Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)

Chapter 5

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E porque o conde D. João não tinha filhos, e por sua tão honrada casa, por fallecimento de legitima sobcessão não ficar distinta ou minguada, El-Rei em galardão de sua morte, e por sua vida e memoria para sempre viva, fez conde de Marialva D. Francisco Coutinho seu irmão, que este titulo e mercê aos Reis de Portugal e seus reinos sempre bem servio e mereceo. E assi fez conde de Monsanto a D. João de Castro, filho do dito conde D. Alvaro. E edificou a dita misquita em casa de oração da avocação de Nossa Senhora, Santa Maria da Asumção; porque n'aquelle dia partio de Lisboa para tomar a villa, e em tal dia partio El-Rei D. João seu avô, quando tomou a cidade de Ceuta, e em tal venceu a batalha real, e em tal dia falleceu, e em tal dia nasceu.

CAPITULO CLXVI

_De como Mollexeque vinha socorrer Arzila, e fez pazes com El-Rei D. Affonso_

E n'esta villa foram tomadas e captivas duas mulheres e um filho de Mollexeque, Senhor d'Arzila, gran senhor entre os mouros, que depois foi Rei de Fez; e porém a este tempo que El-Rei chegou sobre Arzila, elle era em Fez guerreando um Marim, que governava o Rei do dito reino, por cuja morte ficou Rei. E sendo d'isso certificado, partiu logo a gram pressa assaz poderoso, para soccorrer a villa se fosse possivel, e em Alcacer Quibir foi certificado da expunação e entrada da villa, e estrago e captiveiro de suas mulheres e filhos, e de todolos mouros d'ella, d'onde enviou a El-Rei sua embaixada, cuja conclusão foi: Depois de ambos partirem aquellas terras, segundo os antigos termos de suas cidades e villas d'Africa, requeriam desejar com elle paz ou tregoa, que com seu temor e grande necessidade lhe pedio, e para isso lhe desse segurança para em pessoa lhe vir fazer reverencia, e com elle se concertar, do que a El-Rei muito prouve, e sobre firmes seguranças que lhe enviou, o dito Mollexeque veio com trezentos de cavallo a tiro de bombarda da dita villa.

E porém elle com receios de cautellas e suspeitas de mouros, com quanto El-Rei por dobrar na segurança lhe tornou a enviar sua direita monopla d'armas, não quiz a suas vistas chegar. E d'ali porém se concertaram, em que por contrato escripto tomaram concordia, sobre os termos e logares que a um e a outro ficariam, de que arrecadassem suas pareas e tributos. E assentaram tregoa por vinte annos que El-Rei lhe deu, a qual sómente nas terras chãs se entendesse; porque sem quebramento d'ella a cada um ficava livre faculdade para do outro poder tomar e conquistar seus logares cercados; e d'ali se tornou Mollexeque.

E El-Rei como quer que d'outros senhores e grandes homens fosse para a capitania e governança da dita villa requerido, fez capitão d'ella juntamente com Alcacere, que já aos mouros tinha tomado, a D. Anrique de Meneses, conde de Valença, a quem publicamente disse muitas virtudes e merecimentos para isso, que faziam todos por muita sua honra e louvor.

CAPITULO CLXVII

_De como El-Rei foi certificado que os mouros de Tangere tinham leixado a cidade, e do que sobr'isso logo proveu, e de como se foi a ella, e de hi para o reino_

El-rei em provendo as cousas da villa que cumpriam, com fundamento de se volver para o reino, foi por dois mouros a gram pressa certificado que os moradores da cidade de Tangere esquecidos da grande fortaleza d'ella e de si mesmos, principalmente temendo que a mortindade e estrago de Arzilla, de que por uma velha segundo se disse, foram avisados, não viesse tambem sobre elles, a tinham desamparada de todo. A qual leixaram vazia de suas pessoas e fazendas, e cheia de muito fogo, que as casas e reliquias d'ella sem proveito dos christãos se destruissem e queimassem.

E após a primeira nova d'esta tamanha e não crida gloria, vieram logo outros que sem duvida o confirmaram, pelo qual El-Rei com muita gente de pé, e com os de cavallo que foi possivel, enviou logo á dita cidade D. João, filho do duque, que depois foi marquez de Montemór, aos XXVIII dias d'Agosto, dia de Santo Agostinho, que segundo se affirma foi já bispo d'ella. E ao outro dia o dito D. João sem alguma contradição entrou na cidade, em que achou certas bombardas grossas, e muita outra artilharia e polvora, a que os mouros por desacordo e cegueira, ou por causa de mais seu damno não poseram o fogo, e o punham andando ás palhas e cousas pequenas das casas. Da qual cousa logo avisou El-Rei, que alegre de tão bem aventurado sobcedimento, sem muito trespasso com o Principe, e com a nobre gente de sua côrte, logo se foi á dita cidade, em que entrou já sem o ardente desejo de sua destruição e vingança, em que sempre vivia.

Foi-se logo á Mesquita que já era feita egreja, onde deu muitas graças e louvores a Deos, e envestio de Bispo da cidade o prior de S. Vicente de Fóra de Lisboa, que sendo da regra e Ordem de Santo Agostinho, por promoção e auctoridade apostolica era já d'antes intitulado Bispo d'ella, na qual esteve El-Rei XVII dias não se fartando de a vêr, dentro dos quaes proveo as cousas que para boa governança d'ella cumpriam. E fez e leixou por capitão e governador d'ella a Ruy de Mello seu Guarda Mór, que depois foi conde d'Olivença, pessoa no reino tão principal que o tal carrego, e outro de mais honra e mór perigo e peso, por muitas causas e razões mui bem merecia.

E assi ennovou e accrescentou El-Rei o titulo que tinha, e se intitulou nova e primeiramente por esta maneira: D. Affonso por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, d'aquem e d'além mar em Africa. E depois de fazer muitas terras chãs dos mouros suas subjeitas e tributarias, e notificar ao Papa e a todolos Reis e Principes christãos esta sua excellente victoria, partiu-se com o Principe para Portugal aos XVII dias do mez de Setembro, e logo ao outro dia seguinte foi no porto da cidade de Silves. De maneira que El-Rei em XXXIII dias contados do dia que partiu de Lisboa até este, começou e acabou prosperamente estes tamanhos feitos, de que Deus foi muito servido, e seu estado e nome por todo o mundo mui accrescentado e louvado.

E os christãos d'Andaluzia não receberam por isso menos prazer que segurança, de que com festas para o mundo, e devotas procissões para Deos deram claros signaes.

E de Silves se foi logo El-Rei e o Principe por mar á cidade de Lisboa, onde foram com grande triunfo, e muitas festas e alegrias recebidos, o que todo tambem por todo o reino com a notificação e certeza da victoria por muitos dias se continuou.

CAPITULO CLXVIII

_De como a Infante D. Joana filha d'El-Rei foi metida no mosteiro de Odivellas, e de hi ao mosteiro d' Aveiro, e de outras cousas que El-Rei fez_

A Infante D. Joanna filha d'El-Rei estava a este tempo em Lisboa, com tão grande casa de donas e donzellas e officiaes como se fôra Rainha; e porque fazia sem necessidade grandes despezas, e assi por se evitarem alguns escandalos e perjuizos que em sua casa por não ser casada se podiam seguir, El-Rei por conselho que sobr'isso teve, logo no mez d'Outubro d'este anno a apartou, e em habito secular e com poucos servidores a poz no mosteiro d'Odivellas em poder da Senhora D. Filipa sua tia, em edade de XVIII annos. D'onde foi depois mudada para o mosteiro de Jesus de Aveiro. Onde sem casar com nome de honesta e mui virtuosa, acabou depois sua vida em idade de trinta e seis annos.

E n'este anno falleceu o Papa Paulo, e sobcedeu em Roma a cadeira de S. Pedro o Papa Sixto quarto, a que El-Rei mandou com sua obediencia Lopo d'Almeida.

CAPITULO CLXIX

_Foi feito primeiro conde de Penella D. Affonso de Vasconcellos_

N'este anno em chegando El-Rei d'armada, fez em Lisboa novamente conde de Penella D. Affonso de Vasconcellos seu sobrinho, o qual por sua nobre linhagem e singulares serviços e grandes merecimentos, aquella e outra maior dinidade, tinha já a El-Rei e ao reino bem merecida.

CAPITULO CLXX

_Tomou o Principe D. João sua casa_

E no anno seguinte de mil e quatrocentos e setenta e dois, tomou o Principe D. João sua mulher e casa na villa de Beja, onde era a Senhora Infante D. Briatiz, e d'alli se veio á cidade d'Evora.

CAPITULO CLXXI

_De como houve embaixadas e vistas entre El-Rei de Castella e de Portugal, e sobre que_

No qual anno, e assi no passado entre os Reis de Castella e de Portugal houve de uma parte e da outra muitas embaixadas, ainda sobre lianças e mudança de casamento d'El-Rei D. Affonso com a Princeza D. Joanna sua sobrinha; porque como El-Rei D. Anrique de Castella soube que o Principe D. João de Portugal era casado com a Princesa D. Lianor, e não podia já casar com a Princesa sua filha, e viu que a Infante D. Isabel sua irmã fôra contra seu prazer e auctoridade casada com El-Rei de Cecilia filho d'El-Rei D. João d'Aragão, mandou fazer d'isso autos solenes, em que com quanto pôde, por sua desobediencia a desherdou da herança de Castella. E procurou de casar a dita Princesa D. Joana sua filha com El-Rei D. Affonso, sobre o qual como disse, se passaram mui continuas embaixadas, e por meio de D. João Pacheco, Mestre de Santiago, se concertaram vistas, em que os Reis acompanhados de mui nobre gente se viram entre Elvas e Badalhoce. Ás quaes vieram outrosi embaixadores do dito D. Fernando Rei de Cecilia, e da Rainha D. Isabel sua mulher, para com evidentes causas impedir o effeito do dito casamento. E finalmente no caso e negocio intrevieram tantas duvidas, e com esperança de tantos males e divisões de reino a reino, que El-Rei de Portugal tendo sobr'isso muitas vezes conselho, nunca em vida d'El-Rei D. Anrique se acharam taes meios, com que parecesse razão elle aceitar e concordar o dito casamento. E tudo principalmente causava, ser a Rainha de Cecilia intitulada por Princesa de Castella, de que tinha a mór parte dos grandes e Senhores d'ella, em que o mal da guerra era tão certo como o bem da victoria duvidoso. E porém depois da morte d'El-Rei D. Anrique, El-Rei D. Affonso consentio no dito casamento, e entrou em Castella intitulado Rei d'ella, como ao diante se dirá.

CAPITULO CLXXII

_De como os ossos do Infante D. Fernando foram a estes reinos trazidos de Fez_

N'este anno sendo ainda em Fez os ossos do Infante D. Fernando, que lá falleceu em um santo captiveiro como atrás fica, como quer que a El-Rei D. Affonso por resgate e redenção das mulheres e filho de Mollexeque, que foram captivas em Arzilla lhe fosse prometida uma grande somma d'ouro, elle como Rei bom e piedoso denegou sempre todo outro partido e interesse, salvo que por ellas lhe dessem os ossos do dito Infante, que a este tempo eram em poder de Molley Belfagege.

E leixando muitas embaixadas e recados que sobre este concerto de uma parte e da outra se passaram. Finalmente o dito Molley Belfagege enviou a El-Rei a propria ossada do dito Infante, bem reconhecida por tal por Molley Belfaca seu filho moço, e por Diogo de Bairros Adail Mór, que a elle por este caso fôra algumas vezes embaixador. Os quaes por mar chegaram com ella a Restello, e do navio foi tirada e trazida com grande manificencia á cidade de Lisboa, e entrou pela porta de Santa Catherina, onde com solemne procissão foi recebida, e alli pelo priol de S. Domingos Mestre Affonso se fez um sermão para o caso mui conveniente e devoto, em que houve palavras de tanta piedade e compaixão, que commoveram as gentes a muitas lagrimas como se foram Endoenças.

E d'alli foram os ossos postos no mosteiro do Salvador, e de hi levados ao mosteiro da Batalha, e postos com devidas exequias em sua ordenada sepultura, na capella d'El-Rei D. João seu padre, onde segundo alguma clara evidencia, Deos por merecimentos do dito Infante, e em signal de sua bemaventurança fez alguns milagres. E certamente com a restituição da ossada d'este bemaventurado Infante, por justas causas e mui claras razões recebeu todo o reino prazer e alegria sem conto, e El-Rei dos seus naturaes e estranhos não menos honra, gloria e louvor que das prosperas expunações de Arzila e Tangere.

CAPITULO CLXXIII

_Do fundamento que El-Rei D. Affonso teve para entrar em Castella por morte d' El-Rei D. Anrique_

E no fim do anno de mil e quatrocentos setenta e quatro, El-Rei D. Anrique de Castella falleceu na villa de Madrid; foi seu corpo levado ao mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, onde na capella maior á mão direita jaz em sua real sepultura como parece, e da outra parte jaz a Rainha D. Maria sua madre.

Fez El-Rei D. Anrique seu solemne e acordado testamento, em que declarou a Princeza D. Joana por sua filha, e por Rainha herdeira dos reinos de Castella. E a El-Rei D. Affonso por governador d'elles, pedindo lhe finalmente que aceitasse a dita governança, e casasse com ella, o qual testamento foi logo trazido a El-Rei D. Affonso, que estava em Extremoz, no mez de Dezembro do dito anno de mil e quatrocentos e setenta e quatro, sobre o qual El-Rei logo teve grande e geral conselho, para que foram alli juntos com El-Rei e com o Principe todolos grandes e principaes do reino.

E o Principe desejando que El-Rei seu padre com esperança de acrecentar seus reinos de Portugal, aceitasse, e não se escusasse do casamento e empresa de Castela, tinha suas fallas e maneiras com esses principaes, a que revellava seu desejo, com que os commovia para que conselhassem El-Rei seu padre e o esforçassem para isso. Porque depois de sua morte, muitas vezes o Principe D. João seu filho sendo Rei, com aquella onestidade e reverença que devia, acusava a negligencia ou não bom conselho d'El-Rei seu padre; porque não censentira e aceitara os primeiros cometimentos dos casamentos de Castella, El-Rei D. Affonso com a Infante D. Isabel, e elle com a Princesa D. Joana, com que de uma maneira ou d'outra foram d'Espanha pacificos Reis e Senhores.

E porém o conselho do Arcebispo de Lisboa, que depois foi Cardeal, e do duque marquez de Villa Viçosa por causas muitas que allegaram, foi que El-Rei em tempos de tanta devisão, e com tamanho pendor contrairo como tinha, não devia entrar em Castella nem aceitar a empresa d'ella, e leixala aos naturaes que a quizessem favorecer e soster. Pelo qual ante de se tomar final assento, acordou El-Rei de enviar primeiro como enviou a Castella Lopo d'Albuquerque, Camareiro-Mór, que depois foi conde de Penamacor, a saber quantos e quaes eram os cavalleiros da valia da Rainha D. Joana, e concertar-se com elles, e tomar d'elles certidão d'obediencia para em sua segurança, se parecesse razão, El-Rei entrar em Castella. E o dito Lopo d'Albuquerque, foi principalmente aderençado a D. Affonso Carrilho, Arcebispo de Toledo, e ao marquez de Vilhena, e ao duque do Infantado, que então era marquez de Santilhana, e ao duque e duquesa d'Arevallo, e a outros muitos de sua parentella e valia. Os quaes a este tempo eram todos declarados por a dita Rainha D. Joana, de que trouxe a El-Rei autenticas certidões, e promessas de casando com ella o servirem e obedecerem como a proprio Rei de Castella.

CAPITULO CLXXIV

_Como El-Rei determinou todavia entrar em Castella, e dos requerimentos que logo enviou a El-Rei D. Fernando e á Rainha D. Isabel_

E com esta certidão com que o dito Lopo d'Albuquerque chegou a Évora, no Janeiro de mil e quatrocentos setenta e cinco, determinou El-Rei, pospostos outros muitos inconvenientes que com tudo se apontaram e se offereceram, todavia aceitar como aceitou a empreza, e sem escusa entrar em Castella, pelo qual mandou logo perceber os grandes e senhores, prelados, fidalgos, e cavalleiros, e gente outra de seus reinos, para na entrada do Maio logo seguinte serem em Arronches, por onde acordou d'entrar.

E d'alli El-Rei por conselho que para isso teve, ante d'outro proseguimento enviou Ruy de Sousa a El-Rei D. Fernando, e á Rainha D. Isabel, que em Valhadolid estavam em festas e justas reaes, notificando-lhe como por ser casado com a Rainha D. Joana filha legitima d'El-Rei D. Anrique, os reinos de Castella lhe pertenciam, requerendo-os e amoestando-os com as razões e protestações que n'isso cabiam, que se fossem dos ditos reinos e lh'os leixassem livres. A que os ditos Rei e Rainha, com outras razões que pareciam ser conformes a justiça e honestidade, responderam e outrosi requereram que elle não entrasse nos ditos reinos, que sómente a elles diziam que pertenciam. E em fim a determinação do feito ficou entre os Reis não a boas razões, nem justificação de Leis que apontassem, mas sómente a disposição e força das armas como se fez, e ao diante se dirá.

CAPITULO CLXXV

_De como El-Rei se foi a Arronches, por onde acordou d'entrar em Castella_

El-Rei se foi na entrada do mez de Maio a Arronches, e com elle o Principe seu filho, a que deu as provisões que cumpriam para inteira governança e regimento do reino de Portugal em que ficava, e assi outras declarações secretas como por via de testamento, em que quiz e declarou que todalas graças e doações, que durando esta empresa e necessidade de Castella a quaesquer pessoas fizesse, que passassem de dez mil réis de renda, não sendo aprovadas, consentidas, e assinadas juntamente pelo dito Principe seu filho, fossem de nenhum valor, como cousas por constrangimento e sem vontade outorgadas.

CAPITULO CLXXVI

_De como a este tempo naceu o Principe D. Affonso neto d'El-Rei_

Estando El-Rei já prestes para d'Arronches mover com todo seu arraial, veio a elle e ao Principe certidão, que a Princesa D. Lianor pario o Infante D. Affonso em Lisboa, a XVIII dias de Maio de mil e quatrocentos setenta e cinco. Com que todo o Reino mostrou geralmente muita gloria e alegria. E por seu nacimento declarou logo El-Rei, sendo caso que o Principe D. João seu filho em sua vida fallecesse, a tempo que elle mesmo Rei tivesse outro filho lidimo da Rainha D. Joana sua esposa com que havia de casar, que ao dito Infante D. Affonso sempre pertencesse e viesse a sobcesão dos reinos de Portugal, e que para isso fosse logo jurado e obedecido, como depois o foi com a devida cerimonia e solemnidade, de que para uma cousa e para a outra se outorgaram e fizeram provisões e escripturas autenticas.

CAPITULO CLXXVII

_Da gente com que El-Rei entrou em Castella, e em que ordenança ia_

E com a gente que a El-Rei veiu e com elle se ajuntou em Arronches, e com a do duque de Guimarães e do conde de Marialva, e de Ruy Pereira e d'outros fidalgos, que atalhando pela comarca da Beira se foram ajuntar com El-Rei já em Castella, se fez de gente numero certo, ao todo de cinco mil e seiscentos de cavallo, e quatorze mil homens de pé, todos bem armados e encavalgados, e providos d'artilharias, armas e tendas, e de todo o mais que para guerra pertencia, e tudo em gram perfeição. E com os que eram em Arronches partiu, e foi ter o primeiro arraial em campo á fortaleza da Codiceira já em Castella, e de hi a Pedra Boa, d'onde o Principe se despedio d'El-Rei seu padre, e se veiu a Portugal; porque até alli sempre foi despachando o que lhe cumpria.

E a ordenança da hoste e batalhas d'El-Rei iam n'esta maneira: diante ia logo Diogo de Bairros, Adail Mór com certos ginetes por descobridores. E após elle o marechal D. Fernando Coutinho, com guias e outra gente ordenada, por apousentador e assentador do arraial. E logo Vasco Martins de Sousa Chichorro, capitão dos ginetes d'El-Rei em sua batalha. A quem logo seguia o conde de Penamacôr, capitão da avanguarda d'El-Rei, após o qual seguia logo a carreagem.

E a batalha real com suas reaes bandeiras tendidas iam no meio, na qual El-Rei o mais do tempo ia. E porém ás vezes com certos ginetes andava provendo de batalha em batalha, trazendo sempre de trás de si nas mãos de um page um guião de sua divisa, que foi um rodizio de moinho com gotas d'agoa derrador espargidas, que tomara pela Rainha D. Isabel sua mulher. E na reguarda ia o duque por Condestabre; porque em caso que D. João seu irmão tivesse o nome e servisse o officio nas villas e causas judiciaes, porém sempre no campo a priminencia do officio ficou ao duque.

E além d'estas batalhas eram outras ordenadas ás allas da batalha d'El-Rei, em que iam de cada parte, D. Affonso conde de Faram, e D. Anrique de Menezes conde de Loulé, e D. Affonso de Vasconcellos conde de Penella, e o conde de Monsanto, e outros.

CAPITULO CLXXVIII

_De como El-Rei chegou a Prazença, onde publicamente foi jurado por Rei, e esposado com a Rainha D. Joana, e d'outras cousas_

E n'esta ordenança sem algum recontro nem rebate contrairo chegou El-Rei á cidade de Prazença, onde o já esperava a Rainha D. Joana. E com ella o duque e duqueza d'Arevallo, que eram senhores da dita cidade, e com elles o marquez de Vilhena e o conde d'Oronha, e outros muitos senhores, e pousou El-Rei com a Rainha dentro na fortaleza, onde por alguns dias houve grandes festas e prazeres, nos quaes se consultou a maneira do recebimento d'El-Rei com a Rainha, e seu alevantamento por Rei, o que se fez em um alto e mui rico cadafalso posto na praça da cidade, em que El-Rei e a Rainha ambos juntamente estiveram.

E alli depois de feita publicamente a solemnidade dos esposoiros, como em tal caso cumpria, logo com cerimonias de trombetas e reis d'armas em altas vozes foram pelos senhores que eram presentes, e com outros muitos com suas procurações, alevantados e jurados por Reis de Castella, e por taes lhes beijaram as mãos, e se tomaram d'isso publicos estromentos. E d'alli em diante se intitulou El-Rei D. Affonso, Rei de Castella e de Lião e de Portugal, etc., e chamou á Rainha esposa, com a qual então nem depois nunca consumou o matrimonio, por defeito de despensação que não tinha nem nunca houve. E por galardão do trabalho que Lopo d'Albuquerque tomara no concerto d'esta entrada e casamento, El-Rei o fez alli conde de Penamacôr.

E de Prazença fez El-Rei tornar D. João Galvão, Bispo de Coimbra, com sua gente por fronteiro da comarca da Beira, e Pero d'Albuquerque por capitão do Sabugal e Alfaiates.

CAPITULO CLXXIX

_De como El-Rei D. Affonso e a Rainha se foram á cidade de Touro, e como El-Rei D. Fernando veiu sobre elle com todo seu poder_

E feita consulta do mais que se faria, moveu El-Rei logo com a Rainha em arraial caminho d'Arevalo, em que foram sempre de noite e de dia com grandes resguardos de segurança, especialmente atravessando por terra d'Alva, onde com muita gente d'armas era o duque, que por obrigação de sangue que entre si tinham, sempre seguio a parte de El Rei D. Fernando.

Em Arevalo estiveram poucos dias, d'onde El-Rei se foi á cidade de Touro, por concerto que tinha de lha dar como deu João d'Ulhoa, dentro da qual El-Rei com toda sua gente se alojou. E em chegando se pôs cerco, e deram fortes combates ao castello da cidade que achara contrairo, em que a mulher de Rodrigo d'Ulhoa estava por El-Rei D. Fernando e a Rainha D. Isabel, que como Reis esforçados, e por darem de si bom exemplo aos que em tantas differenças bem os servissem, cometeram de vir socorrer e descercar o dito castello, e chegaram a meia legoa de Touro, de gentes e artilharias muito mais poderosos que El-Rei D. Affonso.

E assentaram seu arrayal ao longo do Doiro acima da cidade. Mas o cerco do dito castello estava em todo tão percebido e com estancias tão armado e afortalezado, que El-Rei D. Fernando por escusar no cometimento uma perda certa por victoria tão duvidosa, não quiz cometer o combate. E depois d'estar alli alguns dias, em que do conde de Marialva D. Francisco Coutinho, e de Diogo Fernandes d'Almeida, e do conde de Faram, e d'outros fidalgos e cavalleiros, El-Rei D. Fernando recebeo muitas vezes em sua gente e carriagens muito dano e perda, com rebates que estes de dia e de noite, como nobres e esforçados cavalleiros lhe davam, assi logo do arraial como depois ao alevantar d'elle, El-Rei D. Fernando como triste e anojado alevantou seu arraial e se foi a Valhadolid, com pouca esperança de conseguir o efeito de sua empresa; porque a gente por desfallecimento de dinheiro, que já não tinham, se partia d'elle, e do descerco de Touro, que não acabara nem cometera, deu causa que nos corações dos castelhanos enfraquentou muito seu partido.