Alva de Liste, que vinha de contra Touro reconhecer a batalha do Principe, não sabendo pela noite cuja era.
E alli um escudeiro que se dizia Gonçallo Pires, criado de Gonçalo Vaz Pinto, trouxe ao Principe a bandeira real d'El-Rei D. Affonso, que por força e como homem de bom coração a tomou a um Souto-Mayor, castelhano, que a levava, e o prendeu sobre sua menagem, a qual não foi aquelle dia tomada das mãos de Duarte d'Almeida, alferes pequeno, até que lh'as primeiro não deceparam com outras infindas feridas, que no rosto e em todo o corpo houve, de que escapou. E a tanto mal se estende o máo sobcedimento das cousas, que este alferes, a que tanta honra e riqueza após isto se devia, viveu depois aleijado e pobre, e não com galardão dino de tal serviço. Nem ao escudeiro da bandeira carregou muito a balança de sua satisfação; porque com a venturosa fidalguia e armas honradas, que por isso lhe deram, houve sómente cinco mil reis de tença, com que lhe foi forçado tomar a fouce e a enxada, por mais seguras e proveitosas armas do sustentamento de sua vida, com que sem mais bem nem favor, e com muita pobreza viveu e acabou.
E estando assi no campo juntas estas batalhas e ambas contrairas, a dos castelhanos por estar sem Rei e duvidosos de sua ventura, e por terem o recolhimento de Çamora mui longe, começaram entre si de ferver e se afiar mostrando claros sinaes de destroço se foram cometidos. E porém tomaram por conselho retraer-se e acolherem-se, sem cometer batalha nem peleja se lh'a não desse, e assi o fizeram, e sem algum recado e com muito desmando se acolheram a Çamora. Pelo qual achando-se o Principe só no campo, e sem receber em sua pessoa nem sua gente rota nem destroço, antes o tinha feito nos contrairos, houve-se por herdeiro e senhor da propria victoria.
E porque os Reis esperavam para mais claro conseguimento, sua determinação foi sobreser no campo, e não se partir d'elle tres dias. Mas o Arcebispo de Toledo que no mesmo campo era com elle, publicamente lhe disse que depois dos imigos partidos bem cumpria por os tres dias estar no campo tres horas continuas, a razão de hora por dia, por comparação que trouxe da Resurreição de nosso Senhor, que foi depois da morte tres dias não todos inteiros, mas porque tomou de tres dias tomando a parte por todo. E com este conselho que o Principe tomou do Arcebispo, como de pessoa tão principal, e no semelhante auto e cerimonias tão pratico e sabedor, depois d'estar no campo as tres horas e mais, sem parecer n'elle gente contraira, elle com repoiso e regrada ordenança abalou contra Touro. E ao entrar da ponte houve muita pressa; porque até sua chegada a entrada se çarrou a todos, e por sua ordenança entraram na cidade todos mui tristes e desconfortados, uns pelos filhos, parentes e amigos que não viam, nem sabiam se na batalha foram mortos ou feridos e presos, e todos pela dorosa privação d'El-Rei D. Affonso, que ali não viam, nem por então saberem d'elle novas.
O Principe pela incertidão de seu padre, crendo pois alli não parecia, que seria morto ou preso, foi sobre todos mais triste e anojado, e posto aquella noite em grande pensamento, e não menos o foi El-Rei onde estava, duvidando da vida e salvação do filho, de que a mór parte da desaventura não falleceu á Rainha que estava no castello, até o outro dia que o pae foi certificado da saude e prospera victoria do filho, e o filho da salvação e saude do pae acolhido em Crasto Nunho. Na qual fortaleza indo El-Rei tão só e desacorrido, o alcaide d'ella Pero de Mendanha, por nação fidalgo castelhano, e no amor e lealdade bom e verdadeiro português, o recolheu e lhe obedeceo com muita lealdade e firmeza, e em caso tão triste e tão averso para El-Rei, elle e sua mulher o agasalharam honradamente e confortaram com muito despejo, dando-lhe em suas fortunas por emxemplos d'outros mui grandes esperanças, até o outro dia, que com muita gente que o Principe mandou de Touro El-Rei tornou a elle seguramente.
CAPITULO CXCII
_De como o Principe se tornou a Portugal, e do que El-Rei D. Affonso fez por então em Castella_
Onde sobre conselhos que ácerca d'estes feitos El-Rei e o Principe tiveram, foi acordado que o Arcebispo de Toledo se fosse como foi a Tallavera e a suas terras, e com elle por sua segurança D. Garcia, Bispo d'Evora, o que foi cousa mui dificil e de assás perigos, pelas muitas terras de contrairos porque com tão pouca gente haviam de passar.
E como o Arcebispo ficou em salvo, o Bispo d'Evora com grande risco se veio a Portugal á frontaria de riba de Odiana, que lhe foi encomendada. E assi acordou que o Principe se tornasse a Portugal, o qual como era Principe bom e piedoso, depois de prover e remedear com mercês e visitações aos que de sua batalha foram presos e feridos, partio na semana maior de Touro, e veio dormir a Crasto Novo, fortaleza que estava por El-Rei seu padre, e ao outro dia passou a gente o rio em uma barca, e os cavallos e bestas a nado, por um porto que se diz Rico Váo, e de hi foi ter a Pascoa a Miranda do Doiro, e com elle o conde de Penella D. Affonso de Vasconcellos, e assi pouca gente; porque os mais grandes e senhores com todolos mais ficaram em Touro com El-Rei.
E ficando El-Rei D. Affonso em Touro, El-Rei D. Fernando veio logo cercar mui poderosamente Cantalapedra, dentro da qual muitos fidalgos e cavalleiros da côrte d'El-Rei D. Affonso, como desejosos de honra se lançaram.
Foi o cerco em todo bem apertado, em que era por capitão Bandarra, e depois á partida d'El-Rei D. Affonso para Portugal deixou Alonso Perez de Biveiro, casado com D. Mecia de Menezes, portugueza, e de Touro durando o cerco, foi El-Rei em pessoa lançar uma grossa cilada aos cercadores, e soltou corredores que foram dar no arraial, que apoz elles se soltou com tanto desmando, que se o duque de Bragança com outros ante tempo se não descobriram cairam os contrairos na cillada, e se fizera uma cousa muita assinada e de muita honra e serviço para El-Rei.
E n'este tempo sendo El-Rei D. Affonso certificado de um dia que a Rainha D. Izabel, de Madrigal onde estava se havia de ir a Medina, sahio de Touro aforrado com sós mil lanças sem carriagens, e foi secretamente dormir a Crasto Nunho, e de hi ao outro dia por encubertas que levou, se foi escondido lançar junto do caminho por onde a Rainha havia de passar, cuja gente sahindo já fóra de Madrigal á vista das batalhas d'El-Rei, essa que era fóra com pressa se tornou a recolher á villa, e outra alguma de dentro não sahio mais, por onde pareceu claro, que fôra aviso secreto que a Rainha d'alguma pessoa do arrayal d'El-Rei D. Affonso recebera, e com isto desaviado se tornou El-Rei a Touro, não esperando já nenhum bom effeito de sua empresa.
CAPITULO CXCIII
_De como se ordenou a ida d'El-Rei em França, e se veio a Portugal com a Rainha D. Joana_
E n'este tempo porque El-Rei sentia já bem que seu poder nem ajuda dos grandes de Castella, não lhe davam para sua demanda tão firme esperança como cumpria, forçado de um vivo desejo de sua honra, enviou por seus messegeiros requerer ajuda a El-Rei de França, que com El Rei D. Fernando como só Rei d'Aragão então não estava d'accordo, e tinha por meio de D. Alvaro d'Atayde feitas suas lianças com El-Rei D. Affonso, como só e verdadeiro Rei de Castella. E a certidão d'isto trouxe o dito D. Alvaro a El-Rei, estando em Touro. Pelo qual vencido principalmente de seu apetite, sem muita certidão do poder tão estranho e tão duvidoso como era o de França, desconfiado em todo do seu, determinou vir-se a Portugal e de hi passar logo em França, crendo que o remedio e ajuda para seu recurso, que tanto desejava, com sua ida e em sua pessoa se faria mais facil, e ainda se lhe daria maior. E que os inconvenientes que por ventura El-Rei de França pela guerra do duque de Brogonha poderia para isso ter, elle na confiança de seu mui chegado sangue os temperaria, com paz e assesego que entre ambos procuraria.
E como El Rei o determinou, assi o cumprio, e deixou nas outras fortalezas gente e capitães de recado, e em Touro gente de guarnição, e com ella por capitão o conde de Marialva D. Francisco Coutinho; porque a este tempo João d'Ulhoa a quem pertencia era fallecido, e os filhos que d'elle ficaram eram muito moços para tal encargo, a El-Rei casou o conde com D. Maria d'Ulhoa sua filha, a que deu em casamento a villa de Castel-Rodrigo, por morte de Vasco Fernandes de Gouveia que a tinha; porque sem filho barão ligitimo tambem falleceu em Castella estando em Touro.
E depois d'El-Rei prover as cousas de Castella como melhor pôde, se partiu com a Rainha na entrada do mez de Junho, e seguramente veio a Miranda do Doiro onde teve a festa do Corpo de Deus, na qual com a cerimonia devida fez primeiro conde d'Abrantes Lopo d'Almeida, que era Vedor da Fazenda, e lh'o tinha bem merecido. E de Miranda se foi a Rainha á cidade da Guarda, e com ella o conde de Villa Real, que era fronteiro mór d'aquella comarca, e o Bispo de Vizeu D. João d'Abreu. E da Guarda se foi a Coimbra, onde o Principe se veio com ella ajuntar, e a acompanhou até á villa d'Abrantes, onde depois esteve muito tempo, como ao diante se dirá.
E El Rei se foi de Miranda á cidade do Porto, onde com elle se ajuntou logo o Principe seu filho, e a Senhora Infante D. Beatriz com todolos grandes e senhores principaes do reino. E d'alli foi enviado Pero de Sousa notificar a El-Rei de França a ida d'El-Rei D. Affonso, que de todo hi foi determinada. E sendo já concordado que por mór brevidade da viagem fosse pelo mar do Ponente e saisse em Bretanha, mudou-se o acordo para o mar de Levante; porque pelo outro mar Occeano poderia d'El-Rei D. Fernando receber maior contradição, por rasão da frota de Galliza e Biscaya, com que seria mais poderoso.
CAPITULO CLXIV
_De como El-Rei partio de Lisboa para França, e da maneira em que foi até se vêr com El-Rei de França_
E com esta determinação se partiram, e ajuntaram todos a Lisboa, onde XVI navios para a embarcação d'El-Rei foram logo prestes, dos quaes se aparelhou uma urca para sua pessoa, em que embarcou no mez de Agosto com dois mil e dozentos homens, em que iam quatrocentas e oitenta pessoas a que em terra eram ordenadas encavalgaduras, álem d'outra gente de pé, e com vento de viagem arribou em Lagos, onde Cullam, famoso cossairo francês certificado já das amizades e lianças d'estes reinos com França, andando poderoso no mar, veio alli fazer reverença a El-Rei, que o recebeu com grande honra e mui graciosamente, e além do assinado serviço que o dito Cullam lhe tinha já feito, em ser em sua ajuda no descerco de Ceuta, quando então dos castelhanos e dos mouros, fôra juntamente cercada como se dirá, ainda ficou de concerto andar d'armada em seu favor contra Castella, para que se ajuntou com Pedro de Tayde, fidalgo português, que com a náo grande que se dizia a Lopiana, e com outros navios, de mandado d'El-Rei andaram tambem d'armada. Os quaes todos logo de hi a poucos dias sendo El-Rei D. Affonso em França, ao Cabo de S. Vicente aferraram quatro carracas de Genoa, e sendo já por força entradas, em uma se acendeo fogo em um barril de polvora, em que deu um tiro de fogo, de que todas as náos e carracas que eram encadeadas arderam, com mortes e perda de muita gente, em que o dito Pedro de Tayde tambem morreu.
E de Lagos passou El-Rei logo a Ceuta, que poucos dias havia que sendo n'ella capitão Ruy Mendes Ribeiro, como nobre fidalgo e d'esforçado coração a livrara de duas grandes afrontas e perigos em que foi posta; porque juntamente foi cercado e combatido de castelhanos pela Almina, e dos mouros pela Aljazira, e de todos com sua honra e grande louvor o dito Ruy Mendes se livrou, com quanto o dito Ruy Mendez do cerco dos castelhanos era muito mais afrontado, sendo dos mouros comettido que com segurança sua para que lhe dariam seguras arrefens, lhes désse entrada por dentro de Ceuta para darem nos ditos castelhanos e os matarem e captivarem, e elle seria livre do cerco, elle dito Ruy Mendes, como esforçado cavalleiro e bom christão, por não minguar em sua fé e esforço o não consentio. O que El-Rei em pessoa lh'o agradeceo e estimou como era razão.
E de Ceuta partio El-Rei, e sendo no mar através de Colybre, que era de França, com proposito d'aportar em Marselha ou aguas mortas; porque o vento não terçou bem sahio todavia e desembarcou em Colybre, d'onde despedio os navios em que fôra de Portugal, e ali estava um capitão d'El-Rei de França, de que El-Rei foi logo bem recebido, e depois provido de bestas e cousas que cumpriam para ir, como foi por terra a Perpinham. Onde El-Rei foi com grande honra e estado recebido, e elle e todolos seus bem aposentados de graça, e por reverença e acatamento de sua pessoa real, o capitão e governadores da villa mandaram soltar e abrir os carceres a todolos presos que na cidade havia. E assi se fez depois nos outros lugares de França por que El-Rei passou.
De Perpinham enviou El-Rei D. Francisco d'Almeida a El-Rei de França notificar-lhe sua chegada, e assi de sua ida logo a elle, para que hi tambem se proveo para El-Rei e para os de sua companhia de bestas para encavalgaduras de suas pessoas, e carretas para fardagem, com que seguio seu caminho á côrte d'El-Rei de França por Narbona e Mompiler e Befers e Nimis, todas grandes cidades e villas de França em Languidoque.
E na cidade de Nimis deixou El-Rei a estrada romam, que vae a Avinhão, e tomou outra da ponte de Santisprito, caminho da cidade de Lião. Na qual por razão de corrução d'ares morbosos e pestenciaes de que estava perigosa não entrou, e passou com sua gente adiante. E ante que a ella chegasse, no caminho lhe veio fazer reverença o duque de Borbom, acompanhado de grandes homens. E assi foi festejado e agasalhado em gram perfeição em casa de Monseor de Sam Valher, que fôra casado com uma filha bastarda d'El-Rei de França.
E passando El-Rei D. Affonso por Lião, e chegado a um lugar que dizem Ruana, recebeo o primeiro recado d'El-Rei de França, fazendo-lhe saber que com sua boa ida era mui alegre. E assi chegou á nobre cidade de Burges em Berrí, que é na doce França, onde repousou alguns dias, nos quaes de mandado d'El-Rei de França vieram a El-Rei D. Affonso para lhe fazer companhia um senhor e um Bispo de Una, com que para prazer foi vêr algumas cousas, em especial Moris Sagevia, fortaleza que o duque de Berrí fez no canto de duas ribeiras, a mais gentil que ha em toda França.
E ao outro dia foi á villa, que na historia antiga dizem se chamava Ageosa Guarda, onde agora está uma grande e devota Abadia de S. Bento, cujo Abade mostrou a El-Rei um mui rico e antigo livro da Historia de Lançarote e Tristão, por ventura mais verdadeira do que cá se magina.
CAPITULO CXCV
_Da primeira vez que El-Rei D. Affonso se vio com El-Rei de França em Tors em Toraina_
El-Rei de França era na cidade de Tors em Toraina, onde quiz que El-Rei D. Affonso o visse e fosse bem aposentado. E depois de ter certo seu aposentamento, El-Rei de França com uma fingida romaria, só se partio de seu aposentamento que é junto da cidade, e leixou n'ella toda sua côrte com o seu Minham Monseor d'Argentam, para elle com os Regedores da cidade fazerem como fizeram a El-Rei um mui solemne recebimento, entregando-lhe ás portas com palavras de grande veneração e muito acatamento as chaves d'ella.
E El-Rei de França passados cinco dias veiu-se ao dito seu aposentamento, que dizem Plesirdubues, e d'ali como de caminho determinou vir vêr El-Rei D. Affonso á sua pousada. O qual sabendo já isto, com os senhores de seu conselho praticou a maneira de cortesia que em seu recebimento teria. E accordou-se em todas razões, e principalmente consirado o tempo e necessidade d'elle, que fosse a maior que guardado o seu estado se podesse fazer, e fosse a que lhe ensinasse a hora e tempo em que se vissem ; porque entre os Reis não se podia dar certa fórma de palavras nem cerimonias, que entre si dissessem e fizessem em semelhantes autos.
E avisado El Rei D. Affonso do dia em que El-Rei de França o quereria ir vêr, vistio-se em vestiduras onestas e reaes com proposito de a pé sahir e o tomar na rua, ou ao menos nas escadas dos paços, mas El-Rei de França de reavisado, pelo n'isso impedir mandou a El-Rei diante dois seus parentes grandes senhores e mui gentis homens, os quaes em El-Rei abalando para sair, cortezmente o detiveram, dizendo que repousasse; porque El-Rei seu Senhor não viria tão asinha, e sendo El-Rei avisado que El-Rei de França era já na rua, em cometendo para sair, tambem o detiveram. E finalmente em querendo El-Rei forçar seus detimentos, elles com muito acatamento lhe pediram, que d'onde estava em sua camara se não movesse; porque a elles não cumpria elle o fazer d'outra maneira.
E El-Rei porque entendeu que seria ordenança praticada, folgou de lhes comprazer, e porém como elles entenderam que El-Rei de França era entrado na salla, deram logar que El-Rei D. Affonso saisse, e ambos os reis se ajuntaram no meio da salla.
E El-Rei de França vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapeo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de máo pano, e cinta uma espada d'armas muito comprida, com a guarnição de ferro limada, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoço uma beca de chamalote amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas entretalhadas de muitas côres. E ambos os Reis com os barretes nas mãos se abraçaram inclinados os giolos mui baixos. E tendo El-Rei de França assi abraçado El-Rei, com os olhos no Ceo disse que dava muitas graças a Nossa Senhora e a Monseor Sam Martim, porque a um tão prove homem como elle era fizeram tanta mercê. Que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um tamanho Rei, que elle sempre desejara tanto de vêr e ter por irmão e amigo, e que porém elle não cresse que era vindo em reino estranho, mas no proprio seu; porque assi se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como nos de Portugal.
E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual sobre quem se cobriria e entraria primeiro houve entre ambos grandes e louvados debates. E emfim El-Rei D. Affonso se deu por vencido, dizendo que havia por melhor ser-lhe bem mandado, que cortês.
CAPITULO CXCVI
_Do que El-Rei de França e El-Rei D. Affonso entre si acordaram para execução de sua ida_
E como entraram, depois de El-Rei de França perguntar a El-Rei por sua disposição, e tocar em muitas cousas de prazer, em conclusão disse, que por quanto as cousas da guerra sobre que era seu principal motivo requeriam muita pressa e não padeciam dillação, que logo ambos com o conde de Penamacôr seu camareiro-mór se apartassem, como apartaram todos tres.