Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)
Chapter 9
E com quanto a Rainha no cuidado d'estes cuidados temporaes, tinha para este mundo ass·s que entender; porÈm porque era Senhora muito devota e de mui religiosa vida, n„o se partiam de sua alma para o outro outros espirituaes, que a fizeram mandar ao mosteiro de Bemfica da Ordem de S. Domingos, por um Frei Jo„o de Moura, seu confessor, padre de grandes dias e doutrina, e assi de mui santa vida, para com elle em confiss„o consultar esta secreta mudanÁa. E depois d'ella lhe dizer com largas palavras sua determinaÁ„o, elle lh'a contrariou com outras mais de tanta verdade e prudencia, que pareceu dizer-lh'as como por espirito divino.
E certo assi foi, porque ella em seu desterro, desamparo e desaventuras, que pelo n„o crÍr depois padeceu, sentiu bem que o padre a aconselhava mais que homem, e como de mandado de Deus, e d'isso ella ao diante se acusava muitas vezes.
E como quer que Frei Jo„o n„o pÙde em sua presenÁa afrouxar a tenÁ„o da Rainha, porÈm porque ella era de bom siso e mui s„o proposito, fizeram depois suas palavras no coraÁ„o d'ella tamanha casa, que assentava j· em sua vontade n„o se partir, pesando-lhe muito da palavra que dera aos filhos do Priol. Os quaes a noite de bespora de todolos Santos que tinham posto, foram com suas gentes acerca de Almeirim, e por n„o serem sentidos leixaram toda a gente ao Paul da Atella, e elles ambos, cada um com seu escudeiro e seu page, chegaram aos paÁos j· de noite, com cuja chegada e vista a Rainha recebeu muita e descuberta tristeza, e lh'a confessou logo. Do que elles ficaram mui torvados, porque a conheceram j· mudada de todo, e sobre isso houveram entre si muitos debates, em que a Rainha finalmente foi dos agravos d'elles vencida, e quiz contra sua vontade satisfazer ao que tinha prometido.
E d'este segredo era em sua casa sÛmente sabedor Diogo GonÁalves Lobo, seu vedor, que com muita triganÁa deu aviamento a todo o que cumpria para sua partida.
A Rainha depois de concertar com elles o feito como seria, ·s nove horas da noite se tornou com grande assessego e dessimulaÁ„o a seu estrado, e hi deu boas noites sem algum alvoroÁo, e ·s dez horas se sahiu por uma porta secreta contra a coutada, e com ella a Infante D. Joanna, de mama, e sua ama que a criava, e Diogo GonÁalves, e Jo„o Vaz Marreca, seu escriv„o da puridade, e Maria Dias sua covilheira, e Briatyz Corelho, donzela Aragoesa. E estas pessoas a acompanharam atÈ o Paul, onde ficara a gente, com que logo seguiram seu caminho, e n„o muito depressa por lhes n„o aturarem as bestas em que iam, e ao outro dia ·s dez horas chegaram sem decer · Ponte do Sor. E hi comeram e repousaram um pouco. E em anoitecendo foram no Crato, onde o Priol j· a estava esperando, e a recebeu com grande alegria, dando-lhe as chaves de todas as fortalezas, com razıes de grande humildade e muita obediencia. E ella o agasalhou com palavras e mostranÁas de grande aguardecimento, e bem conformes a sua necessidade.
CAPITULO LXV
_Do que fizeram os da Rainha, depois que souberam de sua partida_
A gente da Rainha que ficou em Almeirim, como passou meia noite sentiram grande rumor pelo lugar, e ainda com claras vozes dobradas sem certo autor, que diziam.
´Fugir, fugir do Infante D. Pedro, que vos vem prenderª.
De que cada um n„o guardando a certa ordem em suas vestiduras, com grande pressa se soccorriam · Rainha como a casa da vida. E como o pranto de suas criadas e creados lhes davam certid„o de sua partida e ausencia, assi cada um desamparado de siso e d'accordo, se iam chorando e mal dizendo a suas vidas por essas charnecas.
E como foi de dia, os que foram certos do caminho que a Rainha levava e poderam, a seguiram. E entre os mais principaes foram D. Affonso, senhor de Cascaes, j· velho, e sua mulher D. Maria de Vasconcellos, e D. Fernando seu filho. Como quer que D. Affonso forÁado da mulher e do filho se partiu; porque abraÁando-se com a terra, e com muitas lagrimas dizia:
´Leixai-me comer a esta terra que me criou, e a que n„o fui nem sou tredor. N„o me desterreis este corpo sem culpa, nem lhe deis sepultura em terras alheiasª.
Mas em fim o levaram.
CAPITULO LXVI
_De como o Regente foi avisado da secreta partida da Rainha, e do que logo sobr'isso se fez_
E o Regente pouco mais de meia noite foi avisado da partida da Rainha sumariamente, por Gil Pirez de Resende, contador de Santarem, sem lhe saber dizer o caminho que fizera, nem se levara consigo as Infantes, e a poucas horas tornou o Infante a ser certificado do caminho da Rainha, e como levava consigo a Infante D. Joana, e leixava doente a Infante D. Lianor, que depois foi Imperatriz, e d'esta mudanÁa mostrou o Regente grande tristeza e sentimento, ainda que alguns diziam que era fingida; e porÈm mandou logo a Martim Affonso de Miranda com notairos, a escrever e segurar todo o que se achasse em Almeirim. E o que se conhecesse por da Rainha, que era j· sÛmente roupa de camas e pannos, mandou entregar aos officiaes d'El-Rei, e as outras cousas dos seus se entregaram por recadaÁ„o a um Martim d'Almeida, cavalleiro de Santarem. E foi logo a Almeirim pela Infante D. Lianor, que entregou a D. Guiomar de Castro, que foi sua aia atÈ o tempo que d'estes reinos partiu para Allemanha.
E assi mandou logo o Regente em nome d'El-Rei caminho do Crato Diogo Fernandes d'Almeida, que era vÈdor da fazenda, pedindo · Rainha, sua madre com mui brandas razıes e mui fortes seguranÁas que se tornasse, e que elle e os Infantes iriam por ella, e se o n„o quizesse fazer que ao menos entregasse a Infante D. Joana. E que se isto tudo denegasse, que presentes notairos que consigo levava lhe fizesse em nome d'El-Rei protestaÁıes a n„o ser obrigado elle, nem o reino dar-lhe dote nem arras, nem outra cousa alguma.
Diogo Fernandes aceitou a embaixada; mas segundo o que d'elle se suspeitou, elle a n„o cumpriu como devera; porque chegou sÛmente a Alter do Ch„o, uma lÈgua do Crato, e d'alli se tornou para Santarem, sem obrar nada do que lhe mand·ram; dando por raz„o que alli fÙra por maneira informado da tenÁ„o da Rainha para n„o fazer nada do que lhe ia requerer, que houvera por escusado ir mais adiante; mas a geral opini„o foi que por ser casado com uma filha do Priol do Crato, elle era sabedor de todolos movimento passados, e que folgou de n„o fazer por si cousa em que a Rainha recebesse nojo nem desserviÁo contra seu sogro.
O Regente avisou logo d'este caso os Infantes seus irm„os, e assi os grandes, e cidades e villas principaes do reino, requerendo-os e percebendo-os com seus corpos e armas, para serviÁo d'El-Rei e defens„o do reino, crendo que a Rainha n„o faria de si tal movimento sem muito esforÁo e atrevimento de Portugal e de Castella.
E no provimento d'estas cartas e avisos, poz o Regente tanta diligencia, que em dia de todolos Santos ante das missas foram todas feitas e enviadas, e assi uma sua e de sua m„o · Rainha, que n„o aproveitou, em que lhe pediu muito por mercÍ que se tornasse, prometendo-lhe que com sua tornada elle faria quanto ella mandasse.
Os embaixadores de Castella eram ainda a este tempo em Santarem como disse; de que o Regente por seu descargo e limpeza houve prazer; porque sabia que a elles era mui claro quanto elle procurava por seu assessego d'ella, e os mandou logo chamar, e em saindo para a missa lhes fez com muita autoridade uma falla de sua desculpa acerca da partida da Rainha, rogando-lhes que pois se fÙra t„o sem conselho e tanto contra o que cumpria a seu estado, e sem licenÁa d'El-Rei seu filho, fizessem com ella que ante de sair do reino se tornasse · cÙrte, com grandes prometimentos de elle em seus feitos fazer tudo o em que ella recebesse contentamento, prazer e serviÁo: e d'isto para seu resguardo pediu estromentos.
N'este dia e nos outros logo seguintes, trouxeram ao Regente presos muitos dos que d'Almeirim se iam para a Rainha, e os que achava serem seus moradores, logo os mandava todos soltar com liberdade e licenÁa segura de a irem servir se quizessem, salvo um Jo„o Paez Cantor, e Diogo de Pedrosa, que eram casados com criadas da Rainha, aos quaes por haver n'elles alguma sospeita, que estando o Regente nos paÁos de Santarem tratavam de o matarem · bÈsta, foi dado tormento d'aÁoutes nos pÈs, e por n„o confessarem culpa que os obrigasse a outra maior pena, os mandou soltar.
O Regente por segurar as comarcas do reino em que tinha alguma suspeita, encomendou a da Beira ao Infante D. Anrique, e a d'entre Tejo e Odiana ao Infante D. Jo„o. E mandou · cidade do Porto Ayres Gomez da Silva, para com a cidade fazer defensa e resistencia a quaesquer rebates que n'aquella comarca sobreviessem. E assim mandou que aos do Crato n„o fosse em todo o reino dado mantimento, mais do que cumprisse · Rainha, e a vinte pessoas que a servissem, de que se ella muito aggravou.
CAPITULO LXVII
_Do que a Rainha fez depois de ser no Crato_
A Rainha como foi no Crato, logo d'hi enviou por todo o reino cartas, que j· d'Almeirim levava feitas, em que sustancialmente se escusava de sua mudanÁa, e acusava por ella o Regente e suas asperezas, encomendando e requerendo a todos com sombras d'ameaÁas de guerras e males do reino, que lhe tornassem o Regimento e o tirassem ao Infante, contra quem apontava cousas em que parecia n„o reger como devia. E porque o reino todo, especialmente o povo, eram inclinados · parte do Infante, foram os que receberam suas cartas t„o indinados contra a Rainha, e tratavam t„o mal os primeiros messegeiros d'ellas, que os segundos temendo taes escarmentos, haviam por melhor escondel-as e n„o apresental-as.
E o Infante D. Pedro d'estas cartas da Rainha que viu, houve muito nojo, e mostrou grande sentimento; porque infamavam em alguns passos sua conciencia e autoridade, e por modo de desculpa e limpeza sua, escreveu a Lisboa como a cabeÁa do reino, as forÁas de suas culpas que se n'ellas continham. Escusando-se de cada uma particularmente, com a verdade de sua innocencia.
CAPITULO LXVIII
_Como falleciam os mantimentos · Rainha e ao Priol do Crato_
E o Priol do Crato n„o se proveu de tantos mantimentos como lhe eram para tal caso necessarios, enganado nas esperanÁas do conde de Barcellos, e dos outros fidalgos da Beira, que prometeram tanto que a Rainha fosse em suas terras, que elles em pessoa com gentes e provimentos em abastanÁa, seriam logo com ella, ao que nenhum d'elles quiz nem pÙde satisfazer, como quer que para isso fossem da Rainha e do Priol mui afincadamente requeridos, e por este caso os mantimentos recolhidos lhes comeÁaram de fallecer, especialmente carnes e pescados, e para os haver, pela estreita guarda e defesa que para isso havia n„o tinha j· esperanÁa nem remedio. Pelo qual conveiu · Rainha com palavras assaz piedozas pedir ao Infante D. Jo„o, que estava em Extremoz, que alevantasse a defesa e lhe leixasse ir mantimentos dos logares de redor. Mas o Infante escusando-se de o fazer lhe respondeu acusando com muita graveza e temperanÁa seu movimento. Em especial de poer sua honra, seu estado, e sua honestidade em poder do Priol e de seus filhos, que n„o tinham no reino fama de muito honestos, pedindo-lhe em fim que para escusar semelhantes necessidades e outras maiores, se quizesse tornar, do que ella n„o curou.
CAPITULO LXIX
_De uma embaixada d'El-Rei d'Arag„o e de Napoles que veiu ao Infante D. Pedro sobre os feitos da Rainha_
Estando a Rainha no Crato, chegou a Santarem ao Infante D. Pedro com embaixada d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Arag„o e de Napoles, sobre cousas da Rainha sua irm„, um Bispo de Segorve, pessoa em que havia muita doutrina e grande auctoridade. E apontou alguns meios de concordia entre ambos, o que o Regente por conselho que sobre isso teve, respondeu:
´Que para se tomar n'elles conclus„o boa e honesta, como esperava em Deus que tomaria, era necessario a Rainha ser presente, ou ao menos em algum logar de suas terras, com tal repouso e assessego que n„o parecesse fugida. E para isso que elle antes de tudo se fosse · Rainha, e como com ella em cada uma d'estas maneiras acabasse sua tornada, se tornasse a elle. E que sobre isso se ajuntariam com elle os Infantes seus irm„os, e os do conselho d'El-Rei nosso Senhor. E praticariam ·cÍrca dos meios apontados, e se concordariam por seu meio no que mais honesto e de raz„o parecesse. E que se a Rainha n„o quizesse tornar, que elle d'hi seguisse embora sua viagem e escusasse sua vinda mais a elle.ª
Ao Bispo pareceu bem o motivo do Regente, e com isso se foi · Rainha; a qual porque n„o approvou nenhuma das cousas que lhe aconselhava, se despediu d'ella e se partiu para seu Rei sem conclus„o certa do porque viera.
CAPITULO LXX
_De como o Regente determinou pÙr cÍrco ao Crato e ·s outras fortalezas do Priol, e a que pessoas os cÍrcos foram encommendados_
O Infante D. Pedro por recados e cartas da Rainha e do Priol que foram tomados e trazidos a elle dos portos que se guardavam, foi certificado como procuravam metter gentes d'armas de Castella em Portugal, e bastecer as fortalezas que sustinham sua voz com armas e mantimentos de fÛra, e assi se fazerem alguns alevantamentos no reino contrairos a seu Regimento, para que soube certo que em uma parte e na outra se faziam trigosos percebimentos, e consirando camanho dano se seguiria a dar-se logar a isso, e n„o se atalhar, determinou com accÙrdo dos Infantes, com quanto era entrada de inverno, de logo se poer cÍrco ao Crato e ·s outras fortalezas do Priol, e cobra-las por forÁa ou partido, como mais fÙsse possivel. Para que logo mandou perceber o reino, que a isso n„o foi negligente.
E encommendou-se o cerco e tomada do castelo de Beluer a Lopo d'Almeida, que depois foi por El-Rei feito primeiro conde d'Abrantes, e assi que tomasse e segurasse os celleiros das terras ch„s do Priol. E assi se encommendou o cerco da Amieira ao capit„o Alvaro Vaz d'Almada, conde d'Abranches, ordenando a cada um as gentes e apparelhos que cumpriam. E foi accordado que o Regente e o Infante D. Jo„o, e condes d'Ourem e d'Arrayollos fossem sobre o Crato. Mandou o Regente outrosi em nome d'El-Rei fazer e pÙr editos publicos, com pena de morte e perdimento de bens, a todos aquelles que estivessem no Crato e nas fortalezas do Priol, se dentro de dez dias n„o se sahissem, salvo as vinte pessoas · Rainha ordenadas, e assi com promessa de perd„o de todos os casos aos que a El-Rei logo se viessem. Exceptuando alguns poucos a que expressamente o tal perd„o n„o se estendia, em que entrava o Priol e seus filhos.
Tomou Lopo d'Almeida com tal cuidado o cerco e tomada de Beluer, que por seus engenhos, forÁas e combates poz o castello e gente d'elle em tanta necessidade e affronta, que conveiu ao alcaide, que se chamava Jo„o Lopez de Nobrega, bom homem e esforÁado cavalleiro, depois de fazer muita resistencia, com grande dano dos cercadores, concertar-se e entregar o castello com seguranÁa sua e dos cercados, tomando primeiro certos dias de tregoa, em que como bom servidor pediu socorro ao Priol, e por lh'o n„o poder dar, entregou por seu mandado o castello a XVII dias de Dezembro de mil quatro centos e quarenta.
O capit„o Alvaro Vaz a que o cerco da Amieira, como disse, era encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pÈ, que era muita e mui bem concertada, e assim com as artilherias e provisıes que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e singular ordenanÁa, fazendo-o assi como homem que o vira e passara em outros reinos j· muitas vezes. E tambem folgou de o ordenar, assi por dar a entender n'este pequeno cerco o que faria em outros maiores se lh'os encomendassem.
CAPITULO LXXI
_Como El-Rei quiz vÍr e viu o capit„o na ordenanÁa de guerra em que vinha_
Viera-se El-Rei a Alemquer, porque Santarem onde estava, comeÁou de poerse mal de pestenensa; e posto que fosse de t„o pequena edade, porÈm bem inclinado de sua propria natureza, que o provera de mui nobre e mui grande coraÁ„o, desejou muito de vÍr o capit„o e sua gente na ordenanÁa de guerra em que vinham, e sentindo-lhe Alvaro GonÁalvez d'Arayde, seu aio, este vivo argulho e desejo, louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse; mas por n„o errar em seu serviÁo e estado, indo de proposito vÍr uma sua cousa t„o pequena, seria bem que como d'acerto fosse · caÁa, ao campo d'entre a Castanheira e Villa-Nova, e que alli como de recontro veria o capit„o e a gente que ent„o havia de passar.
E a outro dia andando alli El-Rei com seus galgos e gavi„es, assomou o capit„o, e sabendo j· que El-Rei o queria vÍr, apurou ainda muito mais sua ordenanÁa, e de sua pessoa com seus pages armados se concertou em grande perfeiÁ„o. Porque n'aquelle auto d'armas, por seu braÁo e por esperimentadas ardidezas passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor; e tanto que foi atravez d'onde o El-Rei olhava, se apartou sÛ da gente, armado sobre uma facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lanÁou fÛra d'ella, e a pÈ foi beijar as m„os a El-Rei, e lhe disse:
´Senhor, assi como eu sou o primeiro que vossa Senhoria vÍ n'estes habitos, assi prazendo a Deus n„o serei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso serviÁo e por defens„o de vossos reinos.ª
El-Rei folgou muito de o vÍr, e com palavras e contenenÁas lhe fez mais honra e mÛr acolhimento do que de sua pouca edade se esperava, e assi se despediu o capit„o e seguiu sua viagem atÈ · Amieira, que logo cercou e combateu atÈ que a tomou.
E n'este cerco n„o aconteceram cousas assignadas para escrever; porÈm houve algumas cousas d'agoiro, que por sua novidade tocarei brevemente. Porque na hora que ali aconteceram, porque pareciam mui duvidosas, se tomaram d'ellas testemunhos publicos e mui autorizados. Uma foi que em se acabando d'assentar o cerco, desceu · vista de todos tres vezes uma aguia do cÈo sobre um ninho de cegonha, que sobre as casas do Priol estava, e das duas vezes levou dois cegonhos novos, e da terceira n„o ficou o pae, que para a perdiÁ„o do Priol e dos filhos foi triste prognostico. A outra foi que a pedra do primeiro tiro de polvora que com um quart„o se fez, deu por um escudo das armas do Priol que estava sobre a porta da villa, e sÛ sem outra quebradura o desapegou das m„os de dois anjos que o tinham e o levou ao ch„o em pedaÁos. A outra foi que o segundo tiro que se fez matou um homem, sobre cujo corpo estando j· na egreja para se soterrar, deu outra vez o terceiro tiro, e em um escano em que jazia o tornou a espedaÁar.
CAPITULO LXXII
_Como a Rainha meteu de Castella gente d'armas n'estes reinos para se bastecer, e do que fizeram_
Sendo a Rainha e o Priol atalhados para dos logares vizinhos nem do reino j· n„o haverem mantimentos, e assi sentindo j· o engano que de seus alliados em seu movimento receberam, n„o ficou aberta outra porta d'esperanÁa, de soccorro e provis„o sen„o a de Castella. Pelo qual a peso de suas joias e baixellas, mandaram para soldo vir ao Crato um D. Affonso Anriquez, que estava em Castella na villa d'Alconchel, com atÈ sessenta de cavallo e cento homens de pÈ, com os quaes, e com os do Crato antes de receberem mais impedimentos e affrontas, trabalharam de por forÁa se bastecer de trigo, cevada, e gados pelos logares d'arredor, entre os quaes foi CabeÁa da Vide, que D. Affonso foi barrejar e roubar com cento e LXXX de cavallo e duzentos de pÈ, e recolheu o despojo ao Crato, sem haver no logar nem no caminho outra resistencia, salvo a que os d'Alter do Ch„o lhe quizeram fazer, que por n„o serem cautelosos no auto da guerra foram tambem de D. Affonso desbaratados, e alguns de uma parte e da outra mortos e muitos feridos, com que todo o reino e principalmente os d'aquella comarca foram para os do Crato mui indinados, e da Rainha mui descontentes.
O Infante D. Pedro constrangido e nojado d'estas entradas e correduras que pelo reino assi soltamente se faziam, apressou por isso mais sua partida. E acompanhado de muita gente que o veiu servir, partiu de Santarem caminho d'Aviz, onde com o Infante D. Jo„o e condes d'Ourem e d'Arrayollos tinha concertado seu ajuntamento, para hi terem conselho sobre o que fariam; porque o Infante D. Anrique era na Beira para a defender, como se disse.
CAPITULO LXXIII
_Da resposta que o Regente houve d'algumas cousas que com sua embaixada enviou a Roma requerer_
Em se o Regente alongando em uns casaes, que se dizem o Couto, entre Santarem e Aviz, chegaram a elle Ruy da Cunha, Priol de Santa Maria de Guimar„es, e o Provincial do Carmo D. Jo„o, Bispo que depois foi de Ceuta e da Guarda, que vinham de Roma, onde foram enviados por embaixadores ao Papa Eugenio; os quaes entre as outras cousas que requereram e trouxeram concedidas, foi _vivae vocis oraculo_ a despensaÁ„o para El-Rei poder casar com D. Isabel, filha maior do Infante D. Pedro. E n„o veiu em escripto; porque a Rainha D. Lianor sentindo que n„o podia fazer maior nojo, que em lhe estorvar este casamento, trabalhou com El-Rei e Rainha de Castella, e com El-Rei d'Arag„o e de Napoles, e com El-Rei de Navarra, todos seus irm„os, que por algumas razıes que sem muito fundamento allegaram, fizessem com o Papa que por alguma maneira n„o outorgasse a despensaÁ„o para o dito casamento necessaria. O que elles todos fizeram por seus embaixadores com muita instancia, e por tanto o Papa por n„o desprezar a tantos e taes Reis, houve ent„o por bom expediente n„o outorgar a despensaÁ„o em escripto por n„o ser publica, e a concedeu aos embaixadores em secreto, _vivae vocis oraculo_, como disse, para o casamento se poder logo fazer, e depois lh'a mandar por Bula patente, como mandou por Fern„o Lopez d'Azevedo, Commendador MÛr de Christo, que l· tornou por embaixador.
E assi trouxeram mais por Bulla expedida, em como o Papa isentou para sempre as administraÁıes de Tuy e d'OlivenÁa dos Bispados de Tuy e de Badalhouce, a que eram em Castella d'antigamente sobgeitas, e assi houve o Mestrado d'Aviz d'estes reinos por isento do Mestrado de Calatrava, e o Mestrado de Santiago por isento da Ordem d'UcrÈs, que s„o em Castella, a cuja obediencia de primeiro fundamento eram obrigados. E poz aos Reis de Castella silencio perpetuo, com estreitas censuras e graves excommunhıes, se mais o contrairo requeressem, como atÈ ent„o sempre requereram. E certo esta graÁa estimou muito o Regente; porque sabia que em vida d'El-Rei D. Jo„o seu padre, e d'El-Rei D. Duarte seu irm„o, com quanto isto sempre desejaram e requereram com rasıes e causas mui evidentes e sustanciaes, nunca os Papas que n'aquelles tempos foram, em caso que lhes parecesse raz„o, com receios d'agravos e importunaÁıes dos Reis de Castella o ousaram outorgar, e depois atÈ agora sempre isso esteve e est· em pacifico effeito.
CAPITULO LXXIV
_Como em se accordando o cÍrco do Crato soube o Regente que a Rainha D. Lianor era partida do Crato para Castella, e como todavia seguiu, e do que se fez_
Chegou o Regente a Aviz, onde de muitas partes lhe accudiu muita gente, para a qual com quanto no reino havia grande careza de mantimentos, houve porÈm d'elles alli muita abastanÁa. E sendo certificado que o Infante D. Jo„o seria com elle bespora de Natal, lhe leixou a villa para seu aposentamento. E na ribeira de Seda se foi alojar no campo, onde os Infantes e conde d'Ourem e conde d'Arrayollos, com outros senhores e fidalgos do conselho se viram. E logo todos consultaram ·cÍrca do que fariam, em que depois de muitos debates, finalmente se accordaram com o Infante D. Jo„o, que disse: