Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)

Part 8

Chapter 8 4,148 words Public domain Markdown

Ó mui excellente Rei D. Affonso, onde estava vossa piedosa humanidade, onde se escondeu n'este passo vosso singular agardecimento, grande prudencia, e mui alto saber! Ó Divina Providencia! Ó Virtudes Celestiaes, pois com mãos não avaras os XVII annos d'este glorioso e mancebo Rei, n'este tempo dotastes de mais perfeições e bondades d'alma do que a outros Principes de muitos mais annos fizestes; porque tambem lhe não allumiastes seu mui angelico entendimento, com que perfeitamente conhecesse os falsos erros e claros enganos em que seus apassionados servidores e conselheiros n'estes feitos o traziam emlheado e cego por tal, que do conhecimento d'esta verdade e limpeza, que nunca foi conhecida, se evitara a morte e perda de um tão perfeito e innocente Principe, que a elle mesmo Rei sobre todos era proveitoso e mais necessario, pois não é de duvidar que sua vida fôra sempre um forte freio e certa conservação da corôa e patrimonio real de seus reinos, e sua morte havia de ser o que foi redea solta de sua desolução e encurtamento! Ó duque de Bragança e conde d'Ourem vosso filho; porque contra o Infante D. Pedro quizestes ser, e fostes principaes movedores e sós capitães d'esta feia e dorosa empresa!

Não foi certamente por hereje nem máo christão; porque suas obras o aprovavam por mui catholico e amigo de Deus. Nem seria por injusto nem incorrecto nas cousas da justiça, pois n'ella sua balança sem odio nem affeição foi sempre mui egual e direita. Nem prodigo e destruidor do thesouro e fazenda real, pois aproveitou e governou sempre com singular provisão e muita temperança. E se alguma cousa da corôa real tomou e emlheou para ser culpado, não foi para si nem seus filhos, mas foi sómente a que a vós e cousas vossas deu, nem seria por ser de fraco coração e não desposto para defensão dos reinos que regeu, pois sabeis com quanto esforço, deligencia e ousadia sempre os defendeu, procurando-lhe sempre paz e justiça, e nunca guerra nem torvação, pois certamente menos devera ser por desleal, ou por se sentir n'elle como tyranno alguma vituperada cobiça e danado desejo para reinar, segundo ao novo rei e a seu povo, para sua maior indinação fizestes entender, pois a todos foi notorio que não sómente se não achou contra elle culpa, porque verdadeiramente assi parecesse, nem se podesse bem conjecturar, mas ainda está claro, que durar a vida d'El-Rei tanto tempo em seu poder, e procura-la sempre com tanto amor e cuidado juntamente com sua mui real e perfeita creação o relevam contra si de semelhantes maginações, e de todo o alimpam d'esta errada suspeita, cá por suas muitas virtudes e grande lealdade teve como era razão a vida, saude e estado d'El-Rei em tanta veneração e resguardo, que álém de se conhecer que sobre todalas cousas o amava, ainda parecia que o adorava, e se em seu coração entrara proposito tão reprovado, elle ou secreta ou artificialmente o privara da vida, para que teve largo tempo e boa disposição, ou o fizera criar e criara em tanta torpeza e danados costumes, com que não podendo os máos leixar nem dos bons aprender, se fizera para si mais dino de privação que da governança e regimento de nenhum reino, cujo defeito e indisposição causara requerer-se n'estes outro novo regedor ou rei como já outras vezes se fez, mas não se póde negar que El-Rei assi para Deus e para o mundo, como para si mesmo e para seus reinos e vassallos, foi tão altamente criado e ensinado tão perfeitamente, que a certidão d'isso que em sua real pessoa e mui nobre coração por evidencia de obras claramente se mostrava, fazia que nos reinos estranhos por sua louvada fama fosse desejado por seu proprio Principe, e nos seus proprios servido e adorado por Rei; e porque o Infante D. Pedro tal o criou, bem se viu que por tal o amou e serviu sem alguma sua quebra nem defeito, usando seu officio de regente com tanta perfeição e cumprimento, que mais pareceu que acceitara tal cargo para sua pena e trabalho, mais que para sua gloria nem descanço, cujo galardão devera ser outro e não este que lhe procurastes, cá vos leixaste guiar d'odio, inveja e cobiça, com que lhe causaste a morte tão vituperada com tamanhas maguas em sua limpeza; mas porque com isto a bondade e justiça de Deus foi claramente offendida, elle como justo e poderoso que é, não permittiu que tamanha culpa ficasse sem grave pena e justa vingança, pelo qual sua severa justiça e profundo saber, a que nada s'esconde ainda que fosse por tempos e passos tão vagarosos, quiz por castigo d'este e por enxemplo d'outros, que qual de vós irmãos infante e duque, em tantos males, mortes e desaventuras um ao outro tivesse a culpa, o neto do innocente, no neto do culpado com deshonrada e mortal pena de sangue egualmente a vingasse e justificasse depois, e assi se fez, como d'esta triste e espantosa execução depois de muitos annos passados a praça d'Evora foi publica testemunha, segundo em seus tempos e logares está mais declarado.

E acabados os tres dias o corpo do Infante por homens de prema, e com consentimento d'El-Rei foi levado em uma escada á egreja d'Alverca, onde porentão foi vilmente e com grande desacatamento soterrado; porque depois houve outras sepulturas, e com grandes cerimonias e solemnidades, como ao diante se dirá.

CAPITULO CXXV

_Das feições, costumes e virtudes do Infante D. Pedro_

O Infante D. Pedro por certo foi um singular Principe, dino de louvor entre os bons e louvados Principes que no mundo em seu tempo houve, homem de grande corpo, e de seus membros em todo bem proporcionado, e de poucas carnes; teve o rosto comprido, nariz grosso, olhos um pouco moles, os cabellos da cabeça crespos, e os da barba algum tanto ruivos como inglez; seu andar a pé era vagaroso e com grande repouso, suas palavras eram graciosas, com doce orgão de dizer, e nas sentenças mui graves e sustanciaes, e quando alguma sanha o tocava era sua cara mui temerosa, e porém não lhe durava muito, cá por siso ou condição natural, logo se lembrava de mansidão e temperança; foi algum tanto culpado em credeiro e vingativo, ainda que o desejo da vingança pareceu que não foi n'elle de grande e vicioso ardor, pois dilatou e temperou a que teve em sua mão, que para sua vida fôra mui segura e necessaria.

Suas roupas e trajos e maneira de viver, foram sempre de homem honesto, prudente e grande autoridade, e de moço até idade de LVII annos, em que acabou, sempre foi muito catholico temente a Deus, e de grande oração, e fez muitas esmolas. Honrou muito as pessoas ecclesiasticas a que sempre se escusou dar suas mãos a beijar, nem consentio estararem em giolhos ante elle.

Foi mui temperado em todolos autos da carne. Nunca se soube ter com alguma outra mulher carnal affeição, salvo com a sua propria, que legitimanente recebeu, com que ainda usava de grande temperança, cá como devoto e mui continente se apartava d'ella em todolos dias de jejuns, e dias outros solemnes da Egreja. E nas quaresmas com as roupas que de dia trazia, com essas de noite se lançava sempre vestido sobre palha, sem outra roupa nem cama ordenada; cada dia por sua devoção rezava as Oras Canonicas segundo custume romão, com outras muitas orações em que tinha devoção. Foi muito devoto do Arcanjo S. Miguel, por cuja devoção touxe por divisa as balanças; porque em sendo moço em uma doença que teve, foi de todos julgado por morto, e por um Martim Gonçalvez, capellão d'El-Rei seu padre foi assi levado ao altar da capela de S. Miguel, que está nos paços de Lisboa, a que foi devotamente encomenda-lo, d'onde milagrosamente logo retornou com vida e saude, em cuja memoria e por sua singular gratificação, com suas despesas proprias mandou fazer nos dias que viveu casas e obras muitas piedosas, assi como a egreja da cerca de Penella, e S. Miguel d'Aveiro, e o mosteiro de Santa Maria da Misericordia, que deu á ordem de S. Domingos, e a egreja de Tentugal com outras.

Fez sempre uma mui louvada profissão do tempo, que nunca em seus dias lhe passou sem beneficio ou louvor; teve para todalas cousas horas certas e limitadas que nunca traspassou; deu a casa de Santo Eloy de Lisboa, em que jaz o Bispo D. Domingos Jardo, aos clerigos da ordem e regra de S. João Evangelista.

Foi Principe de grande conselho, prudente, e de viva memoria, e foi bem latinado e assaz mistico em sciencias e doutrinas de letras, e dado muito ao estudo; elle tirou de latim em linguagem o regimento de Principes, que Frei Gil Correado compoz, e assi tirou o livro dos Officios de Tullio, e _Vegecio de Re Militari_, e compoz o livro que se diz da _Virtuosa Bemfeitoria_ com uma confissão a qualquer christão mui proveitosa. E foi mui justo, de que lhe veiu sempre avorrecer os máos, e fazer bem aos bons.

Foi muito verdadeiro e mui constante, e de mui claro entendimento; foi liberal com medida, e assi caçador e monteiro com temperança; porque o estudo em que se mais deleitava o privava de semelhantes prazeres; fez primeiramente usar que os Reis e Principes n'estes reinos comessem em publico, e fossem em suas mesas acompanhados, o que d'antes não faziam, cá pela mór parte sempre comiam retraidos; dizendo elle que suas mesas deviam ser escollas de sua côrte, para que costumava mandar lêr proveitosos livros, e ter praticas e disputa, de que se tomava muito ensino e doutrina.

Tirou as aposentadorias de Lisboa, e ordenou os estaos que deu causa a grande ennobrecimento da cidade, e assi fez outras muitas obras boas, e proveitosas ordenanças para o reino.

Porque sua alma recebera de Deus o galardão, pois em sua vida este mundo lhe foi tão ingrato.

CAPITULO CXXVI

_Do que a Rainha fez com a nova da morte do Infante seu padre_

A Rainha D. Isabel mulher d'El-Rei e filha do Infante D. Pedro ficara em Santarem, onde em breve lhe foi dada a triste certidão da morte de seu padre, que ella com publicos sinaes de mortal dôr muito sentio e chorou, e não como alheia mas como sua propria morte, e não era sem causa; porque em caso que não houvesse n'ella tantos dias nem tão madura edade, de que se esperasse perfeito conhecimento nas cousas, era porém naturalmente abastada de muita discrição e prudencia com que sentiu bem, que álém da grande perda que na privação de seu padre, não sendo vivo recebia, ainda sua vida com morte antecipada se dispunha a claro perigo como foi, e sobre tudo lhe dava mór tormento parecer-lhe que os imigos do Infante seu padre teriam com sua morte mais coradas causas a aprivarem e apartarem El-Rei seu Senhor d'ella, pois ante d'isto e sem alguma razão com grande instancia já o procuravam, como atraz fica.

CAPITULO CXXVII

_Como a Infante mulher do Infante D. Pedro soube de sua morte, e do que se fez de seus filhos_

A Infante mulher do Infante D. Pedro era em Coimbra, onde sendo salteada com a nova triste de sua morte e da prisão de D. James seu filho, desejando achar quem logo a matasse, andava sem algum acordo de mosteiro em mosteiro, e por casas alheias, não por escapar sua vida que já avorrecia, mas por escusar á morte e prisão d'outros seus filhos que comsigo trazia, e não sem muitas lamentações e grandes prantos seus, e de muitas pessoas que a seguiam e acompanhavam.

Ficaram do Infante estes filhos, a Rainha D. Izabel mulher d'El-Rei, e D. Fellipa, que ella já trazia em sua casa em edade de sete annos, a qual não foi casada, e sem obrigação de religião, viveu e acabou mui honesta e santamente no mosteiro d'Odivellas, onde jaz, e o Senhor D. Pedro seu filho maior, que depois sem casar morreu em Barcellona, intitulado Rei d'Aragão, e D. James que depois foi Arcebispo de Lisboa e cardeal em Roma, e jaz mui honradamente sepultado em Florença, e D. João que morreu casado intitulado Rei de Chipre, e D. Briatiz que foi honradamente casada em Borgonha pela duqueza sua tia com Monseor de Cleves, de que nasceu o Filipe Monseor que foi lá Gram Senhor.

N'esta peleja foi preso D. James filho do Infante, e com elle muitos fidalgos e outra nobre gente do Infante, com que El-Rei acerca de suas solturas se houve com aquella nobreza e piedade que de tal Rei sobre victoria se esperava. E pelos ditos e testemunhos dos presos, foram logo tiradas inquirições sobre as culpas de desleal em que culpavam o Infante, e mais buscados para isso os cofres de suas escrituras, que no arraial foram tomados, e finalmente contra elle não se achou outra cousa, que com razão magoasse sua limpeza e bondade, salvo represando errado juizo por não obedecer ao conselho de se não mover de Coimbra e seguir opinião tão errada, como foi partir-se d'ella, onde se esperava era de crêr, que seus feitos andando o tempo tiveram bom remedio, e sua vida e honra receberam segura salvação.

CAPITULO CXXVIII

_Como os imigos do Infante procuravam que El-Rei se quitasse da Rainha, e quão virtuosamente El-Rei o fez com ella_

El-Rei cumpriu alli no campo os tres dias, que para cerimonia do vencimento da batalha lhe fizeram crêr que eram necessarios, acabados os quaes despediu alguma gente do seu arraial, e com os Infantes, duque, e condes e prelados, e com outra muita e mui nobre gente, partiu para a cidade de Lisboa, onde foi mui altamente e com grande triumfo recebido, e alli por causa ainda do Infante se fez justiça crua d'alguns e mui innocentes.

E os imigos do Infante D. Pedro consirando no muito amor e grande affeição que El-Rei tinha á Rainha sua mulher, e no muito maior que ao diante com razão lhe poderia ter, com que o provocaria sempre para vingança e destruição sua, logo como viram a morte do Infante, lhe conselharam e requereram, que para segurança de sua vida, bem e assessego de seus reinos e vassallos se quitasse d'ella como de imiga, e já suspeita á sua real pessoa, e houvesse outra mulher, cá para Deos e para o mundo o podia e devia fazer. Allegando-lhe para isso muitas causas e razões que pareciam boas e necessarias, para cuja aprovação não falleciam autoridades e direitos, nem menos theologos e letrados induzidos que o confirmavam. Mas El-Rei em que havia bondades reaes e mui sã consciencia, e que nas virtudes e amor da Rainha tinha mui gram confiança, não deu a isso consentimento, antes para magoa e desfavor dos que tamanho erro lhe aconselhavam, o que elle muito estranhou, a mandou logo visitar e aconsolar a Santarem, e escusar-se com palavras de muito amor de a não ir vêr, e pedir-lhe que ella por si mesma o fizesse.

E com esta visitação de que a Rainha estava desesperada foi em sua paixão e tristeza mui satisfeita, e sem muito trespasso, sendo d'El-Rei primeiro certificada do modo em que a elle pelo mais contentar iria, deu logo ordem á sua partida; e ella com suas damas e casa, por accordo d'El-Rei, se vestiu com uma honesta temperança de dó. El-Rei sahiu a recebe-la, e d'elle e de toda sua côrte foi com tanto acatamento e tão grandes cerimonias recebida, como até seu tempo nunca o foi outra Rainha, e na vista e fala que ambos logo houveram, pareceram mostranças de tanto prazer e contentamento, como se nunca entrevieram as desaventuras passadas.

CAPITULO CXXIX

_Como El-Rei fez aos Reis e Principes christãos uma geral notificação da morte do Infante, e das respostas que houve, e da embaixada do duque e duquesa de Borgonha, que sobre a morte do dito Infante e sua desculpa foi principal_

E porque esta morte do Infante nos reinos e terras estranhas parecesse justa, hi logo em Lisboa firmaram os imigos do Infante uma instrucção contra elle, assaz feia e mui difamatoria, que El-Rei por escusa e justificação de sua morte enviou por seus messegeiros ao Papa e alguns Principes christãos, cujas respostas não vieram conformes a sua tenção, antes todos sem exceição, com apontamentos de muitos louvores e grandes merecimentos do Infante, enviaram acerca de sua morte muito reprender El-Rei, avisando principalmente as paixões particulares e enganos dos de seu conselho, e escusando em alguma maneira sua pouca e não madura idade, pois tinha razão de se reger e governar por elles.

E porém El-Rei deu logo Guimarães ao duque de Bragança, que sempre requerera e lhe fôra denegado pelo Infante D. Pedro, e quizera haver a cidade do Porto, a que se seus cidadãos não resistiram, já a vontade de El-Rei era inclinada, e por esta maneira deu a villa de Portalegre ao conde D. Sancho, a que valeu a resistencia e leal porfia dos moradores.

E porém a principal embaixada que a El-Rei sobr'este caso do Infante veiu, foi uma do duque Felipe de Borgonha e da duqueza D. Isabel sua mulher, irmã do Infante D. Pedro, em que veiu por embaixador o Daião de Vergi, que com muitas causas e razões fundadas em razão e direito, o enviaram escusar e aprovar sua innocencia e limpeza e pedir para seu corpo a sepultura que lhe El-Rei D. João, seu padre, em sua real capella ordenara, e assi que se não negasse para sua mulher e filhos e criados amparo e piedade, a que pedio que fossem restituidas suas honras e fazendas.

E como quer que o effeito d'este requerimento, por contemplação do duque e de seu filho foi algum tempo suspenso, porém não tardou muito que por elle D. James se soltou, e se foi a casa da dita duquesa sua tia, e de sua mão enviado a Roma, onde pelo Papa Callisto foi feito Cardeal do titulo de Santo Estaço, e após elle foi D. Briatiz sua irmã, que a duquesa com muita honra lá casou, como atrás já brevemente fica tocado.

E porque na primeira denegação que El-Rei fez á sepultura do Infante o dito embaixador requereu que lhe mandasse dar seus ossos para os levar a Borgonha, onde a duquesa sua irmã lhe daria sepultura honrada e merecida, receoso El-Rei de os furtarem da egreja d'Alverca, onde devassamente jaziam, os mandou tirar e levar ao castello d'Abrantes, cuja guarda e segurança encomendou a Lopo d'Almeida, que depois foi primeiro conde d'Abrantes.

CAPITULO CXXX

_De como a judaria de Lisboa foi roubada, e a causa porque_

E no fim d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, certos moços christãos por travessura fizeram algum mal, ou sem razões a alguns judeus que andavam na ribeira de Lisboa, sobre que se agravaram á justiça e ao doutor João d'Alpoem, que era corregedor, o qual provendo sobr'isso, mandou publicamente açoutar alguns d'elles, de que algum povo meudo e a voltas d'elle outras gentes que eram na cidade, assi se escandalizaram dos judeus, que sem mais outro acordo nem conselho, antes com grande onião e alvoroço, dizendo _matalos e roubalos_, cometeram a judaria pela porta que vem ao poço de Fotea, e a roubaram toda até o Poio, em que dos judeus que supunham em resistencia houve alguns mortos, ao qual insulto logo acudiram com muita força os officiaes da justiça, e principalmente D. Alvaro conde de Monsanto, que com suas forças atalharam o mais roubo e dano que se determinava fazer.

Foi El-Rei d'isto logo avisado por Pero Gaçalvez seu secretario, estando já com a Rainha na cidade d'Evora. E pedido com grande instancia, que a esta necessidade em pessoa quizesse prover, porque os rumores e alvoroços eram já taes na cidade, a que sem sua pessoa não se esperava resistir, á qual cousa El-Rei veiu em pessoa, e de muitos que pelo mesmo caso achou presos, mandou fazer publicas justiças, de que contra sua real pessoa se alevantavam oniões tão irosas, que houve por bem cessar de fazer mais cruas execuções; porque prendiam e puniam principalmente as pessoas, em cujas mãos as cousas do roubo por qualquer maneira se achavam; porque muitos que as não roubaram innocentemente padeciam.

CAPITULO CXXXI

_De como foi o casamento da Inperatriz D. Lianor irmã d'El-Rei com o Imperador Frederico, e festas que por elle se fizeram_

Tornou-se El-Rei a Evora, e na entrada do anno de mil e quatrocentos e cincoenta, houve cartas do Imperador d'Allemanha Frederico, que então se chamava Rei dos romãos, porque lhe prazia casar com a Infante D. Lianor sua irmã, segundo que fôra já apontado e requerido por El-Rei D. Affonso Rei de Napoles e d'Aragão seu tio d'ella, sobre a qual cousa El-Rei veiu ter côrtes geraes em Santarem, em que foi acordado que o dito casamento se fizesse, para cujo dote o reino com pedidos satisfaria o que fosse razão e se concordassem.

Foi logo para isso ordenado por embaixador o doutor João Fernandez da Silveira, homem fidalgo prudente e grão letrado, que depois foi o primeiro barão d'Alvito. O qual no mez de Junho do dito anno se partiu e foi á côrte do dito Rei de Napoles, onde com os embaixadores e procuradores do Imperador, que para o caso eram hi vindos, o dito doutor por meio do dito Rei a que tudo ia cometido, concertaram o dito casamento, de que fizeram autenticos contratos, e assinaram tempo certo a que o dito Imperador enviaria sua embaixada com seu suficiente procurador, para em seu nome receber por mulher a dita Infante, que havia de ser na entrada do anno que vinha de mil quatrocentos e cincoenta e nove, e logo levada a Allemanha. Da qual cousa sendo El-Rei logo avisado, se foi com sua côrte a Lisboa, onde entrou a uma quarta feira XXIII de Junho, que por acertamento foi bespora do Corpo de Deos e de S. João juntamente, onde quiz que o dito recebimento e entrega se fizesse com grandes e reaes festas, para que fez grandes provimentos e deu muita pressa.

E os embaixadores do Imperador que eram dois, tardavam já mais tempo do que fôra concordado, e a causa d'isso foi, porque em Castella no caminho de Santiago, a que vieram em romaria, foram roubados e deteudos, os quaes topou em seu destroço em Portugal, na Arrifana de Santa Maria, Afonso Nogueira, Bispo de Coimbra, que d'hi a pouco tempo logo foi Arcebispo de Lisboa, os quaes ambos eram homens de ordens sacras e letrados, um se dizia confessor do Imperador e outro seu capellão, e vendo Affonso Nogueira sua necessidade, e que não vinham em auto e habitos como cumpria a embaixadores de tamanho Senhor e que tão alto casamento haviam de fazer, determinou indo á mesma romaria de Santiago se volver com elles, a que com suas despezas, prata e cama e servidores, mandou servir e prover com muita nobreza e em grande cumprimento, e em Coimbra fez comprar muitos pannos finos, de que a elles e aos seus mandou fazer de vestir, segundo ás pessoas de cada um pertencia. E com elles leixou hi todo provimento com que de seu vagar se fossem a Lisboa, para onde elle se adiantou; porque avizasse El-Rei do que lhe cumpria, e logo ao caminho se tornou aos ditos embaixadores, com que foi por Villa Franca, onde o Infante D. Anrique os recebeu com festas e mui manificamente, e foram dormir ao Lumiar quinta feira trinta dias do mez de Julho do dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e um, e ao outro dia foram recebidos de toda a côrte e cidade com muita e mui nobre gente, e de caminho foram decer aos paços d'Alcaçova. Em que El-Rei na sala grande, que para isso estava em grande perfeição aparelhada, os recebeu assentado em sua cadeira triunfante, posta em seu estrado real, acompanhado de muitos senhores e fidalgos como o auto requeria, e aquella hora não foi mais que d'encomendas e visitações, com as quaes feitas se despediram e foram aposentados nos estaos do Rocio onde lhe foram aparelhadas as casas necessarias como a taes pessoas cumpria. E assi lhe foram ordenados mantimentos e provisões, e outras cousas de graça em muita abastança.

E os ditos embaixadores repousaram alguns dias, dentro dos quaes depois de vistos e examinados os contratos do dito casamento, e assi os poderes que traziam para o fazer, o recebimento entre a Imperatriz e o procurador do Imperador se ordenou de fazer, e fez solemnemente por palavras de presenente nos paços do duque, que são junto com S. Cristovão, a um domingo IX dias de Agosto de mil e quatrocentos cincoenta e um, ao qual foram El-Rei, e o Infante D. Fernando seu irmão, e o Infante D. Anrique seu tio, e condes e perlados e muitos nobres senhores, e assi foi a Rainha com a Infante D. Joana, e com muitas outras donas e donzellas de grande condição.