Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)
Chapter 3
«Senhor, eu não sei como estes senhores entendem isto que vos conselham, não querendo para acabar este feito, uns dizem vinte, e outros ao mais cento homens, pois eu Senhor não sou mais sandeu, e certifico-vos que me pesaria ser dos quinhentos que o commetessem para o bem acabar; porque quem bem consirar que por força ha-de lançar fóra de suas casas, e de tal cidade como é Tangere, a cerca de tres mil homens de peleja que n'ella vivem, e lhe haver de captivar suas mulheres e filhos, e roubar suas fazendas, em cujo amor se criaram e vivem, a razão lhe ensinará a gente que lhe cumprirá para vencer tantas forças, quanto mais que esta gente não são alarves com cajados por armas, mas é bem armada, feroz e ousada, e já se não hão d'espantar das mortes das mulheres e filhos; porque já muitas vezes as viram e padeceram, por isso Senhor vêde bem primeiro o em que vos meteis».
Mas o Infante pelo ardente desejo que para isso tinha, pospostas todalas contradições, determinou de o fazer, de que alguns tiveram que o Infante por seu mui nobre e alto coração com que sempre suspirou por grandes e arduas empresas, não se contentava fazer nenhuma cousa, por boa e façanhosa que fosse, sendo debaixo de mando e capitania d'outrem, ainda que fôra um grande Imperador.
E porém Diogo de Bairros, e João Falcão tiveram maneira que logo El-Rei fosse em Ceuta, como foi por elles de todo avisado, e de noite como El-Rei houve o aviso, logo a grande pressa mandou diante o Chichorro com vinte ginetes, para que o Infante sobresevesse em sua partida até sua chegada, mas o Chichorro achou já o Infante partido, e El-Rei com grão trigança partiu logo apóz elles acerca de sol posto com oito de cavallo e muita gente de pé, que de cançada ficou em Alcacere. E assi apressou seu caminho que ante manhã chegou aos medoõs que são junto de Tangere.
E porque não topou com seu irmão, que fôra por outro caminho e ficava atrás, houve por sem duvida que elle era já dentro na cidade com o feito prosperamente acabado, pela qual maginação elle e todos davam muitas graças e louvores a Deus, e porém estando assi com os ouvidos álerta, esperando a grita e rumor da cidade, chegou a El-Rei o marechal, que o Infante mandara correr a cidade, por dessimular o escallamento a que com tempo devido não podera chegar; porque como o Infante no caminho viu que a noite lhe fallecia para n'ella chegar á cidade, lançou-se a duas legoas em cillada, e por dissimulação mandou correr com fundamento de ao outro dia tornar commetter o feito. Mas El-Rei com mostranças mais de tristeza que d'alegria se tornou a Alcacere, mui cansado e todolos seus; porque sem descer nem repousar andaram as maiores, nem mais fragosas quinze legoas que podem assignar, e o Infante onde estava em cillada, como soube da vinda e descontentamento d'El-Rei, partiu logo, e foi-se tambem a Alcacere anojado do conde D. Duarte, de quem suspeitou que o aviso d'El-Rei procedera. Mas o Infante não pôde escapar a uma grave e aspera reprensão que El-Rei seu irmão lhe fez pela perigosa ousadia que sem sua licença e contra seu mandado commettera.
CAPITULO CLIII
_De como o escallamento de Tangere se commetteu finalmente a terceira vez pelo Infante D. Fernando, e do desastrado sobcedimento que houve_
Partiu-se El-Rei para Ceuta, com fundamento de se vêr com El-Rei de Castella, que era já em Gibaltar, e o Infante ficou em Alcacere, onde pelo conde D. Sancho foi incitado para com tudo não desistir do mesmo escallamento que havia de todo por acabado, e que então a empresa d'elle lhe vinha melhor e com mais sua honra, pois El-Rei ia já d'elle de todo desconfiado, e que tivesse maneira que o conde D. Duarte não fosse com elle; porque além de não ser necessario, segundo elle sabia entoar suas cousas, cresse que todo o merecimento do feito quanto se bem fizesse havia de atribuir a si mesmo.
E a tenção de tal conselho bem parece que de inveja, ou d'alguma outra paixão ia propriamente guiada e mais que da verdade, segundo a qual o conde D. Duarte fôra para conselho e ajuda de tal feito mui necessario; porque pelo acabamento de seus grandes feitos era havido e confirmado por mui singular capitão.
Com este proposito o Infante se foi a Ceuta e para o escallamento, se se podesse fazer, pediu licença a El-Rei, que lh'a deu, dizendo-lhe que segundo a fortuna n'este caso se mostrara a elle tão contraira o havia de todo por perdido, e porém o leixava nas mãos de Deus e nas suas, e visse se por alguma maneira podia tomar o lugar; porque posto que lhe prouvesse muito acertar-se no feito; porém muito mais lhe pesaria perder-se, se sem elle se podesse cobrar, e com isto se tornou o Infante a Alcacere, sem o querer revelar em Ceuta, receando não se poder escusar do conde D. Duarte e d'outros senhores, que o haviam para isso de requerer. E depois de tornar e mandar firmar outras vezes a segurança do escallamento, aos XIX dias de Janeiro de mil e quatrocentos e sessenta e quatro partiu d'Alcacere, e mandou levar quatro escadas, de que deu cargo áquellas pessoas em que entendeu que havia saber e esforço para isso.
E na tristeza e pezo que todos levavam pelo caminho, logo para bem do feito pareceu desaventurado pronostico, especialmente que sendo sobre o cabeço, que dizem d'Almenar, pareceu no ceu á vista de todos um espantoso cometa, que lançava de si muitos raios de fogo em figura de dragão. Ali disse então Gomez Freire, nobre fidalgo e de grande coração: «Oh! noite má, para quem t'aparelhas», que ficou em proverbio muito tempo acostumado.
E assi chegaram os primeiros com grande luar junto com a cidade, onde porque a lua de todo se pozesse, esperaram até tres horas ante manhã. E logo Diogo de Bairros, e João Falcão como principaes movedores do feito, pediram e requereram a alguns do conselho d'El-Rei e do Infante que hi eram, que juntamente fossem com elles como testemunhas vêr como estava; porque se por algum caso se perdesse ou desaviasse, elles ficassem por verdadeiros e livres da culpa, e João de Sousa a que seu resguardo pareceu bem acceitou sua companhia, antre os quaes foi dado aviso que as escadas não se pozessem, salvo depois que a guarda dos mouros descesse do castello para fundo.
E aqui é de saber que este lanço de muro porque o escallamento era ordenado, cerra no castello da parte do sertão em que ha cinco cubellos, em fim dos quaes seguindo para fundo está uma torre que se chamava de Gillahare.
E porque do castello havia sahida para o muro por uma ponte levadiça, acordaram os christãos, que por quanto os mouros do castello sentindo a gente no muro poderiam sahir pela ponte e impedir e damnificar os que subissem pelas escadas, que a gente assi como subisse no muro, assi se mettesse logo entre a dita ponte e as escadas, e uns resistissem aos mouros que do castello quizessem sahir, e outros corressem pelo muro a fundo para tomarem outra torre que está sobre um postigo, que se chama de Gurer, com que se cobravam duas cousas para o feito mui necessarias e seguras. A primeira para a gente poder de fóra entrar mui livremente sem perigo nem contradição dos mouros, e a segunda senhoreavam a escada do muro para que a salvo podiam descer e entrar para a cidade.
E os dois principaes escalladores e guiadores, foram primeiramente no muro, e assi os outros que após elles haviam de seguir. E acertou-se que a rolda dos mouros havendo já d'elles algum sentimento estava lançada entre as ameas d'aquella parte, para differençar bem se eram os barbaros da serra, que ás vezes com suas cargas e bestas se lançavam ao pé do muro, ou por ventura christãos, e tanto espaço tomou para de sua duvida se certificar, que dos christãos houveram sessenta lugar para subir, que por pontos d'honra em taes tempos e casos mui prejudiciaes, não quizeram guardar o que entre elles fôra concordado. Pelo qual João Falcão vendo começos de tanto desmando, disse a João de Sousa que tomasse ou matasse um mouro guarda que tinha ante si. E João de Sousa como fidalgo acordado e de bom coração remetteu a elle, o qual da sombra da morte que comsigo viu, acabou ser desenganado de sua duvida e começou de se poer em defesa, e em João de Sousa correndo a lança nas mãos para lhe dar, o mouro em se retrahendo cahiu do muro contra a cidade dentro em um pomar, d'onde começou logo dar grandes brados, senificando com elles o damno dos christãos que se aparelhava, e os christãos como os ouviram sem mais outra consiração, crendo que outra sua grita ao menos para desmaio dos contrairos aproveitaria muito, logo a deram com altas vozes, e não sem grande estrondo de trombetas que já eram em cima, a que os mouros acordaram, e com muita trigança acudiram por saber a causa de tamanho rumor, principalmente os que guardavam a torre do muro porque os christãos haviam de passar. Os quaes assi como viram os nossos estar no muro, assi se tornaram e pozeram á porta da torre, de que podiam bem defender aos christãos a passagem do muro para o não poderem descer para a cidade; porque com sós paos sem outras armas, aos que por elle passassem, segundo era estreito podiam levemente lançar d'elle abaixo, e assi o faziam, e os christãos não podendo já passar não leixavam por isso de subir; porque o Infante era já ao pé do muro, que a uns por amor, e a outros com temor constrangia para isso, e assi como subiam não podendo al fazer assi se mettiam por esses cubellos, e outros descendo para fundo não podendo passar ficavam amontoados, sem poderem aproveitar a si nem danar aos contrairos.
A cidade era já toda posta em armas e grande alvoroço, e como o alcaide que se chamava Abrahem Benaamet foi por si certificado que nas outras partes da cidade não havia outro commetimento nem affronta que muito receou, salvo n'aquella, mandou logo ali vir grande claridade de fogo, e com besteiros e espingardeiros, que em grande numero mandou metter no pomar que era defronte d'onde os christãos estavam, matavam e feriam muitos, e muitos em se revolvendo cahiam do muro entre elles, que claramente eram logo espedaçados, e com gente que se enadeu no castello, que sahiu pela ponte levadiça, tomaram as escadas postas no muro, ainda que não foi sem grande peleja que sobr'isso houve, e foi de maneira que do castello e de todalas partes, os mouros sem algum seu perigo faziam um piadoso estrago nos christãos, porque sendo as escallas tomadas não tinham algum remedio de salvação. O que todo bem visto por João de Sousa, disse ao Infante de cima do muro, que não mandasse subir mais gente; porque o feito com a gente subida eram de todo perdidos, e o Infante sobre esperança de tanta alegria, ouvindo recado tão certo e tão triste, não menos anojado que esforçado arremetteu a uma escada de troços que mandara armar, e quizera por ella subir dizendo que o que fosse de tão bons criados e servidores como já dentro eram, seria d'elle até com elles morrer. Mas era hi o conde d'Odemira, e o commendador mór de Christus com outros, que com palavras prudentes e de bom esforço o detiveram, dizendo-lhe que aquella gente por boa e nobre que fosse, em caso que Portugal a perdesse, bem poderia cobrar outra tal e melhor; mas não a elle que era tal e tamanho Principe, que o reino teria d'elle para sempre muita mingua e grande necessidade, e que não desse causa que Tangere fosse tantas vezes sepultura de Infantes de Portugal, e com estas e outras razões de conforto a estas conformes a que o Infante obedeceu, vendo já o feito sem algum remedio, se tornou para Alcacere.
E dos christãos entre mortos e captivos ficaram trezentos, todos os mais homens escolhidos e especiaes, duzentos mortos e cento captivos, e dos mortos foram principaes, D. Gonçalo Coutinho, conde de Marialva, e D. Rodrigo seu filho bastardo, e Gomes Freire d'Andrade, e D. Jorge de Crasto, filho de D. Alvaro, que depois foi conde de Monsanto, e D. João de Eça, e João de Taide, e Pedro Coelho, e Rui Diaz Lobo, e Pero de Sousa seu irmão, Fernão de Macedo, e Pedro de Macedo seu irmão, e Alvaro de Sá, e Fernão Vaz Côrte Real, Rui Paes, e Pero Paes, filhos de Payo Rodriguez, Contador Môr, e assi outros muitos e bons cavalleiros e homens de nobre sangue e bom coração.
E dos captivos principaes, que aos cubellos se recolheram e preitejaram com os mouros, foi D. Fernando Coutinho, marechal, Fernão Tellez, Ruy Lopez Coutinho, João Falcão, e Diogo da Silva, que depois foi conde de Portalegre, Garcia de Mello, D. Alvaro de Lima, filho do visconde D. Lionel de Lima; e outros muitos até o dito numero, em cujos grandes resgates além das mortes de tanta e tão nobre gente, o reino recebeu uma durosa magua e grandissima perda, a qual testemunhou bem com os grandes prantos e geraes lamentações que em todo elle por este caso se fizeram, e na gloria da victoria que os mouros tinham, praticando e examinando se entre os christãos mortos ou captivos seria hi o conde D. Duarte, respondeu um velho e entre elles de grande auctoridade: «não busqueis hi o conde D. Duarte; porque na grande desordenança dos christãos vi eu bem que não andava hi».
CAPITULO CLIV
_Como El-Rei foi d'este triste caso avisado em Ceuta, o dia que tinha concertadas vistas em Gibaltar com El-Rei de Castella, a que todavia foi, e o fundamento das ditas vistas_
Um Antão Vaz, alfaqueque, era n'este desastrado caso, e como viu o triste sobcedimento d'elle, logo a grande pressa o veiu notificar á condessa de Viana, que era em Alcacere, a qual logo com grande trigança por mar e por terra o fez saber a El-Rei, cujos avisos, por impedimentos que no caminho houveram, precedeu um outro, que o Infante em chegando a Alcacere logo lhe enviou por um seu escudeiro, que chegou a El-Rei ante manhã, na hora que estava de caminho para Gibaltar, onde por meio do conde de Ledesma tinha vistas concertadas com El-Rei D. Anrique de Castella que o já esperava.
E El-Rei não quiz desfazer sua ida, e porém despachou o conde de Viana, que logo tornou ao Infante seu irmão ao confortar e desapassionar do caso passado, que o cumpriu com muita prudencia e despejo, e de que o Infante mostrou receber algum descanço e menos dôr.
El-Rei em partindo avisou o escudeiro, que até não ser no mar não dissese nada do caso, por não commover a choro e tristeza os senhores que em sua companhia tinha ordenados, que eram o conde de Guimarães, e D. João seu irmão, o conde de Monsanto, o conde da Atouguia, o Prior do Crato, e muitos outros do conselho, e gentis homens fidalgos de sua casa, com os quaes El-Rei passou a Gibaltar, onde El-Rei de Portugal e El-Rei de Castella tiveram suas praticas e concordias, cuja sustancia foi requerer El-Rei D. Anrique liança a El Rei D. Affonso, para contra os grandes de Castella, que com desleal alevantamento d'El-Rei D. Affonso o moço seu meio irmão lhe queriam desobedecer, e que para ter mais razão de o ajudar, queria que a Infante D. Isabel sua irmã casasse com El-Rei D. Affonso; e D. Joanna que então era havida por sua filha, e jurada por Princeza de Castella, casasse com D. João Principe de Portugal. E sobr'isto fizeram acordos promettidos e jurados nas mãos de D. Jorge, Bispo d'Evora, que depois foi Arcebispo de Lisboa e Cardeal. Os quaes principalmente pela grande inconstancia do dito Rei D. Anrique, e por impedimentos e contradições outras que se seguiram não houveram effeito.
E não sómente sobre estes casos os ditos Reis fizeram esta vez estas vistas; mas depois outras com muitas embaixadas, e porque d'ellas nunca resultou conclusão que entre elles se executasse nem cumprisse, não farei agora d'ellas nem depois muita menção.
CAPITULO CLV
_De como El-Rei em pessoa correu o campo d'Arzilla_
Tornou-se El-Rei a Ceuta, onde foi aconselhado que por quanto a boa fortuna n'esta jornada d'Africa então lhe não terçava á sua vontade, consirada isso mesmo a perda da gente com outros inconvenientes assaz efficazes, que sem mais fazer nem commetter outra cousa se devia de tornar ao reino, e dar a seus vassallos algum pão de paz e descanso. E porém El-Rei sem embargo de todo determinou correr primeiro o campo d'Arzila, e vê-la, com desejo de a tomar, o que logo pôs em obra; porque partiu logo para Alcacere, e de hi com o Infante passou a serra pelo porto d'Alfeixe, e em amanhecendo deram em umas aldeias, que com o aviso e mêdo da ida d'El-Rei eram já despovoradas, e porém correram legoa e meia por outras partes, e n'aquellas principalmente que o Infante D. Fernando barrejou mataram alguns mouros e captivaram muitos, e arrancaram muito gado e outro despojo, com que já de noite passaram o rio de Tagadarte, e junto com elle da banda d'Alcacere se alojaram aquella noite. Na qual sobrevieram tantas chuvas, e tão aspera tempestade com que a ribeira encheu de maneira, que se a não tiveram passada e ficando alem d'ella, se dispunham a mui certo perigo; porque a infinda gente dos mouros que logo cresceu deu d'isso ao diante claro testemunho.
E por esta causa não pôde El-Rei vêr Arzilla, de que recebeu então gram desprazer, e muito mais depois que soube que os mouros da villa indo elle sobre ella tinham determinado dar-lh'a, e virem ao caminho entregar-lhe as chaves, e tornou-se a Ceuta onde os cavallos e a gente por mau trato, e por aspereza dos tempos lhe falleciam. E por isso logo começou de declarar sua vinda e despedir a gente; e porém El-Rei não era satifeito; porque em todo o tempo d'esta passagem se não vira em alguma travada peleja de mouros, como elle desejava.
CAPITULO CLVI
_De como El-Rei D. Affonso foi correr a serra de Benafocú, e como foi em grande perigo, e como mataram os mouros o conde D. Duarte, e a Diogo da Silveira, escrivão da poridade_
Estando El-Rei com este descontentamento, que de seu animo grande e esforçado procedia, vieram por caso a Ceuta quatro mouros, que o metteram em grande alvoroço de grande cavalgada e boa escaramuça, que lhe dariam na serra de Benacofú, onde havia a mais guerreira gente d'Africa. E El-Rei com um natural desejo que para isso tinha, e com outra sêde já de vingança, fallou com Lourenço de Caceres, adail, que foi vêr, e lhe disse o caminho que para aquelle podia levar.
Era em Ceuta o conde D. Duarte, e como quer que alli viera aforrado sem cavallos, armas, nem gente para sómente despachar com elles seus negocios, El-Rei mandou que fosse com elle, ao que obedeceu, e porém com carregume e tristeza de sua morte, que a alma lhe adivinhava, e logo publicamente o disse, que aquelle dia seria sua fim, especialmente porque um Frei Luiz, D. Abbade do Mosteiro da Cerzeda, homem estrangeiro, e de juizos d'astrologo mui certo lhe disse que havia de morrer sob alheia capitania.
Partiu El-Rei com oitocentos de cavallo, e pouca gente de pé, e foi-se alojar junto com o castello d'Almunhacar, onde repousou o outro dia quasi todo, e o Infante D. Fernando seu irmão era já partido para Portugal, e porém com El-Rei eram capitães e pessoas principaes o duque de Bragança, o conde de Guimarães, e D. Affonso que depois foi conde de Faram, seus filhos, e o conde de Villa Real, D. Affonso de Vasconcellos, que foi depois conde de Penella, e o conde de Monsanto, e o conde de Vianna, e D. Anrique seu filho, e outros muitos fidalgos e cavalleiros e nobres homens com que partiu e entrou de noite na serra, que em todo para os de pé era mui aspera e fragosa, quanto mais para cavallos tão trabalhados, e como foi manhã repartiram-se as gentes em capitanias, e á ventura começaram de correr a terra, e os mouros que por almenaras eram já d'esta entrada avisados, uns embrenhavam suas mulheres e filhos nas mattas e serras que ali ha mui fortes e com grande espessura, e outros com muita braveza e esforço vinham travar escaramuças e pelejas, que por uns e por outros houve em muitas partes mui bem pelejadas, em que dos mouros entre mortos e feridos houve gram numero, e não sem muito dano dos christãos, de que muitos em offender mouros e defender e salvar christãos fizeram feitos mui assignados.
El-Rei andou pelo espigão da serra; porque a encavalgou por um de dois espinhaços que ella faz, e sahiu por outro, e foi ter a uma grande aldeia cabeceira das outras, onde comeu e repousou um pouco. E então mandou a Lopo d'Almeida e ao adail, que com a gente necessaria levassem a cavalgada ao pé da serra onde o esperassem, e d'ali abalou El Rei com mais vagar do que o tempo e a terra requeriam, e de um cabeço em que se pôs, mandou aos espingardeiros e besteiros e gente de pé, que por mór despejo se fossem diante caminho de Tutuam, onde aquella noite havia de repousar, e depois de passado um grande espaço ainda com passos vagarosos seguiu sua viagem, e após elle sem muito alvoroço vinham alguns mouros de cavallo, e sobresendo El-Rei disse: «Parece-me que estes mouros na maneira em que vem mais quererão paz que peleja», com os quaes esteve á falla, querendo d'elles saber se queriam ser seus como os outros, a que os mouros pediram horas d'acordo e consulta com outros seus visinhos, que em grande somma eram postos em um cabeço que El-Rei já leixara; e porque a resposta tardava El-Rei abalou, e com seu estandarte diante sobiu com os de cavallo a um cerro alto e de pedras e barrocas mui fragoso; era na reguarda d'elle o conde de Villa Real e bem detraz, e o conde de Guimarães pediu a El-Rei que por quanto o conde seu cunhado ficava em grande perigo o mandasse com espingardeiros e besteiros soccorrer, para que já se não acharam, e El-Rei lhe mandou dizer que logo sem mais esperar se recolhesse a elle; mas o conde como era esforçado e singular capitão, e nas manhas dos mouros assaz avisado, mandou dizer a El-Rei que lhe despejasse o porto e se fosse embora; porque elle por seu serviço se recolheria com sua honra e com dano dos mouros.
E certamente como quer que o conde de Villa Real por sua bondade d'armas outras vezes mereceu e ganhou grande honra e muito louvor, n'este dia em especial o acrescentou muito mais; porque álém de se recolher como cumpria a um singular capitão, indo como ardido cavalleiro, os imigos nas voltas e esperadas que n'elles muitas vezes fez receberam muitas mortes e damnos.
Estando El-Rei n'aquelle teso, a sua gente cada vez lhe mingoava mais, e a dos mouros crescia contra elle em maior avantagem, e em vozes altas e iradas disseram contra os christãos:
«Dizei a vosso Rei que não queremos com elle paz se não crua guerra, e que saiba por estas barbas e cabeças que tocamos, que hoje é o dia da nossa vingança»
E em se El-Rei decendo da serra carregaram os mouros logo sobr'elle, e das ilhargas feriam mui mal os cavallos, a que El-Rei com quatrocentos de cavallo que com elle seriam, fez com muita destreza tres voltas curtas, em que além d'outros feriu e matou per si um mouro com muito despejo e ardideza, e porque o perigo sobre El-Rei recrecia cada vez maior, alguma gente sua esquecida da lealdade e defendimento que lhe deviam, lembrando-se mais de sua propria salvação começavam de o desamparar, e náo aproveitavam brados nem vozes, por bem que se n'elles altamente afiasse a desleal vergonha com que em tal tempo leixavam seu Rei com sua bandeira.
E vendo-se já El-Rei mui afrontado, sendo estreitamente aconselhado que ao menos das serras se salvasse para o campo, chamou o conde D. Duarte e disse-lhe:
«Conde, ficai com estes mouros, porque lhe conheceis melhor as manhas, e acaudellai esta minha gente.»
E o conde lhe respondeu:
«Senhor, eu não quizera que em tal tempo me dereis este cuidado, especialmente porque não tenho aqui minha gente que me conhece, cá pois estes que são presentes e vossos, não obedecem a vosso mandado, menos cumprirão o meu, porém pois que o assi haveis por vosso serviço, hei por muito bem empregado a mi mesmo em qualquer trabalho e perigo que me acontecer, até morte.»