Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)

Part 3

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Partiu-se El-Rei de Santarem para Lisboa, onde o Infante D. Anrique que era no Algarve lhe veiu fallar, e porque sentiu que a vida e honra do Infante seu irmão com maneiras falsas de seus imigos era maltratada, e se despunha a destruição e perigo, atalhou a isso algum tanto, mas não com aquella fortaleza e escarmento, que elle a seu irmão devia e o mundo esperava, o que lhe fôra bem possivel se quizera; porque achou contra o Infante artigos formados em que se afirmava que com cobiça de reinar matara El-Rei D. Duarte seu irmão, e em Castella dera ordem á morte da Rainha D. Lianor, e assi á do Infante D. João. Com outras muitas abominações de que se tiravam inquirições, em que por seu sobornamento lhe não falleciam testemunhas falsas com que parecia que o provavam. Mas o Arcebispo e o conde d'Ourem com outros de sua parcealidade, receiosos se o Infante D. Anrique segundo era no reino poderoso e de grande auctoridade pendesse á banda do Infante D. Pedro, que suas maginações ficariam com damno d'elles muito áquem de seu proposito, trabalharam de fazer a El-Rei suspeitosas suas muitas virtudes e segura lealdade, afirmando-lhe que nas desculpas do Infante D. Pedro o não devia crêr. Porque na culpa do engano e desterro da Rainha sua madre, e em outros desmandos que por morte d'El-Rei D. Duarte no reino se fizeram foram ambos causadores e participantes, mas como isto era falso, não damnava na limpeza do Infante D. Anrique.

CAPITULO XCI

_Vinda do conde d'Abranches ás côrtes_

A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta, o conde d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do Infante D. Pedro, e publico amigo do conde d'Ourem, e em sua chegada não foi então d'El-Rei e de sua côrte assi agasalhado e honrado, como seus serviços presentes e merecimentos passados requeriam. Porém o conde assi como era de nobre sangue, assi não fallecia n'elle uma graciosa soltura de dizer, com mui esforçado coração e singular aguardecimento, com que ante El-Rei e os de sua côrte, no publico e no secreto defendia muito a honra e estado do Infante D. Pedro, com claros exemplos e vivas razões de sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande audacia os movimentos e maldades que seus imigos tão sem causa contra elle moviam.

E como quer que El-Rei fosse induzido, que não ouvisse o conde e o mandasse ir fóra de sua côrte, poendo-lhe que em todas as culpas do Infante elle era muito culpado, porém porque El-Rei era de alto coração, aceso no ardor de autos cavalleirosos, suspirando para grandes emprezas, folgava muito de o ouvir, e começava dar-lhe de si muita parte e acolhimento, especialmente porque o Infante D. Anrique ante El-Rei muites vezes por cousas muito assinadas em que o vira, dizia por elle, que não sómente Portugal, mas Espanha toda se devia de haver por honrada criar tal cavalleiro. E porque os imigos do Infante viram que a vontade d'El-Rei ácerca do conde não terçava por elles como desejavam, lançaram-lhe amigos d'elle lançadiços, e pessoas de credito que com resguardo de grande segredo o aconselhassem que se fosse fóra da côrte, e não entrasse em um conselho publico que se então fazia, avisando-o manhosamente que n'elle por cousas do Infante D. Pedro o haviam de prender. Mas o conde com a cara cheia d'esforçada segurança lhe disse:

«Amigos, certamente pelos muitos e grandes serviços que tenho feitos a esta casa de Portugal, eu lhe mereço mais villas e castellos com que me acrecente, que prisões nem cadeias em que sem causa me ponha, e por tanto com todo o que me dizeis, sabei que não hei-de fugir do conselho e serviço d'El-Rei nosso Senhor, pois leal e verdadeiramente sempre o segui. E porém se tal cousa, e por tal causa se move contra mim, sabei certo que em defender minha honra, e limpeza d'aquelle Senhor, eu me mostrarei hoje dino de ser confrade da Santa Garrotea que recebi, e espero em Deus que sem ociosidade de minhas mãos, os que me quizerem visitar antes seja na sepultura, que nos carceres nem cadeias, e por isso não hajaes dó nem compaixão de minha vida porque minha morte honrada a fará com louvor viver mui viva, e muito mais honrada nas memorias dos homens para sempre.»

Pelo qual o conde depois de com esta determinação despedir estes manhosos e dobrados conselheiros; porque a hora do conselho se chegava a que determinou ir, se vestiu de panos finos mui bem, e muito melhor d'armas secretas, com que entrou no paço, onde seus imigos vendo a segurança de sua pessoa, foram claramente certificados do esforço e bondade de seu coração.

E estando El-Rei na casa do conselho, onde eram muitos senhores presentes e os principaes imigos do Infante, o conde com cara que mais parecia que ameaçava que temia, lhe tocou em sua prisão que lhe fôra revelada, e assi lhe fallou com muito repouso e grande auctoridade nas cousas do Infante e suas, approvando sua bondade e lealdade por termos, e com razões a todos tão manifestas, que se não podiam contrariar; concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e condição que fossem, que do contrairo tinham informado a El-Rei, eram com reverença e acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo máos e tredores, e que com licença e consentimento de sua Senhoria os combateria por armas, e em campo a tres d'elles os melhores juntamente.

A resposta d'El-Rei para o conde foi então graciosa e branda, e com mostrança que lhe pesara de o ouvir, que para o máo fundamento dos que tratavam a morte do Infante foram mui tristes sinaes, e por arredarem El-Rei do Infante D. Anrique e do conde, que começavam ser causa que de todo impedia seu damnado proposito, o levaram a Cintra aforrado.

CAPITULO XCII

_De como o Infante D. Anrique se foi vêr a Coimbra com o Infante D. Pedro, e com elle o conde d'Abranches, e das novidades que se seguiram_

E o Infante e o conde d'Abranches vendo tempo para isso, foram vêr a Coimbra o Infante D. Pedro, que com tal vesitação pela estima e reputação em que o Infante D. Anrique era havido, elle e os seus mostraram receber muita alegria e grande favor.

Alli se juntaram os Infantes com alguns principaes seus adeptos que hi eram, e fallaram algumas vezes nas sem razões e agravos que o Infante D. Pedro tinha nas cousas passadas recebidos, e assi no remedio que se teria nos que se aparelhavam e estavam por vir, para acrecentamento dos quaes foram alli certificados que El-Rei como foi em Cintra logo por engenho do conde d'Ourem e dos outros ordenara em desfavor e quebra do Infante estas cousas. Uma foi que escreveu a todolos fidalgos e a cavalleiros do reino em que sentio que havia boa vontade para o Infante, que sob pena de caso maior por qualquer maneira o não fossem vêr. A outra que mandou poer e publicar editos por todo o reino, que todolos criados que foram da Rainha D. Lianor, que de suas fazendas e cousas por seu caso fossem privados, viessem requerer suas restituições, para que foi dado por juiz Lopo d'Almeida, que como quer que em todalas outras cousas fosse havido por homem justo e de são entender, n'esta a juizo de bons (por ventura, porque o tempo assi o queria) não guardou a ordem direita que devera; porque todo o que os damnificados por simples petição pediam lhe era sem exame nem resguardado de justiça julgado, e logo executado, em que ajuntavam muitas cousas fóra d'esta querella e d'esta calidade, de que a muitos se seguiu sem causa muito damno. A outra foi que El-Rei notificou ao Infante D. Pedro que o havia por degradado de sua côrte, e lhe mandava e defendia que sob pena de caso maior sem seu especial mandado não fosse a ella nem sahisse de suas terras.

E isto ordenaram assi os contrairos do Infante, porque se receiaram que elle com a vista e confiança do Infante D. Anrique tomaria por ventura atrevimento de se vir com elle á côrte, onde era certo que em pessoa alimparia ante El-Rei sua honra, o que a elles para seu desejo fôra mortal inconveniente.

Os Infantes descontentes e maravilhados da sem razão d'estas cousas acordaram de enviar sobr'ellas a El-Rei, como enviaram Gonçalo Gomez de Valladares, commendador da Ordem de Christo. O qual como quer que pelas cartas e instrução dos Infantes que levava em todo cumprisse seu officio; porém porque o juizo d'El-Rei por sua não madura edade, e pelas falsas opiniões em que o criavam andava de todo emnevoado, turnou-se aos Infantes sem alguma determinada resposta nem conclusão. Dilatando-a para outra pessoa que El-Rei disse que lhes enviaria, o que se não fez.

Partiu-se o Infante D. Anrique para a villa de Soure, e o Infante D. Pedro para Monte Mór-o-Velho, que são lugares d'onde cada dia se podiam vêr e avisar, e o mais certo e mais são remedio que n'estas alterações o Infante D. Anrique achou para seu irmão, em se d'elle despedindo lh'o leixou e encommendou, que foi sofrimento e paciencia que havia por armas mais seguras para n'este caso elle sempre vencer.

CAPITULO XCIII

_De uma fórma de concordia que El-Rei fez em escripto entre o Infante D. Pedro e o duque de Bragança e d'outras cousas que contra o dito Infante se seguiram_

E para mais acrecentarem cuidado e paixão ao Infante, vieram a elle logo D. Fernando, que por alcunha do povo se chamava Cagonho, e com elle Ruy Galvão, secretario d'El-Rei, pessoas que descubertamente em todo desserviam e desamavam ao Infante, estes trouxeram em escripto com signal e sêllo d'El-Rei uma fórma de concordia e amizade com corados fundamentos de bem, que sem saber nem consentimento do Infante, El-Rei fez entre elle e o duque de Bragança, requerendo estes messegeiros ao Infante que á mão direita do signal d'El-Rei pozesse n'elle seu signal, e tambem seu sêllo. Porque outro tanto era ordenado que o duque havia de fazer da outra banda; porque o d'El-Rei ficasse por marco de paz e segurança d'entre ambos. Mas o Infante pela fórma das palavras, que com pouca honra sua e muito abatimento vinham na concordia, e pela condição dos messegeiros que a traziam, claramente viu que eram tentações que seus imigos ordenavam para mais em breve indinarem El-Rei para sua destruição, e porém sem esperança que a concordia fosse verdadeira, assignou n'ella e a mandou assellar assi como lhe fôra requerido e ordenado. Porque o parecer e crença do conde d'Ourem, que isto inventou, foi que o Infante D. Pedro por sua forte e altiva condição não obedeceria em assignar tal concerto, e que sua desobediencia daria corada causa para El-Rei com mais razão ir sobr'elle e o destruir e castigar como a desleal; porque ao tempo que esta concordia se formava na côrte, se fizeram juntamente cartas de geraes percebimentos de guerra, para todalas cidades e villas e pessoas principaes do reino, salvo para o Infante e para seu filho o Condestabre, com o fundamento que se a isso não satisfizesse de irem logo sobr'elle; mas esta amizade assi como sem vontade de todos nunca entr'elles se guardou.

E porque isto por esta via não succedeu á vontade dos imigos do Infante, tentaram o negocio por outra, em que fizeram que El-Rei enviasse, como enviou ao Infante, Diogo da Silveira, que depois foi escrivão da puridade, o qual sem merecimento algum o reprendeu em nome d'El-Rei de cousas em que o Infante nunca tivera culpa, em especial lhe estranhou muito o açalmamento d'armas e mantimentos que se dizia que contra serviço d'El-Rei em seus castellos fazia, mas o Infante confiando em sua innocencia, depois de verdadeiramente se escusar das outras falsidades que lhe assacavam, mandou alli logo em continente mostrar-lhe todo o castello de Monte Mór, e assi o de Coimbra, que eram os principaes que tinha, em cujo despercebimento claramente viu a informação que se a El-Rei fizera ser em todo falsa e maliciosa.

E porém como Diogo da Silveira tornou á côrte, logo El-Rei ou por não ser por elle verdadeiramente informado, ou por outro algum respeito, tirou ao conde d'Abranches o castello de Lisboa, e a Aires Gomez da Silva o Officio de Regedor da justiça na casa do Civel, e a Luiz d'Azevedo o Officio de Vedor da Fazenda, sómente por serem amigos e servidores do Infante, tendo-lh'os já confirmados por suas cartas. E a D. Pedro seu filho pediu o conde d'Ourem o Officio de Condestabre, dizendo que era d'elle roubado, e lhe pertencia de direito. Mas por não lhe fazerem uma concessão tão fea, sendo seu imigo, El-Rei o deu ao Infante D. Fernando seu irmão.

CAPITULO XCIV

_De como El-Rei enviou requerer ao Infante D. Pedro as suas armas, que tinha em Coimbra_

Após estas que para o Infante eram mortaes perseguições, lhe ordenaram seus imigos outra maior, que foi enviar-lhe El-Rei com muita estreiteza requerer entrega das armas do seu almazem, que o Infante tinha em Coimbra, onde ficaram ao tempo que o Condestabre seu filho volveu de Castella, quando foi em ajuda d'El-Rei D. João contra os Infantes d'Aragão, que tinha em Olmedo cercados, como atrás já fica dito.

E do fundamento d'este requerimento se seguia uma das duas conclusões sem outro meio, ambas ao Infante e a sua honra mui perjudiciaes, cá se obedecendo entregasse as armas, ficava de todo com suas mãos e forças atadas sem alguma sua defensa, e se denegasse a entrega, cairia em caso de rebelião e desobediencia, contra quem a indinação d'El-Rei em tal caso pareceria justa e de mais razão. Mas o Infante a que estes movimentos de seus imigos não ficavam por entender, como quer que com receio d'elles se enviasse algumas vezes, e com muita razão e honestidade escusar, El-Rei não lhe conheceu de suas escusas, antes insistio em seu proposito e cada vez com mais graveza. A que o Infante finalmente respondeu:

«Que as armas em tal tempo não lh'as devia nem podia dar, pois em seu reino e com seus vassallos não tinha d'ellas necessidade, e muito menos com os estranhos, com quem elle tanta paz lhe procurara, pedindo-lhe por mercê pois as armas de sua innocencia, que eram as mais fortes, com a contrariadade de seus imigos ante elle o não defendiam, que estas materiaes e de ferro lhe leixasse por algum tempo para detensão de sua vida e honra, e que não somente d'estas mas d'outras mais, visto seu caso com seus merecimentos lhe devia fazer mercên; porque em seu poder e para seu serviço as teria sempre mais limpas e mais certas que no seu almazem, e que se sua nobreza e real condição começasse de embicar n'elle em tão pequena contia, sendo a outros em outras muito maiores mui liberal, que de duas cousas uma houvesse por bem, ou lhe desse tempo conveniente em que lhe fizesse trazer de fóra outras tantas e melhores, ou mandasse receber o preço d'ellas em dinheiro para o almoxarife de seu almazem mandar comprar e trazer outras á sua vontade.»

Mas El-Rei d'algum d'estes não mostrou ser contente nem satisfeito.

CAPITULO XCV

_Como o conde d'Arrayolos veiu de Ceuta para concordar o Infante com El-Rei, e as causas porque se presumio que estas cousas se damnavam mais_

O conde d'Arrayolos a este tempo depois da morte do conde D. Fernando era capitão e governador da cidade de Ceuta, onde por ser muito amigo do Infante D. Pedro, sendo certificado do engano e malicia que n'estes feitos andavam, desejando o serviço d'El-Rei e doendo-se do Infante, para cuja perdição todalas cousas se inclinavam, se veiu d'Africa á côrte como homem virtuoso e de justa tenção, e como quer que seu pai e seu irmão tivesse por contrairos, começou de entender com muita diligencia na concordia entre El-Rei e o Infante. Mas o duque seu padre, e o conde d'Ourem seu irmão anojados muito de seu proposito, não o podendo d'elle desviar faziam com El-Rei que em muitas cousas o desfavorecesse. Especialmente não o ouvindo as vezes que o conde requeria e desejava.

E vendo elles com tudo que sua bondade não cansava, e que sem embargo das fortes contrariadades que recebia tomava por fundamento trazer á côrte o Infante para que per si mostrasse a limpeza de suas culpas, fizeram novas fingidas, e com côres e signaes que pareciam de certeza, que os mouros vinham poderosamente cercar, ou tinham cercado Ceuta, com que o fizeram volver sem alguma conclusão em Africa, d'onde não retornou, salvo depois da morte do Infante. Porque então leixou livremente a capitania a El-Rei, que a deu ao conde D. Sancho.

E não foi o conde d'Arrayolos só a que esta enganosa quebra d'El-Rei com o Infante parecesse assi mal como era razão. Porque muitos outros bons ás vezes publica, e as mais secretamente, quizeram com El-Rei em sua concordia entender, mas os imigos do Infante punham ao coração d'El-Rei com informações erradas taes defensivos, que a lembrança de seus merecimentos para seu galardão e limpeza nunca na memoria d'El-Rei podesse entrar. Pelo qual o Infante apressado em sua alma d'estes continos padecimentos, suspirando pelo conhecimento da verdade, que havia por mais principal remedio de sua salvação, escreveu a El-Rei por seus confessores, e por outras pessoas religiosas muitas vezes, pedindo-lhe em todas por mercê, com palavras de muita piedade e com grande acatamento e obedencia «que por testemunhos e induzimentos de seus imigos o não quizesse julgar nem tão maltratar, e houvesse por bem arreda-los de seus ouvidos, e assim manda-los sair de sua côrte, como a elle por menos causas fizera; porque sendo fóra, elle não haveria seus mandados e determinações contra si por tão graves nem tão suspeitas como então lhe pareciam, e as cumpriria sem agravo nem escandalo, e lhe obedeceria com muito amor e lealdade, e que lhe lembrasse a grande perfeição e amor em que o criara, e a muita verdade e acatamento com que o sempre servira, e ao pouco que durando seu regimento em sua fazenda e estado tinha acrecentado.» E principalmente por confirmação de sua boa vontade lhe pedia «que não se esquecesse que o casara com sua filha que tanto amava, e não fôra com fundamento e desejo de apagar, mas perpetuar sua vida e real geração.»

E com estas cousas que traziam fundamento de razão e verdade, e por a condição natural d'El-Rei ser inclinada a todo razoado bem, muitas vezes se despunha a lhe pesar dos procedimentos e agravos que contra seu tio fazia, e certo parecia que as cousas de seu damno e abatimento em que consentia eram confrangidamente e sem sua vontade. Porque algumas pessoas dinas de fé e autoridade afirmaram, que uma das causas principaes porque estes feitos entre El-Rei e o Infante mais se damnaram, foi por entrevirem n'elles cartas falsas; porque umas davam a El-Rei em nome do Infante, que o Infante nunca mandara, e outras recebia o Infante com signaes d'El-Rei, em que El-Rei nunca assignara, fazendo os contrairos do Infante poer n'ellas as sustancias com que os corações de uma parte e da outra mais se damnassem.

E por certo presumir-se assi não era sem caso; porque cotejadas as cartas que n'este tempo se acharam escriptas da mão d'El-Rei para o Infante com outras muitas feitas por escrivães que lhe mandavam, bem parecia que as da mão d'El-Rei eram proprias, e de filho para pae, e as dos escrivães muito alheias; porque mostravam ser de Rei imigo para vassallo desleal, e em tanta contradição de cartas de uma só pessoa para outra, e em um tempo e sobre uma mesma sustancia, claro se podia conhecer que aquellas em que parecesse a boa vontade eram proprias e verdadeiras d'El-Rei, e as outras eram acidentaes e postiças, ou o mais certo constrangidas.

CAPITULO XCVI

_De como El-Rei mandou vir o duque de Bragança á sua côrte, e como o Infante D. Pedro determinou que em auto de guerra como vinha não leixaria-o passar for sua terra_

El-Rei se partiu de Cintra no começo d'Outubro de mil e quatrocentos e quarenta e sete para Lisboa, d'onde por suas cartas mandou vir á sua côrte o duque de Bragança, de que o conde d'Ourem seu filho mostrou a El-Rei para seu conselho e serviço grande necessidade, e o aviso secreto que o duque de seu filho houve, foi que viesse mais em auto de guerra que de paz; porque já tinham commovido El-Rei para ir logo sobre o Infante D. Pedro. O qual pelas espias que com todos trazia foi logo certificado dos percebimentos de gentes e armas que o duque para isso fazia, e como fazia fundamento de vir e passar em tal auto, e sem prazer do Infante por suas terras, e sobre o que o Infante n'isso faria, de resistir com força sua passagem, ou a dessimular com paciencia, teve com os seus conselhos, em que houve votos desacordados, e finalmente o Infante seguindo a opinião do conde d'Abranches e d'alguns outros que com a sua conformaram, determinou com armas lhe resistir, mostrando que recebia de Deus muita mercê despoer-lhe assim de uma pessoa a elle tão damnosa, vingança tão bem aparelhada e tanto desejada, pelo qual de Coimbra se foi á sua villa de Penella, d'onde as novas de seu fundamento correram logo á côrte d'El-Rei que era em Santarem, e com todo o desfavor do Infante alguns fidalgos seus amigos e servidores que eram na côrte, sentindo que em tal tempo teria d'elles necessidade, se vieram logo para elle, assim como Aires Gomez da Silva com Fernão Tellez, e João da Silva seus filhos, e Luiz d'Azevedo, e Martim de Tavora, e Gonçalo d'Atayde, e outros muitos de menos condição, e n'este caso Alvaro Gonçalves da Tayde conde da Atouguia e seus filhos, sendo criados e feitura do Infante, pelo não irem servir n'esta jornada, foram como ingratos á sua criação e bemfeitoria geralmente bem reprendidos, especialmente que para sua encuberta usaram de praticas, e fazendo-se manhosamente e por suas astucias prender e impedir, para não irem acompanhar e servir o Infante, fazendo-o já desleal e contrairo ao serviço e obediencia d'El-Rei.

O Infante D. Pedro, porque a este tempo ainda tinha no Infante D. Anrique sobre todos grande esforço e muita confiança, mandou logo a elle que era em Thomar, João Pirez Diogo, seu cavalleiro, e por elle lhe enviou notificar e trazer por extenso á memoria os muitos agravos e desfavores que d'El-Rei por seus imigos tinha recebidos, e como lhe parecia que estas cousas, segundo as via guiadas do odio e viradas contra toda razão e justiça, que apertavam muito para sua destruição, avisando-o mesmo por mais claro argumento d'isso, da maneira em que o duque vinha, e como a seu despeito queria passar por sua terra e com que fundamento, pedindo-lhe que em tanta e tão injusta pressa e angustia como esta em que estava, elle por sua bondade e com seu valor e auctoridade, pois era em sua mão, lhe quizesse valer, afirmando se, porém, «que seu proposito e determinação era impedir por força e sem escusa a passagem do duque, pois vindo em sombra de poderoso e tendo outro caminho por que sem escandalo poderia ir á côrte, determinava vir pela Louzã, que era sua villa, sem lh'o primeiro fazer saber».

E o Infante D. Anrique por então lhe respondeu, «que do que então em seu caso, e em tal tempo melhor lhe parecesse, lh'o enviaria logo dizer». Como enviou uma vez por Fernão Lopes d'Azevedo, Comendador Mór de Christus, e outra por Martim Lourenço, tambem Cavalleiro da Ordem, cuja conclusão foi: «que o Infante D. Pedro não fizesse de si alguma mudança, até elle Infante D. Anrique não ser com elle em pessoa, para que dizia que se aparelhava».

CAPITULO XCVII

_Do recado que o Infante D. Pedro enviou ao duque, sendo já em caminho_

O Infante D. Pedro como era prudente, e por não poer em seu proposito trabalhos escusados, e não fazer despezas baldadas e não necessarias, antes de o duque passar o Mondego, para saber a tenção com que vinha, enviou a elle primeiro Vasco de Sousa, fidalgo de sua casa, e por virtude de uma carta de crença que levava, em presença dos que com elle vinham publicamente lhe disse: