Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)
Part 1
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BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES
PROPRIETARIO E FUNDADOR
_MELLO D'AZEVEDO_
Bibliotheca de Classicos Portuguezes
Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo
CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO V
POR
_Ruy de Pina_
VOL. II
_ESCRIPTORIO_ 147--Rua dos Retrozeiros--147 LISBOA
1902
CAPITULO LXXX
_D'outra embaixada que ao Regente veiu d'El-Rei e do povo de Castella, sobre as mesmas cousas da Rainha, e da resposta que houveram, e como se entendeu em alguma concordia e contentamento da Rainha_
E o Infante D. Pedro se foi com El-Rei á cidada do Porto, onde tornaram a elle sobre o mesmo caso da Rainha quatro embaixadores, dois em nome d'El-Rei de Castella, e dois em nome do seu povo; porque a Rainha D. Lianor, quando viu os primeiros embaixadores tornar com resposta á sua esperança e desejo tão contraira, começou claramente de conhecer os enganos em que caira, e lastimando-se d'isso aos Infantes seus irmãos, elles por em alguma maneira cumprirem com ella, fizeram com El-Rei que os procurados dos povos de seus reinos em côrtes ouvissem, como ouviram suas querellas e agravos contra o Regente, e com tal graveza se propozeram, que foi accordado enviar-se já por final aquella embaixada, em nome d'El-Rei e do povo com temerosas protestações, dizendo que quando aos requerimentos d'ella não se satisfizesse, poderiam então mover guerra, sem parecer que por sua parte as pazes se quebrantavam. Sobre a qual o Regente teve conselho, e enviou avisos aos Infantes e pessoas principaes do reino, e foi determinado que o Infante não desse determinada resposta aos embaixadores, e que por dilatar a remettesse, á que El-Rei seu Senhor enviaria, para que offereceria a El-Rei de Castella todo o que por contemplação sua e de seu povo á Rainha n'estes reinos se devia e podia fazer.
E com isto despediu os embaixadores, e se foi com El-Rei á villa de Tentuguel, que é no Campo Mondego. Onde accordou de enviar, como enviou por embaixadores a Castella, como ficara, a Lionel de Lima, que depois foi primeiro bisconde de Villa Nova de Caminha, e o doutor Ruy Gomes d'Alvarenga. Os quaes bem instructos e avisados do que haviam de dizer, se foram a El-Rei de Castella, com quem falaram em apartado as cousas de sua embaixada, em que sustancialmente concludiram que a Rainha por muitas causas, razões e impedimentos que apontaram, não devia vir a estes reinos, nem menos ter a governança d'elles, nem a criação d'El-Rei e seu irmão que requeria, e que o reino todo havia por tamanho inconviniente para o bem e assessego d'elle, que para o não consentir se despoeriam ante a todo trabalho e perigo; mas ainda que por direito não houvesse para isso obrigação, que por ser madre d'El-Rei seu Senhor, e por elle Rei o requerer, lhe dariam onde ella quizesse fóra de Portugal, seu dote e arras, e todas as cousas suas que n'este reino se achassem, que não fossem da Corôa, e mais dez mil dobras d'ouro para satisfação dos que a serviram. E com isto outras muitas razões, com exemplos de merecimentos passados, porque El-Rei devia amar muito mais El-Rei seu Senhor e ao Regente, que a Rainha D. Lianor nem a seus irmãos.
El-Rei de Castella depois de os ouvir, ante de lhe responder teve com os grandes do seu reino sobr'isso conselho, em que eram os Infantes d'Aragão e a Rainha, onde para a paz e para guerra houve votos e sentenças contrairas; e finalmente o conde de Faram, e um Bispo da Avila que eram presentes, com fundamentos e razões mui justas concludiram que por este negocio da Rainha, ainda que fosse irmã, nem filha d'El-Rei, que pelas pazes que com Portugal tinha feitas e juradas, não lhe podia nem devia fazer guerra, e que a mór ajuda que á Rainha podiam dar, assi era de rogos sómente; com os quaes dois senhores muitos outros se foram. E o conde de Faram aderençou sua falla para a Rainha, e lhe disse:
«Senhora, bem creiu em caso que o voto que dei seja contrairo a vosso desejo que não leixará vossa mercê de crêr que eu amo muito vosso serviço, e dos Senhores Infantes vossos irmãos, por cuja honra e estado eu trabalhei e padeci o que elles sabem, cá por isso o dei e o disse, e por isso vos quero bem conselhar. Soes primeiramente muito enganada em procurardes entrar em Portugal por guerra, e contra vontade do Regente e dos Infantes seus irmãos; pois sabeis que todo o reino por natureza os ama, e por obrigação e vontade os hão-de servir, e das mostranças que alguns lá fizeram de vos recolher e servir, já deveis de ser desenganada, e a concordia do conde de Barcellos e do Marechal com o Infante D. Pedro vos é para isso claro exemplo, e que vos pareça que a necessidade do tempo lh'o fez assi fazer, ainda não creaes, vendo elles as cousas revoltas que não sostenham a parte de seu Rei natural antes que a do estranho, e mais eu não sei que segurança tereis do amor do povo que guerreardes por fogo e sangue, que tal caso se não pode escusar, antes para vossa vida conseguireis odio, desamor e perigo, que por todas razões não deveis querer; não fallo já no grande trabalho e muita perda que estes reinos de Castella receberam com esperança de tão duvidosa victoria. Aquelle reino não é pequeno, e é mui forte e de gente leal e mui esforçada, e será mui máo de sogigar por força. E para melhor verdes esta impossibilidade, sabeis bem que um cavalleiro de duas fortalezas tem n'estes reinos coração de se levantar contra a obediencia e serviço d'El-Rei nosso Senhor; e quero dizer se o devo dizer, que não é poderoso de o cercar nem tomar, quanto mais que os Infantes vossos irmãos que aqui estão, de necessidade conviria terem n'estes reinos outra gente d'armas, e não pouca contra o Condestabre e o Mestre d'Alcantara seus imigos, e que seria impossivel ou com abatimento de suas honras e estados se sogigarem a elles, que seria grande vituperio em sangue real, que Deus nunca consinta, cá não haveis de duvidar que estes dois homens pela grande imizade que comvosco e com elles tem e pelas boas obras que do Regente em suas necessidades e affrontas tem recebidas, o hão sempre de servir e ajudar, por mais enfraquentar vosso poder, cá de todo são desconfiados de vossa concordia, e fazendo ainda esta empreza tão leve, que sem muita pena cobrassemos o reino de Portugal, não creaes que o dessemos a El-Rei vosso filho, nem a vós o Regimento d'elle; porque para cobrar novos reinos não ha fé nem verdade, cá é aos mortaes cobiça sobre todas, e sobre tudo com reverença e acatamento d'El-Rei nosso Senhor que aqui está, vos digo que sua Senhoria tem com gram razão grande amor ao Regente. E crêde que por só importunação de que por vós e vossos irmãos foi vencido, tem feito contra elle o que fez, n'estas embaixadas que enviou, cá não ha por sua vontade de proseguir cousa que em sua honra e estado muito desfaça, pelo qual Senhora, meu conselho é que pelo que a vosso habito, consciencia, e assessego pertence, acceiteis qualquer razoado partido que de Portugal vos fizerem, cá do contrairo sede certa, que cada vez recebereis mais dano, e mór paixão.
Este desengano do conde de Faram foi muito louvado, e muitos do conselho o seguiram, e El-Rei o approvou, pelo qual por parte da Rainha logo se apontaram alguns meios, em que para ella requereram uma grande somma de dobrões. E para alguns seus, casamentos assignados, e para outros satisfações de dinheiro, pago em certo modo e tempo, com outras cousas que tambem requereram, segundo que por escripto o apontaram, e com estes meios vieram os embaixadores a Portugal, com fundamento de logo tornarem com a concordia; e porque o Regente sem todo o reino e principaes d'elle não quiz n'elles tomar certo assento, seguiu-se no ajuntamento para isso tanta dilação, que n'estes reinos, e nos de Castella principalmente sobrevieram em tanto cousas de taes afrontas e necessidades, que as da Rainha ficaram de todo por acabar, até que com ellas acabou também sua vida, como se dirá.
CAPITULO LXXXI
_De como o Infante D. João falleceu, e que filhos d'elle ficaram_
No fim do mez de Outubro d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e dois, o Infante D. João em a villa d'Alcacere do Sal acabou sua vida de febre, d'onde levaram seu corpo ao mosteiro da Batalha, onde tem sua sepultura, dentro da capella d'El-Rei D. João seu padre, e foi sua morte com dôr e tristeza de muitos muito sentida; porque era Principe de grande casa, e em que havia muitas bondades e virtudes sem algum vicio que as minguassem, em especial era muito amigo do bem commum d'estes reinos, que por elle mostraram claros signaes da perda que n'elle perderam.
E o que de sua morte e privação mostrou sobre todos ser mais triste e anojado, foi o Infante D. Pedro que era em Coimbra, onde como soube de seu fallecimento, cahiu de verdadeiro nojo em cama á morte, não havendo em sua enfermidade outra causa, e não era sem razão; porque eram irmãos que sem cautella e mui verdadeiramenta se amaram, e foram sempre em todo mui conformes, e o amor que o Infante D. Pedro lhe tinha não ficou sem experiencia de ser mui conhecido; porque não sómente na vida, mas depois da morte muito mais claro em todas suas cousas lh'o mostrou; porque do Infante D. João ficaram tres filhas e um filho. O filho houve nome D. Diogo, a que o Regente logo em nome d'El-Rei fez Condestabre, e deu o Mestrado de Santiago com todalas rendas e cousas que o Infante seu padre tinha, e falleceu logo muito moço, e a filha maior a que chamavam D. Isabel, que de virtudes da alma e perfeições do corpo foi em todo cumprida, casou com El-Rei D. João de Castella, que sendo elle de edade de quarenta annos a houve por segunda sua mulher, de que nasceu real geração e sobre todas mui excellente. E a segunda filha do Infante D. João houve nome D. Breatiz, esta casou o Infante D. Pedro com o Infante D. Fernando, irmão d'El-Rei D. Affonso, de que houveram por filhos, a sobre todas mui virtuosa a Rainha D. Lianor, mulher que foi d'El-Rei D. João o segundo d'estes reinos de Portugal, e El-Rei D. Manoel nosso Senhor, que por fallecimento d'outro legitimo herdeiro, directa e ligitimamente os sobcedeu. E a terceira filha do Infante D. João se chamou D. Filippa, que sem casar, casando e fazendo muito bem a seus criados e criadas, acabou virtuosamente sua vida.
N'este anno estando o Regente com El-Rei na cidade d'Evora, falleceu sem herdeiros um D. Duarte, que foi senhor de Bragança, e tinha o castello d'Outeiro de Miranda; veiu logo á côrte o conde de Barcellos, e pediu este senhorio e castello ao Regente, o qual se escusou d'elle por o ter já promettido ao conde d'Ourem seu filho, que no requerimento se antecipara primeiro, e porém logo entre o pae e o filho houve n'isso tal concordia, que o conde d'Ourem por ser filho maior esperando todo sobceder, juntamente desistiu da promessa e por prazer do Regente a passou ao conde de Barcellos, que logo pelo dito Infante D. Pedro foi feito e intitulado duque de Bragança. Mas não se seguiu assi, porque o filho que era moço, falleceu primeiro que o pae que era já mui velho, como se dirá.
CAPITULO LXXXII
_De como falleceu o filho do Infante D. João que era Condestabre, e como o filho maior do Infante D. Pedro foi d'aquella dinidade provido, que foi causa e fundamento da morte do dito Infante D. Pedro_
E no começo do anno seguinte de mil e quatrocentos e quarenta e tres, falleceu de febre continua D. Diogo, filho do Infante D. João, cuja herança e casa passou logo a D. Isabel sua irmã maior, e depois porque casou com El-Rei de Castella, passou por contrato á filha segunda D. Briatiz, casada com o Infante D. Fernando, como disse.
E o Infante D. Pedro, porque do Infante D. João não ficara outro herdeiro barão, fez com El-Rei que proveu logo do Oficio de Condestabre a D. Pedro seu filho maior, e o conde d'Ourem fundando-se em razões que não provou, enviou pedir a mesma denidade ao Infante D. Pedro seu tio, dizendo-lhe, «que o seu avô o conde Nuno Alvares Pereira houvera este Oficio, para si e para todolos que d'elle decendessem. E que por quanto d'elle não ficara filho barão que o herdasse o houvera o Infante D. João, não como filho de Rei, mas como quem casou com sua neta, e que como quer que a elle conde d'Ourem mais que a outrem de razão pertencesse, por ser neto barão e maior do Condestabre; porém que o leixara então de requerer, porque para se haver não fizera diferença entre o Infante D. João e si mesmo; mas agora que por sobcessão de barão ficava distinto, e a elle pertencia como a principal ramo que do tronco do Condestabre ficava, lhe pedia que o provesse d'elle».
E o Regente lhe respondeu «que El-Rei seu Senhor tinha já d'elle feito mercê a D. Pedro seu filho, para quem elle o pedira, para em algum cargo de honra ter mais razão de o servir; porém que se hi houvesse doação ou cousa assi autentica por que parecesse este Oficio de direito lhe pertencer, que lh'a mandasse mostrar e que por alguma maneira lh'o não tiraria. Alegando-lhe mais para sua satisfação e contentamento a mercê de Bragança e de Castello d'Outeiro, que poucos dias havia que recebera, ainda que de sua vontade a trespassara em seu padre, o que elle assi consentira por ter razão de o mais cedo fazer duque depois da morte de seu padre, que por curso de natureza, segundo sua muita edade não podia já muito tardar, e que por hi elle ficaria duque, e tres vezes conde com outros senhorios e terras, de que para a estreiteza de Portugal se devia haver por muito acrecentado, honrado e contente. E que portanto lhe rogava, que por amor d'elle não se descontentasse em seu filho haver este Officio, em que bem cabia por muitos respeitos, e isto porém fosse quando não houvesse tal firmeza, porque de direito lhe pertencesse; porque se a houvesse fosse certo que seu filho lh'o leixaria».
E em fim o conde d'Ourem não mostrou o que por ventura não tinha; porém tamanho descontentamento e agravo mostrou que do Infante por isso recebia, que nunca depois quiz vir á sua casa, e menos á côrte d'El-Rei emquanto elle regeu, e este odio do conde d'Ourem foi a causa principal da morte e destruição do Infante D. Pedro, como se dirá.
CAPITULO LXXXIII
_De como foi a morte do Infante D. Fernando que era captivo em Fez_
E n'este anno outrosi de mil e quatrocentos e quarenta e tres, veiu certidão da morte do Infante D. Fernando, que era posto por arefens em Fez, e segundo o testemunho que de sua vida e morte deram os christãos que com elle ficaram, homens fidalgos e pessoas de muito credito, certo de crêr é piadosamente que morreu santamente, e com esperança de ser santo e bem aventurado. E porque Deus por sua piadade e em galardão de seus merecimentos, segundo fé de muitos fez evidentes milagres, e a morte antecipou os naturaes dias de sua vida com a aspereza do trato e máo captiveiro que padeceu por mandado de Lazarac Marym, crú e máo tirano de Fez, que por ser vil e de nenhum sangue real, com muita sede e grande fome o fazia servir em oficios baixos e vis, e com tal estreiteza, que em uma masmorra e prisão mui escura acabou n'este mundo a vida, para nosso Senhor lhe dar no outro outra melhor e mais viva, que em sua gloria durará para sempre.
A morte d'este Infante por sua calidade e desamparo foi muito sentida e pranteada n'este reino, e principalmente dos Infantes seus irmãos, que lhe mandaram fazer mui honradas e solemnes exequias e saimento, e seu corpo metido em um ataude, esteve muitos tempos pendurado por cadêas sobre uma porta da cidade de Fez, e depois por convenção que se fez, foram seus ossos trazidos a estes reinos em tempo d'este Rei D. Affonso, no anno de mil quatrocentos e LXXIII, e depois da tomada de Arzilla; os quaes de Lisboa foram levados com grande honra e solemnidade ao mosteiro da Batalha, em que tem sua sepultura especial e honrada na capella d'El-Rei D. João seu padre. Onde por signal que acabou como catholico e mui fiel christão, ha grande credito que nosso Senhor fez, e faz por elle muitos milagres.
Por morte d'este Infante D. Fernando ficou vago o Mestrado d'Avis, de cuja governança e administração, D. Pedro, filho do Regente, foi a suplicação d'El-Rei por auctoridade Apostolica provido.
CAPITULO LXXXIV
_De como foi a morte da Rainha D. Lianor em Toledo, estando já para se tornar a Portugal_
No anno de mil e quatrocentos e quarenta e quatro, vendo-se El-Rei de Castella em poder dos Infantes d'Aragão seus cunhados, roubado da liberdade e senhorio que a sua dinidade real pertencia, tinha a elles grande odio e desamor, e para se em alguma maneira d'elles isentar, ordenou por conselhos e modos do Condestabre D. Alvaro de Luna de mandar como mandou por visorei á comarca de Andaluzia ao Infante D. Anrique, provendo-o para isso de poderes fingidos com fundamentos falsos, dando-lhe a entender que assi cumpria para sua mais honra e mór segurança, onde por engenho do dito Condestabre e mestres de Alcantara e Calatrava seus contrairos, e com gente de Sevilha e outra muita que o Infante D. Pedro d'estes reinos lá mandou, foi em todo desobedecido, e em desbaratos que houve mui mal tratado, e d'esta vez se tomou Carmona, e em tanto se conformou o Condestabre com outros grandes senhores d'aquelle reino que para isso se ajuntaram por força d'armas, e tiraram El-Rei do poder e sobgeição d'El-Rei de Navarra, que segundo o que se via não o tratava, nem acatava como a rei superior se devia.
E d'estas voltas de fortuna que a Rainha D. Lianor viu padecer aos Infantes seus irmãos, foi da esperança que n'elles tinha desesperada de todo, e vendo-se já mal olhada d'El-Rei e da Rainha sua irmã, e com pouca sua ajuda, foi-se da côrte para a cidade de Toledo, d'onde constrangida já de grandes minguas que a apertavam, soltou quasi toda a gente que tinha, encommendando os filhamentos e vivendas de seus criados a aquelles senhores de Castella com que cada um mostrava ter mais contentamento de viver.
Alli veiu a Rainha a tanta necessidade e pobreza, que para seu suportamento lhe conveiu receber ajudas em pão e dinheiro d'alguns Prelados e donas viuvas d'aquelle reino, em especial de uma D. Maria da Silva de Toledo, senhora de nobre sangue e muita fazenda. E n'este reino e em Ceuta sendo de suas necessidades sabedor D. Fernando de Noronha, primeiro conde de Villa Real, e segundo capitão da dita cidade; porque era de real sangue e mui nobre coração; principalmente porque El-Rei D. Duarte o criara e acrecentara com muito amor, e asi por elle ter com a Rainha divido mui conjuncto, a mandou visitar e ajudar com uma boa somma d'ouro amoedado, de que por sua nobreza e bom conhecimento foi de todos cá e lá mui louvado. Pelo qual a Rainha sentindo-se já envergonhada de requerer, e cansada de esperar, vendo os caminhos e remedios de sua esperança, com as mudanças de seus irmãos de todo cerrados, houve-se de todo por mal aventurada, e sobretudo por enganos mal aconselhada, e suspirando já por Portugal, ao menos para lhe sua terra comer o corpo, fallou com Mossem Gabriel de Lourenço, seu capellão mór, e com suas crenças, instrucção e poder, o enviou a Albuquerque, d'onde por meio do conde d'Arrayollos tratasse alguma concordia com o Infante D. Pedro, ao qual Infante a Rainha com palavras e cousas assaz piadosas, enviava já pedir, ao mais consentimento e lugar para vir a estes reinos, e n'elles morrer, não como Rainha, mas como sua irmã menor que se queria poer em suas mãos, de que se contentaria receber o que elle quizesse, e lhe parecesse razão.
O conde d'Arroyollos, como era homem virtuoso e de justa tenção, acceitou com boa vontade o negocio, e o Regente a que o dito conde por Vasco Gil, seu secretario, o notificou, o ouviu e recebeu com muito melhor mostrança, e andando já em apontamentos com esperança de bôa conclusão, chegou recado certo ao Regente, como a Rainha D. Lianor fallecera na mesma cidade de Toledo, sexta-feira XIX dias de Fevereiro de mil quatrocentos e quarenta e cinco.
Foi sua morte arrebatada, sem ter uma hora de accordo para o que á sua alma e á sua fazenda cumpria, em que houve violenta presumpção que fôra de peçonha; porque em lhe lançando uma ajuda, que por ser um pouco achacada requerera, logo sem entrevalo nem repouso deu alma a Deus. E a opinião dos mais foi que esta morte lhe ordenara, não o Infante D. Pedro, como muitos maliciosos quizeram falsamente dizer, mas o Condestabre D. Alvaro de Luna, por meio de uma mulher da villa de Ilhescas, que em casa da Rainha tinha grande entrada e muita familiaridade. Receoso que, se a Rainha vivesse, estando em a cidade de Toledo, ordenaria como o Infante D. Anrique seu irmão, tornasse a ella, de que fôra já lançado. Porque foi avisado que ella o procurava e concertava já com Pero Lopez d'Ayala, que na cidade era alcayde mór, e cavalleiro mais principal, crendo que se o Infante fosse senhor de tal cidade, o Condestabre o havia por cousa muito contraira a seu desejo e proposito, que era destrui lo e desterra-lo do reino com seus irmãos, e por argumento d'isto, outro tanto se presumio do mesmo Condestabre, que ordenara á Rainha D. Maria, mulher d'El-Rei D. João, que após sua irmã não durou com vida mais de XV dias.
E esta Rainha D. Maria jaz sepultada na capella mór do mosteiro d'Aguadallupe.
O Regente como soubesse do fallecimento da Rainha, enviou logo pela Infante D. Joana, que ficara e estava em Toledo em grande desamparo, e a foi ao extremo receber, e trouxe mui honradamente para Lisboa, onde a poz em companhia da Infante D. Catharina sua irmã, em poder de Violante Nogueira, e tomou para El-Rei todolos criados que ficaram da Rainha, tirando alguns em que tinha suspeita e descontentamento.
CAPITULO LXXXV
_Como o Condestabre filho do Infante D. Pedro foi enviado a Castella com gentes d'armas, em ajuda de El-Rei de Castella contra os Infantes d'Aragão, e do que se passou até tornar_
Pela morte d'estas duas Rainhas o partido dos Infantes d'Aragão ficou em Castella mui fraco e abatido, e o Condestabre porque viu tempo que lh'o assi aconselhava, ordenou de os fazer lançar e desterrar fóra do reino, e acabou com El-Rei que escreveu ao Regente com as razões e causas com que sentio que o mais obrigaria, pedindo-lhe para isso ajuda de gente d'armas por seu messegeiro, o qual Infante teve sobre o caso bom conselho em Tentuguel, onde elle foi de sua vontade movido para ir em pessoa; e porque foi em contrairo aconselhado, determinou-se que enviasse o senhor D. Pedro seu filho que era Condestabre, em edade de XV annos, e a mais formosa nem melhor proporcionada creatura que se podia vêr de seu tempo, ao qual foram ordenados dois mil homens de cavallo, e quatro mil de pé, e com elle estes fidalgos principaes: D. Alvaro de Castro que depois foi conde de Monsanto, e Lopo d'Almeida que depois foi conde d'Abrantes, e D. Duarte de Menezes que depois foi conde de Viana, e Diogo Soarez d'Albergaria, e Fernão Coutinho, e João de Gouvêa, e outros muitos fidalgos e cavalleiros da côrte, em que ia a frol d'ella.