Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)

Chapter 8

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A Rainha D. Lianor era em Cintra, e por lhe parecer que o Infante D. Pedro tinha alli taes guardas e avisos em sua casa, que para seus negocios era quasi privada de sua liberdade, sendo para isto induzida dos que seguiam sua vontade, e principalmente do Priol do Crato D. Frei Nuno de Goes; determinou para com mais licenÁa e mÛr seguranÁa enviar e receber recados, assi de Portugal como de Castella, de se ir como foi para Almeirim, junto com Santarem. Do que aos Infantes muito desaprouve; porque sentiam que taes mudanÁas n„o eram por serviÁo d'El-Rei nem bem e assessego do reino, e para haver alguma mais causa e raz„o de as temperar, accordaram que El-Rei se fosse como foi logo a Santarem; porque estando t„o acerca da cÙrte haveria menos disposiÁ„o e mais receio de tratarem com ella e a moverem a mais alvoroÁos.

E d'alli enviou logo o Infante D. Pedro · Rainha o doutor Vasco Fernandes, pedindo-lhe por mercÍ que assessegasse o corpo e o coraÁ„o no reino, em que seria servida e acatada como era raz„o, e n„o ouvisse m·os conselheiros que a moviam para cousas que eram muito dano de sua alma, e grande quebra de seu estado, e assi o Infante em nome d'El-Rei mandou publicamente deffender a alguns fidalgos e outras pessoas que se logo juntaram com a Rainha, que sob graves penas a n„o conselhassem nem induzissem para o contrairo do que cumpria ao bem, paz e assessego de seus reinos, de que os mais por serem confiados em suas esperanÁas v„s, faziam pouca estima.

O Infante D. Pedro com quanto sabia que no reino havia pessoas principaes a elle contrairas, e que sostinham e favoreciam a parte da Rainha; porÈm todo seu receio causavam os Infantes irm„os da Rainha, que a este tempo eram retornados em Castella, e a governavam juntamente com a pessoa d'El-Rei, especialmente porque depois de a Rainha ser em Almeirim, foram suas cartas tomadas em Punhete e trazidas ao Infante, em que pareceu que apertava muito com seus irm„os que fizessem a estes reinos mostranÁa de guerra, e n„o geralmente a todos; mas sÛmente ao Infante, e a aquelles que contradiziam seu Regimento; porque com o temor d'isso, o povo por ventura revogaria o Regimento ao Infante, e o dariam a ella; mas o Infante crendo que assi fosse, e para lhes em alguma maneira melhor resistir e impedir seu poder, trabalhou de se liar com o Condestabre D. Alvaro de Luna, e com o Mestre d'Alcantara D. Goterre, que eram ambos liados contrairos aos Infantes, e tinham o favor d'El-Rei e muito poder em Castella.

CAPITULO LVI

_LianÁa do Infante D. Pedro com o Condestabre e Mestre d'Alcantara de Castella, contra os Infantes d'Arag„o, e das ajudas que lhe deu_

E para melhor entendimento d'este passo È de saber, que no tempo que El-Rei D. Jo„o o segundo reinava em Castella, era Condestabre este D. Alvaro de Luna, homem abastado de saber e malicia, com pouco temor de Deus. O qual se soube assi haver, que em todalas cousas ora redundassem em seu acrecentamento, ora em destruiÁ„o e dano d'outros, El-Rei satisfazia sempre a sua vontade. E porque os Infantes filhos d'El-Rei D. Fernando d'Arag„o, que ent„o prosperavam em Castella por sua autoridade e valor, contrariavam as execuÁıes de seu desordenado e m·o desejo, por elle ter mais soltura para obrar o que queria, assi trabalhou com El-Rei que os desamou grandemente e lanÁou fÛra do reino. E porque o Condestabre depois fez fazer individamente algumas cruezas e desterros contra muitos grandes do reino, e parecia que El-Rei vivia em sua sobjeiÁ„o, era de todos mui desamado, pelo qual alguns grandes ordenaram e trataram que os Infantes retornassem outra vez como tornaram em Castella, e que o estado e pessoa d'El-Rei se governasse por elles, e o Condestabre fosse como foi fÛra da cÙrte. Outrosi porque o Mestre d'Alcantara D. Goterre por engano tomara a villa d'Alcantara, e por forÁa o Mestrado a D. Jo„o Souto Maior seu tio, que era Mestre e feitura dos Infantes, e prendeu n'ella o Infante D. Pedro, irm„o dos Infantes. Era pÙr isto em grande odio a elles, que com suas forÁas procuravam em todo sua destruiÁ„o, os quaes Condestabre e Mestre d'Alcantara, por ambos serem tocados de uma necessidade e temor, ambos entre si e suas terras e gentes tomaram uma lianÁa e remedio para o resistir como o fazÌam, e sentindo assi isto o Infante D. Pedro, por enfraquentar o poder dos Infantes, enviou por seus messegeiros secretos offerecer contra elles o favor e ajudas d'estes reinos ao Condestabre e Mestre. O que elles mui alegremente receberam; porque conheceram que o Infante n„o tanto por aproveitar a elles, como por a mesma sua necessidade se movia a isso. Pelo qual muitas vezes lhe requereram depois ajudas e soccorros contra os Infantes, e elle por accordo e conselho dos principaes d'estes reinos lh'o deu algumas vezes assaz poderosamente, havendo primeiro consentimento e autoridade d'El-Rei de Castella, para sem quebrantamento das pazes que tinham o poder direitamente fazer. Porque com quanto El-Rei era em poder e governanÁa dos Infantes d'Arag„o, o Condestabre por suas astucias e maneiras, sempre trazia em sua cÙrte e camara taes pessoas, que secretamente requeriam a El-Rei todo o que compria por seu favor e amparo. Ao que El-Rei pela grande affeiÁ„o que lhe tinha, folgava muito de satisfazer, e enviou para isso ao Infante D. Pedro mui autenticas aquellas provisıes que sentiu ser necessarias, por cuja virtude o Infante em favor do Mestre d'Alcantara, e contra a tenÁ„o do Infante D. Anrique Mestre de Santiago, enviou a Castella por vezes e tempos, muita gente abastecer Magazella e BemquerenÁa, fortalezas do Mestrado d'Alcantara, e assi tomar a villa de Salanqua, que estava pelo Infante D. Anrique, e por outra vez enviou outrosi muita gente d'estes reinos a Andaluzia, em ajuda e soccorro do Condestabre, e em desfavor e dano do mesmo Infante D. Anrique, e lhe tomaram Carmona com seu grande destroÁo.

E outra vez a requerimento d'El-Rei D. Jo„o, quando cercou os Infantes em Olmedo, lhe enviou o Infante D. Pedro em sua ajuda muita e mui nobre gente d'estes reinos, e por capit„o principal seu filho primogenito o Senhor D. Pedro, que depois foi e morreu intitulado Rei d'Arag„o.

E segundo a universal opini„o dos que n'este caso s„mente entenderam, se creu que segundo os Infantes eram amados em Castella, se n„o tomaram assi claramente o Infante D. Pedro por contrairo, e n„o se pozeram em mostranÁas de o guerrear e destruir, como mostraram, e o Infante n„o impedira seu poder, que seu valor e prosperidade d'elles n„o descahira em Castella como descahiu, nem a Rainha D. Lianor sua irm„, enganada de suas promessas e esperanÁas impossiveis, n„o acabara sua vida em desterro com tanta necessidade e tristeza, e t„o individa a suas bondades e estado, como ao diante se dir·.

CAPITULO LVII

_Conselhos que o Infante D. Pedro teve sobre o assessego e seguranÁa d'esta cousas, e como a Rainha fingidamente se concordou com elle_

Mas o Infante D. Pedro sentindo com estas mudanÁas o reino diviso, teve sobr'isso conselho, no qual se accordou para atalhar ·s praticas que a Rainha e os outros fidalgos poderiam ter com o conde de Barcellos, que da divis„o era cabeÁa principal, e para qualquer outra seguranÁa, que o Infante D. Anrique se fosse, como foi · cidade de Vizeu; porque com seu receio os recados n„o passassem, e que para o dano que a estes reinos poderia vir de Castella por meio dos Infantes, enviassem como enviaram uma pessoa secreta a El-Rei, que o n„o consentisse, o que muito aproveitou.

E o cargo da guarda e assessego da Rainha ficou ao Infante D. Pedro, que pelas estreitezas que n'isso poz, os que eram com ella em Almeirim, que com novo alvoroÁo a vieram servir, se acharam para suas honras e fazendas de todo atalhados, e mui enganados nas esperanÁas de supetos acrecentamentos, que cada um logo para si maginava. Pelo qual com necessidade e razıes assaz evidentes pediam · Rainha que emquanto as cousas n„o se despunham como para seu recurso cumpria, tratasse com o Infante D. Pedro alguma amizade e fosse fingida, com que em tanto ella e elles se remedeassem e provessem a suas vidas e fazendas, e a podessem melhor ao diante servir.

A Rainha aprovou este conselho, e para o cumprir mandou por o ministro da Ordem de S. Francisco, e por Ruy Galv„o, secretario, tratar amizade com o Infante, mostrando fingidamente que seu desejo era j· poer em assessego sua alma, e esquecer-se de todo o passado.

O Infante d'este recado crendo ser verdadeiro, foi mui alegre, e o acceitou com palavras de grande cortesia e contentamento, e deu por isso muitas graÁas a Deus. E da concordia que entre si por ent„o tomaram pass·ram seus assignados, que o Infante logo mandou divulgar pelo reino, que pelo haverem por bem e geral assessego, faziam por isso geralmente a Deus muitos signaes de devoÁ„o, e ao mundo de grande alegria, e assi o notificou a Castella. E confiando n'esta concordia, que havia por certa e n„o fingida, mandou tirar as guardas dos portos para que livremente podessem · Rainha ir e vir messegeiros e servidores d'onde quizessem sem pena nem receio.

CAPITULO LVIII

_Como o conde de Barcellos desdisse muito · Rainha esta concordia com o Infante, em caso que n„o fosse verdadeira_

Foi o conde de Barcellos d'esta concordia por via geral certificado, mas n„o se alvoroÁou nada; porque da secreta dessimulaÁ„o com que se fizera, foi logo pela Rainha avisado: porÈm elle temendo-se da prudencia e saber do Infante D. Pedro, e n„o segurando n'isso da constancia da Rainha, accordou com os fidalgos da sua parte de lhe notificarem o erro e desfavor que para seus feitos em tal concordia fizera, em caso que fosse fingida, de que se seguira os que desejavam seu serviÁo, vendo-a em poder do Regente, n„o ousarem de a servir, e que para isso, porque mais em breve se executasse o que desejava, ella mui secretamente se devia vir ao Crato, onde tinha mui certo o Priol com suas fortalezas a seu serviÁo. E que d'alli poderia seguramente passar o Tejo e entrar na Beira, onde o Marechal por ser comarc„o, com outros fidalgos e gentes se iriam para ella, e que o conde com todolos outros fidalgos outrosi lhe acudiriam e a recolheriam em suas terras, que logo comeÁaria de reger, e que da execuÁ„o e obra d'esta empresa os Infantes seus irm„os, e assi todolos outros seus servidores tomariam mais esforÁo e desejo de a proseguir.

Este recado foi assi secretamente trazido · Rainha, que o Regente n„o houve d'elle algum sentimento, e ella com os de seu conselho a quem o mostrou e louvou, e houve por bom, o fez logo saber ao Priol do Crato. O qual como era homem de muitos dias e grande experiencia e siso, houve o feito por sem fundamento e muito duvidoso. E assi lhe respondeu em muitas e boas palavras, e em fim que se de todo em todo sua vontade quizesse forÁar as armadas de t„o vivas razıes, como lhe mandou para o ella n„o cometer, que elle estava prestes de a receber onde ella quizesse, e para isso lhe offerecia a perdiÁ„o de sua vida, honra, e fazenda, que elle n„o podia escusar.

CAPITULO LIX

_Como o Priol do Crato consentiu em receber a Rainha em suas fortalezas_

Esta resposta do Priol a que a Rainha com raz„o dava grande credito, suspendeu e amansou muito seu alvoroÁo; e porÈm de todo avisou logo ao conde de Barcellos, o qual por meio d'Aires GonÁalves seu secretario, acabou com o Priol que pospostos seus pejos todavia recebesse a Rainha. Desfazendo-lhe os inconvenientes que apontara, com promessas e esperanÁas, e seguranÁas falsas com que lhe cegaram o verdadeiro juizo, para o que ajudaram muito dois filhos do Priol, homens mancebos, que sostinham a parte e tenÁ„o do conde, que lhes mostrava abrirem-se caminhos de suas honras, e grandes acrecentamentos. O Priol do Crato assi como determinou de receber a Rainha em suas terras, assi ordenou logo d'abastecer, o mais encobertamente que pÙde suas fortalezas, e a Rainha mandou a todoslos seus, e assi a outros d'El-Rei em que tinha confianÁa, que se percebessem de cavallos e d'outras cousas necessarias para caminho, e a verdade d'este fundamento era para esta sua partida; como quer que ella fingidamente dava a entender que os percebia para a acompanharem atÈ o mosteiro da Batalha, onde queria fazer o saimento a El-Rei seu marido, para que dessimuladamente mandou l· fazer algum percebimento.

D'estas mudanÁas foi o Regente algum tanto sabedor; mas confiando na concordia que entre elles era feita, e por n„o mostrar que com achaques a rompia, n„o quiz sobre uma cousa nem outra fazer novas alteraÁıes; e porÈm elle n„o era em certo sabedor que a Rainha se queria partir para o Crato.

CAPITULO LX

_Como o conde de Barcellos fez lianÁa com os Infantes d'Arag„o, e como foi por isso muito prasmado_

E o conde de Barcellos sentindo como as cousas se chegavam a rompimento, sendo duvidoso da fim que haveria, acordou de se liar como liou com El-Rei de Navarra e Infante D. Anrique, irm„os da Rainha, concordando entre si suas capitulaÁıes de serem amigos d'amigos, e imigos de imigos, e com ajuda certa de gentes d'armas, que cada uns dariam aos outros, quando a suas necessidades e afrontas cumprisse.

D'estas lianÁas foi logo o reino todo sabedor e mui espantado, especialmente mostraram d'isso grande sentimento o Infante D. Jo„o seu genro, e o Infante D. Anrique ambos seus irm„os. E o Infante D. Jo„o lh'o enviou muito estranhar por Vasco Gil seu confessor, que depois foi Bispo d'Evora, e o Infante D. Anrique por Fern„o Lopez d'Azevedo, Commendador MÛr de Christo. Aos quaes o conde respondeu, que n„o desistiria do que tinha feito, e que sabia bem o que lhe cumpria. E assi o disse ao conde d'Arrayollos seu filho, que a elle sobr'isso foi em pessoa. Mas o conde d'Ourem tambem seu filho, que a este tempo era mui · banda do Infante D. Pedro, n„o quiz n'este caso entender, n„o leixando de o haver por feio, e mostrando que se os feitos viessem a rompimento, que elle seria por serviÁo do Regente contra seu padre; mas o que das maneiras d'ambos, pae e filho poderam os prudentes conjeiturar e entender, sempre pareceu que no comeÁo dos movimentos, entre elles se concordara o pae ficar · parte da Rainha, e o filho · do Infante D. Pedro; porque a qualquer d'estas parcealidades a que a fortuna boa se inclinasse, cada um ter n'ella um principal que remedeasse o outro, e que em tanto cada um tirasse da banda que servisse todo o que para sua honra e proveito podesse; porque em fim, toda havia de ficar em uma sÛ heranÁa. Nem se creu que o conde de Barcellos inventara estas lianÁas e pendores, salvo por meter o reino em necessidade de sua pessoa e casa, e lh'a haverem de compoer com villas e terras como fizeram; porque da Rainha n„o havia t„o urgentes razıes que o a isso obrigassem, e dos Infantes d'Arag„o muito menos. A Rainha ante que de sua pessoa fizesse alguma mudanÁa, mandou a Castella secretamente, por Mossem Gabriel de LourenÁo, seu capell„o mÛr, todalas joias d'ouro, prata e pedraria que tinha, que eram assaz muitas e boas; porque ·lem das que trouxe d'Arag„o, houve com o movel d'El-Rei seu marido todas as que ficaram por seu fallecimento, e foram postas no Castello d'Albuquerque, que era Villa do Infante D. Anrique de Castella. D'onde lhe vieram muitas a Almeirim, que ella secretamente mandou pedir para sua partida.

CAPITULO LXI

_Como o Infante D. Anrique se viu com o conde de Barcellos seu irm„o para o concordar com o Infante D. Pedro_

O Infante D. Anrique de Portugal para atalhar os azos de mais desaccordos e uniıes, se foi a Vizeu como disse; e porque sentiu que no assessego do conde de Barcellos, segurava o assessego do reino e da Rainha, viu-se com elle e com os de sua valia no mosteiro de S. Jo„o de Tarouca, junto com Lamego, onde sobre muitas praticas e altercaÁıes que todos entre si houveram, nunca o Infante pÙde acabar que o conde se decesse de sua opini„o, nem pÙde nunca por elle saber algum evidente fundamento d'agravo, ou contentamento descuberto que para isso tivesse; porque todalas que dava eram razıes t„o fracas, que por si mesmas se desfaziam, e em fim o Infante se despediu d'elle com algum temporizamento, atÈ se vÍr com os Infantes seus irm„os. Mas por mais enfraquentar seu partido, tirou logo de sua lianÁa o marechal, e Martin Vaz da Cunha, e Jo„o de GouvÍa, que eram fidalgos da Beira, e os levou comsigo.

CAPITULO LXII

_De como veiu a El-Rei embaixada de Castella, e como foi recebida_

Ao mez d'Outubro d'este anno de mil e quatro centos e quarenta, estando ainda El-Rei em Santarem e a Rainha em Almeirim, lhe veiu d'El-Rei de Castella uma grande embaixada, em que vieram por pessoas principaes D. Affonso, filho bastardo d'El-Rei de Navarra, que depois morreu duque de Villa Formosa, e um Bispo de Coria, pessoa de muita autoridade, e outros letrados, e por esta embaixada ser a primeira que veiu a El-Rei, foi da cÙrte muito bem recebida, e d'El-Rei e dos Infantes com muitas grandezas cerimoniada, e a sustancia do que a El-Rei e ao Regente, e assi aos Infantes e conselho propozeram, se fundou em duas cousas. Uma em se queixarem de danos e tomadias que os portuguezes fizeram por mar e por terra aos naturaes de Castella, e a outra mais principal acerca das cousas da Rainha e restituiÁ„o do Regimento em que sobre todo mais insistiram, e tambem pediam a El-Rei em nome da Rainha D. Lianor, com que j· tinha fallado, que a leixasse ir para Castella, mostrando que n„o queria estar no reino para que tantos males se aparelhavam; porque ao tempo que esta embaixada sahiu da cÙrte de Castella, os Infantes d'Arag„o ainda regiam e governavam a pessoa d'El-Rei; e por isso se fez l·, e propoz c· com as gravezas, protestaÁıes e cautellas, que elles em nome d'El-Rei ordenaram. Affigurando que por ventura o povo de Portugal, com receio de futuras guerras que elles tocavam, desistiria da parte do Infante ·cÍrca do Regimento, e seguiria a da Rainha.

E para os embaixadores fazerem mais geral esta impress„o, pediram ao Regente logar e licenÁa para esta mesma embaixada irem dar pelas cidades e villas, e assi aos principaes do reino; mas o Regente por ser cousa nova e ent„o desacostumada o n„o outorgou nem consentiu, e se escusou com a semraz„o d'elles, e com outras razıes assaz justas e honestas; e emfim o Regente para lhe responder, tomou alguns dias d'espaÁo, dentro dos quaes a todalas pessoas principaes do reino que n„o eram presentes, enviou pedir conselho por escripto, com o trellado da embaixada. E esta ordenanÁa guardou sempre o Infante emquanto regeu, de nunca em cousas sustanciaes tomar conclus„o sem conselho escripto dos presentes e ausentes, e depois que houve a resposta de todos, e se conformou com o que melhor pareceu, respondeu aos embaixadores:

´Quanto ·s tomadias, que para justificaÁ„o d'ellas se pozessem juizes de uma parte e da outra nos estremos danificados. E quanto ·s cousas que tocavam · Rainha, que El-Rei enviaria seus embaixadores a El-Rei de Castella com tal resposta com que devesse ser satisfeito.ª

E sobr'isso foi enviado Lopo Affonso Secretario, com fundamento de dilatar e temporisar o negocio; porque o Regente soube secretamente por o Bispo de Coria, embaixador, que esta embaixada em que elle vinha era de cumprimento para a Rainha e para os Infantes d'Arag„o, mas n„o da vontade d'El-Rei de Castella, a quem parecia bem a maneira que no Regimento do reino se tivera, e assi n„o leixarem · disposiÁ„o da Rainha a criaÁ„o d'El-Rei, pois era mulher; porque elle mesmo Rei sentia em si quanto mal recebera por em semelhante caso ser criado em poder da Rainha D. Caterina sua madre, e que o contrairo n„o se esperava de taes Principes como eram os filhos d'El-Rei D. Jo„o.

E · Rainha enviou o Regente em nome d'El-Rei pedir com palavras de muito acatamento, e com razıes que faziam assaz por sua honra, honestidade e proveito, que houvesse por bem n„o consentir que de seus reinos se fosse para os estranhos. Mas isto n„o lhe assessegou a vontade que tinha para se ir; porque assi pela determinaÁ„o passada da partida, como pelo novo alvoroÁo que d'alguns dos embaixadores para isso recebeu, determinou muito mais em si de o fazer.

Os embaixadores n„o se houveram d'esta resposta do Regente por satisfeitos nem despedidos, antes disseram que traziam em mandado de seu Rei que sem determinada resposta de todalas cousas, sem outro seu especial mandado n„o se partissem, e a carta em que isto se continha d'hi a dois dias a mandaram mostrar ao Regente, o qual como prudente consirou que taes cartas e instrucÁıes, t„o sem raz„o e vindas t„o brevemente se compilavam em Almeirim, c· poderiam trazer de Castella signaes d'El-Rei em branco e sÍllos de fÛra, sobre que poeriam o que quizessem, como fizeram. E para d'isto ser certificado, avisou d'isso a gram pressa o Condestabre D. Alvaro de Luna, o qual era fÛra da cÙrte; e porÈm por seus meios secretos, que com El-Rei trazia, soube logo d'elle que nunca tal mand·ra, de que logo certificou o Regente por carta da propria m„o d'El-Rei: pelo qual o Regente n'esta confianÁa determinou com alguma mais graveza despedir como despediu os embaixadores, e lhes mandou ´que pois eram respondidos, que se fossem embora dos reinos e cÙrte d'El-Rei seu Senhor.ª Mas elles n„o se despacharam assi brevemente, que ainda n„o estivessem em Santarem, ao tempo que a Rainha se partiu para o Crato, como ao diante se dir·.

CAPITULO LXIII

_Como o Infante D. Anrique procurou de trazer o Priol do Crato a serviÁo e prazer do Infante D. Pedro, e do que n'isso passou_

O Infante D. Anrique de Portugal, sentindo que um dos principaes esforÁos que a Rainha tomava para seu movimento, era o Priol do Crato, por atalhar a isso virtuosamente como em todo era seu costume, por seu messegeiro o enviou muito reprender d'isso, e da opini„o que tomara contra o Infante D. Pedro, e lhe mandou que logo em pessoa se viesse desculpar ao Regente, e d'hi em diante o servisse lealmente como a elle mesmo.

O Priol foi d'este recado mui triste por duas causas a elle mui contrairas, uma por viver com o Infante D. Anrique, a quem havia por grande caso e perigo n„o obedecer inteiramente. E a outra fallecer · Rainha e ao conde de Barcellos, a quem se offerecera j· com suas fortalezas; e finalmente deliberou de n„o ir ao Infante D. Pedro por si, escusando-se por velhice e doenÁa, e de se mandar desculpar fingidamente por seu filho Fern„o de Goes, e todavia de cumprir com a Rainha o que lhe tinha promettido.

Veiu Fern„o de Goes a Santarem, e offereceu a embaixada falsa de seu pae por sua crenÁa ao Regente, mostrando quere-lo desculpar do passado, offerecendo-se em todo o que estava por vir ao que elle mandasse, e pediu logo ao Regente licenÁa para ir fallar · Rainha; porque lhe queria dizer o em que ficava com elle, e assi lhe pedir que d'hi em diante nas cousas que fossem contra vontade e serviÁo do Infante, ella n„o se quizesse servir do Priol seu pae, nem d'elles seus filhos, salvo nas cousas em que os Infantes a servissem. Mas isto em seu coraÁ„o e proposito era muito em contrairo; porque como foi ante a Rainha, concertou com ella sem differenÁa o dia e hora de sua partida, que havia de ser logo em bespora de todolos Santos · noite. E que elle e seu irm„o Pedro de Goes viriam por ella, com maior resguardo e com a mais gente que podessem.

E com isto se partiu, e o notificou ao Priol, que com muita diligencia e maior dissimulaÁ„o fez logo prestes a mais gente que pÙde. Dando publicamente a entender por n„o fazer na terra suspeita nem alvoroÁo, que j· eram concertados com o Regente, e que para o mais obrigarem o queriam ir honradamente servir, de que toda a terra mostrou ser mui alegre.

CAPITULO LXIV

_De como se a Rainha aconselhou sobre a ida para o Crato, e como emfim posposto o conselho se partiu_