Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)
Chapter 6
E a opinião, ou mais certa verdadeira sentença dos sesudos e bons guerreiros, foi que se El-Rei D. Affonso se soubera approveitar da bonança n'este tempo, e sobre este desfavor e quebra d'El-Rei D. Fernando o perseguira, e por cerco ou batalha o apertara, que de necessidade d'esta vez o lançara fóra de Castella, onde sem resistencia na maior parte ficara Rei pacifico.
A mulher de Rodrigo d'Ulhoa vendo-se já desesperada de socorro, soffrendo primeiro muitos combates e minas, e resistindo sempre como boa e virtuosa dona, com segurança de sua pessoa e fazenda fez partido, com que entregou o castello a El-Rei, que o deu logo ao dito João d'Ulhoa seu irmão d'elle.
CAPITULO CLXXX
_De como El-Rei D. Affonso se foi a Çamora, e de hi querendo ir descercar o castello de Burgos tomou Baltanas, e prendeo o conde de Benavente_
E n'este tempo João de Porras, cavalleiro principal de Çamora, andava em trato de fazer vir a dita cidade a serviço e obediencia d'El-Rei D. Affonso; porque o Marechal que tinha a fortaleza por El-Rei D. Fernando, elle tambem o commovia, porque era seu genro.
E El-Rei D. Affonso fez João de Porras vedor de sua casa, por prazer e consentimento de Pero de Sousa, que o dito officio tinha. E como El-Rei foi do trato de Çamora seguro e certificado, se foi logo a ella com a Rainha, onde foram em tudo com muitas cerimonias e grandes triunfos recebidos e obedecidos. E alli era já o Arcebispo de Toledo com El-Rei D. Affonso. E porque tinha o castello de Burgos um cavalleiro chamado Sarmento, em que era estreitamente cercado por El-Rei D. Fernando, cujo contrairo estava, determinou El-Rei D. Affonso de o ir descercar e prover. Pelo qual partio logo assaz poderoso de Çamora, onde leixou a Rainha, e por sua guarda Lopo d'Almeida, e por sua aia a Camareira Mór, D. Briatiz da Silva sua mulher.
Foi-se El-Rei a Arevallo, onde por calmas e muitas fruitas, e pós, e outro máo trato que alli houve lhe morreu muita gente, porque esteve alli muitos dias recebendo avisos dos de Burgos, e consultando se cometeria, ou como cometeria o dito descerco; porque para tudo havia muitas razões e mais duvidas. E finalmente acordou descercal-o, para que partio e foi a Pena Fiel, que era do conde d'Oronha, onde tambem por receios e dificuldades, que recreciam maiores, sobreseve alguns dias, nos quaes foi avisado que o conde de Benavente sabendo de sua ida a Burgos, se viera com quatrocentas lanças á Villa de Baltanas, oito legoas de Pena Fiel, para d'alli lhe dar rebates, e com dano dos d'El-Rei D. Affonso fazer de sua honra, pelo qual El-Rei determinou de secretamente o ir cercar e tomar por força, e para maior dessimulação d'isso, temendo de ser o conde de Benavente avisado, mandou diante e de dia por outro caminho desviado o conde de Penamacôr com a gente de sua guarda, e em sua companhia Ruy Pereira da Feira, e D. Diogo de Crasto.
E como foi de noite partio El-Rei por o caminho direito de Baltanas, e porém na mesma noite vieram-se ajuntar não longe da villa a que iam, d'onde o conde de Penamacôr se adiantou com seus ordenados, e em querendo amanhecer se pôs em corrida, e chegou com pouca gente sobre a dita villa, além da qual por se o conde não sair, se pôs logo em batalha, a que o conde de Benavente com quanto na villa tinha mais gente, crendo que era cillada não quiz sair, e se pôs em ordenança de defesa, avisando do caso outra sua gente que era acerca, por dois de ligeiros cavallos, que enviou para logo lhe socorressem.
E porém se o conde de Benavente ante da chegada d'El-Rei que tardou muito, dera no conde de Penamacôr, claro é que o desbaratara, e tivera d'elle certa victoria; porque tinha mais gente e mais folgada, e assi os cavallos e muitos espingardeiros e artilharias. Mas El-Rei sendo duas horas de sol chegou com muita gente, e assi com escadas e artilharias sobre a villa, e depois de comerem, mandou fazer signal de combate, que de todalas partes se deu á villa mui rijo e mui afrontado, em que a gente toda era a pé, salvo El-Rei que de uma parte para a outra andava a cavalo. E leixou de fóra a cavallo D. Troillos, filho do Arcebispo de Toledo com gente d'armas, e ginetes para segurar rebates e torvações do campo.
O conde de Benavente como era gram senhor e esforçado cavalleiro, tinha comsigo muita e boa gente d'armas, e assi espingardeiros e outra muita artilharia, com que fez muito dano aos d'El-Rei, e entre os mortos que de sua parte alli foram, foi o principal D. Alvaro Coutinho, filho maior do Marichal, que entre as ameias subindo por uma escada foi morto. E porém a villa foi com tanto aperto combatida e entrada, que o conde de Benavente por segurar a vida, constrangidamente a veio em pessoa pedir a El-Rei de cima do muro, e El-Rei per si mesmo em viva voz lh'a outorgou, com que se deceo e deu á prisão. E a villa foi logo entrada e roubada toda, de que se houve muito e rico despojo.
Dormio El-Rei alli aquella noite, e ao outro dia alegre e contente se tornou a Pena Fiel, e trouxe preso o dito conde, cuja guarda encomendou ao conde de Penela, que o teve emquanto não foi delivrado.
CAPITULO CLXXXI
_De como El-Rei tomou Cantalapedra, e se tornou a Çamora_
Tornou El-Rei a ter conselho sobre o socorro do castelo de Burgos, e como quer que para isso pelo bom sobcedimento de Baltanas tinha bom tempo e disposição, foi dos portuguezes aconselhado que o não fizesse, e tornou-se a Arevallo já no fim de Setembro. E d'alli por trato que já achou concertado enviou o conde de Penamacor, e Ruy de Mello, e outros fidalgos e cavalleiros a escalar e tomar como tomaram de noite a villa de Cantalapedra sem algum perigo nem resistencia. E El-Rei sobreveio logo com toda a outra gente, para se se pozera em defesa a combater e tomar por força como a de Baltanas.
Houve-se El-Rei nobre e piadosamente ácerca das pessoas e fazendas dos lavradores da villa. E leixou hi logo por capitão o dito Ruy de Mello, e tornou-se a Arevalo, e depois quando por hi tornou caminho de Çamora, onde veio invernar, leixou por capitão Bandarra, irmão do Bispo de Coimbra.
CAPITULO CLXXXII
_Do cuidado que o Principe D. João tinha em governar e defender Portugal, e como_
Sobre o Principe que tornou a Portugal carregaram muitos cuidados; porque não sómente sobre seu justo juizo pendeo a governança do reino nas cousas da justiça, mas ainda muito mais sobre seu coração e esforço a defesa d'elle, nas afrontas da guerra. A qual pela ausencia d'El-Rei D. Affonso seu pai, que levou comsigo a frol da gente e armas do reino, crecia e se acendia muito nos estremos d'elle com roubos, mortes, fogo e sangue, e com entradas de gentes contrairas, a que o Principe de noite e de dia, e em armas sempre vestido socorria e resistia com muita viveza e trabalho, não como Principe moço e novel, mas como ardido e velho cavalleiro, que nos trabalhos e afrontas por longos tempos fôra esprementado, e tanto era mais de louvar, quanto os imigos sendo mais, e elle em todo com menos possibilidade para os contrariar, não sómente muitas vezes defendeo em pessoa os reinos porque esperava, mas ainda os estranhos offendia e guerreava continuamente por muitas maneiras.
E n'este mesmo anno com quanto pareceu que El-Rei D. Affonso levou do reino tanto dinheiro, que por muito tempo lhe podera soprir, porém as despesas de soldos e outras necessidades sobrevieram em tanto crecimento, que a El-Rei conveio socorrer-se aos dinheiros dos Orfãos de seus reinos, e a outros muitos emprestidos particulares, e por seus officiaes foram logo tirados e levados a Castella. A cuja paga O dito Principe depois que reinou, por descargo d'alma de seu pai, como bom e piadoso filho satisfez quanto pôde com muito cuidado e amor.
CAPITULO CLXXXIII
_De como o principe cercou a villa d'Ougela, e a tomou, e da morte de João da Silva_
N'este mesmo anno no mez de Junho estando o Principe em Extremoz, Galindo, cavalleiro castelhano, e na extremadura de Castella bem aparentado, tomou salteada e por máo recado dos visinhos d'ella, a villa d'Ougela junto com Campo Maior, sobre que o Principe com a mais gente de pé e cavallo que foi possivel, e com algumas artilharias logo acudiu, e a cercou, em cujo cerco era do Principe capitão principal João da Silva seu Camareiro Mór, nobre fidalgo, e de mui conhecido e esprementado esforço.
E finalmente foi a villa assi afrontada, que aos contrairos que a tinham conveio com risco de suas pessoas partirem-se d'ella e livremente a leixarem. E em vindo o dito Galindo já sobre este concerto, com assaz de gente para recolher os seus que saissem do cerco, sahio a elle o dito João da Silva, e vindo cada um d'elles diante da sua gente de noite, pessoa por pessoa, por acertamento se toparam junto com a dita villa, e d'encontros tão mortaes se encontraram, que d'elles sós, falsadas as armas d'ambos, ambos morreram sem outro dano algum se receber de cada uma das ditas partes, e certo para um reino e para o outro a morte de taes dois homens, por sua nobreza e valentia foi muito sentida e triste, mas para suas honras e memorias assaz honrada e muito de louvar.
CAPITULO CLXXXIV
_De como o Principe indo vêr-se com El-Rei D. Affonso seu padre, foi por elle avisado da traição da ponte de Çamora, e se tornou de Miranda do Doiro_
El-Rei D. Affonso como disse veio invernar a Çamora, d'onde muitos portuguezes, e os mais sem vontade d'El-Rei se vieram a este reino, o qual desejoso de vêr o Principe seu filho, e ter com elle conselho sobre cousas que em tantas necessidades a seu estado e honra cumpriam, lhe escreveu, que logo o fosse vêr a Çamora, o que o Principe depois de prover as frontarias e cousas do reino com muita diligencia e obediencia logo cumprio. E sendo já em Miranda do Doiro aforrado, para d'ali com gentes d'El-Rei entrar seguramente, foi de mandado d'El-Rei avisado por o Chicorro, capitão dos ginetes que passou o Douro a nado, que se volvesse por causa da traição da ponte de Çamora, que foi brevemente n'esta maneira.
CAPITULO CLXXXV
_De como foi a dita traição, e da maneira que El-Rei D. Affonso sobre isto teve_
A dita ponte tem duas torres, uma na entrada da cidade, de que era alcaide um Pedro de Mazaregos, e outra da outra parte, que tinha um chamado Valdes, seu cunhado, dos quaes El-Rei fôra já avisado que se segurasse, porque contra seu serviço tratavam com El-Rei D. Fernando. O que El-Rei crendo que eram suspeitas falsas que d'elles lhe davam, não o quiz remedear.
E no dia em que El-Rei havia de Çamora mandar a gente pelo Principe, foi certificado pelo doutor Pareja, corregador da cidade, já de noite, como gente grossa d'El-Rei D. Fernando sobre concerto da ponte era partida de Vilhalpando contra Çamora. E o trato era sabendo da vinda do Principe, que o leixassem com toda a gente meter e entrar na ponte, e que se levantassem contra elles, e cerrassem ambas as torres, e os matassem ou prendessem, e pela duvida que El-Rei D. Affonso contra os da ponte tinha já concebida, conveio sem mais esperar poer-se logo a cavallo. E sendo com elle o Arcebispo de Toledo e outros alguns, chegaram á ponte da parte da cidade, e mandou a Pedro de Mazaregos que logo abrissem a torre e lhe viesse fallar, o qual se escusou d'isso com taes palavras e mostranças, por que El-Rei e os que com elle iam, claramente conheceram ser traição. E como cousa já danada, logo assi de noite como iam sem mais outro acordado proposito, tentaram de por força tomar a ponte, mas pela forte resistencia e defesa que dentro houve, não poderam.
El-Rei e todolos outros mui tristes se volveram á cidade, que com repique do sino grande, e com dobradas vozes de «traição, traição», foi logo metida em temeroso alvoroço d'armas, e certamente consiradas bem as circumstancias de muitas cousas que n'aquella noite concorreram, ella geralmente a todos e em cada parte foi de grande temor e espanto; porque a todos era notorio haver traição, e mui poucos sabiam em que pessoas e de que maneira seria. E com este medo tão claro e segurança tão escura, assi trabalhavam de se salvar os castelhanos dos portuguezes, como os portuguezes dos castelhanos, sem haver de uns para os outros nenhuma certa fiança, até que foi manhã, que a todos fez certos da clara verdade.
CAPITULO CLXXXVI
_De como El-Rei combateu a ponte, e do que se seguiu, e como El-Rei D. Affonso leixou Çamora, e se foi a Touro_
E no dia seguinte depois de amanhecer El-Rei se pôs em armas, e todolos senhores principaes e fidalgos com elle para combate da ponte, e posto que com toda ardideza e perigo, com espingardas e tiros outros, e bestas e lenha, pez e fogo, á parte da dita ponte contra a cidade o deram mui aturadamente e sem algum medo, em fim o damno todo ficou com os d'El-Rei, a que com espingardas e tiros que de dentro furiosamente jogavam, lhe feriram muitos senhores principaes e fidalgos, e mataram alguns, de que os principaes feridos d'espingardas foram, o conde de Villa Real, e D. João de Lima, que depois foi bisconde, e D. Rodrigo de Castro filho do conde de Monsanto, e foi morto João Alvarez Pereira, page d'El-Rei, e outros, pelo qual vendo El-Rei a perda tão manifesta, e a esperança da victoria tão desesperada, afastou sua gente do combate, e se recolheu á cidade. Onde dos castelhanos que seguiam seu partido foi principalmente aconselhado que algumas pessoas suspeitas que n'ella houvesse mandasse sem armas lançar fóra, e elle pois bem podia, a mantivesse e a defendesse, e por alguma maneira não se saisse, e que o damno e perigo da ponte poderia levemente remedear, mandando logo fazer entre ella e a cidade um muro mais forte que a porta da mesma ponte, com que os da cidade se fariam mais fortes contra a ponte, que os da ponte contra ella, e mais que tinha a fortaleza certa e segura a seu serviço, que para sua segurança era um fundamento mui principal.
E finalmente a torvação foi em todos tamanha, que este tão são e seguro conselho nunca o quizeram entender, e se o entenderam não o quizeram obrar, porque El-Rei desconfiando já dos castelhanos e acostando-se ao conselho dos portuguezes, foi d'elles aconselhado que com a Rainha se saisse, e não se fiasse já dos de Çamora, que havendo vista d'El-Rei D. Fernando se sobre ella viesse, se volveriam contra elle, de que seria mui difficil elle e todolos seus escaparem, pelo qual se partio El-Rei e a Rainha caminho de Touro, onde estava João d'Ulhoa, que os recolheo com tamanha fé e lealdade, como era a desconfiança que muitos levavam de elle contra El-Rei e a Rainha fazer e usar do contrairo.
CAPITULO CLXXXVII
_Dos percebimentos que o Principe fez em Portugal para ir socorrer a El-Rei D. Affonso seu padre, e como entrou em Castella_
E tornando ás cousas do reino de Portugal, o Principe da traição cometida contra El-Rei seu padre foi muito anojado, e desejando de o ajudar e socorrer não sómente como bom e piedoso filho, mas como amigo poderoso e verdadeiro que era, volveu-se logo á cidade da Guarda, onde teve conselho em que se determinou dar-se socorro a seu padre de gentes e dinheiro do reino, quanto fosse possivel, e que o Principe fosse socorre-lo em pessoa. Em cumprimento do qual fizeram logo para gente apurações e percebimentos geraes, e para o dinheiro além do que se pôde haver das rendas do reino, se tomou por certa recadação toda a prata das egrejas e mosteiros, salvo a sagrada, callezes, custodias e relicairos, e assi por imprestidos de pessoas particulares se houve alguma somma de dinheiro. E não sem grandes dôres e gemidos do povo que o muito sentiam.
Cometeo o Principe e deu por autoridade d'El-Rei o inteiro regimento e governança do reino á Princesa D. Lianor sua mulher. E com ella ordenou e leixou pessoas d'autoridade e letras e bom conselho, com que nas cousas do reino se aconselhasse, e proveo as fronteiras de capitães, alcaides, e gentes como cumpria. E depois de feito isto, e ter sua gente prestes, partiu da Guarda no mez de Janeiro de mil e quatrocentos setenta e seis. E foi a Castello Rodrigo, e de hi entrou em Castella por villa de S. Fellizes, que por estar contra serviço d'El-Rei seu padre a combateo, e tomou por força, e foi toda roubada, e a leixou então por si, em que foram alguns mortos e muitos feridos, e de S. Fellizes foi junto com Ledesma, que com quanto era contraira deu ao arraial dinheiro, mantimento e provisões em abastança. E d'alli no fim do mez de Janeiro em tanto concerto levou sempre o Principe sua gente, que no caminho nunca recebeo rota nem recontro, até que chegou á cidade de Touro, onde El-Rei seu padre, depois de sair de Çamora, seguio e tratou em sua propria pessoa as cousas da guerra muitas vezes, mais como cavalleiro fronteiro, que como tamanho Rei, e tão poderoso como era.
CAPITULO CLXXXVIII
_De como El-Rei D. Fernando e a Rainha D. Isabel se apoderaram de Çamora, e poseram cerco ao castello_
El-Rei D. Fernando com a Rainha sua mulher vieram-se logo a Çamora, a que El-Rei D. Affonso com desejo de batalha foi dar vista duas vezes, sem haver entre elles peleja. E El-Rei D. Fernando tambem veio dar outra vista sem rota alguma entre elles, uma legoa de Touro. E depois vieram seus corredores a Touro, a que o conde de Penamacôr sahio, e lhes seguiu o encalço até junto com Çamora, d'onde sahio outra gente de refresco, que prenderam e feriram o dito conde, e assi prenderam e feriram outros fidalgos portuguezes. E porém El-Rei D. Fernando pôs logo cerco e estancias mui fortes ao castello da cidade, que era seu contrairo. E a determinação d'El-Rei D. Affonso era combater e romper as ditas estancias, e soccorrer á fortaleza. E o proposito d'El-Rei D. Fernando, a que tudo logo se revellava, era de lh'o resistir com todas forças e poder, e a um Rei e ao outro não era escondido que n'este só ponto de Çamora estava a esperança de todo o feito d'ambos; porque o que d'esta contenda ficasse com melhoria, essa d'hi em diante teria sempre nos debates de Castella, pois cada um de proposito ajuntava para isso todo seu poder e valia, e assi foi e se seguio como se dirá.
CAPITULO CLXXXIX
_De como El-Rei D. Affonso e o Principe cercaram Çamora da parte da ponte_
E o Principe em sua chegada a Touro foi d'El-Rei seu padre, e de toda a sua côrte altamente e com muito prazer e alegria recebido; porque n'elle estava toda sua e só esperança. E logo sem delação acordaram e quizeram poer em obra dar nas estancias, e ir descercar o castello de Çamora, mas porque da fortaleza e repairo das ditas estancias foram assim certificados que sem perda de toda sua gente ou a mór parte d'ella se não podiam combater, e em fim que o castello se não descercaria, El-Rei acordou por melhor ir poer cerco á ponte da outra banda do rio, onde sem algum seu risco o podiam ter, com affronta e necessidade d'El-Rei D. Fernando e dos da cidade.
E assim supitamente se cumprio; porque depois de leixar o duque e o conde de Villa Real em Touro em guarda da Rainha e da cidade, partiu El-Rei com sua gente, e foi assentar seu arraial nas hortas de junto com a dita ponte. E El-Rei e o Principe se alojaram no moesteiro de S. Francisco, e a ponte com baluartes e cavas foi de todas partes cercada, e assi continuamente combatida com pouco dano dos que eram dentro. E os do castello que eram por El-Rei D. Affonso, tambem á sua vista assi estavam, sem algum poder sair, nem d'elle receber falla, ajuda nem soccorro.
Em durando este cerco, em uma ilha que se faz no Doiro, foram da parte de Castella juntos por concerto de paz, o duque d'Alva, e o almirante, e da parte de Portugal o sr. D. Alvaro, e Ruy de Sousa, e o licenceado de Cidá Rodrigo, para todos praticarem e consultarem, se entre os Reis se poderia tomar algum meio de paz e concordia, e em fim depois de muitos debates e praticas, cada um teve em tamanho preço seu partido, que se não pôde achar meio que parecesse bom para todos ficarem concordes.
CAPITULO CXC
_De como se ordenou a batalha dos Reis entre Touro e Çamora_
E passados alguns dias vendo El-Rei D. Affonso o pouco que no cerco aproveitava, e o muito trabalho e dano que sua gente recebia, especialmente não se podendo prover a grande mingoa de mantimentos, que dava causa sua gente mingoar, e a dos contrairos acresentar-se cada vez mais, a uma sexta feira primeira de Março de mil quatrocentos e setenta e seis annos, mui cedo pela manhã, El-Rei de Portugal alevantou secretamente e de supeto seu arraial para a cidade de Touro, e porque sabia que El-Rei D. Fernando havia de sahir como sahia após elle, teve-se n'isso para segurança de tudo mui bom recado.
E porém a gente contraira assi como sahiu pela porta da ponte fóra, assi sobreseve e não seguio El-Rei D. Affonso, e fez corpo até juntamente ser toda recolhida fóra da ponte, receando que em outra maneira indo afiada, fazendo El-Rei D. Affonso volta sobr'ella se despunham a grande perigo e destroço, o que deu causa ser El-Rei D. Affonso com sua gente já mui alongado, quando seus contrairos começaram de mover contra elle, o qual sendo a duas leguas de Çamora, adiantou-se pelo fio a reter sua gente, que a Touro se recolhia com tenção secreta de aquella noite dar de salto em seiscentas lanças d'El-Rei D. Fernando, que sob a capitania do duque de Villa Fremosa, seu irmão bastardo, estavam em Fonte Sabugo, mas o Principe que por sua vontade e sem necessario constrangimento quiz esperar e dar a El-Rei D. Fernando a batalha, avisou logo d'isso a El-Rei seu padre, que não descontente d'isso chegou já ao campo junto com Touro, onde a batalha se deu, e foi a tempo que as batalhas d'El-Rei D. Fernando passavam já um porto de uma pequena serra que hi a cerca estava, onde o conde de Loulé em voltas que fez foi ferido, e se foi a Touro.
E El-Rei D. Affonso mui contente e alegre de não negar a batalha, para que por um trombeta e arauto d'El-Rei D. Fernando era já desafiado, com quanto tinham muito menos gente, porém elle e o Principe seu filho fizeram rostro para lh'a dar com sua gente, de que muita era a Touro já recolhida, e outra muita mais ficara na dita cidade com a Rainha e com o duque e conde de Villa Real como se disse.
E sendo já o tempo mui curto para El Rei e o Principe concertarem e repartirem sua gente em batalhas, como para tão chegada necessidade cumpria, vendo as d'El-Rei D. Fernando já mui acerca e chegar-se com muita pressa, fizeram logo de toda a gente não mais de duas batalhas.
A primeira e de maior numero foi a d'El-Rei D. Affonso, que com sua bandeira real se pôs acerca do rio ao encontro da batalha em que era a bandeira real, mas não a pessoa d'El-Rei D. Fernando, o qual por se segurar como prudente dos revezes da fortuna em taes tempos, depois de leixar sua batalha em ordenança, e encomendada sua bandeira a bons cavalleiros e capitães, tornou-se atraz onde na reçaga ao tempo do encontrar esteve em uma batalha pequena.
E a segunda batalha de menos gente, e porém cortezã e mui limpa foi a do Principe, que com sua bandeira se pôs affastado á mão esquerda d'El-Rei seu padre, um grande pedaço ao encontro de duas grandes batalhas que contra a sua vinham ordenadas, e porque o Principe foi aconselhado que tambem mandasse repartir a sua em outras duas batalhas, mandou logo apartar de si contra o pé da serra com gente da sua guarda, Fernão Martins Mascarenhas, seu capitão dos ginetes, com o qual porque em sua batalha não havia tanta gente como se requeria, o Principe encomendou a Gonçallo Vaz de Castello-Branco e a Ruy de Sousa, que com sua gente que era muita e mui boa se ajuntassem, como logo ajuntaram com Fernão Martins, e após elles porque cria que havia entr'elles algum desconcerto e competencia sobre a capitania da gente, enviou logo a D. Pedro de Menezes, que depois foi conde de Cantanhede, com que se refez uma boa batalha.
CAPITULO CXCI
_De como romperam as batalhas, e as do Principe venceram as d'El-Rei D. Fernando, e a d'El-Rei D. Fernando venceu a d'El-Rei D. Affonso, que se recolheu a Crasto Nunho, e do mais que se seguiu até fim da batalha_