Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)
Part 7
Aos quaes conselhos o Infante disse: «Bem sinto já que estar aqui não é necessario, e muito menos ir adiante contra Santarem, assi pelas causas e razões que bem apontastes, como principalmente porque hei por grande graveza para mim, parecer que levamos as pontas de nossas armas contra o lugar onde está a Real pessoa d'El-Rei meu Senhor, a que eu sobre todos desejo melhor obedecer e mais acatar e servir. Porém minha determinação é por nenhuma maneira tornar atraz, mas quero-me ir por este caminho contra Lisboa, não com esperança de me a ella acolher, porque n'ella não tenho trato nem segurança, mas não póde ser que meus imigos sabendo que vou assi com muito menos gente e poder do que agora tem, não saiam a mim com suas valias; porque terão possibilidade e tempo de cumprir o que tanto desejam, e mais escusarão trabalho, que a El-Rei meu Senhor por todos respeitos não é conveniente nem necessario, e esta só mercê peço a Deus que seja assi, porque é a maior que d'elle posso receber; e se não vierem a mi então chegaremos á ponte de Loures, e d'ali faremos volta por Torres Vedras e Obidos até Coimbra, onde esperamos a ventura que vier, e espero que a Rainha minha filha, e o Infante D. Anrique meu irmão remedeiem em tanto meus feitos, como a minha honra e estado cumpre.
Mas esta esperança que o Infante publicava de seu irmão, era para com ella favorecer e animar sua gente; porque em seu coração já tinha certa desesperação, o que acabou de confirmar quando por tres dias que em Rio Maior esteve, não viu em seu favor recado de seu irmão nem da Rainha, em que até então muito confiava. E o que os prudentes poderam conceber de tão errado conselho e tenção, como o Infante em tal tempo e caso seguiu, não foi salvo que desejando de morrer com algum mais cumprimento de sua honra, e com maior descargo de sua conciencia, quiz antes ser cometido d'El-Rei, que parecer cometedor, e que por isso lhe deu as costas, de que mostrou alguma prova e experiencia o lugar em que ao diante foi morto em que se alojou, onde por tres ou quatro dias repousou, podendo-se n'elle livremente salvar.
CAPITULO CXVIII
_Como o Infante partiu de Rio Maior e se foi a Alcoentre, e as pessoas d'El-Rei que hi mandou matar, e a causa porque_
E porém o Infante moveu de Rio Maior contra Lisboa, e a opinião e rumor geral era, que por trato que com alguns d'ella tinha, se queria n'ella acolher e remedear; e com quanto esta fama era fingida e não verdadeira, não leixou de causar morte crúa a dois mancebos de Lisboa, que por haver n'elles suspeita de trato por serem criados do Infante, foram publica e innocentemente feitos em quartos, e postos pelos mais publicos lugares da cídade.
Seguiu o Infante seu caminho em sua ordenança, e a uma sexta feira XVI dias de Maio chegou ao lugar d'Alcoentre, em que dos ginetes e corredores d'El-Rei foi sempre seguido e perseguido, dizendo em altas vozes contra elle que os ouvia, palavras torpes e mui feas, chamando-lhe traidor tirano, e falso hypocrita roubador do povo, com outras vilezas e fealdades a estas conformes, das quaes o Infante sempre encomendava aos seus que se não anojassem nem lhes respondessem, e porém elle em as ouvir recebia em si muita dôr e grande sentimento, especialmente porque as bocas d'aquelles, porque tantas torpezas contra elle sahiam, já lhe muitas vezes beijaram as mãos por honras e mercês que d'elle receberam, e como alojou alli seu arraial, coube a guarda da herva e lenha a Aires Gomes da Silva, sobre que vieram logo corredores da gente d'El-Rei travando com elles, e procurando escaramuça com desejo da gente do Infante se desmandar por algum seu dano, e com esses rebates que na guarda se faziam, veiu nova ao arraial que Aires Gomes com sua gente era dos d'El-Rei cercado e posto em grande affronta, a que o conde d'Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os do arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados, querendo-se salvar cahiram em um grande tremedal e lagoa, de que não poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os vivos levaram logo ante o Infante, entre os quaes o principal era um Pero de Castro, fidalgo e criado do Infante D. Anrique, a que o Infante D. Pedro disse:
«Ó máo ingrato e traidor, assi como por tua boca sahiram hoje tantas vilezas, com que tão falsa e desavergonhadamente magoavas minha pessoa e estado, como tambem não entraram em tua memoria as muitas honras e mercês, que de mim tão poucos dias ha recebestes, para as leixares de dizer, e contentares-te de me fazer mal com tuas mãos, cá pareceram por tua escusa que eram forçadas d'outro mando e senhorio maior, e não com a lingoa com que cuidavas que me escandalisavas os ouvidos, e tu feriste-me no coração, certamente a morte com que logo acabasses, ainda seria áquem da culpa que tens, e pena que mereces.»
E então com um páo que tinha na mão lhe deu por cima da cabeça, e sobre esta pancada houve logo dos que eram presentes tantas feridas, de que logo morreu, e dos outros uns mandou o Infante logo degolar, e outros enforcar, segundo a condição das pessoas que eram.
Aquelle dia escapou por grande ventura Gonçalo Rodrigues de Sousa, que era capitão dos ginetes. E assi alguns outros a que valeu a bondade de seus cavallos; porque até o logar de Pontevel lhe seguiu o conde o encalço, e d'alli temendo alguma volta de gente fresca e mais poderosa, se tornou para o Infante.
Com a morte d'estes homens não foi menos a torvação e desmaio no arraial do Infante, do que foi alvoroço e indinação contra elle em toda a côrte d'El-Rei, a que as novas chegaram logo de noite; porque a mais da gente do Infante vendo tamanha crueza, julgaram-na por claro rompimento contra El-Rei, e temendo a pena da culpa em que por isso encorriam, pungidos da lealdade que não podiam encobrir, mostravam em suas caras uma publica tristeza, que de seus corações dava mui certos sinaes de fraqueza, com que muita gente, especialmente de pé, logo aquella noite fugiram do arraial, e por serras e veredas como melhor podiam se tornaram a suas casas, a que o doutor Alvaro Affonso com uma publica fala que a todos sobr'isso fez, quizera remedear mas não aproveitava.
CAPITULO CXIX
_Como El-Rei proveu e segurou a cidade de Lisboa para o Infante se não recolher a ella_
Como El-Rei foi certificado da ida do Infante a Lisboa, receoso de ser com fundamento d'algum trato que n'ella tivesse, mandou logo por mar e por terra muitos fidalgos e outra gente, que a guardaram e seguraram a seu serviço. E moveu logo de Santarem contra o Infante com muita e mui formosa gente, que segundo a sentença dos que o melhor deviam saber, entre de cavallo e de pé, seriam numero de trinta mil homens de peleja, que segundo as memorias dos que a viam, foi a mór somma de gente d'armas que até então n'este reino se ajuntou.
Foi El-Rei conselhado que não apressasse suas jornadas, assi por melhor trato e alojamento de suas gentes, como porque tendo a cidade segura, quanto o Infante mais a ella se chegasse, tanto se despunha a maior perigo, pelo damno que dos moradores d'ella, álem dos que d'El-Rei podia receber.
CAPITULO CXX
_Como o Infante partiu de Castanheira, e se foi alojar no Ribeiro d'Alfarrobeira_
E o Infante sendo no campo junto com o lugar da Castanheira, foi avisado que El-Rei era já de Santarem contra elle partido; e porque o lugar em que estava era campo devasso e sem disposição de se poder defender, e muito menos de resistir, principalmente porque a gente não leixava cada dia de lhe fugir, leixando já alguma parte de sua fardagem, partiu um domingo com voz de se ir a Lisboa, em que n'aquelle dia queria entrar. Mas isto se fingio assi por tal, que a gente na esperança de se salvar fosse com elle e não lhe fugisse mais, e ante do meio dia se alojou logo a além d'Alverca, em um ribeiro que se diz d'Alfarrobeira.
E o assento de seu arraial na maneira em que estava, foi d'aquelles que nas cousas da guerra tinham bom conhecimento muito louvado; porque havia n'elle disposição natural e artificial para poucos se defenderem a muitos, e alli houve o Infante por melhor esperar sua ventura e não seguir ávante, assi porque foi logo avisado da guarda de Lisboa, que de todo estava irada contra elle, como porque tinha ainda esperança que quando El-Rei sobre elle chegasse e o visse, que teria lembrança de quanto serviço lhe fizera, e não se esqueceria d'outros muitos seus merecimentos, com que lhe fizesse algum bom e seguro partido, e que para outros lh'o lembrarem e fazerem fazer não acabava de desconfiar do Infante D. Anrique, e d'outros muitos a que já fizera honra e mercê. E quando isto assi não sobcedesse, e o rompimento não se escusasse, que ao menos tinha escolhido lugar onde como Principe acabaria, e não sem alguma vingança.
E alli esperou El-Rei, que logo á terça-feira, vinte dias de Maio, pela manhã, chegou sobre elle, e mandou assentar seu arraial, de que o Infante ficou de todo cercado. E em vindo El-Rei com suas batalhas para chegar ao Infante, o conde d'Abranches sahiu e foi vêr sua gente, de cuja somma, gentilleza e percebimento foi muito maravilhado, e em volvendo como quer que de praça para esforço dos seus mostrasse e dissesse o contrairo, porém ao Infante não encobriu a verdade, a quem desenganou da pouca esperança que em sua resistencia e forças devia ter, e alguns disseram que o conde pedira e requerera ao Infante, vista a desegual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e salvasse, e o leixasse com sua gente alli, onde folgaria acabar por seu serviço, e que o Infante não quizera. Mas, o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o conde pela certa sabedoria que tinha do proposito do Infante, que era morrer, e pelo consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe cometteria nem ousaria cometer tal cousa, em que ao menos ficava o Infante por fé perjuro e fraco.
CAPITULO CXXI
_Como El-Rei chegou sobre o arraial do Infante D. Pedro, e como por caso e sem deliberação se seguiu sua morte_
El-Rei trazia já determinado por aquelle dia em que sobre o Infante chegou não o cometer, nem lhe dar combate algum, e dizem que com algum fundamento de bem para o Infante, e porém por seus trombetas e Reis d'armas e arautos mandou em torno do arraial do Infante dar espantosos pregões, mandando a todalas pessoas que com elle eram, que logo sob grandes penas com suas armas o leixassem, e se viessem a El-Rei. Ao que nenhum dos do Infante obedeceu, antes do arraial d'El-Rei se lançaram com o Infante pelo amor que lhe tinham, Fernão da Fonseca, seu criado, alcaide de Lisboa, que por este caso sahiu depois de seu siso, e assi acabou; e João Vogado, que depois foi escrivão da fazenda d'El-Rei, e estes escaparam, e Rodrigo d'Anellos, bom cavalleiro, e um Gonçallo Fernandes, que fôra corregedor da côrte, que ambos logo ali morreram.
E no travamento que n'este dia sem mandado d'El-Rei nem de seus capitães houve de uma gente com a outra, de que se seguiu a morte do Infante e do conde d'Abranches, houve muitas opiniões, porém aquella que os de mór auctoridade afirmaram é esta:
Andando as gentes de uma parte e da outra provendo suas necessidades, buscando os cercados do Infante maneiras para se defender, e os mais d'El-Rei para ofender, aconteceu que certos besteiros da gente d'El-Rei tomaram uma encuberta, e se meteram escondidos em um arvoredo que sobre a agua hi estava, d'onde sem serem vistos faziam tiros aos do arraial do Infante, de que alguns desavisadamente cahiam mortos e feridos. E Alvaro de Brito Pestana, que tinha então carrego dos espingardeiros d'El-Rei, lhes mandou outrosi, que de um cabeço em que estavam tirassem aos do Infante, em que se fez algum dano, e o Infante vendo começos de tanto mal, pelo em alguma maneira desviar, mandou poer fogo a algumas bombardas que trazia encarretadas, e que tirassem aos do cabeço, de que cria que o dano recebido procedia, d'onde por máo tento e pouco resguardo d'algum bombardeiro dos do Infante sahiu a pedra de uma bombarda que foi dar junto com a tenda d'El-Rei, sobre que muita e nobre gente logo acudiu, cuidando que na pessoa d'El-Rei fizera algum dano como publicamente se disse, o que não fez.
E porém foi por isto tanto o alvoroço na gente de El-Rei, e com tamanha indinação contra o Infante e os seus, que logo sem outro mandado nem repartida ordenança de peleja como se esperava, guiados sómente de sua sanha, deram mui fortemente no arraial do Infante, e romperam e entraram por muitas partes, cuja gente, e pela maior parte de pé, não podendo sofrer tanta força, com tamanho medo e perigo esquecidos do amparo e defesa do Infante, o leixaram e começaram de tomar a fugida por sua salvação, e o Infante vendo tamanha afronta, andando a cavallo se poz logo a pé com leves armas, socorrendo aos lugares de mór necessidade e fraqueza com grande esforço, o qual por armas defensivas trazia sómente vestida uma cota de malha, e em cima uma jorne de veludo cremesin, e na cabeça uma servilheira. E vendo elle que sobre a parte de sua estancia que era já rota recrecia a mór afronta de peleja, acudiu ali com muita trigança e ousadia; porque em caso que a vil gente lhe fugisse, não falleceram outros muito bons que com esforçados corações oferecendo já suas vidas á morte sostinham e defendiam sua querella, tanto quanto e suas forças era possivel. E como quer que o Infante d'alguns cavalleiros de sua guarda fosse requerido que se retraisse, aconselhados da força e multidão da gente que viam contraira, a que não podia já resistir, elle o não quiz fazer, antes com sua cara esperta e segura, posposto todo o medo e perigo, rompendo por sua gente em que já via muitos mortos e feridos, seguiu adiante, e não com ociosidade do seu braço direito, com que segundo testemunho dos que o viram, álem d'outros que feria bravamente, dez escudeiros de seu ferro ficaram alli mortos, e andando o Infante assi revolto n'esta peleja foi nos peitos ferido de uma seta que lhe atravessou o coração, de que a poucos passos e menos horas cahiu logo morto, sem antes nem depois receber outra ferida, e o bésteiro que o ferio bem foi conhecido e havido por assaz destro em seu oficio, o qual com outros de seu mester segundo fama, foram em especial pelos imigos do Infante escolhidos e ordenados contra elle, para mais cedo abreviarem sua morte, a qual elle recebeu com sinaes de verdadeira contrição e grande arrependimento de seus pecados, que deu piedosa esperança da salvação de sua alma, pelos quaes sinaes o Bispo de Coimbra, que sobre elle logo acudio, o assolveu em lhe a alma saindo da carne; porque não houve tempo de confissão, que elle nas derradeiras palavras de sua vida afincada e devotadamente pediu; e porém elle no mesmo dia fôra confessado e absolto, e fizera em seu testamento que leixou algumas adições, porque claro pareceu que acabou como sempre viveu, catolico e bom christão, e leal vasallo e servidor d'El-Rei, em edade de cincoenta e sete annos.
CAPITULO CXXII
_Como o conde d'Abranches tambem logo foi morto, e como acabou como esforçado cavalleiro, e do que se mais seguiu no cabo da batalha_
O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial, provendo e resistindo em sua estancia como bom e ardido cavalleiro, a muitas afrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe disse:
«Senhor conde que fazeis; porque o Infante D. Pedro é morto». E o conde com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem dilação desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração esforçado disse ao moço «calla-te e aqui o não digas a ninguem». E com isto ferio rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamento, onde sem alguma torvação pedio pão e vinho, de que por esforçar mais seu esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas honrar sua sepultura, que era a terra em que havia de cair, e sahio a pé pelo arraial, que de todalas partes era já entrado e vencido, e como foi conhecido logo os d'El-Rei uns sobre os outros carregaram sobr'elle cometendo-o de todas as partes para o matar, mas elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria e escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o cometiam, de mortos ou feridos não volviam a elle a segunda, e assi pelejou um grande pedaço como mui valente e acordado cavalleiro, não sem grande espanto dos que o viam trazendo as mãos e todas suas armas cheias não de seu sangue mas de muito alheio que espargeo, porque emquanto andou em pé e se pôde revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E em fim vencido já de muito trabalho e longo cansaço, disse em altas vozes;--_Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas_--e com isto se leixou cair tendido no chão, e uns dizem que disse,--_ora fartar rapazes_ e outros _ora vingar villanagem_. Cujo corpo que já não resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em breve despedio a alma de si para ir acompanhar a do Infante como lhe tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do que devia, lhe cortou e levou a cabeça com que a El-Rei foi pedir acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em pedaços, até que por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que era vedor d'El-Rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura honrada.
E os outros fidalgos e nobre gente que eram com o Infante, vendo tão claro seu destroço, cada um desamparou a defesa das estancias que lhe foram encomendadas, e como desesperados das vidas não lhe fallecendo o coração e acordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo arraial á aventura que se lhes oferecesse, e em fim de mortos, feridos, ou presos não escapou algum.
E dos principaes da gente do Infante morreram ali: João Mascarenhas, alferes do Infante, e Luiz Gomez da Grã, que levava a bandeira de D. James, e um seu irmão, e Diogo Peixoto, e Rodrigo d'Anellos, e outros cavalleiros e escudeiros de boa sorte, e foram muitos feridos; e da parte d'El-Rei morreram principaes Ruy Mendez Cerveira, aposentador-mór d'El-Rei, e Fernão de Sá, alcaide-mór do Porto, e João Rodriguez Toscano, e assi alguns bons com outra gente de baixa condição, que fariam numero de até XXV.
CAPITULO CXXIII
_Da maneira que se teve com o corpo do Infante D. Pedro, e como foi vilmente tratado e soterrado_
O corpo do Infante jouve todo aquelle dia sem alma descuberto no campo á vista de todos, e sob a noite o lançaram homens vis sobre um pavés, e o metteram hi logo em uma pobre casa, onde entre corpos já vazios d'almas e fedorentos, jouve tres dias sem candea, nem cobertura nem oração, que por sua alma publica se dissesse nem ousasse de dizer, o que foi grande prasmo e vituperio da casa real; porque a honra e acatamento que ali se devia, já não era do Infante morto sem sentido, mas era propria dos vivos que lhe fizessem, e da principal culpa de se isso assi fazer, El-Rei por sua mocidade e poucas experiencias passadas foi justamente então relevado, mas foi attribuida aos velhos e principaes da côrte, imigos do Infante, porque El-Rei n'aquelle tempo em tudo se governava; porque como lisongeiros e bafejados da fortuna, lhe faziam crêr que esta fôra batalha perigosa e campal, e de grande honra sua, em que por sinaes de victoria e triunfo, e por enxalçamento maior de seu estado, e por cerimonia acostumada convinha jazerem assi os corpos no campo da rota, das vidas e sepulturas privados, aniquilando em comparação d'esta a famosa batalha de Farsallia, em que Julio Cesar venceu Pompeo, e a de Canas, em que os romanos foram d'Anibal com tanto estrago vencidos. E isto não se fazia por honra nem estado d'El-Rei, pois claramente era magoa de sua corôa, e publico abatimento de seu sangue, mas ordenavam-no assi seus imigos por acrescentar no cume da desordenada vingança.
CAPITULO CXXIV
_Exclamação á morte do Infante D. Pedro_
Ó inconstante fortuna, quão secreto segredo é o de tua variavel condição e semelhança de grande poder! Quem se fiará de ti, quem não haverá medo de ti, pois aquelles que com moderados giros allevantas no mais alto gráo da honra e da gloria, esses com apressadas voltas trocas e derribas em profunda pena, em deshonra mortal: os que hoje por tua ordenança fazes ricos, estimados, e grandes senhores, de manhã por tua desordem os tornas logo pobres abatidos em semelhança de servos, para cuja prova para que são outros passados e mais antigos exemplos senão este presente, lembrando-vos quem foi este excellente Infante D. Pedro, e agora vermo-lo jazer onde jaz; porque sendo Principe de tamanho estado, virtudes e grandeza, herdado de tantas terras e senhorio, e dotado de muitas mais bondades e virtudes, e sendo filho legitimo d'El-Rei D. João, Rei no mundo tão glorioso vencedor e nunca vencido, que por seu braço e esforço defendeu e acrescentou estes reinos, e parecia que tu, fortuna, por isso o servias e acatavas, e agora já não sómente vimos que o desconheces, mas ainda na propria patria em que nasceu e que honrou lhe denegas uma pouca de terra em que o metam, e um pedaço de panno grosseiro com que o cubram; hontem sendo vivo o serviam e honravam com razão grandes senhores, e hoje não acha quem morto o enterre, se não servos e pessoas mui vis.
Ó enganosa fortuna ou alguma outra força oculta; porque a este descreto e mui prudente Infante cegastes seu tão claro entendimento e limpo juizo, com que não entendeu o perigo de sua honra, e vida, e fazenda em que se meteo, e vós Infante D. Pedro como não apartastes com vosso siso, devoção, prudencia e lealdade de nevoas de tanta contradição, e a vossa vida e limpeza tão suspeitosas e contrairas; porque não tomastes a longura do tempo por cura de vossas paixões, e seguro remedio de vossos feitos, pois estava em vosso poder, e se havieis que recebieis evidentes agravos e injustas perseguições, causadas contra vós do odio de vossos imigos, que vos faziam n'estes derradeiros dias avorrecer a vida, e por maior honra e descanso vosso desejar a morte como dizeis; porque vos não lembrava para a escusardes, que com ella havieis de necessidade matar e desterrar e destruir vossa mulher e filhos, e os nobres mui honrados amigos, criados e servidores que tinheis, e vos haviam de seguir, despensareis com vossa morte paixões e trabalhos por dardes a estes vida, segurança e descanso, pois o penhor e remedio d'isto era sómente viverdes, e vossa morte havia de ser o contrairo.
E tu fortuna imiga da razão e piedade com tua crueza assi o executaste; porque logo se viu o triste Infante sahir-se em Coimbra dos paços em que vivia, e sem algum resguardo de sua honra e estado, com medo da morte duvidosa, anda-la procurando certa pelas casas pobres e alheias, de maneira que fugindo crueza, parecia que a pedia avorrecendo piedade; vimos de seus filhos, D. James logo preso aparelhado para o cutello, e D. Pedro o maior fugido e desterrado em Castella, pedindo esmollas a quem já fizera mercê, e outros por escapar suas vidas vimos ir escondidos e mudados por terras estranhas, encobrindo com habitos e sinaes de pobreza suas mui nobres pessoas, que o real e mui alto sangue de que descendiam, em honra, abastanças e estado criara; vimos logo seus amigos, criados e servidores, uns mortos e outros presos e desterrados, e todos de suas honras, favores, officios, beneficios, rendas e patrimonios sem alguma misericordia de todo privados.