Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)
Chapter 2
_De como falleceu o duque de Bragança, e sobcedeu sua casa e herança o marquez de Villa Viçosa, e como D. Fernando seu filho passou em Africa, e de vinda foi feito conde de Guimarães_
E no anno de mil e quatrocentos e sessenta e um falleceu D. Affonso, duque de Bragança, cuja casa e titulo e herança sobcedeu D. Fernando, marquez de Villa Viçosa, seu filho segundo; porque o marquez de Valença seu filho maior era já sem filhos legitimos fallecido como já disse.
E entre os filhos que este segundo duque tinha, o maior era D. Fernando, que por acrescentar em sua honra, tendo para a dita passagem dos cavallos feita muita despeza, pediu a El-Rei licença para se ir a Alcacere como foi no mez d'Abril do dito anno, com duzentos de cavallo e mil homens de pé, em que entraram muitos fidalgos e outra nobre gente da côrte. E d'Alcacere em companhia de D. Affonso de Vasconcellos, que depois foi conde de Penella, e do conde D. Duarte, a que o duque seu padre e elle tinham grande affeição, entraram muitas vezes em terra de mouros, e foram correr até ás portas da cidade de Tangere, onde se fizeram honrosos feitos d'armas, e de que trouxeram grande numero de captivos e mui grandes cavalgadas. E fizeram outras cousas, em que D. Fernando ganhou bom nome e muita honra, com a qual se tornou a estes reinos logo no mez de Junho seguinte. E El-Rei por seus serviços e merecimentos o fez primeiro conde de Guimarães, porque depois quando casou com a duqueza D. Isabel filha do Infante D. Fernando, por honra de tão honrado casamento foi em vida de seu padre feito e intitulado duque da mesma Villa de Guimarães.
CAPITULO CXLVI
_De como falleceu a Infante D. Caterina, sendo já concertada para casar_
N'este anno era tratado e concordado casamento entre a Infante D. Caterina, irmã d'El Rei, com D. Carlos, Principe de Navarra e d'Aragão; e porque o dito Principe falleceu, foi a dita Infante levada ao mosteiro de Santa Clara de Lisboa, e sendo concertado depois casamento entre ella e El-Rei D. Duarte de Inglaterra, ella adoeceu de febre, e com nome de mui honesta e virtuosa Princeza falleceu no mesmo mosteiro, e foi seu corpo trazido ao mosteiro de Santo Eloi de Lisboa, onde na capella da mão direita jaz mui honradamente sepultada.
CAPITULO CXLVII
_De como foi a ida d'El-Rei em Africa com os dois mil de cavallo, e do escallamento de Tangere_
E no anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta e dois, se principiou e ordenou a ida d'El-Rei em Africa, sobre o escalamento de Tangere, que foi n'esta maneira.
Havia n'este tempo em casa d'El-Rei Diogo de Bairros e João Falcão, homens mancebos e fidalgos, que desejosos d'acrescentar em suas honras pediram a El-Rei licença, e lh'a deu, para irem ao soldo que El-Rei de Fez então apregoara em seu reino contra outros mouros seus imigos e reveis, os quaes para melhor seu aviamento se passaram a Andaluzia pedir cartas ao duque de Medina Sidonia, com que o dito Rei de Fez tinha paz e mostrança de singular amizade.
E o duque com respeito de serviço d'El-Rei não vendo para isso sua carta se escusou, pelo qual conveiu a estes pedir a El-Rei que por sua carta lh'o encommendasse, e em tanto porque o conde de Viana acertou d'entrar de Alcacere em terra de mouros, foram estes com elle na entrada, onde por caso Diogo de Bairros topou um João d'Escalona, de Tarifa, que já em Tangere foram ambos captivos e em poder de um senhor. E praticando entre si sobre um cano que era nos muros da cidade aberto e sahia para fóra, se por elle haveria disposição de entrar n'ella gente: acharam que em alguma maneira seria possivel, e com isto tornando-se estes a casa do duque acharam cartas d'El-Rei, porque lhes revogou a licença e mandou que logo se tornassem á sua côrte, o que cumpriram, e acharam El-Rei em Cintra, onde a voltas da conta que lhe deram de sua jornada, tocaram na pratica do cano para se entrar Tangere, que no coração d'El-Rei fez logo muita impressão. E com isso os tornou a mandar providos de mercê e de cartas para o conde de Viana, e asi para João d'Escalona, e para outro Sancho Fernandez, de Tarifa, seu tio, que tinha um bregantim e era bom piloto, que para o caso cumpria e se não podia escusar.
Passaram todos em Alcacere, e recontaram ao conde o proposito do cano de Tangere com que iam, o qual anichillou de todo sua fantesia, e concordaram que se não podia fazer, e acordado Diogo de Bairros d'outra parte do muro por onde a cidade melhor se podia escalar e mais a salvamento, depois de sobr'isso praticarem, foram por aviamento do conde com boa dessimulação vêr o dito logar, e com quanto a cidade se velava, porém todos tres por uma escada de corda subiram ao muro, por onde andaram, e sem algum alvoroço nem sentimento colheram hervas d'elle, com que se tornaram a Alcacere, e de hi a Portugal, e com elles João d'Escalona, onde depois de a El Rei dizerem todo o que acharam e experimentaram, ficou muito contente, e sobr'isso praticou logo com o Infante D. Fernando seu irmão. E concordaram que para este caso haver secretamente bom effeito, que o Infante com desejo de honra e outros respeitos e obrigações que mostrasse ter para passar em Africa, pedisse a El-Rei para isso licença, porque com esta mostrança este feito se poderia melhor e mais encobertamente fazer, e assi se cumprio.
E porém a tenção propria e verdadeira d'El-Rei, em caso que logo a não revelasse, foi ser tambem na passagem que outro si logo foi divulgada. Em cujos percebimentos e apurações se seguiram tantos estrondos e alvoroços que os mouros, e principalmente os de Tangere, como do dano de tal passagem mais receosos foram de todo, e para todo logo avisados e percebidos, o que El-Rei por o conde de Viana logo soube, pedindo-lhe que para cousa tão feita como esta de Tangere em seus começos parecia, com semelhantes estrondos a não desfizesse nem danasse, para que abastaria não tanta gente como a de que se percebia, que pouca e pouca podia dessimuladamente vir a Alcacere, e d'alli o feito se faria com segurança e salvamento.
E a este siso não obedeceu o apetito d'El Rei, para que ajudou o conde de Villa Real, que a este tempo estava na côrte, e com o conde de Viana não era em muito accordo; porque envejoso da gloria e honra que se a outrem aparelhava, por ter n'ella parte como por seu nobre e esforçado coração sempre desejou, por seus meios e modos que por si e seus parentes buscou, teve maneira que El-Rei o mettesse n'este feito, em que lhe diziam não ser razão que por dito de dois homens elle com seu reino se aventurasse, e que ante de o cometer convinha que tal pessoa como era o conde de Villa Real com elles em pessoa fizesse juntamente a mesma experiencia. E que El-Rei para ser desenganado era bem que estreitamente lh'o encommendasse, especialmente que elle era tal que buscaria em Tangere outros logares por onde a cidade melhor e mais seguramente se cobrasse. Anichilando como suspeito o conselho do conde de Viana, atribuindo-lh'o a cautelosas manhas com que á custa alheia queria sempre ganhar honra e acrescentamento para si. E em fim, o conde de Villa Real foi d'El-Rei para isso rogado, e elle acceitou a ida com encarecimentos de receber morte e captiveiro por seu serviço, pedindo-lhe que, se lembrasse em tal caso d'elle e de seus filhos. A, que El-Rei logo d'ante mão satisfez concedendo-lhe liberalmente á custa dos bens de sua corôa, mui grandes e duvidosos requerimentos que com elle trazia.
O conde de Villa Real partiu de Lisboa no anno de mil e quatrocentos e sessenta e tres, com elle Diogo de Bairros e João d'Escalona, e no caminho se ajuntou com elles João Falcão, e chegaram a Lagos onde a condessa sua mulher estava parida de D. Fernando seu filho primeiro, e d'alli a levou a Ceuta, e d'hi com achaque de buscar gente com que poderosamente entrasse em terra de mouros passou em Tarifa, d'onde por mar foi vêr o lugar do escalamento, a que não sahiu do mar, nem foi n'elle por causa da muita tardança que fizeram os que primeiro sahiram. A que se juntaram mais Lourenço de Caceres, adail, e Pedro Affonso, os quaes acharam o lugar bem desposto e sem alguma mudança, e com isso se foi o conde mui alegre a Gibaltar, que o anno passado fôra aos mouros filhada, d'onde logo avisou El-Rei da boa desposição do feito, para o qual ficou alli precebendo manhosamente a mais gente que pôde para a passar a Ceuta, como passou, em que foram cento e cincoenta de cavallo e quatrocentos de pé, com fundamento entre El-Rei e o conde já concertado, que no dia que El-Rei por mar houvesse de ser no escallamento de Tangere, a que havia de ir da banda de Castela, de um lugar que se diz Bollonha, esse mesmo dia entrasse o conde por terra e fosse sobre a cidade para soccorrer e ajudar os que n'ella subissem e entrassem, e assi impedir qualquer soccorro que aos mouros da cidade de fóra viesse. E porém na partida d'El-Rei e do Infante se pôs tanta dillação além do tempo que tinham assignado, que o conde sem descobrir o caso não pôde reter mais a gente estrangeira que sustinha, e a despediu.
CAPITULO CXLVIII
_Da grande e danosa tormenta que El-Rei e o Infante passaram no mar_
El-rei e o Infante cuja passagem de todo era descoberta e divulgada, sendo prestes partiram de Lisboa segunda feira sete dias de Novembro do dito anno de mil e quatrocentos sessenta e tres, com vento algum tanto contrairo para sua viagem, e á quarta chegaram a Lagos, e ahi recolheu El-Rei o conde d'Odemira e o almirante, donde contra conselho de todolos pilotos e mareantes, partiu com assaz fortuna de tempo, o qual carregou tanto sobre a frota, que El-Rei para salvar sua pessoa foi aconselhado que se acolhesse ao porto de Silves, o que erradamente não quiz fazer; antes mandou guiar a prôa direita de seu navio, porque sem torcer nem se deter seguisse sua viagem, e sobre a noite a tormenta se dobrou tanto, que os navios todos correram grande risco de se perder, e os mais por segurarem suas vidas alijaram com grande perda muita parte de suas fazendas, salvo El-Rei, que não consentiu que do seu navio se alijasse com medo cousa alguma. Perdeu-se n'esta tormenta o navio de D. Affonso de Vasconcellos, cuja fazenda e muitos nobres homens se alagou, e as pessoas por milagre se salvaram, e assi sossobrou de todo o mar uma caravella, em que se perdeu grande fazenda de muitos.
E mais morreram Lourenço de Guimarães, e João Vogado, escrivães da fazenda d'El-Rei, e Gonçallo Cardoso, escrivão da camara, e um rei d'armas Portugal, com outros muitos e bons homens e muita fazenda, e n'esta tormenta andou El-Rei com o Infante seu irmão até o sabado, que só sem alguma outra companhia entraram no estreito, e havendo o conde D. Duarte conhecimento d'El-Rei pela bandeira real e capitoa que o seu navio trazia, foi-lhe fallar no mar, e com elle Pero d'Alcaçova que a elle fôra enviado com o aviso e ardil de sua vinda, e depois de se El-Rei lamentar pelo desaviamento de seu proposito, que era não poder desembarcar da parte de Castella, e o conde o confortar mais que reprender pelo erro que fizera, El-Rei e o Infante se partiram para Ceuta, onde poucos e poucos recolheram ao domingo seus navios, e cada um com grande perda e muito destroço, e assi o duque e seus filhos com outros muitos fidalgos, que escapando da tormenta milagrosamente sahiram todos em terra em camisas e descalços, e assi foram em romaria a Santa Maria d'Africa, com que provocaram todos a grande devoção.
CAPITULO CXLIX
_De como foi o primeiro cometimento do escalamento de Tangere_
E depois d'El-Rei declarar sua tenção de tornar a Tangere, por cuja fim alli viera, se partio para Alcacere d'onde enviou logo doze navios de remo com gente escolhida para irem escalar a cidade, cujo capitão foi Luiz Mendes de Vasconcellos, homem fidalgo, e nas cousas do mar bem entendido, com fundamento de El-Rei com seu poder os socorrer á hora do escalamento por terra, e porém o conde D. Duarte contradisse muito o cometimento por mar, pelas incertidões e perigos que tem, mas não foi crido, e Luiz Mendes todavia partio bem avisado do que á sahida do mar e á entrada da cidade havia de fazer.
El-Rei e o Infante e o senhor D. Pedro seu primo, e o duque e condes e toda a outra gente partiram por terra, e uma hora ante manhã chegaram acerca de Tangere, e os que foram nos navios á hora do desembarcar acharam o mar tão bravo, que não ousaram por aquella vez sahir em terra, e ao recolher dos navios havendo os mouros da cidade vista d'elles pelo aviso que já sobre si tinham, fizeram almenaras na cidade, e mandaram poer fogo ás bombardas que pelo muro tinham. E porque aquelle era o signal que se havia de fazer quando a cidade se entrasse, foi El-Rei e todos os que com elle eram mui alegres, e assi abalaram logo rijamente e não sem devida ordenança, mas não tardou muito que foram em conhecimento da verdade, que todo seu prazer converteu em tristeza, e toda esperança do feito em desesperação, e com tudo El Rei com a cara mui segura como seu real coração era sempre nos perigos, foi com sua gente á vista da cidade, que esteve olhando um pouco, e em se recolhendo disse contra muitos, _não me leixastes crêr ao conde D. Duarte, por ventura se o fizera esta vinda se empregara melhor_, e então se tornou logo a Alcacere, e d'ahi para Ceuta, e com elle o Infante seu irmão.
CAPITULO CL
_De como o Infante D. Fernando sem El-Rei entrou d'Alcacere e correu a terra aos mouros_
E porque veiu nova que o conde de Vianna e o conde de Guimarães queriam fazer d'Alcacere uma entrada em terra de mouros, quiz o Infante ser n'ella, e pediu licença a El-Rei, que para isso e para repartir e affrouxar o apousentamento em Ceuta lh'a deu, e a El-Rei foi commettido que fosse em pessoa, mas elle por algumas justas causas que apontou o não houve por bem, e estimou por mais sua honra e serviço, antes em seu nome ir um seu capitão tão poderoso, e tal pessoa como era o Infante.
E aos quatro dias do mez de Dezembro o Infante partiu d'Alcacere com todolos senhores da hoste, salvo o duque e o conde de Villa Real, que ficaram em Ceuta, e foi correr umas aldêas, que são na faldra da serra de Benaminir, terra muito fragosa e muito povorada, onde segundo fama vive a melhor gente de peleja d'aquella frontaria, de que mataram até duzentos mouros, e trouxeram captivos duzentas e vinte almas com muito gado e outro grande despojo, e se tornou a Alcacere, e dos christãos por máo resguardo morreram até quinze.
Quiz o Infante haver, e houve para si o quinto d'esta cavalgada, com muito aggravo do conde de Vianna, e não sem algum prasmo e geral reprensão do mesmo Infante, que por seu alto sangue e real condição, saindo d'Alcacere devia em caso que lhe pertencera fazer d'elle mercê ao dito conde, quanto mais que os quintos da villa de direito e por doação pertenciam ao dito conde, a quem El-Rei o compoz e satisfez depois com dinheiro de sua fazenda.
CAPITULO CLI
_De como o Senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, se foi de Ceuta para Barcellona, e se intitulou Rei d'Aragão_
E porque n'este tempo e da cidade de Ceuta se foi para Barcellona o Senhor D. Pedro, filho maior do Infante D. Pedro, que na mesma cidade acabou intitulado Rei d'Aragão, o fundamento e causa que para isso houve foi n'esta maneira.
Por morte d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles, não ficou filho algum legitimo que o herdasse, e sómente lhe ficou um filho bastardo, D. Fernando, que depois da morte d'El-Rei seu padre, por favores e grandes riquezas que lhe leixou, herdou e teve o reino de Napoles; era irmão d'El-Rei D. Affonso, D. João Rei de Navarra, que herdara este reino por razão da filha d'El-Rei D. Carlos com que casou, de que houve uma filha, que foi casada com El-Rei D. Anrique de Castella, de que não devidamente se quitou, quando casou com a Rainda D. Joanna de Portugal, como atraz fica, e houve tambem um filho que se chamou o Principe D. Carlos, e sendo ainda Rei da Navarra viuvou, e por haver liança para suas contendas, que em Castella e Aragão tinha, casou com uma filha do almirante de Castella, de que tendo já filhos sobcedeu por morte do dito Rei D. Affonso seu irmão os reinos d'Aragão e de Cicilia, e o Principe D. Carlos seu filho, dizem que por mau trato da madrasta, lhe pediu que lhe leixasse o reino de Navarra para o reger, pois a elle _in solidum_ por contracto pertencia, e porque o pae não disistia d'elle andavam ambos em grandes desvairos, até que o dito Principe falleceu, a tempo que seu casamento era concordado com a Infante D. Catarina de Portugal, como atraz fica, e de sua morte que foi julgada por artificial, se deu muita culpa e causa á Rainha sua madrasta, poendo-lhe que o mandara sem tempo matar, por tal que os reinos de seu marido livremente ficassem, como ficaram a D. Fernando filho d'ella, que depois foi Rei de Castella e d'Aragão, de que os povos foram mui tristes e anojados; porque D. Carlos era Principe de muitas virtudes, e lhes dava esperança de ser bom Rei, pelo qual a cidade de Barcellona, com todo o principado de Catelonha alevantaram a obdiencia a El-Rei D. João, e a deram a El-Rei de França, que os deffendeu um tempo, até que se concertou com El-Rei D. João, que pelo não guerrear lhe leixou o condado de Roselhão pacifico, em que entrou Perpinhão, e anojados d'isso os de Barcelona tomaram por Senhor El-Rei D. Anrique de Castella, que com perda d'Aragão tambem todos se concertaram.
E El-Rei D. Anrique mandou sair de Barcelona a gente d'armas, que em sua defesa tinha, e sobre esta concordia dos Reis foram as grandes e famosas vistas de Fonte Rabia, a que Lopo d'Almeida e o doutor João Fernandez da Silveira, que depois foi barão d'Alvito, foram em favor d'El-Rei D. Anrique enviados por El-Rei D. Affonso.
E porém os regedores de Barcellona buscando já por caminhos desesperados alguma esperança de sua salvação, trataram secretamente com o dito Senhor D. Pedro, que como só e principal herdeiro que era da casa d'Urgel, e assi a quem pertenciam de direito os reinos d'Aragão quizesse intitular-se d'elles, e assi receber logo em seu senhorio e poder o principado de Catelonha com a cidade de Barcellona com cujo poder e forças, se o coração e saber lhe não fallecesse, cobraria o mais que El Rei D. João tiranamente possuia. Sobre o qual D. Pedro, em segredo se aconselhou logo com seu confessor, que quanto a Deus e ao mundo lhe fallou e aconselhou o que devia. E assi fallou sobre o caso com alguns fidalgos e cavalleiros prudentes de que se fiava, de que foi aconselhado, pospostos muitos pejos que D. Pedro apontou, que não sómente devia desejar e d'aceitar cousa tamanha e tão honrada que assi livremente lh'offereciam, mas ainda que a devia trabalhar e requerer, e com ella antes morrer, que viver nos desfavores e desprezos e mingoas em que vivia. Com as quaes cousas movido o dito D. Pedro, determinou aceitar a dita empresa, e por seus assinados e sellos assi o certificou e segurou á dita cidade.
E este negocio sempre andou secreto até esta ida d'El-Rei a Ceuta, onde sobre concerto vieram armadas duas gallés de Barcellona, com mostrança que vinham a seu trafego d'armada.
D. Pedro fôra com o Infante na dita entrada que disse, e quando tornou a Ceuta achou hi as galés, de cujos patrões e regedores que n'ellas vinham, foi de sua tenção certificado, que era logo o levarem, e depois de D. Pedro pedir a El-Rei, que perante o Infante seu irmão, e o conde de Villa Real, e Paio Rodriguez, Contador Mór de Lisboa o quizesse ouvir, elle com palavras de muita obediencia e autoridade disse a El-Rei todo o movimento passado, e que a este fim eram vindas aquellas galés, pedindo-lhe para isso licença, allegando-lhe muitas razões porque o devia fazer, ao menos por fazer Rei um seu vassallo, que como sua feitura o havia sempre de servir e lhe obedecer.
E leixadas muitas alterações que sobre isso houveram, El-Rei por então não se pôde escusar, e lhe outorgou a dita licença; e porque o conde de Villa Real tinha grande afeição pela muita honra mercê, que o Infante D. Pedro em regendo sempre lhe fizera, offereceu e deu logo ao dito Senhor D. Pedro, prata e bons corregimentos de casa, e depois lhe enviou cavallos e gente d'armas, o que outro algum do reino não fez. E porém começou El-Rei de dilatar a D. Pedro o tempo da dita licença, com fundamento de se querer ainda d'elle servir n'aquella vinda a que viera de gentes e armas mui bem corregido, de que D. Pedro tomava grande paixão, especialmente porque El-Rei aparelhava vêr-se com El-Rei D. Anrique, de que receava que sua ida em Aragão sendo revellada receberia total embargo, e com elle manifesta queda de tamanha honra como parecia que se lhe aparelhava.
E uma noite querendo D. Pedro fallar a El-Rei sobre sua partida, presumindo El-Rei a causa porque seria, se escusou de o ouvir remettendo-o para o outro dia; pelo qual D. Pedro logo aquella noite, porque os patrões já mais não queriam esperar, se metteu nas galés e se foi com elles, e a El-Rei leixou por escripto a causa porque assi se partira, e a leal tenção que levava para sempre o servir. Mas n'esta prosperidade D. Pedro durou pouco; porque em breve acabou com peçonha sua vida dentro em Barcelona, onde na Igreja maior jaz sepultado.
CAPITULO CLII
_De como o escallamento de Tangere se commetteu a segunda vez pelo Infante D. Fernando sem consentimento d'El-Rei_
Estando El-Rei em Ceuta, algumas vezes commetteu entrar e ir sobre Arzilla, com desejo e apparelhos de a tomar, e tantas contrariedades recebeu para isso dos grandes invernos que logo sobrevinham, que nunca seu desejo com seus commettimentos poderam vir a algum effeito, e da derradeira vez d'Alcacere se tornou El-Rei para Ceuta, havendo que o escallamento de Tangere era a elle desesperado; porque cria que aos mouros era já descoberto, assi por christãos que captivaram, como por mouros que fugiam, que todos lh'o diriam, em especial pela gente sua que viram quando a primeira vez sobre a cidade foi amanhecer.
E porém em se partindo disse ao Infante seu irmão que por conselho e accordo dos condes, que com elle eram, mandasse tentar a dita entrada ou outra alguma, porque a cidade bem se podesse filhar, e se tal fosse o avisasse; porque quando não viesse com toda sua gente e poder, ao menos como cavalleiro, e com poucos, folgaria ser no feito.
O Infante sobr'isto mandou algumas vezes tentar e experimentar o dito escalamento, que se achou e examinou estar ainda sem alguma innovação, e para se fazer como cumpria, pelo qual determinou fazer-lo por si sem El'Rei. Dizendo que do sentimento que algumas escutas dos mouros haveriam de sua vinda, poderiam os de Tangere receber tal aviso, com que o feito de todo se perdesse, e porém ante de sua partida, tendo conselho com muitos e principaes homens que com elle estavam, Fernão Tellez lhe disse que era presente:
«Senhor, n'esta determinação que tomaes, e em que nos pedis conselho, ante de dizer meu voto, queria de vós saber primeiro duas cousas, a primeira se houvestes licença d'El-Rei para só fazerdes o feito, e a segunda se tendes para elle gente que vos abaste».
E o conde d'Odemira vendo que aquelles eram pontos sustanciaes e que em todo contradiziam á vontade e proposito do Infante, pelo lisonjar para a commissão de Mertola, e da Commenda Mór de Santiago, que lhe então requeria e houve, respondeu logo a Fernão Tellez com palavras assi irosas e asperas, em que o Infante consentio, que no exemplo d'este aprenderam os outros o que no caso diriam.
E porém o Infante, porque a pergunta de Fernão Tellez ácerca da gente lhe pareceu boa e necessaria, quiz saber de todos de que gente para o feito se perceberia. Em que houve muitas sentenças, e com alguma o commettimento do infante (por lhe não desprazerem) se desfazia, anichillando em todo a resistencia e fraqueza dos mouros, salvo com a do conde de Viana que disse: