Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)
Part 4
«Senhor, o Infante, meu Senhor, soube de vossa vinda, e d'este auto de guerra em que com tantas gentes vindes, e é certificado, que quereis assi, sem seu prazer, passar por sua terra, de que é muito maravilhado, assi por esta novidade de gentes armadas, que sem necessidade d'El-Rei, seu Senhor, nem do reino levaes, como por lh'o não fazerdes primeiro saber, que pois assi o determinaveis, que quer saber de vós em que maneira vos ha de receber, e que se houver de ser como irmão e amigo, como elle deseja, que queria que vos vades chã e pacificamente, como sempre fostes, e que d'elle e em suas terras recebereis aquella honra, prazer e gasalhado, que sempre recebestes, e que se com este desacostumado estrondo d'armas quizerdes assi passar, que por quanto pela quebra e rompimento em que com elle estaes, a elle seria fraqueza e abatimento consenti-lo, saibaes que vos hade receber no campo como imigo, mas que n'este caso por escusardes os males e damnos que se d'esta viagem podem seguir, deveis tomar outro caminho porque vades, pois sem seu abatimento nem muito trabalho vosso o podeis bem fazer.»
E com isto Vasco de Sousa se despediu, e tornou ao Infante.
CAPITULO XCVIII
_Da resposta do duque ao Infante D. Pedro_
Após o qual o duque enviou logo a resposta ao Infante, que ainda era em Penella, por Martim Affonso de Sousa, fidalgo de sua casa, que em presença de todos lhe disse:
«Senhor, o duque meu Senhor vos notifica por mim em resposta do que lhe ora enviastes dizer, que depois que nascestes, sempre vos teve por irmão e amigo, a que desejou fazer prazer e serviço, e que agora por este vos tem, e não com menos desejo e vontade, e que por cumprir o que El-Rei lhe mandou, vae a sua côrte por esta estrada publica, e que a gente que traz não é d'ajuntamentos nem d'alvoroço como vos fizeram crêr, mas é a que o soe de acompanhar, e que de vir em acertamento seguido para a côrte caminho direito, haver de tocar vossa terra, que não sabe como seja caso d'agravo nem escandalo vosso; porque n'ella não ha de consentir que se faça damno, força, nem tomadia, sómente pedirem alguns mantimentos se forem necessarios, por seus dinheiros, como vós podereis fazer em suas terras quando por ellas de vontade, ou por necessidade quizesseis passar, e que por tanto elle determina todavia seguir assi seu caminho sem outro desvio, que vos pede que o hajaes assi por bem.»
E o Infante sorrindo-se fingidamente e com cara cheia de verdadeira sanha, lhe respondeu:
«Martim Affonso, dizei ao duque, que não sou tão nescio nem elle tão avisado, que com suas dissimulações haja de enganar minha pessoa, nem abater minha honra; muitos dias ha que nos conhecemos, e muitas vezes passou já por minha casa e por minhas terras; e me lembra bem a gente que trazia e a que tem, e agora sei que traz mil e seiscentos de cavallo armados, com outra muita gente de pé que para esta vinda ajuntou sua e alheia, o que não responde aos tempos passados nem menos á paz e amizade que comigo quer ter. E não lhe declarando mais o fim porque assim vem, pois elle o sabe, nem o abatimento que n'isso recebo pois o deve entender. Finalmente lhe dizei, que se elle não toma algum outro modo de vir, porque a todos pareça e seja notorio que elle por minhas terras vem pacificamente e como irmão e amigo, saiba que vivo lh'o não hei de consentir.»
E com isto Martim Affonso sem outro mais repouso se despedio.
CAPITULO XCIX
_Do que o conde d'Ourem ordenou em favor do duque seu pae para não leixar de proseguir seu caminho, e dos recados que El-Rei ao Infante D. Pedro enviou_
E o Infante D. Pedro vendo já por estas premissas passadas que o recontro e peleja com o duque em conclusão se não podia escusar, fez para isso aquelles percebimentos de gentes, armas, artelharias, mantimentos e cousas que sentio serem necessarias, e com aquella trigança e diligencia que o caso requeria. Das quaes cousas todas como passavam o conde d'Ourem foi logo na côrte avisado, e por favorecer a parte do duque seu padre não sendo bem seguro e confiado de muitos que n'aquella viagem o acompanhavam, temendo que na maior affronta o leixariam, fez crêr ao Infante D. Fernando, irmão de El-Rei, que por ser casado com a neta do duque, filha do Infante D. João, este caso era proprio seu. Pedindo-lhe que aos que com o duque vinham quizesse escrever e encommendar sua honra para que em tempo d'alguma affronta e necessidade se sobreviesse, como fracos o não leixassem.
E de ter o conde este receio e desconfiança não era sem causa; porque os mais dos fidalgos da companhia do duque com que refizera tanta somma de gente, não eram de sua casa mas vinham acostados a elle por aquella jornada sómente, e não com fundamento de tomarem por elle armas contra o Infante D. Pedro, mas pelo terem na côrte em sua ajuda e favor para seus negocios e requerimentos que esperavam fazer. E o claro conhecimento que o duque na vespera da affronta d'isto tomou, lhe fez não esperar o dia que para ella se aparelhava, como ao diante se dirá.
E porém o Infante D. Fernando como era de mui pequena idade em que o sangue fervia, não sómente satisfez ao conde com cartas que ordenou á sua vontade, mas ainda se offereceu ir em pessoa em ajuda do duque, e assi lh'o escreveu logo e aos seus, por Alvaro de Faria, que depois foi Commendador do Casal, cuja ida por então não houve effeito; porque as guardas que o Infante nos caminhos trazia o tomaram, e foi a elle trazido, e tomou-lhe as cartas e as leu, e o fez tornar para Santarem, e posto que do Infante nem dos seus não fosse em nenhuma outra cousa maltratado, elle depois de ser na côrte o não apresentou assi, antes no desbarato e destroço da sua pessoa e de seu cavallo, que de industria fingio, se mostrou ser de todo por mandado do Infante despojado, affirmando que dissera sobre tudo algumas palavras mui contrairás ás verdadeiras, e não do reprender com o despedio de si, com que poz os feitos contra o Infante em maior alvoroço e perseguição; porque El-Rei mandou logo riscar de seus livros o assentamento e todalas tenças que o Infante d'elle tinha, e deffendeu aos almoxarifes que d'hi em diante mais lh'os não pagassem. E assi escreveu ao Infante por João Rodrigues Carvalho, escudeiro de sua casa, defendendo-lhe com grande estranhamento «que não tivesse ao duque o caminho, e o leixasse passar livremente, pois o ia servir.» Do qual recado foi o Infante mui triste, e mostrou grande sentimento, e sobre a sem razão de seus agravos e perseguições fallou algumas cousas ao messageiro que pareciam de aspereza, mas não tão feias nem assi malditas, que se não podessem dizer de um agravado servidor a um Senhor mal informado. Mas João Rodrigues como tornou á côrte, ou de sua não boa vontade, ou por ser dos contrairos do Infante assi induzido, afirmou que o Infante publicamente dizia «que não era vassallo d'El-Rei de Portugal, mas subdito e servidor d'El-Rei de Castella, e que assi como podera desterrar d'estes reinos a rainha D. Lianor, que outro tanto saberia fazer aos filhos». Com outras enormes palavras mui contrairas ás que o Infante com elle fallou, com o teor das quaes se fizeram logo autos, e tomaram publicos estromentos, que para mais indinarem o povo contra o Infante, logo foram pelo reino enviados.
Após João Rodrigues, veio ao Infante D. Pedro de mandado do Infante D. Anrique, o Bispo de Ceuta D. João, que com quanto tinha afeição ao conde de Ourem por ser da criação do Condestabre, era porém homem de grande prudencia e de sã e justa tenção. E como quer que apontasse ao Infante muitas causas e razões, porque catolicamente, e segundo a obediencia em que a El-Rei era obrigado não devia impedir a passagem do duque. Em fim não o pôde mover da sua determinação, aprovando-a o Infante com outras razões de honra e cavallaria, e porém taes que não desfaziam nada de sua lealdade a El-Rei, afirmando-se «que se o duque quizesse vir em fórma de pacifico e amigo como sempre viera, que elle o receberia e lhe faria honra e acolhimento como a irmão e amigo, segundo sempre fizera, e que d'outra maneira lh'o não havia de consentir, como por Martim Affonso lhe mandara dizer.»
E estando as cousas n'este ponto, e esperando ainda o Infante D. Pedro em Penella pelo Infante D. Anrique, como lhe tinha enviado dizer, soube que elle sem lh'o fazer saber se partira para Santarem onde era El-Rei e sua côrte, de que o Infante D. Pedro recebeu muita torvação. E não sei como esta virtude de piedade falleceu n'este Principe para seu irmão, pois em seu coração todalas outras parecia que sobejavam, de que alguns disseram que El-Rei por enfraquentar a parte do Infante D. Pedro, o mandara chamar sabendo que o queria ajudar, e outros afirmaram que elle fingira tal chamamento por não ser com seu irmão, vendo já sua determinação de ir contra a defesa d'El-Rei, e por força d'armas resistir á vinda do duque.
E no começo do mez d'Abril d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, veiu ao Infante em Penela Fernão Gonçalves de Miranda com uma grande instrução d'El-Rei, cuja conclusão foi estranhar-lhe muito algumas cousas, em especial seus ajuntamentos e o movimento contra o duque, mandando-lhe em conclusão «que se tornasse a Coimbra, d'onde sem seu mandado não saisse, e leixasse o duque sem contradição passar assi como vinha. E que se o não fizesse, que fosse certo que logo procederia contra elle assi rigorosa e asperamente, como tamanha desobediencia merecia.»
A esta embaixada d'El-Rei respondeu logo o Infante, justificando com largas razões seu proposito, concluindo «que pois sua Mercê o mandava contra sua honra e estado tornar atráz, que outro tanto devia mandar ao duque que primeiro começara, e que posto que na priminencia das pessoas de um e do outro havia em tudo tanta diferença, como ao mundo era notorio, que este caso d'ambos julgasse e houvesse por igual, e ao menos o que defendia a um, não consentisse ao outro. E que pois sua Mercê por então não tinha de gente d'armas tão eminente necessidade, mandasse que o duque passasse por sua terra em modo pacifico, e com a gente de sua casa ordenada, e que n'esta maneira o receberia como a irmão e amigo, e lhe faria e mandaria fazer muita honra e bom acolhimento, como sempre fizera, e que em outra maneira recebendo n'isso tamanha mingoa não o havia por seu serviço, pela grande parte e razão que com seu real sangue tinha» e com esta resposta o despediu.
CAPITULO C
_De como o Infante D. Pedro determinou impedir a passagem ao duque, e se percebeu e partiu para isso_
E porque o Infante D. Pedro foi avisado que o duque não leixava de proseguir o caminho que começara, deu logo grande trigança á sua partida, e teve conselho onde e como o esperaria, e alguns lhe aconselhavam, que para sua justificação o leixasse primeiro entrar em sua terra, mas o Infante disse que a todo seu poder o duque por aquella vez não trilharia nenhuma pequena parte da herança que possuia, e que fóra d'ella o queria esperar. Pelo qual de Penela moveu logo com sua gente e carriagem, e se foi á Lousã, e d'hi logo a uma aldêa sua que se diz Villarinho, onde soube que o duque era em Cója, couto e lugar do Bispo de Coimbra, alli concertou e proveu o Infante sua gente, e ordenou com muita destreza suas batalhas, dando a avanguarda a D. James seu filho e com elle o conde d'Abranches, e tomou a reguarda em que havia de ficar.
Alli foi ao Infante dada secretamente uma carta com letra mudada e sem signal, em que o aconselhavam que logo movesse contra o duque porque o não havia d'esperar, mas o Infante publicamente disse «que aquillo era em favor do duque assi lançado, e para elle manifesto engano com que o queriam fazer algum tal desmando, de que esperando victoria ficasse vencido; porque bem cria que o duque que tantos annos se intitulara de filho de tal Rei, e que de tanta e tão honrada gente, para qualquer pesado feito vinha tão bem acompanhado, antes conhecidamente receberia morte, que tornar atrás nem consentir em tal fraqueza, á sua honra e estado tanto contraria.»
CAPITULO CI
_De uma falla que o Infante D. Pedro fez aos seus, estando todos a cavallo_
Alli fez o Infante aos seus estando todos a cavallo uma comprida falla, em que pareceu pela muita prudencia e gravidade com que a disse, que já havia dias que a tinha cuidada.
Foi sua sustancia alegrar-se primeiramente no esforço, despejo, e segurança que em todos para sua honra claramente via e conhecia, e que não era sem causa; porque todolos que entre si via, poderia contar no amor por seus filhos e netos, pois todos eram seus criados e filhos de seus criados, e assi disse mui particularmente todolos agravos e perseguições, e desfavores, que d'El-Rei por induzimento do duque e do conde seu filho, e dos de sua valia tinha recebidos, com os quaes justificou as causas de sua querella, para cuja emenda e vingança ali eram vindos, e que não cressem que n'isto entrava odio nem escandalo que tivesse d'El-Rei D. Affonso seu Senhor; porque elle como mui leal seu vassallo e servidor, o reconhecia algum não, porque Deus sabia que elle o amava e era razão que amasse sobre todalas cousas do mundo. E que na criação que em sua real pessoa fizera, e na governança, paz e conservação de seus reinos, que dez annos por elle regera e defendera, quem sem paixão o quizesse consirar, acharia d'isso prova mui autorisada, e que o agravo que tinha não era da natural inclinação d'El-Rei, mas da pouca edade sua, com que madura e perfeitamente não podia conhecer os enganos em que contra si seus imigos o traziam, e que a principal causa da inimizade que seus imigos contra elle tinham, não fôra por lhes dar pouco; porque do patrimonio real com honras e titulos muito lhes tinha dado; mas porque lhe não dera todo, especialmente por não dar ao duque a cidade do Porto e a villa de Guimarães, que muitas vezes com outras cousas da corôa mui cegamente lhe pedira, e que o acrescentamento que em si e em seus filhos fizera, fôra sómente de muito amor e grande lealdade, e com mui verdadeiro desejo de servir, em que ao mais leal do mundo não conheceria avantagem; porque da herança da corôa de Portugal, não falando na que El-Rei D. João seu padre lhe dera, ainda a primeira mercê e acrescentamento seu estava por receber, e porque seus contrairos sentiram, que sua bondade e seu livre conselho acerca d'El-Rei, seriam para suas cobiças e acrescentamentos cousas mui suspeitas e perjudiciaes, trabalharam de o apartar d'El-Rei e a El-Rei do amor que lhe devia ter, e credito que lhe devia dar, e que a vinda do duque por sua terra, e na maneira em que vinha, não era com verdadeira necessidade de serviço d'El-Rei, mas sómente pelo abater, ou por dar causa com que El Rei mais se indinasse para sua destruição; porque se o assi leixasse passar sem resistencia, seria publicar fraqueza de coração com seu vituperio e abatimento, o que a elle seria grave pena e ao duque muita gloria, se lhe resistisse indo á côrte, que lh'o reputariam a desobediencia e deslealdade contra El-Rei, para o mais asinha moverem para o que tanto desejavam. E porém que por ser quem era, e decender de quem decendia, finalmente o não havia de consentir, e que tanto esforço teria de morrer sobr'isso vencido com um só page, como então tinha esperança de viver e vencer, vendo-se acompanhado de tantos e tão bons amigos e criados, e que por isso era escusado esforça-los para a vingança de suas injurias com exemplos de feitos passados, pois os via para isso tão esforçados, antes se o caso viesse a rompimento como esperava, lhes encomendava a todos mais piedade que crueza, e com os olhos alevantados ao ceo cheios de muitas lagrimas pedio perdão a Deus com palavras de muita devoção, e se encomendou a elle, e á Virgem Maria sua Madre, e feito isto mandou que se armasem e percebessem todos.
CAPITULO CII
_De outra falla que o duque tambem fez aos seus em seu favor contra o Infante, e de como Alvaro Pires de Tavora lhe respondeu_
O duque de Bragança não leixou de continuar sua viagem até duas legoas da Louzã, crendo que o Infante D. Pedro com todas suas ameaças não ousaria de lhe resistir, nem se moveria de Penella, assi por não quebrar o mandado e defesa d'El-Rei que para isso tinha, como pela pouca gente de que se percebera. E porém como pelas espias que trazia, soube que o Infante estava já em Serpiz, que era d'elle pouco mais de uma legoa, e vinha com determinação de peleja, foi posto em muito cuidado, e mandou alojar sua gente com aquelle resguardo e seguridade que para o tempo e caso cumpria, e ajuntou logo os fidalgos e pessoas principaes de sua companhia para ter conselho sobre o que faria, ante os quaes disse:
«Nós somos aqui tão acerca do Infante como sabeis, e já devemos crêr que vem com determinação de por força nos resistir, vêde qual será melhor, ou o esperarmos aqui, ou irmos adiante busca-lo, ou por evitarmos as mortes e danos que d'este recontro se podem recrecer nos tornarmos atrás e seguirmos outro caminho, porque aqui por agora não é dar outros meios.»
Sobre o qual houve entre elles votos desvairados, e em fim Alvaro Pires de Tavora, disse:
«Senhor, a mim parece que para quem soes, e para a determinação com que partistes, e para a gente que levaes, seria cousa mui vergonhosa, e para vossa honra de grande vituperio, tornarde-vos atrás nem uma só passada; porque em caso que para Deos fosse razoada encoberta, dizerdes que por escusardes mortes e outros danos o fazeis, o mundo com que agora vivemos vo-lo não ha de levar n'essa conta, mas estimarvo-lo-ha como é razão, por grande fraqueza e assinada judaria; soes grande imigo do Infante e elle vosso, e as mais palavras e dissimulações são escusadas. Porque a amizade que El-Rei entre vós ambos assentou, bem sabemos que foi uma fórma falsa de palavras de que nunca soubestes parte, e assi nunca a guardastes; porque depois sempre em vossas cousas vos tratastes como imigos, e vós o sabeis, e que digaes que El-Rei vos manda chamar, não é o Infante tão privado do entender, consiradas as cousas passadas e o auto em que his, que não entenda que é sem fundamento de seu mal, e de o resistir e contrariar em sua terra, sabei que como Principe e como Cavalleiro tem razão e faz o que deve, e por tanto meu conselho é, que o que elle quer fazer vós o façaes primeiro, que será irmo-lo buscar, e nos desponhamos á ventura que nos vier».
E este conselho aprovou o duque por melhor, e determinou então de o seguir. Pelo qual porque soube que o Infante o havia d'esperar no estremo e confins de sua terra, a que já estava mui chegado, foi alli com esses principaes vêr o lugar de melhor disposição para a peleja, e assi partir e escolher o campo para elles mais seguro. E des-hi volveu a seu alojamento, e fez ajuntar todolos seus, e com quanto era de pouca fala, com a contenença grave e segura lhe fez um razoamento n'esta maneira.
CAPITULO CIII
_D'outra falla que o duque fez a todolos seus, em que determinou não leixar o seu caminho_
Honrados criados e amigos, eu sou aqui vindo por mandado d'El-Rei meu Senhor, como vos disse, e por estas suas cartas o vereis; levo comvosco este publico caminho sem danificar nem agravar alguem como sabeis, e ora sou certificado que o Infante D. Pedro contra defesa e mandado do dito Senhor, vem por elle com proposito de por força m'o impedir, e porque eu por muitas causas que todos entendereis, sou em determinação de todavia seguir ávante, eu vos rogo e encomendo, que para qualquer trabalho e afronta que sobrevier, por serviço d'El-Rei meu Senhor e minha honra esforceis os corações, e desenvolvaes as mãos como de vós e de vossas bondades espero. E sabei certo prazendo a Deos, que a victoria é nossa sem algum vosso perigo; porque a gente do Infante é pouca para a nossa, e vem constrangida e cortada toda de temor; porque além de conhecerem o dano a que se despõem, sabem o erro e deslealdade que cometem, vindo contra a obediencia e mandado de seu Rei e Senhor. E por isso assi por sem duvida, que todos estes na sombra do medo, vendo-nos logo o leixarão. E por isso eu vos encomendo que no sangue d'estes não solteis vossas mãos e ferro a toda a crueza, pois em fim são christãos e vassallos de El-Rei meu Senhor, e á verdade innocentes, ainda que tenho grande receio á vinda do Infante D. Fernando, e do conde d'Ourem meu filho que vem detraz, e na hora do nosso ajuntamento serão comnosco, que por ventura nas mortes e danos d'estes não quererão ter esse resguardo, mas Deos o perdoe, ou acoime ao Infante D. Pedro, pois é causa d'isso, e este trabalho que por mim tomaes, eu sempre vo-lo conhecerei, e El-Rei meu Senhor tambem vo-lo deve e por meus requerimentos e intercessão vo-lo satisfará com honras e mercês, como a bons e leaes vassallos que soes; e com isto se recolheu a seu alojamento.
CAPITULO CIV
_De como o conde d'Abranches fallou ao Infante, aconselhando-o que desse no duque_
O Infante D. Pedro que era já no lugar de Serpiz, soube logo como o duque viera vêr e repartir o campo, e assi da falla que aos seus fizera, e porque de um a outro não havia já mais de meia legoa, o conde d'Abranches assi armado como chegou, sem mandado do Infante se apartou com alguns, e foi vêr o arraial do duque; porque da gente e assento d'elle se informasse para o que esperava, e em tornando lhe perguntou o Infante com mostrança de lhe pesar d'onde vinha, e o conde lhe respondeu:
«Senhor, venho de vêr vossos imigos, de que prazendo a Deus e ao bemaventurado S. Jorge vos eu darei hoje se quizerdes mui boa vingança, e peco-vos por mercê que a não dilateis para mais, e hi logo dar n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes tão bom dia; porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não alongueis a vida a quem se lh'a hoje daes, sabei que a encurtará mui cedo a vós, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e afortaleza não quer vir ávante, e ou se tornará para trás como veiu, ou escondido se salvará por outro caminho.»
E o Infante lhe respondeu: «Conde, não creaes que o duque por filho de quem é, e acompanhado e aconselhado de tão bons fidalgos como com elle vem, especialmente que é assaz entendido, tome nenhum d'esses sestros que abata sua honra; antes pois já determinou de vir, elle virá, e ambos como Deus ordenar esperimentaremos nossas fortunas, e por hoje é bem que repousemos e provejamos no que nos cumpre, e a elles demos lugar que para taes vistas se percebam á sua vontade. Ao menos porque com a culpa de nosso salteamento e trigança, não se encubram e escusem da fraqueza e leve resistencia, que prazendo a Deus n'elles acharemos. E praza a Deus que ou se tornem, ou desviem por alguma maneira como dizeis; porque com guarda de minha honra eu os não veja, e elles possam salvar suas vidas, cá em fim patrimonio são d'El-Rei meu Senhor, em que me sempre pesará minguar e fazer estrago.»
CAPITULO CV
_De como o duque não quiz esperar o Infante, e se salvou atravessando secretamente a Serra d'Estrella, e do que o Infante sobr'isso disse e fez_
O duque n'aquelle dia que era sexta-feira ante do domingo de Ramos; porque soube que corredores do Infante vieram vêr seu arraial, tambem mostrou que se provia e aparelhava, como quem determinava não desistir de seu proposito, e menos negar a peleja, e segundo o pulso que á sua gente tomou, não achou em todos aquella fortaleza e esforço, que para tal afronta se requeria; porque como atrás disse muitos d'elles não eram proprios seus, e vieram sómente com elle pelo acompanhar pacificamente atè á côrte, sem esperança nem aviso de tal recontro, especialmente contra o Infante D. Pedro, a que muitos d'aquelles tinham afeição secreta, e desejavam servir.