Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)
Chapter 4
E o conde não era em suas palavras enganado, por que como El-Rei moveu, assi o fizeram todos após elle, sem o conde poder aproveitar em nada, antes seu cavallo logo lhe foi morto, e elle ferido, sobre que acudiu o conde de Monsanto seu cunhado, trabalhando de o poer em outro cavallo, em que se acertaram os loros tão compridos, que o conde com a perna direita nunca pôde vingar a sella, antes com a espora feriu o cavallo nas ancas, que aos couces o lançou logo no chão.
O conde D. Duarte não vendo já esperança de sua vida, pediu ao conde de Monsanto que salvasse a sua e o leixasse. E porém os mouros carregaram sobre elle e leixaram alli seu corpo sem vida, e não sem primeiro sentirem muita vingança de sua morte, sendo já primeiro junto com elle morto um Nuno Martins de Villa-Lobos seu criado, que como bom recebeu aquella morte por lhe querer soccorrer com seu cavallo de que se deceu.
E El-Rei com assaz afronta se recolheu por uma lomba a fundo, onde seu estandarte nas mãos de Duarte d'Almeida, alferes, foi dos mouros muitas vezes abatido, e fôra tomado se o esforçado acordo do alferes e valentia de Ruy de Sousa o não salvaram.
Foram alli mortos Diogo da Silveira, escrivão da poridade, e Fernão de Sousa, alcaide de Guimarães, e Luis Mendes de Vasconcellos, e Pero Gonçalves, secretairo, e outros que acabaram como bons e leaes cavalleiros.
Deceu El-Rei ao pé do monte ainda dos mouros bem perseguido, e quizera fazer sobr'elles uma volta, para com elles em pelleja esprementar sua fortuna, mas por força de nobres homens que hi eram, vendo a disposição de tamanho perigo, o tiraram e passaram além de um rio, onde chegou a elle o conde de Villa Real que sempre ficara de tras, que seu braço e acordo escusou muito dano a El-Rei, que em publico lhe disse: «Conde a fé ficou hoje toda em vós», e de hi contra vontade de muitos, El-Rei se foi aquella noite alojar a Tutuam, e ao outro dia partiu para Ceuta. E no caminho fez vir ante si D. Anrique de Menezes, filho do conde D. Duarte, e o confortou com louvores da honrada morte de seu pae, e com esperança de grande acrecentamento, que por seus serviços e merecimentos lhe faria como fez, porque alli o fez conde, e lhe deu todalas mercês que seu pae tinha. Verdade é que lhe tirou Vianna de Caminha, e lhe deu depois Vallença com o titulo de conde d'ella, e depois o de Loulé.
CAPITULO CLVII
_De como El-Rei se veiu a Portugal e foi em romaria, a Guadalupe, e se viu com El-Rei D. Anrique e com a Rainha, sua mulher_
Tanto que El-Rei despachou suas cousas em Ceuta, se partiu logo para o reino, e veiu desembarcar a Tavilla, e de hi foi ter a Evora a Pascoa d'este anno de mil e quatrocentos e sessenta e quatro. Passada a qual se foi a Elvas, e d'hi com alguns senhores e fidalgos escolhidos, secretamente se foi em romaria a Santa Maria de Guadalupe. E de hi para concerto já praticado se foi ao lugar da ponte do Arcebispo, onde se viu com El-Rei D. Anrique, e com a Rainha D. Joana sua irmã. E alli tiveram as mesmas praticas e acordos de Gibaltar sobre casamentos e lianças, que em fim não houveram effeito, porque a Infante D. Isabel de Castella, contra vontade d'El-Rei D. Anrique, e por meio do Arcebispo de Tolledo casou logo com D. Fernando, Principe d'Aragão e de Cicilia, que depois reinaram pacificamente em Castella, e o Principe de Portugal casou com a Senhora D. Lianor sua prima com irmã, filha maior do Infante D. Fernando, que depois foi Rainha de Portugal.
N'este anno de mil e quatrocentos sessenta e quatro, no mez d'Agosto, falleceu o Papa Pio, e sobcedeu após elle o Papa Paulo segundo.
CAPITULO CLVIII
_De como houve em Castella grande devisão, sobre que houve vistas na cidade da Guarda com a Rainha irmã d'El-Rei_
E no anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta e cinco houve em Castella entre El-Rei D. Anrique e os senhores do reino grande differença; porque alguns por vicios e erros que lhe punham, lhe alevantaram a obediencia e a deram ao Infante D. Affonso, que em moço alevantaram por Rei, sobre a qual cousa a Rainha D. Joana de Castella para pedir ajuda e socorro contra os revés a El-Rei D. Anrique seu marido, e assi ainda sobre os ditos e lianças veiu á cidade da Guarda em Portugal. Onde El-Rei tambem veiu, e fez côrtes de todolos grandes e povos de seus reinos, e todos a ellas vieram salvo o Infante D. Fernando, que em vindo adoeceu na sua villa de Covilhã e não pôde estar n'ellas, nas quaes a Rainha em nome d'El-Rei e seu requereu a dita ajuda, com fundamentos e causas que pareciam de honra, razão e proveito, mas em fim conhecida a condição variavel do dito Rei D. Anrique, e outras cousas mui perjudiciaes a taes lianças, foi El-Rei aconselhado que em tal discordia e empreza nem lianças se não antremettesse, da qual cousa com a mais honestidade que pôde se escusou. Como quer que nos primeiros movimentos sua tenção foi dar-lhe ajuda, para que antes d'estas côrtes fez alguns percebimentos. E segundo o muito desejo que para isso tinha, não fôra maravilha forçar as prudentes vozes e acordos de seu conselho, se o dito Rei D. Anrique fôra dos seus vassallos mais tempo desobedecido; mas falleceu logo o dito Rei D. Affonso seu irmão e competidor, por cuja morte todalas rebeliões e alvoroços cessaram em Castella; porque os cavaleiros desobedientes não tendo cabeça de seu alevantamento, volveram logo a obediencia d'El-Rei D. Anrique.
CAPITULO CLIX
_De como se concertou casamento entre o Principe D. João com a Senhora D. Lianor filha do Infante D. Fernando_
E as cousas que nos annos seguintes de mil e quatrocentos sessenta e seis, sessenta e sete e sessenta e oito, n'estes reinos de Portugal sobcederam, foi concerto que se fez do Principe D. João, filho d'El-Rei D. Affonso com a Senhora D. Lianor, filha maior do Infante D. Fernando; porque como quer que o dito Principe muitas vezes fôra d'El-Rei D. Anrique requerido para casar com a Senhora D. Joana sua filha, Princeza que então se dizia de Castella, e El-Rei D. Affonso era a isso inclinado; porque no tempo d'este requerimento sobreveio o mau sobcedimento do escallamento de Tangere, de que o Infante D. Fernando ficou mui anojado e triste, e El-Rei D. Affonso seu irmão pelo confortar e alegrar como era razão, e tambem porque a dita Senhora D. Lianor sua filha por seu real sangue, muitas bondades, e gram perfeição era dina de um grande Imperador, prouve-lhe que o casamento do Principe seu filho se fizesse com ella. E que emquanto ambos cumprissem a idade necessaria para contraer perfeito matrimonio, se houvesse a despensação Apostolica como se houve do Papa Paulo. E porém ao tempo que a dita despensação veio, que foi no anno de mil e quatrocentos e setenta, o Infante D. Fernando era fallecido como se dirá.
CAPITULO CLX
_De como o Infante D. Fernando passou por si em Africa, e tomou a cidade de Anafee_
E no anno de sessenta e nove, o Infante D. Fernando como era de mui nobre coração, de que nunca sahia um louvado desejo d'acrecentar sua honra e estado, especialmente na guerra dos mouros, que lhe já vinha por legitima sobcessão, por licença e ajuda d'El-Rei seu irmão, com grande frota e muita e boa gente passou em Africa onde dizem as praias, e sem muita resistencia tomou a cidade d'Anafee, que é na costa do mar; porque os mouros vendo sobre si tamanha frota, com tanto poder a que não podiam resistir, por salvarem suas vidas desampararam a cidade, que foi logo entrada e roubada; e porque era de grande cerca, cuja defensão seria mui difficil, quizera o Infante manter com fronteiros o castello, e finalmente depois de tudo bem consirado; porque na frota não ia gente e mantimentos que podessem leixar e soprir á deffensão da cidade, e bastecimento de tamanhas paredes, acordaram de em muitas partes a desportilhar e derribar, e tornar-se o Infante ao reino, e assi o fez.
O infante D. Fernando depois d'esta vinda d'Anafee adoeceu, e foi sua doença algum tanto perlongada, durando a qual afirmou de todo com El-Rei seu irmão o casamento do Principe com sua filha. E concertou outro da Senhora D. Isabel tambem sua filha ligitima com o conde de Guimarães, que por maior ennobrecimento d'este casamento, El-Rei o fez duque da mesma villa de Guimarães, sendo ainda vivo o duque de Bragança seu padre, por cuja morte sobcedeu o titulo de dois ducados.
CAPITULO CLXI
_Do fallecimento do Infante D. Fernando, e dos filhos que d'elle ficaram_
E no anno de mil e quatrocentos e setenta, a dezoito dias do mez de Setembro, o dito Infante D. Fernando falleceu, e deu sua alma a Deos em Setuvel, em idade de XXXVII annos, sendo El-Rei seu irmão e a Infante sua mulher presentes, por cuja morte fizeram claros sinaes de grande dôr e sentimento; foi seu corpo logo enterrado no mosteiro de S. Francisco da observancia, que é junto com a dita villa, e de hi foram depois seus ossos com muita honra, e grande solemnidade, treladados ao mosteiro da Conceição de Beja, onde jazem em sua mui honrada sepultura, a qual a Senhora Infante D. Briatiz sua mulher como Princesa em toda mui virtuosa, juntamente com o dito mosteiro de novo fundou e edificou com grandes suas despesas, e perpetuamente o dotou de muitas rendas e singulares ornamentos.
Ficaram d'elle quatro filhos, e as duas filhas que já disse, e dos filhos o maior houve nome D. João, a que El-Rei fez duque de Vizeu e de Beja, e lhe deu a governança dos Mestrados de Christus e Santiago, com todo o mais que o Infante seu padre tinha, e logo em moço falleceu, a que em todo sobcedeu o filho segundo, que havia nome D. Diogo, salvo o Mestrado de Santiago, que por prazer e consentimento da dita Infante foi dado ao Principe, e este duque houve a fim que a Chronica d'El-Rei D. João faz menção, e o terceiro filho houve nome D. Duarte, que o Principe recolheu para si, e criando-o em sua casa com muita honra e grande amor como proprio filho, falleceu em moço, e o quarto houve nome D. Manuel, que por morte do duque D. Diogo o sobcedeu logo como se dirá. E depois por seus merecimentos e boa ventura, por fallecimento de ligitimo herdeiro que d'El-Rei D. João seu primo ficasse, subcedeo os reinos de Portugal, em que viva muitos annos para os fazer como faz em titulos e senhorios maiores, mais ricos e mais bem aventurados.
E tambem houve D. Simão, que em moço falleceu de sua doença natural.
E a XXII dias de Janeiro do anno de mil e quatrocentos setenta e um, em Setuvel, depois de vir a despensação de Roma, o Principe D. João recebeu por mulher por palavras de presente a Senhora Princesa D. Lianor, entrando o Principe em idade de XV annos. E por a morte do Infante ser ainda tão fresca, não se fizeram em seu recebimento as festas e prazeres que em outro tempo fôra razão.
CAPITULO CLXII
_De como tendo El-Rei determinado passar em Africa, convertia a armada contra os inglezes pela tomada, das náos de Portugal, e desistiu d'isso pela morte do conde Baroique, e se ordenou a ida sobre Arzilla_
E n'este anno e assi no passado determinou El-Rei de passar em Africa, para que teve em pessoa, e assi mandou ter praticas e conselhos em Lisboa nas casas do conde de Monsanto.
E o primeiro desejo e movimento d'El-Rei foi ir sobre Tangere. Mas porque para cercar e combater tamanha cidade, por então não se achou no reino o soprimento que era necessario, desistiu El-Rei d'este proposito, e com fundamentos de bom conquistador, e com evidentes razões que lhe foram apontadas, de que se tambem ao diante não perdia a esperança do cobramento de Tangere, assentou ir sobre Arzilla, que logo por Vicente Simões, homem nas cousas do mar bem esperto e entendido, e por Pero d'Alcaçova seu escrivão da fazenda e de que muito fiava, mandou muitas vezes espiar e vêr, assim no que cumpria para o ancorar e desembarcar do mar como para o assento da terra. Em que com fingidos negocios com que os mouros tratavam, acabaram de ser certificados de todo o que para uma cousa e para a outra era necessario, de que perfeitamente avisaram El-Rei, que logo mandou fazer no reino e fóra d'elle os percebimentos de navios, armas e mantimentos para trinta mil homens, com que determinou passar, e estando El-Rei já casi prestes, foi certificado que doze náos grossas de seus reinos vindo em canal de Frandes foram tomadas, e suas mercadorias roubadas por Facumbrix, cosairo, capitão e sobrinho do conde Baroique, que a este tempo governava o reino de Inglaterra.
E sobre os agravos e lamentações que os mercadores e povo d'estes reinos acerca de seus damnos e perdas fizeram a El-Rei, elle teve logo conselho com os principaes de sua côrte. E assi o enviou pedir aos grandes e senhores do seu reino, que lh'o enviaram por escripto. Dos quaes sustancialmente foi pela mór parte aconselhado, que a armada d'Africa que era voluntaria, e convertesse por muitas razões esta contra os inglezes, que era obrigatoria e necessaria. E que fosse grossa e de muito e boa gente, para que d'algum castigo d'estes nascesse receio aos outros muitos, que a seus vassallos não fizessem no mar os males e damnos que cada dia e sem emenda lhe faziam. Á qual parte El-Rei mais inclinado, ordenou armar grossamente, e dava por capitão d'armada D. João filho do duque, que depois foi Condestabre e marquez de Montemór-o-Novo, e com elle carracas e muitas náos grossas, e outros navios pequenos em grande numero.
E estando tudo já quasi prestes, veiu certidão a El-Rei estando em Lisboa, no mez de Junho, que o dito conde Baroique, e o Rei porque governava Inglaterra, eram em batalha mortos por El-Rei Duarte, que depois pacificamente reinou, pelo qual El-Rei foi logo movido cessar da dita armada, que para emenda e vingança do dito conde fazia, e a mudar no primeiro proposito de passar em Africa, sobre que primeiro se fundara. E que a entrega das náos e mercadorias de seus reinos remedeasse como remedeou, e procurou por embaixadas, que com pessoas d'autoridade a Inglaterra e a Borgonha muitas vezes depois enviou. E assi mandou pelo reino suas cartas de percebimentos, com aviso que os condes e senhores sómente levassem cavallos.
CAPITULO CLXIII
_De como El-Rei levou comsigo o Principe seu filho, e como embarcaram, e com que gente e frota_
Determinou El-Rei a requerimento do Principe seu filho, e contra conselho dos mais principaes do reino de o levar n'esta passagem comsigo, e leixou por inteiro governador, e com nome de governador do reino o duque de Bragança, que escusando-se por sua velhice de tal cargo, se convidava para ir com elle á guerra dos mouros, porque seu coração e devoção não enfraquecia; porque a ella foi sampre mui inclinado. E porque El-Rei era sabedor que entre alguns grandes e pessoas principaes de seus reinos, que para sua passagem eram percebidos, havia odios e dissensões, e outros jaziam em publicas excommunhões, El-Rei com a só pena que pôs de os não levar comsigo se não se concordassem e asolvessem, elles por não ficarem se concordaram e satisfezeram e se reconciliaram.
Encommendou El-Rei o cargo da gente d'entre Doiro e Minho, e da frota do Porto ao duque de Guimarães, que se ajuntou com El-Rei em Lisboa no começo do mez d'Agosto do anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos setenta e um, em que El-Rei houvera de partir, e por ventos que não terçavam de viagem, suspendeu sua partida até dia da Asumção de Nossa Senhora, que é aos quinze dias do dito mez, em que depois de elle e o Principe entrarem no mar com mui solemne procissão, e com maravilhoso e grande triumpho, sobreveiu vento prospero e desejado, com que partiu de Restello e chegou a Lagos, onde o já esperavam os navios e gente do Algarve. E assi o conde de Valença que viera d'Alcacere, com que sua real frota refez por todas numero de quatrocentas e setenta e sete vellas, e até trinta mil homens. E alli depois de ouvir missa, e para o caso uma devota pregação, e revellar a todos sua ida sobre Arzilla, foram elle e o Principe com uma devota procissão e grande estrondo de trombetas e manistreis altos e baixos, mettidos nos bateis, e de hi aos navios que logo fizeram vella, que com vento bonançoso chegaram d'Avante á dita villa d'Arzilla, onde sua frota ancorou aos XX dias do dito mez, já sobre tarde, os mouros da qual como de dia houveram vista d'ella; porque da passagem d'El-Rei tinham já muitos avisos, adivinhando com receio seu mal, se começaram de prover como para tal necessidade e afronta cumpria.
CAPITULO CLXIV
_De como El-Rei tomou terra em Arzilla_
E no outro dia em amanhecendo, depois d'El-Rei ter conselho sobre sua desembarcação e filhamento da terra, mandou apparelhar e armar os bateis e caravellas pequenas, e barcas de carreto para logo na melhor ordenança, e que mais fosse possivel tomarem terra. E como quer que o porto era mui perigoso; porque o mar áquellas horas andava mui alevantado, e quebrava com muita braveza em um arrecife de pedra que tem, com entradas más de tomar, El-Rei todavia mandou com muito esforço e presteza remar e tomar a terra, onde elle por maior esforço de todos não quiz ser dos segundos, em que se perdeu uma galé com outras caravellas e bateis, em que no mar morreram até oito fidalgos, e da outra gente até duzentos, em que eram alguns bons cavalleiros e escudeiros.
E porém no primeiro bote sairam logo com El-Rei muita gente, toda bem armada, sem alguma contradição dos mouros em sua saida, e os outros que na frota ficavam, com quanto viam ante os olhos sua clara perdição, não receiavam por isso com uma perfiosa bondade d'entrar nos bateis e caravellas, como se em um rio manso entrassem, até que aos tres dias com a segurança e maior resguardo que foi possivel acabaram de sair em terra.
E no dia em que El-Rei sahio, logo pôs cerco á villa em torno de mar, cerrando e defensando seu arrayal com alta cava; porque o palanque que levava, pela braveza do mar não podera logo sahir.
E das muitas e grossas bombardas que El-Rei levava, que com a tormenta das náos se não podiam tirar, sairam sómente duas pequenas, que em duas partes da villa foram logo ensejadas. E começaram apressadamente de fazer seus tiros, e assi os espingardeiros e besteiros não cessavam de combater, e porém sem fundamento de ordenado combate; porque o geral e da maior affronta em que se punha toda a esperança da victoria, tinha El-Rei reservado para depois que todas suas artilherias fossem assentadas. E porém as bombardas desfizeram dois lanços do muro até o meio, onde os mouros logo acudiram e repairaram com muito esforço e não sem algum dano dos christãos, de que tambem com espingardas e bestas os mouros eram mui danificados.
CAPITULO CLXV
_De como a villa foi entrada, e o Principe foi armado cavalleiro, e morreram o conde de Marialva, e o conde de Monsanto e outros_
E aos XXIV dias do dito mez, que era dia de S. Bertolameu, pela manhã, D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, a que a estancia e guarda do castello era encomendada, enviou dizer a El-Rei que estava em sua tenda, que o Alcaide da dita villa lhe queria ir falar sobre concerto, que era tal que o devia aceitar. E ante de El-Rei dar final resposta, tendo vontade de se concordar como aos mouros já escreveram e mandaram requerer, vieram logo vozes emtoados por todos que a villa se entrava. O que a vista propria d'El-Rei que a isso com muita trigança sahiu, fez mui certo e verdadeiro; porque como o rumor correu que a villa era entrada assi concorreu logo a gente do arraial aos muros, a que com muitas escadas e engenhos que para isso eram ordenados, sem alguma certa ordem de combate, logo com muita ardideza subiram e entraram á dita villa por todalas partes.
E os mouros vendo-se entrados e perseguidos dos christãos, pelejando bravamente uns se recolheram á misquita, e outros, os mais honrados ao castello. E com os da misquita ante de ser vencida, houve de uma parte e da outra mui crua e sangoenta peleja. Em que dos christãos entre outros morreu principal e como ardido e valente cavalleiro, D. João Coutinho, conde de Marialva, que com seu braço acompanhou primeiro seu corpo d'outros corpos vazios d'almas imigas, e não sem grande tristeza que El-Rei e o Principe e toda a côrte por sua morte tomaram, e não sem causa; porque era mancebo, e senhor de grande e honrada casa, e em que se vivera pareciam já virtuosos sinaes d'haver n'elle para o reino um singular homem para armas e conselho.
E acabada a peleja da misquita, logo a gente recorreu ao castello, que de todalas partes era mui forte e defensavel, cujo combate por esforço d'El-Rei e do Principe, que eram presentes, foi com tanta força e ardideza cometido, que logo antes de algumas escadas serem postas, os christãos por lanças e páos com muita desenvoltura sobiam ás torres e muros, de que os debaixo com uma louvada inveja de tanta honra, esquecidos de todo perigo cometiam seus corpos com armas pesadas a mui fracas toucas de linho, porque os allavam e subiam acima, onde nos muros e torres que dos christãos se entravam, e depois no patim do castello houve tão mortal peleja, como parecia claro nos muitos mortos e feridos que em todas partes jaziam.
Alli no castello álém d'outros nobres christãos que com ferro morreram, foi morto D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, camareiro-mór d'El-Rei, que sua morte muito sentio; porque certo elle no campo e na côrte, na paz e na guerra era por seu siso, discrissão e esforço, homem mui principal. E em fim assi foram os mouros da villa e do castello cometidos, que todos ficaram mortos e captivos sem alguma excepção, cujo numero segundo comum orçamento seriam dos mortos até dois mil, e dos captivos até cinco mil. E foi achado e tomado na villa mui grande e rico despojo, que foi estimado a oitenta mil dobras d'ouro. Do qual todo El-Rei fez aos tomadores escala franca, sem reservar para si quinto, nem outro direito algum.
Acharam-se dentro cincoenta captivos christãos, a que a santa victoria deu livre redenção. E El-Rei e o Principe, assi no entrar da villa, como no soccorrer e prover das muitas pelejas e afronta dos combates, não sómente por seu conselho e exforço usaram de oficios, que pareciam e eram de aprovados capitães; mas ainda por seus braços cometeram e acabaram feitos como ardidos e valentes cavalleiros, sem algum resguardo nem tento do que a suas pessoas e dinidades reaes se deviam, e certamente era grande gloria vêr aquelle dia na mão do Principe em idade de XVI annos sua espada de bravos golpes torcida, e de sangue de infieis em todo banhada, em cuja vista a mór parte da alegria era d'El-Rei seu padre, que n'aquella victoria e perigo o tomou por parceiro, vendo que em ajuda tão necessaria, e perigo tão conhecido não podera no mundo escolher melhor companheiro do que gerara por filho.
E porém como El-Rei sentiu que o feito com desejado vencimento era de todo acabado, foi logo á misquita dos mouros, onde sobre o corpo do conde de Marialva achou já uma cruz, a qual por começo do serviço e sacrificio, que a Deus n'ella ao diante se havia de fazer, logo beijou e adorou, e depois de fazer oração, logo junto com o corpo morto do dito conde, armou per si o Principe seu filho por cavaleiro, com palavras de grandes louvores, e muitas bondades e merecimentos do mesmo conde. E sendo ambos d'armas victoriosas vestidos, El-Rei no cabo de auto tão devoto e tão glorioso, disse ao Principe, e não sem algumas lagrimas:
--«Filho, Deus vos faça tão bom cavaleiro como este que aqui jaz.»