Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)
Part 9
E por honra e memoria d'aquelle dia depois do casamento acabado, a requerimento da Imperatriz e dos embaixadores, outorgou El-Rei dificeis perdões de mui rigorosos casos, e fez quita de grandes dividas, que para outras pessoas particulares lhe foram requeridas. E houve aquelle dia convite real de vinhos e fruitas em uma notavel perfeição, e assi muitas danças e festas em toda a noite. E depois em todolos dias que a Imperatriz esteve na cidade ante de sua partida houve sempre mui suntuosos banquetes, em que d'El-Rei e da Rainha foi muitas vezes convidada, e assi os embaixadores e Infantes, como em ricos momos que o Infante D. Fernando por si fez, e outros de muito mór riqueza e singular invenção, que o Infante D. Anrique mandou fazer, com outros de muitos senhores e fidalgos, e sobre todos o d'El-Rei, em que desafiou os cavalleiros para as justas reaes, que manteve na rua Nova, com condições mui excellentes e de grande gentilleza, e assi propostos grados e empresas mui ricas para quem mais galante viesse á tea e assim melhor justasse. A que o Infante D. Fernando veiu com seus ventureiros vestidos de guedelhas de seda fina como selvagens, em cima de bons cavallos envestidos e cubertos de figuras e côres d'alimarias conhecidas, e outras diformes, e todas mui naturaes, e o Infante D. Fernando por melhor justador venceu então o grado, que foi uma rica copa de que fez logo mercê a Diogo de Mello. E assi vieram outros seis ventureiros do Infante D. Anrique ricos e em bôa ordenança, e após elles outros muitos, que no primeiro dia e em outros quatro que El-Rei manteve justaram, em que se fizeram notaveis e maravilhosos encontros. E depois das justas houve touros, e canas e mais momos e banquetes e muitos entremezes de grandes invensões, e com muita custa.
CAPITULO CXXXII
_Da partida da Imperatriz d'estes reinos, e das pessoas que com ella foram_
E finalmente sendo já todalas pessoas ordenadas, e navios e cousas prestes para a partida da Imperatriz, uma segunda feira XXV dias d'outubro ante de embarcar e se meter no mar, ordenou El-Rei que fossem todos ouvir missa á Sé, para onde El-Rei foi diante com a Imperatriz, e após elles a Rainha, e com ella o Infante D. Fernando, e logo a Infante D. Caterina que levava o Infante D. Anrique, e após ella a Infante D. Joanna com que ia o marquez d'Ourem, e estas pessoas reaes foram todas a cavallo, e a outra gente que era muita e mui nobre, assi homens como mulheres foram todos a pé.
E como entraram na Sé a Imperatriz se foi á cortina d'El-Rei, e com ella as Infantes suas irmãs, El-Rei se foi para a da Rainha, que por ser prenhe e ter na emprenhidão fortes accidentes se retraiu a uma capella da charolla em que ouviu missa.
Foi a principal missa dita em Pontifical e mui solemne, e com pregação á partida e auto consoante, acabada a qual, e dada a benção pelo Bispo de Ceuta com muita solemnidade e devoção á Imperatriz, abalaram todos até á porta da Sé, d'onde a Imperatriz com muitas lagrimas se despedio da Rainha que não pôde mais ir, e de hi El-Rei com todolos outros senhores e senhoras se foi com a Imperatriz a pé, até o cais da Ribeira, em que era feita uma ponte de toneis, porque entraram em uma carraca que para ella se armou e concertou em grande perfeição.
E á primeira era ordenado que com ella fosse o Infante D. Fernando, e elle o desejou e procurou assi pela acompanhar mui honradamente, segundo a pessoa que era, como por ir vêr El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio que muito desejava. E em fim El-Rei o não houve por bem, e foram com ella o conde de Ourem, que então fôra feito novamente marquez de Valença de Minho, e a condessa de Villa Real a Velha com muitas donas e donzellas, e o Bispo de Coimbra D. Luiz Coutinho, e Lopo d'Almeida, e Pero Vaz de Mello, regedor da casa do civel de Lisboa, e Alvaro de Sousa, mordomo mór, e Affonso de Miranda, e Gomez de Miranda, e Gomez Freire, e João Freire, e D. Diogo de Castello o Velho, e Fernão da Silveira, e Martim Mendez de Berredo, e outros muitos cavalleiros a que então foram ordenadas quinhentas e oitenta emcavalgaduras, e para sua embarcação levaram duas carracas e seis náos, e duas caravellas; e porque depois da Imperatriz ser embarcada sobrevieram ventos contrairos, ella sem sair da carraca esteve no porto sobre ancora muitos dias; e porém como Deos deu vento de viagem, partiram de Lisboa e foram a Ceuta a cinco dias de Dezembro.
E a Imperatriz com todos sahiu em terra, e foi de pé em romaria a Santa Maria d'Africa. Era então capitão de Ceuta o conde D. Sancho, que com as festas que pôde lhe fez muito honrado recebimento, e deu banquetes na terra, e assi muito refresco para o mar. E d'hi fizeram vella, e passaram ao mar grandes e perigosas tromentas, e em fim aportaram a salvamento em porto Liorne, junto com Pisa, bespora de Santa Maria Candelaram, primeiro dia de Fevereiro.
CAPITULO CXXXIII
_Como a Imperatriz chegou á Italia e foi do Imperador recebida, e assim como ambos foram pelo Papa recebidos e coroados em Roma_
E dos moradores da cidade de Pisa em que entrou foi altamente recebida, e foi a tempo que o Imperador esperando já por ella estava em Italia na cidade de Sena; d'onde logo enviou a ella o duque de Saxim e dois condes e quatro barões, e algumas outras senhoras d'Allemanha, e tambem Eneas Silvio, que então era bispo da dita cidade de Sena, e depois foi Cardeal, e tambem Papa chamado Pio segundo, com que de Pisa veiu com grande honra até a dita cidade de Sena, em que entrou a primeira quinta feira da quaresma. D'onde sahiu logo fóra o duque Alberto, irmão do Imperador, e depois El-Rei d'Ungria, moço acompanhado de rica e mui nobre gente, e o Imperador a esperou á porta da cidade da parte de dentro, acompanhado de dois Cardeaes, todos a pé, e a Imperatriz se deceu, e lhe quizera beijar a mão, e elle não quiz.
E depois de suas falas e arengas publicas, que por oradores alli se fizeram, se foram ás pousadas, onde por memoria d'esta primeira vista no proprio logar em que se primeiro viram está uma coluna de marmore mui alta com o escudo Real de Portugal, que o dito doutor João Fernandez da Silveira, embaixador, que era presente, mandou fazer.
E depois de se alli em Sena fazerem muitas festas e prazeres por alguns dias, o Imperador e Imperatriz partiram para Roma, onde tinha o Sumo Pontificado o Papa Nicoláo quinto, que depois de o Imperador fazer certos juramentos e solenidades, a que os Imperadores de Roma são obrigados, os mandou receber com o Collegio dos Cardeaes, e com toda a côrte romana, que é a mór honra que se póde fazer. Entraram a nove dias de Março do anno seguinte de mil e quatrocentos e cincoenta e dois. E da porta da cidade onde os veiu receber uma solemne procissão, foram logo decer á Igreja de S. Pedro, onde o Papa nos degráos da porta principal os veio receber, e depois de lhe beijarem o pé, e fazerem o divido acatamento, o Papa com grande alegria e muita honra os levou dentro ao altar de S. Pedro, onde depois de fazerem oração se tornou com elles ás portas, d'onde por aquelle dia se despediram para as pousadas.
E aos quinze dias houve missa papal em S. Pedro muito solene, a que o Imperador e Imperatriz estiveram, e alli o Papa lhes fez as benções que a Santa Egreja aos novos casamentos ordena; porque sem isso houveram por bem que o matrimonio entre elles se não consumasse nem consumou, salvo em Napoles depois da quaresma toda passada; porque assi o tomaram por devoção.
E aos vintoito dias do dito mez no fim da outra missa do Papa, elle com grandes solemnidades e maravilhosas cerimonias, por suas mãos em S. Pedro os ungio e coroou, e hi com grandes triunfos foram sem o Papa levados a S. João de Latrão, e ao passar da ponte de Santangello, indo de caminho fez o Imperador cavalleiros o duque Alberto seu irmão, e El-Rei d'Ungria seu sobrinho, que vinham com elle. E assi outras muitas pessoas de grande valor. E ao outro dia tornou a fazer outros em S. Pedro ao pé da veronica, em que foi o dito embaixador João Fernandez, que depois foi o primeiro barão d'Alvito como já disse. Acabadas as quaes cousas o Imperador e a Imperatriz ante de se irem para o imperio, a XXVII dias de Março partiram para Napoles vêr El-Rei D. Affonso, que em bespora de Pascoa lhe fez tão ricos e suntuosos recebimentos e festas, que com razão por sua grandeza, nobreza, e manificencia apagaram a memoria de todolos excellentes, que até seu tempo se fizeram, e d'alli tornaram outra vez junto com Roma, e de hi fizeram seu caminho para Allemanha, e d'este Imperador e Imperetriz nasceu Maximiliano, que depois da morte de seu pae foi Rei dos romãos.
CAPITULO CXXXIV
_Dos filhos que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a elles_
A Rainha D. Isabel ao tempo d'estas festas era prenhe da primeira vez, e pario em Cintra um filho, que houve nome o Principe D. João, e em menino logo falleceu, e depois pario logo a Infanta D. Joana, que sempre se chamou Princesa até o anno que vinha de mil e quatrocentos e cincoenta e cinco, em que o Principe D. João nasceo, e depois se chamou Infante, e falleceu honestamente sem casar nem obrigação de religião dentro no mosteiro de Jesu d'Aveiro, em idade de XXXVI annos no anno que vinha de mil e quatrocentos cincoenta e seis, e no anno de mil e quatrocentos cincoenta e sete El-Rei se foi a Evora, onde o Infante D. Fernando seu irmão, segundo alguma opinião, teve com elle alguns requerimentos a que El-Rei, segundo sua vontade não satisfez. Pelo qual o Infante, ou descontente d'isso, ou desejando acrescentar seu nome e honra na guerra d'Africa, como outros disseram, ou com desejo de ir vêr El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio, que por não ter filho herdeiro legitimo, tinha esperança que o dotaria por filho para sua sobcessão, determinou ir-se escondidamente d'estes reinos sem licença d'El-Rei, sendo já casado em edade de desoito annos. E para isso mandou a Lopo Fernandez Andorinho, seu estribeiro, que lhe fizesse como fez com grande trigança e dissimulação aparelhar uma caravela na Foz d'Odiana, e como foi avisado que era prestes, partiu-se d'Evora secretamente dia dos Innocentes, que é a terceira Oitava do Natal, e com elle sómente Nuno da Cunha seu camareiro mór, e o doutor Vasco Fernandez, e dois moços da camara, e meteu-se n'ella com fundamento de tocar Ceuta.
Não foi El-Rei de sua partida sabedor salvo no outro dia, com que foi muito anojado, e mandou logo muitos fidalgos por todalas partes, avisados que por qualquer caminho que levasse o seguissem; e porque o Infante ao partir d'Evora por enlear os que o seguissem, pôs o rostro em Moura com mostrança d'entrar em Castella, El-Rei que d'isso foi avisado, partiu logo para Mourão e d'hi porque não achou certo recado, partio pelo rio d'Odiana abaixo sem algum repouso até que chegou a Crasto Marim onde soube que o Infante embarcara, e d'hi apressado se foi a Tavilla.
E ante que da mudança do Infante alguma cousa em Ceuta se conhecesse, chegaram a ella por mandado d'El-Rei, João de Mello alcaide mór de Serpa, e Galleote Pereira, que ao conde D. Sancho capitão de Ceuta notificaram o caso, e da parte d'El-Rei lhe encomendaram, que com gram deligencia e trigança mandasse guardar o estreito, para que se o Infante passasse como se presumia, em toda maneira até o avisar o detivesse.
Deu o conde a isso muita pressa e mandou logo armar fustas e caravellas, e esses navios do reino que tinha. E em se estas cousas aparelhando, estavam sobre o mar para isso postas atalaias, que n'elle descobriram uma gallé e uma caravela ambas juntas, e a galé era de um Peroso, cosairo italiano, que n'aquelle estreito andava d'armada, e na caravella vinha o Infante após quem o cosairo vinha, já avisado de quem era, e para o deter e não o leixar passar, se por ventura desviara a prôa de Ceuta, e o conde como houve conhecimento que alli vinha o Infante o foi em uma galeota logo receber ao mar, e com elle se veio ao porto onde com João de Sousa sómente entrou na caravella e lhe beijou as mãos, e o Infante sahiu, e foi logo a Santa Maria d'Africa, e tornou-se a apousentar, e o conde fez quanto pôde pelo agasalhar e servir em todo cumprimento e perfeição, e lhe entregou a vara da governança e capitania da cidade; mas o Infante havendo-a em sua mão e esforço por bem empregada, não lh'a tomou, e o conde como era de muitos annos e siso, depois de praticarem sobre sua partida, moveu o Infante ao que quiz, que foi conforma-lo com a vontade d'El-rei, para o qual o conde depois de concertar o assessego do Infante na gallé do cosairo, avisado bem de tudo logo partiu e o achou em Tavilla, com que El-Rei e o Infante D. Anrique e toda sua côrte crendo que vinha alli o Infante, foram postos em grande alvoroço, e os vieram receber á ribeira, e depois de o conde lhe dizer o fundamento do Infante, El-Rei com causas e razões evidentes, e que muito faziam ao resguardo de sua honra e estado, houve por escusado satisfazer á tenção do Infante, que era estar como fronteiro em Ceuta, a quem tambem logo mandou o conde d'Arrayollos com quem foram seus filhos, e o conde d'Atouguia, e o marechal, e após elles outros muitos fidalgos e pessoas principaes de todo o reino, para o Infante lhe dar fé, e o moverem logo para sua tornada.
E assi se tornou o conde D. Sancho, que no caminho tomou por força uma caravela com uma rica empresa de mouros e cavallos, e cousas outras muitas com que veiu alegre a Ceuta. E elle e os outros declararam logo ao Infante a vontade e desejo d'El-Rei. E finalmente depois de o Infante ser por cartas d'El-Rei, e por os senhores que com elle eram mui perseguido acerca de sua volta para o reino; com especial porque na cidade morriam muito de pestenença, houve por bem faze-lo, sendo já diante partido o conde d'Arrayolos e D. Fernando, e D. João seus filhos, que o Infante tinha despedidos com fundamento de ficar em Ceuta alguns dias.
E ante de o Infante se meter no mar; por que o conde D. Sancho andava anojado por uma sua filha já mulher, e por o Arcebispo de Lisboa D. Pedro seu irmão, que uma em Ceuta, e o outro no reino ambos então falleceram, e em signal de tristeza trazia por elles grande barba, o Infante lhe rogou que a fizesse e tirasse o dó, e o conde para o fazer lhe metteu por condição que tambem fizesse a sua que ainda nunca fizera, de que ao Infante aprouve e assi o fez, e logo embarcou em navios, e com elle o conde D. Sancho, e o conde d'Atouguia, e outros muitos senhores e fidalgos, e passaram logo á ilha de Tarifa, e d'hi pelos lugares da costa do mar até Callez, recebendo o Infante dos castelhanos muitos e honrados presentes e grandes refrescos, e elle assim fazendo a muitos que lh'o pediam muitas mercês e esmolas.
E de Callez se foi a Crasto Marim, onde chegou quarta feira sete dias de Fevereiro do anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, onde estava o Infante D. Anrique, que no rostro e alegres mostranças com que logo recebeu o Infante seu sobrinho e filho, e nas festas e avondanças com que o tratou e os que com elle vinham, pareceu mui claro o grande e verdadeiro amor que lhe tinha, e alli esteve o Infante D. Fernando oito dias, nos quaes mandou fazer de vestir asi e a todolos senhores e fidalgos que com elle vinham, de muitos pannos de sêda e de lã que em Callez para isso mandou comprar.
E depois de se despedir do Infante seu tio se foi a Mertola, e d'hi a Beja onde El-Rei o esperava, que foi aos XVII dias de Fevereiro, que era a primeira sexta feira da quaresma.
Sahiu El-Rei tres legoas ao receber, em cuja vista elle e toda a côrte receberam muita alegria. E assi foram fallando até á villa, d'onde por mandado d'El-Rei sahiu muita gente a receber o Infante com muitas festas e prazeres.
E d'hi a poucos dias El-Rei por satisfazer ao descontentamento do Infante de que mais sua partida pareceu que procedera, lhe fez doação das villas de Beja e Serpa e Moura.
CAPITULO CXXXV
_Como o Gram Turco tomou a cidade de Constantinopola, e o Papa publicou cruzada contra elle, e El-Rei D. Affonso a tomou_
E no Maio d'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, o Gram Turco chamado Mafamede tomou por cerco a nobre cidade de Constantinopola em Grecia, cabeça do imperio no Oriente, e a cidade de Pera com muitos outros reinos e provincias de christãos de Europa e Asia, sendo Papa na Santa Egreja de Roma Nicolau sexto, que de muito velho e anojado do caso a que quizera prover, logo falleceu e sobcedeu em seu lugar o Papa Calisto terceiro, de nação valenceano, em virtudes, saber, e esforço homem mui singular, e com a dôr da perdição d'aquellas cidades e terras, e aceso em um santo ardor de as cobrar, convocou e encitou para isso por seus breves e messegeiros todolos Reis e Principes christãos. Entre os quaes foi El-Rei D. Affonso, que como era Principe mui catholico e de grande coração, e em que o real sangue para mais honra servia, sendo ainda a Rainha viva, acceitou a empreza com promessa de servir a Deus n'aquella guerra com doze mil homens por um anno á sua custa, para execução do qual, em fazimento de navios e compras d'armas, e em outras cousas a tal e tão longa viagem necessarias, fez grandissimas despezas, não sem grandes lamentações do reino, e em fim El-Rei por então desistiu d'aquella ida, assi porque lhe falleceu para isso muito dinheiro, como porque o Papa Calisto falleceu, que deu causa aos outros Principes christãos tambem desistirem. E assi juntamente porque foi certificado que El-Rei de Fez sabendo de sua partida fóra de seus reinos se aparelhava vir como veio sobre Ceuta; mas porque então achou a cidade com mais força e maior segurança do que fez fundamento, alevantou o cerco com proposito de logo tornar sobr'ella com mais artilharias, engenhos, e poder.
E tendo El-Rei muita frota e gente prestes, para a empregar como dizia, occorreram-lhe tres emprezas juntamente, a primeira era a necessidade que tinha de prover e remedear aos males e roubos que n'este tempo os francezes faziam no mar aos naturaes d'estes reinos, de que se os mercadores a El-Rei muito querelavam. A segunda cumprir sua promessa ácerca da guerra dos turcos, que já tinha publicada, e para que tinha feito muitos percebimentos. A terceira a ida d'Africa, com fundamento de tomar aos mouros algum lugar, com que de cercos e affrontas affrouxassem Ceuta, e sobre todas tres teve conselho.
E a primeira de tamanha frota andar pelo mar á ventura, houveram que era cousa duvidosa e não certa, e ainda com despeza e perigo. E a segunda de seguir a empreza do turco não menos por escusada, pois El-Rei ficava n'ella só, em que pela desegual comparação de poder que d'elle ao contrairo turco havia, sem duvida se perderia.
E porém o marquez de Valença e alguns que o seguiram aconselhavam El-Rei que esta sobre todas era razão que seguissem, pois o promettera e se esperava por isso em toda a christandade, tendo ainda por mór e mais forte contradicção, que devia ir por terra e não por mar, em cujo voto foi de todos confundido, e alguns tiveram que a tenção do marquez em dar e soster conselho de tantas contrariedades, não fôra se não por arredar El-Rei da affeição da Rainha, de que se muito receava por causa da morte do Infante D. Pedro seu padre, em que elle fôra o principal movedor. E finalmente a terceira de passar em Africa se houve por melhor, especialmente que presuppunha que El-Rei de Fez magoado de chagas novas, que com sua passagem tomando algum lugar receberia, viria sobre El-Rei que lhe daria batalha, e com ajuda de Deus o venceria, e porém as cousas sobcederam logo no reino de maneira, que este desejo e determinação se não pôde assi cumprir.
CAPITULO CXXXVI
_De como a Rainha pariu o Principe D. João e d'outras cousas a que El-Rei satisfez ácerca do Infante D. Pedro, e como casou a Rainha D. Joanna com El-Rei D. Anrique de Castella_
E no mez d'Agosto do anno de mil e quatrocentos cincoenta e quatro, estando a Rainha em Almeirim emprenhou do Principe D. João, e segundo El Rei D. Affonso affirmou, á hora de seu concebimento a Rainha trazia em um annel uma rica esmeralda, que por sua virtude especifica de guardar castidade lhe quebrou no dedo, e ella lastimando-se da pedra, El-Rei a confortou com esperança de cobrar por ella um filho, e assi foi.
E no anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco annos El-Rei se foi a Lisboa, onde a Rainha acabou com elle, assi por intercessão do Papa e d'outros Reis e Principes que sobr'isso tinham a El-Rei aficadamente requerido, como principalmente por seu amor d'ella, que com devidas exequias e cerimonias se désse ao Infante D. Pedro a sepultura que na capela d'El-Rei D. João seu padre lhe fôra apropriada, e que seus ossos fossem a ella trasladados com aquella honra e solemnidade que sem a desaventura de sua morte merecia. Para o qual da egreja d'Alverca onde seu corpo foi logo soterrado e d'onde seus ossos foram por Lopo d'Almeida levados ao Castello de Abrantes, foi ordenado que d'ali ao tempo da trasladação fossem solemnemente levados a Lisboa, e d'hi á Batalha, como adiante direi.
E aos tres dias de Maio d'este dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco, em Lisboa pario a Rainha o Principe D. João, que aos oito dias logo seguintes na Sé da dita cidade foi bautizado pelo Bispo de Ceuta D. João, que depois foi Bispo da Guarda, e foi levado á pia nos braços do Infante D. Fernando, irmão d'El-Rei, e acompanhado do Infante D. Anrique, e das Infantes e senhores e senhoras do reino; foram padrinhos o duque de Bragança, e D. Vasco de Tayde, prior do Crato, e madrinha D. Briatiz de Vilhena, mulher de Diogo Soarez.
E d'ahi a um mez foi por todolos tres Estados do Reino solemnemente jurado por Principe ligitimo herdeiro, e D. Joana sua irmã até então se chamou Princesa, e d'hi em diante Infante.
E as festas e prazeres que no nascimento do Principe, seu bautismo e juramento em Lisboa principalmente, e assi em todo o reino se fizeram, foram grandes e com muitas deversidades d'alegrias, que duraram por muitos dias, e em grande perfeição.
E n'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco, El-Rei D. Anrique o quarto de Castella, se quitou da filha d'El-Rei D. João de Navarra seu tio que tinha por mulher, e se concertou com El-Rei D. Affonso de Portugal, que lhe deu por mulher a Infante D. Joana sua irmã, que sem dote e com os sós corregimentos de sua pessoa, casa e camara, que foram muito reaes e de gram cumprimento, a recebeu por mulher em idade de XVII annos, e foi muito honradamente levada ao extremo d'estes reinos, e d'hi levada a Castella por a condessa D. Guiomar, e por o conde da Atouguia D. Martinho seu filho, que a entregaram a El-Rei, e além das festas que em Lisboa se fizeram mui grandes, houve tambem outras e honradas justas na Landeira; porque a Rainha entrou por Elvas.
CAPITULO CXXXVII
_Da treladação e exequias que se fizeram aos ossos do Infante D. Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu, e os ossos da Rainha D. Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro da Batalha_
E além do grande amor e affeição que entre elle e a Rainha havia, ainda pelo nascimento do Principe se dobrou muito mais, com que a Rainha já mais confiada requereu e pediu a El-Rei, que os ossos do Infante seu Padre como lhe tinha prometido não andassem provando tantas e tão vis sepulturas, e quizesse que fossem trazidos a Lisboa, e d'ali os levassem ao mosteiro da Batalha; porque alli faria por mais sua honra e mór seu estado.