Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)

Part 5

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Pelo qual, o duque vendo a fraqueza d'estes, com que não convinha meter sua vida e honra a um tão certo e tão chegado perigo, ou por ventura aconselhado do pouco esforço de seu coração, em que por então foi mui culpado, determinou em si mesmo de não seguir adiante nem cometer o Infante, nem menos o esperar. E ordenou poer-se secretamente em salvo como fez, e não se quiz tornar atráz como viera; porque foi falsamente certificado, que as pontes e barcas do Mondego porque passara, eram por mandado do Infante já todas quebradas e tomadas, o que não foi. Para o qual a mesma sexta-feira ante do domingo de Ramos d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, o duque apartou alguns seus a que revellou o modo de sua partida, e por se escusar rumor nem algum sentimento d'ella, lhes mandou que um e um dessimuladamente se saissem do arraial, e elle com duas sós guias que tomou, em se cerrando a noite se sahiu a cavallo, e se foi com elles ajuntar, que com mui grande perigo e trabalho dos corpos e cavallos atrevessaram a Serra d'Estrella, que lhes jazia á mão esquerda; porque os montes eram grandes e frios, e a serra estava ainda com neves dobradas, de que o duque por ser já mui velho recebeu tão grande padecimento que foi em ponto de morte, e porém da grande frialdade que padeceu ainda lhe ficou d'alli o pescoço e a cabeça baixa em quanto viveu.

E os seus que leixou, como souberam de sua partida, que foi sendo já grande parte da noite passada, foram postos em grande desmaio, e cada um como melhor pôde se apressou de o seguir não sem grande desmando e nenhum acordo, e com perda de muitas cousas que leixavam, crendo que o Infante ou sua gente os seguiria. E assi passaram a serra do Baçó até descerem a outra banda de meio dia contra Covilhã, em que pela grande aspereza dos caminhos e as muitas neves e regelos que n'elle jaziam, os homens suportaram frios e trabalhos incomportaveis, e assi morreram e atereceram muitos cavallos e azemolas, de que muitas ficavam. E se perdeu muita fardagem que os da montanha vieram recolher. E no cimo da serra onde dizem Albergaria, acharam mortas de frio algumas pessoas a que não houve remedio.

As escuitas que o Infante sobre a gente do duque sempre trazia, não houveram sentimento de sua partida, salvo depois que o geral rumor de todos todo lh'o certificou, que foi a tempo em que o duque já teria andadas quatro ou cinco leguas. E por se mais verdadeiramente afirmarem do caminho que levara, não trouxeram ao Infante certo recado se não em amanhecendo, da qual cousa sendo o Infante certificado, mostrou receber por isso tanta gloria e alegria, como pareceu que os seus houveram de pena e tristeza, por o duque se ir assi livrememente e sem contenda, e alguns requereram ao Infante licença para ainda lhes irem seguir o encalço, mas o Infante o não consentio, antes lh'o defendeo, dizendo «que os leixassem ir embora, e que de assi ser, dava por isso muitas graças a Deus.»

E porém a opinião dos mais foi que o Infante errara muito, tendo o duque tão acerca e em tão boa disposição para o cometer, não dar n'elle e o matar se podera; porque quanto alongou sua vida, como o conde d'Abranches lhe disse, tanto antecipou a morte de si mesmo como depois se seguio.

E feito isto, o Infante porque a gente que tinha já lhe não era necessaria por então, fez ajuntar todalas pessoas principaes que hi eram, e com aquellas palavras que mereciam, os que para tal serviço com tão boas vontades se offereceram e disposeram, lhes deu a todos grandes agardecimentos, e os despedio com sinaes de muito amor e obrigação, leixando sómente os continos de sua casa, com que passado o dia de Ramos se tornou a Coimbra.

CAPITULO CVI

_Como o duque se foi a Santarem onde era El-Rei, e do que se fez contra, o Infante_

E o duque como da banda de Covilhã acabou de recolher a gente que o seguio, fez logo seu caminho para Santarem. Onde por aviamento do conde seu filho, foi de toda a côrte assi grandemente, e com tanto triunfo recebido, como se o merecera por batalhas campaes, que contra imigos vencera.

E isto foi por seus aderentes assi ordenado, porque com esta face de fingida honra encobrissem ao mundo o envés do verdadeiro abatimento que o duque em sua vinda tinha recebido. Porque para o proposito com que de suas terras o duque partira, e para a muita gente que comsigo trazia, sempre os seus na côrte afirmaram que o Infante D. Pedro por sua pouca força não ousaria de o cometer, nem lhe defender o caminho. Dando a entender que as mostranças de resistencia que o Infante fazia, eram tudo rebolarias do conde d'Abranches, porque n'estes feitos se governava. E porém assi emprimiram todo o que quizeram no novo e molle entendimento d'El-Rei, que a injuria d'este caso lhe faziam crêr que não era do duque, mas propria de sua pessoa real.

E porque no conselho em que ante El-Rei esto se praticava, o Infante D. Anrique terçou um pouco em favor do Infante seu irmão, afirmando que não consentiria dizer-se, que nenhum filho d'El-Rei D. João faria injuria a seu Rei e Senhor, fez no que contra o Infante D. Pedro então se requeria mui grande contrariedade, com que muitos do conselho se foram, e folgaram de o ajudar, crendo que o Infante D. Anrique clara e descubertamente a seu irmão queria já valer, e alegravam-se, desejando aproveitar ao Infante D. Pedro terem-no para isso por cabeceira, sem o qual consirada bem a disposição do tempo, e pelos contrairos serem de grande condição não ousavam. D'onde segundo a opinião dos prudentes e pessoas d'autoridade, que d'estes feitos tiveram conhecimento, se creu que o Infante D. Anrique n'estes dias falleceu ao Infante D. Pedro com aquelle verdadeiro amor, favor, e ajuda que como a irmão e amigo lhe devia; porque com muito seu louvor, e sem mingoamento de sua muita lealdade lhe podera valer, por maneira com que a El-Rei, e a sua corôa fizera muito serviço, e ao Infante seu irmão desviara morte tão crua e tão abatida como recebeu, e sua tão honrada casa não cahira de todo como cahiu, segundo adiante se dirá, e porque o Infante D. Anrique sobre suas muitas virtudes era assaz prudente e discreto, bem é de crêr que esta piedosa bondade para seu irmão, muitas vezes lhe tocaria e espertaria a memoria, e para o não fazer, o mais honesto e seguro seria leixar a determinação em duvida, salvo se a causa d'isso attribuissemos a algum oculto Juizo Divino.

E por tanto, porque a boa vontade do Infante D. Anrique não perseverou no favor do Infante seu irmão como logo então atentou, foi a querella do duque ouvida d'El-Rei, e posta e crida no mais alto encarecimento de fealdade, que contra seu serviço e estado se podia cometer. Pelo qual logo El-rei começou publicamente declarar a irosa vontade e grande indinação que contra o Infante D. Pedro tinha, a que por aviamento de seus imigos tambem ajuntava o desterro e morte da Rainha D. Lianor, sua madre. E porque no recontamento de suas afeições, desamparo e pobreza, que até morrer passara, o caso contra o Infante mais s'agravasse, faziam com as Infantes irmãs d'El-Rei, que eram meninas, e com os criados da Rainha, que de todas as partes faziam vir, que com lamentações e forçosos choros as apresentassem ante El-Rei muitas vezes, pedindo-lhe por isso do Infante D. Pedro justiça e vingança, como de culpas e crimes já claros e manifestos.

CAPITULO CVII

_De como El-Rei declarou o Infante por desleal, e mandou fazer geraes percebimentos de guerra para ir sobr'elle_

Enviou logo El-Rei cartas de percebimentos de guerra por todo o reino, com declaração de querer por desobediencia e deslealdade do Infante D. Pedro ir contra elle, e assim mandou poer outras cartas publicas de perdão geral para todolos humiziados, que por quaesquer casos andassem fóra do reino, se n'esta ida contra o Infante o viessem servir, e assim se fizeram outras de editos porque mandava a todalas pessoas que eram com o Infante de qualquer estado e condicção que fossem, que a certas horas sob pena do caso maior se partissem logo d'elle, e d'estas algumas se pozeram nas praças publicas de Santarem, e outras haviam de ser por notarios publicadas em Coimbra onde o Infante era, e os primeiros que para isso foram ordenados cometeram o caminho, mas com receio não o seguiram e se tornaram, em cujo lugar foi logo ordenado por El-Rei e enveado a Coimbra Lourenço Abril, seu escrivão da camara, homem mancebo e de bom entender, e como quer que no caminho fosse das guardas do Infante impedido, houve porém de chegar a elle com sua licença e prazer, e tanta pressa se deu para a destruição do Infante, que o duque desapareceu de seu arraial em Coja, bespora de Ramos como atrás fica, e estes editos chegaram ao Infante em Coimbra bespora de Pascoa. O qual depois que foi e viu as cartas que Lourenço Abril sobr'isso levou, lhe disse:

«Lourenço Abril, dizei a El-Rei meu Senhor, que eu só tomo e retenho em mim esta sua provisão, e que não hei por seu serviço e minha honra publicar-se em tal tempo. Não por não querer que em seus reinos e fóra d'elles se cumpram e obedeçam inteiramente seus mandados; porque saiba que eu sou um dos braços mais fortes que tem para lhe ajudar a manter e cumprir sua vontade e justiça. Mas porque estes procedimentos são de sua ira contra mim, eu apello d'elle contra mim agora mal informado, para elle mesmo de mim verdadeiramente e como deve depois bem informado».

E com esta resposta, e com outras palavras a estas conformes se tornou Lourenço Abril a El-Rei, que logo começou de fazer mercê a quem lh'a pedia dos bens e officios dos que eram com o Infante.

CAPITULO CVIII

_Do que o Condestabre filho do Infante D. Pedro fez, estando entre o Tejo e Odiana_

Estes dias com todalas torvações e necessidades do tempo, o Condestabre filho do Infante D. Pedro nunca lhe acodiu, e não seria assi sem seu mandado, antes sempre esteve na comarca d'entre Tejo e Odiana, onde tinha o Mestrado d'Avis com suas fortalezas, e mais os castellos das villas d'Elvas e de Marvão, contra o qual fizeram tambem a El-Rei suspeita, e que se devia segurar d'elle. Especialmente que pela liança e amizade que o Infante seu padre com o Condestabre e Mestre d'Alcantara de Castella tinha feita, podia com entrada de gentes estranhas fazer a este reino muito dano, pelo qual acordou El-Rei de enviar sobr'elle, que estava então na Villa de Fronteira, D. Sancho, conde de Odemira como fronteiro mór.

E davam fama pelo reino para mais indinação do povo, que o Infante D. Pedro tinha ordenado com ajuda de Castella prender El-Rei e se senhorear do reino, e assi lançar n'elle grandes pedidos, e outras muitas opressões se o mais tempo regera.

E sendo o Condestabre d'esto certificado, vendo que Fronteira não tinha força nem disposição para n'ella manter cerco nem esperar afronta, aconselhado sobr'isso com bons cavalleiros e pessoas d'autoridade que comsigo tinha, se passou a Marvão, onde confiando na bondade e segurança da fortaleza esteve alguns dias. E porque o conde D. Sancho todavia se fazia prestes para o ir cercar, esses cavalleiros que com o Condestabre eram vendo-o com alguma fantesia de resistencia, a que a nobreza e esforço de seu coração o inclinava, consirando que não sómente á sua honra não cumpria faze-lo, mas que nos feitos do Infante seu padre podia muito danar, lhe disseram:

«Senhor, estas maginações de defensão em que vos vemos, ou de esperardes no campo esta gente que vem, são por agora escusadas; porque a defesa d'armas e homens que tendes é nada em comparação dos que vem sobre vós, se cuidaes dar-lhe praça, e tambem para quem soes, e para o sangue de que descendeis, sabei que seria grande abatimento vosso esperardes cerco, quanto mais tão desesperado de socorro como sabeis que este seria, principalmente cercando-vos pessoa de menos condição que vós e com tanto poder a que não podesseis resistir, em especial vindo com nome d'El-Rei nosso Senhor, a que seria feio desobedecer, e mais se o assim fizesseis seria em todo desacatar ao Infante vosso padre, e não cumprir sua vontade nem mandado, pois vos deve lembrar que a voz e nome, e o serviço d'El-Rei nosso Senhor, sobre tudo vos encommendou e encommenda cada dia, pelo qual nosso conselho é, que logo vos passeis aqui a Valença, que é do Mestre d'Alcantara, em que ha esperança d'achardes melhor acolhimento, e leixae em vossas fortalezas vossos alcaides com a gente que as guardem e tenham por vós, com mandado vosso, que se El-Rei lh'as pedir ou enviar pedir, que descarregando-os de vosso preito e menagem, lh'as entreguem. As quaes levemente tornareis a cobrar se Deus pozer os feitos do Infante vosso padre em bem e assesego, como a elle praza que seja».

Ao qual conselho o Condestabre obedeceu e o cumpriu, e leixou em Marvão por alcaide um Arthur Gonçalvez, que por mandado d'El-Rei entregou a fortaleza. E o Condestabre se passou a Valença, onde por principio de suas fortunas começou logo d'espremenmentar as grande malicias e sobeja ingratidão do Mestre d'Alcantara, que em tudo contrariou, e com nada lhe respondeu á muita honra e mercê, favôr e amparo, que em suas grandes necessidades passadas do Infante D. Pedro poucos dias havia que recebera, como atrás fica.

CAPITULO CIX

_De uma carta que a Rainha enviou ao Infante D. Pedro seu padre, sobre um conselho que acerca d'elle se tivera para sua morte ou destruição, e do conselho e determinação que o Infante sobr'ella teve_

Evolvendo o processo ao Infante D. Pedro, estando elle em Coimbra não sem mortaes padecimentos, pela incertidão que tinha do fim que sua vida e feitos haveriam, foi-lhe dada uma carta da Rainha sua filha, por Vicente Martins seu secretario, porque lhe notificava, «que em um conselho que sobre seus feitos então se tivera, fôra contra elle determinado que El-Rei o fosse cercar, e que dando-se ou tomando-se por força, houvesse por pena de suas culpas uma de tres cousas. Ou morto, ou carcere perpetuo, ou desterro para sempre fóra do reino, para execução do qual El-Rei partiria contra elle aos cinco dias de Maio». E bem é de crêr que a Rainha lhe não enviaria esta carta sem espresso consentimento e mandado d'El-Rei, cujo bem e amor ella teve sempre em tanta estima, que pelo conservar e não perder nem minguar como mui virtuosa que era, nunca nos feitos do Infante seu padre contra o gosto e contentamento d'El-Rei se quiz entremeter. Esta carta foi dada publicamente ao Infante, que depois de sem alguma mudança nem torvação a lêr, com quanto n'ella viu que a morte começava já de bater ás portas de sua vida, elle a cerrou em sua mão e com a cara segura, e mais alegre que triste, esteve um pedaço perguntando ao messegeiro por novas da saude e bôa disposição d'El-Rei seu Senhor, e por as cousas em que se desenfadava, e porque as respostas redundavam todas em louvores e perfeições d'El-Rei, o Infante mostrava por isso tomar muita gloria sem alguma mestura da mortal pena que já recebera e tinha. E com este despejo se assentou a comer, e depois de acabar se recolheu a sua camara, onde fez logo vir esses principaes que com elle eram, perante os quaes mandou lêr a carta que tinha, e como a sustancia d'ella era já espantoso pregão da ira d'El-Rei, ficaram todos mui torvados, mais e menos segundo a bondade e esforço do coração que cada um tinha. E o Infante não dissimulando já sua infinda paixão e tristeza, com as mãos e braços abertos alevantou os olhos ao ceo cheios d'agoa; porque nos taes casos quando fallava assi o tinha por condição natural. E disse logo:

«D'estes agravos e perseguições em que justiça, razão, nem humanidade não consente, eu primeiramente me queixo a Deos como a só e principal Senhor de todalas cousas, e depois á Real casa de Portugal em que nasci e me criei, e a que até agora bem e lealmente sempre servi. E assim á casa d'Inglaterra em que de sangue tanta parte tenho, e finalmente me agravo a vós meus criados, amigos e servidores como a participadores d'esta minha desaventurada fortuna, aos quaes como a companheiros de meus conselhos e perigos, direi em breve n'este caso minha tenção, que é tomar por melhor, mais honra e mais descanço para mim a derradeira parte d'esta determinação que é a morte; porque das outras de que uma é ser desterrado, Deos nunca queira que eu filho ligitimo d'El-Rei D. João, que com tanta honra uma vez sahi de seus reinos, fazendo a muitos em muitas provincias e senhorios estranhos grandes graças e mercês, haja d'andar sobre minha velhice por reinos e terras alheias, pedindo esmolas com muito trabalho e grande deshonra minha. Pois da outra que é ser preso, e que sobre cincoente e sete annos que hei haja de consentir ferros de justiça em minha carne, não sei a quem não pareça ser muito menos mal morrer, e este por mais bem e maior honra escolho para mim, como disse. Mas porque até agora em todas minhas cousas e alheias que tratei sempre, me prouve ser bem aconselhado, n'esta que me parece ser a derradeira, o devo e queria ser melhor. E por isso vos rogo e encomendo, que esguardadas bem todalas circumstancias d'esta fortuna, e a callidade e priminencia da minha pessoa, queiraes sobre tudo consirar, e cada um de manhã me dizer seu parecer, lembrando-lhe que meus imigos segundo esta nova determinação devem logo vir sobre mim, e partir de lá a cinco dias de Maio. E que diga meus imigos, nunca por amor de mim, e por segurança de minha limpeza entendaes que o digo por El-Rei meu Senhor, nem que o meto n'esse conto. Porque em caso que sua mercê venha com mostrança de ira sobre mim, sempre crerei que seu corpo virá com enganos de meus imigos forçado, a que sua nova edade não sabe nem póde resistir, mas que sua vontade sempre para mim e minha honra ficará livre e sã, como se espera de Principe bom e agardecido como elle é. E porém meu primeiro movimento é n'esse mesmo dia partir d'aqui, e os ir buscar e esperar no campo, e pedir a Deos e a El-Rei meu Senhor justiça e vingança d'elles, como de qnem tão sem razão tanto damno e perda me tem feito. E quando se por meus peccados assi não seguir, contentar-me hei acabar como cavalleiro. E porém d'agora para em todo tempo e sempre protesto, que seja com verdadeiro nome de bom e leal vassalo, e servidor d'El-Rei meu Senhor.»

CAPITULO CX

_Dos conselhos desvairados que ao Infante sobre sua proposição foram dados_

Ao outro dia foram todos juntos, e leixando alguns apontamentos que alguns n'este caso fizeram, finalmente no conselho houve tres conclusões sustanciaes e em si desvairadas, e para cada uma não falleceram estas vozes. A primeira foi do doutor Alvaro Affonso, homem assaz prudente e bom jurista, em que depois de muitas palavras sumariamente concludio «que o Infante como cavalleiro, e principalmente como catholico e bom christão que era, não devia por si ir buscar a morte, mas antes espera-la, em que havia muitas esperanças de vida, e quando sem razão lh'a quizessem dar, que com grande fortaleza d'animo devia de defender sua vida e honra, para que allegou muitos direitos e trouxe mui autorizados exemplos, e que elle por mór resguardo de sua lealdade e mais segurança de sua pessoa, se devia fortalezar em Coimbra, e bastecer e prover d'armas e gentes os castellos de Monte Mór o Velho e de Penella, e aguardar El-Rei, ainda que com todo seu poder o quizesse cercar, e que sendo a cidade tão forte, e tendo elle tanta e tão boa gente comsigo, El-Rei por força o não poderia logo tomar, e que para lhe poer cerco prolongado, ou leixar sobre elle fronteiros, não havia disposição nem possibilidade para isso, e que com Monte Mór teria tambem a Foz de Buarcos, que em suas afrontas se sobreviessem, sempre seriam portas abertas para sua salvação, e que por esta maneira não encurtaria como desesperado sua vida, e como prudente alongaria o tempo, que emfim por sua condição tudo com honra remediaria, especialmente que El-Rei assi como crescesse nos dias, assi iria crescendo e esforçando seu juizo, com que entenderia os enganos em que o traziam, a que sua nova idade por então não alcançava, quanto mais que a Rainha sua filha estava em esperança de emprenhar, e com a geração que Deus lhe daria, El-Rei se acharia mais obrigado para o amar e honrar, e ella teria mór atrevimento de em seus feitos o requerer. E que o povo que com malicias alheias andava emnevoado, cansaria e amansaria de seus alvoroços, e que em fim por partido sempre lhe fariam o que elle quizesse, pois com isso claramente parecia elle com medo da ira de El-Rei, e por necessidade se defender, e não com vontade de o desservir nem desobedecer, pois todos sabiam que elle o tinha e amava por seu verdadeiro Rei e Senhor.»

E com este voto e parecer se foram D. Fadrique, Martim de Tavora, Aires Gomes da Silva, João Corrêa, João de Lisboa, secretario, e Diogo Affonso, e Pedro de Tayde, Dayão de Coimbra, que eram todos pessoas de bom entender, esforço, e autoridade.

Eram outrosi com o Infante n'estes conselhos Luiz d'Azevedo, e Lopo d'Azevedo, irmãos, e Martim Coelho, e Pero Coelho, tambem irmãos, os quaes por serem entre si por casamentos liados seguiram todos outro acordo, dizendo «que o Infante por maneira alguma não devia esperar cerco, cá não era honra, ao menos por respeito da Garrotea que tinha, nem proveito nem segurança, mas que leixasse suas villas e fortalezas em bom recado, e que com a outra sua gente se saisse de Coimbra, e passasse o Douro, onde n'aquellas comarcas teria a gente das terras de Lopo d'Azevedo, e de Martim Coelho, e Ruy da Cunha, e d'Aires Gomez, e d'outros muitos, com que seguraria sua pessoa e d'aquelles que o seguissem, e que d'alli poderia tornar á Beira, e passar-se a riba do Diana, e andar pelas terras do Condestabre seu filho; porque El-Rei o não podia tanto seguir, que não andasse sempre diante, ou desviado a seu salvo, aconselhando com isto que não sómente trouxessem a voz e nome d'El-Rei seu Senhor, mas muito mais as vontades para o bem e lealmente servir, e com a necessidade e fadiga que os do reino todo por isso receberiam, conhecendo a sem razão de suas perseguições, ousariam dizer a El-Rei a verdade e as falsidades com que seus imigos o moviam contra elle, de que se seguiria que ou o leixariam livremente, ou lhe fariam tal partido de que fosse contente.»

E com isto apontaram outras minguas, trabalhos, despesas e pecados, que o cerco por sua condição trazia comsigo, pelos quaes o devia fugir e avorrecer.

O conde d'Abranches tomou só outra conclusão, ás dos outros que apontei em todo contraira, allegando e tocando com largas palavras, muitas causas, razões e exemplos de Principes passados, porque não devia esperar cerco, e outras tantas para não dever andar pelo reino, especialmente com tão pouca gente, que muitas partes pela estreiteza dos passos, e pelo grande poder d'El-Rei, se podia atalhar e acolher no meio com muita deshonra sua, e assinado perigo seu e dos seus. E concludio com a tenção do Infante que foi «antes morrer grande e honrado, que viver pequeno e deshonrado, e que para isso vestissem todos os corpos de suas armas, e os corações armassem principalmente de muita fortaleza, e que se fossem caminho de Santarem, não como gente sem regra desesperada nem desleal, mas como homens d'acordo, e que iam sob a governança e mando de um tal Principe e tal capitão, que a El-Rei seu Senhor sobre todos era mais leal e servidor mais verdadeiro, e que mandasse a El-Rei pedir e requerer, que com justiça o ouvisse com seus imigos, que lhe tão sem causa tanto mal ordenavam, ou lhe desse com elles campo, em que de suas falsidades e enganos, elle por sua limpeza e lealdade faria que se conhecessem e desdissessem. E quando El-Rei alguma d'estas cousas não houvesse por bem, e todavia quizesse vir sobre elle, que então defendendo-se morressem no campo como bons homens e esforçados cavalleiros.

CAPITULO CXI

_De como o Infante se teve ao conselho do conde d'Abranches, que foi morrer_