# Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)

## Part 6

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E o Infante depois de todos ouvir com muito tento e repouso, e lhes dar por seus conselhos muito louvor e grandes aguardecimentos, finalmente se teve com o conde d'Abranches, que seguiu sua primeira deliberação, e determinou quando melhor não podesse ser, de morrer no campo, requerendo e bradando a El-Rei por sua justiça. E para ella se começou logo de perceber, e tanta foi a fortaleza e segurança do Infante, que n'estes dias com quanto de cousas tão arduas, e tão chegadas á morte se tratava, nunca por isso leixou de ir á caça e ao monte, e ter seraus e festas com sua mulher e donzellas, assi como no tempo de mais assessego e de maior prosperidade que nunca tivera.

CAPITULO CXII

_Como o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches consagraram ambos de morrer um quando o outro morresse_

E passados alguns dias depois d'estes conselhos, o Infante não se esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde d'Abranches, e lhe disse:

«Conde, sabei que eu sinto já minha alma avorrecida de viver n'este corpo, como desejosa de se sair de suas paixões e tristezas, e consirados os feios combates que minha vida, honra e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não sobcedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta confiança, assi pela irmandade que comigo merecestes ter na santa e honrada Ordem da Garrotea em que somos confrades, como por criação que vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço tenho ha muito conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e Arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados.»

«Senhor, respondeu o conde, para caso de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assi como vo-la tive na vida, e se Deus ordenar que d'este mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa.»

E para mór confirmação d'este proposito o Infante mandou logo chamar o doutor Alvaro Affonso, que era clerigo de missa, perante quem relatou a concordia em que elle e o conde estavam, sobre a qual disse que lhe desse logo o santo sacramento, e o doutor depois de lhe fazer seus requerimentos e protestações para o não receberem (como a elle por sacerdote e por letrado em tal caso cumpria) elle lh'o deu, e elles o receberam com sinaes de muita devoção e contrição, afirmando ambos e cada um «que como fieis christãos a Deus, e leaes vassallos a El-Rei o recebiam, e por taes protestavam morrer quando morressem, e que seu fundamento não era offender, mas defender com razão e justiça a pessoa e honra do Infante.» O qual derribando-se no chão sobre seu peito, com os olhos cheios de lagrimas e com grande fervor de contrição se feria e acusava de seus pecados, e sobre a comunhão tornaram a firmar solenemente seus prometimentos, cujo segredo o Infante encomendou muito ao doutor, de quem depois se houve esta certidão.

CAPITULO CXIII

_Como a Rainha houve d'El-Rei que perdoaria ao Infante seu padre se elle lhe pedisse perdão, e assi lh'o escreveu, e a causa porque não houve effeito_

Vendo e ouvindo a Rainha em Santarem tantos alardos e ajuntamentos de gentes com tantos alvoroços e percebimentos para destruição e morte do Infante seu padre; porque n'ella se encerravam em grande perfeição todalas outras virtudes, esta de amor e piedade para elle tambem lhe não falleceu, e assi porque esta natural divida de sangue sempre a espertava por seu remedio, com vivas lembranças de muita dôr e grande compaixão, como tambem porque de sua innocencia d'elle era mui certificada, se pôs um dia ante El-Rei em giolhos, e com perseveradas lagrimas lhe disse:

«Senhor, _cesset jam nanus tua_, e pois minha desaventura quer que na destruição do Infante meu senhor e padre damnem as falsas culpas mais, do que aproveitam seus merecimentos, nem o grande e verdadeiro amor que vos tenho, peco-vos por mercê, que ao menos como Principe agardecido, vos lembre as obrigações em que por sua tão alta criação, e por outros muitos seus serviços lhe soes, cuja paga devia ser outra, e não esta morte e destruição tão deshonrada, e com isso para alguma mais temperança de tamanha ira tambem vos não esqueça que vos pode nosso Senhor dar de mim filhos que serão vossos ramos, cujas raizes para sua mais honra e louvor deveis desejar e procurar que sejam antes limpas e sãs, que magoadas e sujas como ordenaes.

E El-Rei como era de mui perfeita humanidade, allevantando-a do chão com grande acatamento, lhe respondeu:

«Senhora, de todo o que me dizeis eu sou em mui inteiro conhecimento, mas como quereis que nas cousas do Infante vosso padre eu me faça brando, sendo elle em sua contumacia e para minha obediencia tão duro, de que se não quer conhecer nem arrepender, antes cada vez o mais continuar. Mandei lhe muitas vezes requerer minhas armas, não m'as quiz entregar, outras tantas lhe encomendei e mandei que não impedisse o duque, que por meu mandado vinha a meu serviço, e por me desservir e anojar foi-lhe ter o caminho com outras muitas desobediencias, de que eu a elle nem ao Infante meu irmão não relevaria sem justo castigo. Porém pelo vosso amor principalmente, e porque n'isso sintaes o bem que vos quero, se o Infante vosso padre como quem errou me quizer mandar pedir perdão, eu me haverei com elle por outra melhor maneira de que sejaes contente».

A Rainha lh'o teve muito em mercê, e d'El-Rei houve logo licença para o assi escrever como escreveo ao Infante, o qual vendo a carta, porque acerca d'ella não deliberasse nada sem conselho, depois de aquelles principaes com que suas cousas consultava serem juntos e verem a carta, todos sem contradição concordaram ser bem e honesto que o Infante satisfizesse com o perdão a El-Rei na fórma que elle queria, pois em nada lhe perjudicava, cá parecia deseja-lo assi El-Rei para defesa sua, contra aquelles que para o contrairo o indinavam. E porém o Infante lastimando-se muito dos agravos e desfavores d'El Rei, e confiando muito em sua innocencia recusava muito de o fazer, afirmando-se «que tão novo meio, segundo as cousas estavam não era com fundamento de seu bem, mas que El-Rei com astucia de seus imigos lhe lançava esta cilada de mal, para que n'ella o tomassem como perdão, nascido e causado da confissão de suas culpas e crimes que elle não tinha, com que ao mundo justificassem depois os males passados que lhe ordenaram, e corassem os que ao diante lhe queriam fazer. E que por isso antes queria morrer em que receberia muitos beneficios; porque acabaria inteiro Infante duque de Coimbra, e em sua vida não veria a outrem possuir nada do seu, nem elle como desaventurado seria constrangido andar por terras estranhas pedindo o alheio. E que em fim não lhe tirariam, que a todolos bons que pelos tempos fossem não pesassem de sua morte, a qual segundo sua vida era trabalhosa, esperava que fosse grande descanso já para si mesmo, e certa segurança da vida da Rainha sua filha.» Com outras muitas e boas razões com que se escusava; e em fim vencido d'outras tantas e melhores, com que seus conselheiros como a cavaleiro e christão o aconselharam e requereram, prouve-lhe pedir como pediu a El-Rei o perdão por escripto, na fórma que a todos bem pareceu, e com que El-Rei se devesse satisfazer, e tambem respondeu á Rainha, apontando-lhe largamente algumas cousas com que sua segurança devia ser acautelada.

E tendo já El-Rei recebido sua carta, mostrou se com ella suspenso como arrependido do que tinha outorgado, e porque na carta da Rainha que lhe ella mostrou, entre outras eram umas palavras do Infante que diziam «e isto Senhora faço eu mais por vos comprazer e fazer mandado, que por me parecer razão que o eu assi faça», El-Rei tomou d'ellas achaque para o não cumprir, e rompeu logo a carta do perdão que o Infante lhe mandara, dizendo que pois aquelle arrependimento era fingido e não de vontade, que não queria desistir do que contra elle tinha começado, e assi o fez, do que o Infante foi logo avisado. Porém o que d'esta mudança e nova sanha d'El-Rei, verdadeiramente se pôde entender, foi se a vontade d'El-Rei estivera de todo firme e sã para o Infante, que as palavras da carta da Rainha na forma em que vinham lh'a não revolveram nem danaram contra elle, mas El-Rei tinha já um odio calejado ao Infante, e mais pejou-se por moço em que o espirito da honra já se levantava, de parecer o que lhe já diziam, que se sobjugava á Rainha mais do que era razão e ao Estado de um tamanho Principe cumpria, e para não cumprir o que prometera, tomou aquelle que foi mais achaque que causa verdadeira.

CAPITULO CXIV

_Como os imigos do Infante D. Pedro procuravam haver antes odio que amor nem afeição entre El-Rei e a Rainha sua mulher_

Porque os contrairos do Infante, vendo que a Rainha era já para elle a só esperança e remedio de sua salvação, e que por suas perfeições corporaes e muitas bondades, El-Rei lhe tinha e teria cada vez mór afeição, com que a ella e a sua vontade se daria mais, trabalhavam por todalas maneiras de o apartarem d'ella, conselhando-lhe que fosse muitas vezes á caça e montes, dizendo-lhe que a conversação continua de sua mulher em tal idade, não sómente era mui contraira á sua saude, mas ainda mingoa e grande quebra das forças do corpo e do entendimento, e que ficaria afiminado e não dino nem poderoso para soster o peso do Regimento e defensão de seus reinos. E na capella e guarda roupa não falleciam incitadores e ministros d'esta opinião, convocando para isso mesmo fysicos, que para seu proposito tinham bem ensaiados, que com livros e autoridades logo assi o provavam.

E taes conselheiros havia d'estes, que reprovavam o ajuntamento do santo e legitimo matrimonio d'El-Rei com a Rainha, que eram publicos adulteros e deshonestos concubinarios, jazendo como infernaes em mui continuo e reprovado coito.

E porque este caminho não sobcedia de todo á sua vontade, cometeram outro mui errado e muito para reprender; porque fizeram n'estes dias prender D. Alvaro de Castro, camareiro mór d'El-Rei, que depois foi conde de Monsanto, assacando-lhe falsamente que dizia amores á Rainha, por tal que da pena de morte ou desterro que elle por tal caso merecia nascesse infamia á Rainha com que a El-Rei de todo avorrecesse. Mas o imigo da perdição que n'estes feitos andava por medianeiro, não pôde tanto danar, que mais não remedeasse o verdadeiro conhecimento que El-Rei tinha das muitas e limpas bondades da Rainha, e da grande lealdade do conde, com que o logo soltou e depois muito honrou e acrescentou.

CAPITULO CXV

_De um cumprimento que o Infante D. Pedro acerca de sua innocencia por meio de religiosos fez com El Rei_

E o Infante D. Pedro por muitas esmolas e bemfeitorias que aos mosteiros e casas d'oração sempre fazia, era dos religiosos d'ellas sempre em suas orações e devoções muito encommendado a Deos, em especial n'este tempo de sua tanta afflição, os quaes sabendo a determinação errada e perigosa em que o Infante estava de partir, recorreram muitos a elle, e como officiaes da alma o amoestavam, e lhe requeriam da parte de Deos aquellas cousas de que sua maior segurança e salvação se podia seguir, e principalmente que não partisse nem fizesse de si alguma mudança, e antes esperasse a fortuna, que acometer.

E ao Infante crendo que o conselho dos taes poderia vir da vontade de Deos, prouve obedecer-lhe, e quiz finalmente poer seus feitos em suas mãos, e d'elles apartou um Frei Antão, prior do mosteiro de Aveiro, e outro Frei Dinis que depois foi confessor d'El-Rei, pessoas de grande doutrina e mui santa vida, aos quaes disse os fundamentos que o moviam a sua partida, e as razões que lhe contrariavam esperar cerco, e menos andar como fugido pelo reino, e assi as injurias e sem razões que d'El-Rei por induzimento de seus imigos tinha por extenso recebidas. Porém que lhes parecesse que isto podiam remediar, que elle sobreseria em sua partida, e por maior cumprimento com El-Rei e mais sua limpeza faria o que elles ordenassem, e que para firme segurança de manter sempre o que prometia, e que se fizesse d'elle justiça se a merecesse, que ante de ser ouvido lhe prazia mais que todos seus filhos fossem entregues em poder d'El-Rei.

Estes religiosos vendo tanta justificação, esforçaram-se acabar esta concordia, crendo que não podia ser homem tão sem juizo, e tão fóra de humanidade que a denegasse, e acordaram que com isto Frei Antão por mais secreto fosse só a El-Rei, o qual partiu logo com inteira crença e instrução do Infante, dando graças a Deos por elle se someter a tanta razão, com a qual esperava tudo acabar a serviço de Deos, e d'El-Rei, e bem de seus reinos e vassallos, mas este padre por muito que apressou sua ida, já diante achou o imigo da razão e os contrairos do Infante, com que não pôde nem ousou dar a El-Rei as cartas do Infante, e muito menos lhe falar; porque os imigos do Infante de que El-Rei em todolos lugares e todalas horas era cercado, como sentiram que um religioso de tanta autoridade, que em tal tempo ia de mandado do Infante, não podia se não levar cousas de muita concordia e conclusão, de que lhes muito pesava, não sómente o impediram e ameaçaram para mais alli não estar, mas ainda lhe defenderam que não tornasse com a resposta ao Infante, pelo qual se foi triste e mui espantado para o mosteiro de Bemfica, d'onde avisou de todo o Infante.

CAPITULO CXVI

_Como El-Rei não tinha possibilidade de ir sobre o Infante como proposera, e como a partida do Infante de Coimbra foi causa da sua morte_

El-Rei não sabendo da determinação do Infante, que era partir de Coimbra, fazia fundamento cerca-lo n'ella, o que pela muita gente que cresceu e pelos mantimentos, e assi outras provisões que se não podiam haver; e menos tantas bestas, bois, e carros para as armas, artilherias e carriagem, que para tal certo eram necessarios, parecia mui dificultoso ou impossivel faze-lo. Pelo qual muitos entendidos se afirmaram, consirado o pouco provimento que El-Rei tinha, e o muito que para tal empreza lhe era necessario que não podera haver, se o Infante não sahira de Coimbra, que El-Rei por aquelle anno não podera cerca-lo, e que o mais de dano que lhe podera fazer fôra comete-lo de passagem, o que ao Infante segundo estava percebido, trouxera mais honra que dano nem perigo.

Porém foi logo El-Rei certificado por um Lourenço Affonso, procurador de Coimbra, que o Infante se despunha a partir, e queria vir a Santarem, afeando o mais que pôde sua tenção, de que o duque e o conde seu filho, como principaes da empresa foram mui alegres; porque viram chegar-se o effeito de sua esperança e desejo, que era a morte do Infante, cuja dilação a elles poderia trazer perda e perigo. Pelo qual El-Rei acordou de sobre ser até saber da certa determição do Infante, e então mandou poer fronteiros nos castellos d'arredor de Coimbra, receando que o Infante queria por ventura guerrear o reino, e andar por elle como lhe fôra aconselhado, e foi Diogo da Cunha a Thomar, e D. Duarte de Menezes a Pombal, e o proto-notario Berredo a Leiria, e assi outros a outros lugares.

O Infante dava grande pressa á sua partida, porque não passasse de cinco dias de Maio que tinha posto; porque n'esse dia fôra certificado que El-Rei movia contra elle como se disse, e porém de dinheiro por suas muitas despesas tinha grande necessidade, de que por emprestimos dos seus criados e servidores se proveu em alguma maneira. E porque a moeda fallecia e não se podia haver, era conselhado para trato e serviço da gente, que da prata lavrada que tinha se fizessem uns quadrantes, da lei e peso de leaes que era então moeda do reino, e que sem mais outra letra nem figura valessem o preço d'elles. O que o Infante não quiz consentir, antes o defendeu estreitamente, e d'isto o reprenderam depois que se intitulara de Rei, e mandara fazer moeda e justiça, o que foi assacado mas não verdadeiro.

CAPITULO CXVII

_Como o Infante D. Pedro partiu de Coimbra, e como seguiu seu caminho até Rio Maior, e do conselho que hi teve_

Sendo o Infante prestes para cumprir sua opinião, fez a um domingo que eram cinco dias de Maio partir diante com sua gente ordenada D. James seu filho, que foi dormir no campo logo acerca de Coimbra, e essa noite ficou o Infante na cidade em que com grande mostrança de muita alegria mandou dançar, e fazer festas como sohia. E depois de ter suas cousas providas se foi á Sé, e a Santa Cruz, e a Santa Clara por serem casas em que tinha singular devoção, e alli com sinaes de bom christão se encomendou a Deus, e com a cara alegre e mui descarregada se despediu de sua mulher, e dos que com ella ficaram, e foi com toda sua gente dormir ao lugar da Egua, que é cabeça da comenda mór de Christus, onde seriam com elle até mil homens de cavallo, e cinco mil de pé, com muita carriagem de bois e bestas.

Com o Infante além d'outros muitos e bons cavalleiros e escudeiros, eram estas pessoas principaes: D. James seu filho, o conde d'Abranches, Aires Gomez da Silva, e seus filhos João da Silva e Fernão Tellez, Ruy da Cunha, Gonçallo d'Ataide, Pero de Lemos, Luiz d'Azevedo, e Lopo d'Azevedo irmãos, e Martim Coelho, e Pedro Coelho irmãos, e Pero de d'Atayde, e João Corrêa, e Fernão Corrêa, Fernão d'Alvarez da Maya, João Peixoto, e Lopo Peixoto irmãos.

E no arrayal do Infante se levantaram duas bandeiras, uma sua, e outra de seu filho, e em ambas iam de uma parte umas letras que diziam _Lealdade_, e da outra _Justiça e Vingança_.

E ao outro dia ante que o Infante abalasse, fez ajuntar sua gente, que repartiu em capitanias, e a todos fez uma fala, cuja sustancia foi saniar a boa tenção e limpeza de sua vida «que sómente era como leal servidor d'El-Rei seu Senhor, ir pedir e conseguir ante elle justiça.» E assi em defender com razões de leal português, que se não fizessem males nem roubos, e que pagassem bem os mantimentos e cousas que tomassem. E sobre tudo encomendou aos capitães o castigo, pás, e assessego de sua gente, e principalmente que se não escandalizassem nem alevantassem por cousas que ouvissem, em caso que parecessem contradizer a suas bondades e muita lealdade.

E assi foi o Infante fazendo com muito resguardo suas jornadas até o mosteiro da Batalha, onde o vedor da obra d'elle que fôra sollergião d'El-Rei D. João seu padre quiz com armas e artelharias poer o mosteiro em resistencia e defesa contra elle, mas os frades lh'o não consentiram, e abrindo as portas mandaram dizer ao Infante que o receberiam na fórma e com as cerimonias que elle ordenasse, mas o Infante não quiz que fosse salvo como sempre fôra, encomendando-lhe que na procissão com que a elle viessem, como de costume tinham, cantassem devotamente por elle o salmo que começa.

_Qui habitat in adjutorio altissimi in protectione Dei celi commorabitur_--que se podia bem aplicar á sua viagem.

E alli ouviu missa e mandou dizer outras muitas pelas almas d'El-Rei e da Rainha seus padres, e se despediu de seus ossos, que cedo havia de vir acompanhar, e esteve olhando com muita tristeza a sepultura ainda vasia, que em sua capella lhe fôra ordenada, sobre que disse muitas cousas que pareciam já revelações d'alma, e sentimento da carne que a cedo havia de povoar, como foi, e n'esta ordenança chegou a Alcobaça, e assi foi dos frades recebido e encomendado a Deus.

E como El-Rei soube que o Infante passava Leiria, logo mandou sobr'elle corredores, e outra gente de cavallo, para que sua gente com menos licença se soltasse fazer dano.

E porém o Infante chegou a Rio Maior, de que ha cinco legoas a Santarem, onde teve conselho se iria adiante como vinha, ou se enviaria seus messegeiros a El-Rei para que lhe pedisse seguridade com que em alguma bôa fórma, acerca das culpas que lhe falsamente davam fosse ouvido com justiça. E os que verdadeiramente o amavam, posposta toda outra fantesia e paixão lhe davam mui são conselho, que elle não seguiu; porque lhe disseram «que para uma parte nem para a outra não devia ir mais adiante, e que assi como viera se tornasse para Coimbra; porque assaz tinha cumprido por sua honra chegar alli e estar tres dias acerca de seus contrairos, que tendo já então muita mais gente e poder que elle, nunca lhe ousavam vir ter o passo, nem fazer uma leve resistencia, contrariando muito todo outro fundamento, e muito mais enviar-se embaixada a El-Rei, de cuja pouca idade diziam, que já o Infante emquanto as cousas assi andassem não devia fiar sua vida, em caso que com sinaes e sêllos lh'a segurassem; pois por induzimentos de sens contrairos, tantas vezes e em tantas cousas lh'os tinham quebrados, e que muito mais lh'o fariam fazer n'esta em que todo seu desejo se cumpria, e álem d'isso se punha a outra perigosa ventura, que era seguindo mais adiante, e chamando-o El-Rei como a vasallo, e não indo nem obedecendo logo despejadamente como a leal servidor cumpre, cahiria em rebellião e desobediencia clara, de que os achaques passados contra elle ficariam certas culpas, com causas verdadeiras para sua mais justificada perseguição, quanto mais que metendo seu arraial adiante nos olivaes de Santarem, segundo a grande espessura d'elles, e derribando-se pelos caminhos atrás, ficava de todo atalhado sem lhe ficar sómente uma possibilidade de salvação nem desposição de peleja, e que quando se quizesse salvar, já seria ao menos com perda da gente de pé e de toda sua carriagem, com que ficava de todo perdido e desbaratado, e que se por ventura quizesse seguir contra Lisboa com fundamento de se lançar e segurar n'ella, que era maginação errada e certo perigo seu; porque a cidade segundo tudo andava revolto, já não era a madre que o criara segundo elle dizia e confiava, mas que a havia d'achar mui irada, bem guardada madrasta contra si, por onde não ficava poderoso de adiante nem atráz se salvar, se El-Rei com seus imigos lhe saisse nas costas como era de crêr, e que em tanta angustia lhe seria forçado, ou pedir misericordia duvidosa, ou receber morte certa e desesperada de vingança, ao que sem extrema necessidade se não devia arriscar, ao menos por resguardo e segurança de tantos innocentes, quantos com elle sem causa morreriam.»

