Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)
Chapter 7
´Senhor, quem vos bem conhece e vosso justo juizo e grande saber, sem errar vos pÛde dizer que d'outra maneira o entendeis, do que o fallaes. E por tanto isto que vos propozemos È assi em nÛs todos t„o determinado para se cumprir, como o mais que fizemos. C· se o passado foi proveitoso, n'isto ha proveito e necessidade; porque n„o È raz„o, nem queira Deus que um t„o alto Principe como È El-Rei nosso Senhor, e que em t„o pequenos dias nos d· de si tantas esperanÁas de bem entendido e virtuoso, seja assi creado em tanto aleij„o, como È a criaÁ„o em poder de mulheres. Antes pois em vÛs para isso ha tantas razıes, È raz„o que o crieis e faÁaes ensinar em letras e reaes costumes, e o leveis ao monte e · caÁa, e lhe mostreis por vÛs o exercicio das armas, e por exemplos e doutrina, e merecimentos da cavallaria. E assi as outras cerimonias, manhas, e cousas que ao estado de um tal Principe convÈm, assi para os tempos publicos, como secretos, e com isto elle È de t„o s„o e perfeito entender, que conhecer· que o servis bem e lealmente. E por isso vos amar· e far· aquelle acrecentamento e mercÍ, que lhe prazendo a Deus merecereis.ª
O Regente acalÁado n'este caso da necessidade e raz„o de que se n„o sabia escusar, disse: ´que se fallasse aos Infantes seus irm„os, e o que elles accordassem por melhor, elle o seguiria.ª Aos quaes por os procuradores foi logo fallado, e assi aos condes e ·s outras pessoas d'estima que eram na cÙrte. E por todos finalmente foi accordado: ´que pospostas todalas cousas e assento passado, El-Rei ficasse em poder do Regenteª. O que em pessoa lhe foi logo assi notificado. O qual disse:
´Certo n„o por resistir a vosso conselho e determinaÁ„o, a que folgarei sempre de obedecer. Mas a mim parece que n'este caso o melhor ser· que a Senhora Rainha e eu andemos pelo reino juntamente, de que se seguir· que sua Senhoria criar· El-Rei meu Senhor seu filho, e eu vÍ-lo-hei e servirei nas cousas que apontaes, quando fÙr necessario. E prazendo a Deus, eu o farei por maneira, e com tanto prazer e contentamento d'ella, que sua Senhoria ter· raz„o de conhecer de mim a verdade de que sempre duvidou, e perder· com isso alguns queixumes e escandalos que sem causa lhe fizeram ter contra mim.ª
E louvando todos aquelle parecer, se foram com elle · Rainha, que ainda era em Santo Antonio, · qual pelo Infante D. Pedro e por os outros Infantes foram mui verdadeiramente ditas todalas cousas e razıes que no caso havia para o haver de seguir. Mas ella finalmente n„o quiz, salvo que lhe ficasse a governanÁa da fazenda juntamente com a criaÁ„o de seus filhos, referindo-se ao accordo das primeiras cÙrtes. E que se das rendas para serviÁo d'El-Rei se houvesse alguma cousa despender, que fosse por sua autoridade e mandado. E como quer que pelos Infantes lhe fossem apontados muitos pejos e inconvenientes para assi n„o poder ser, e lhe pedissem que quizesse haver por bem o que accord·ram, a ella n„o prouve. E os Infantes vendo sua determinaÁ„o, se despediram d'ella para ainda consultarem se se acharia algum bom meio com que ella ficasse contente.
CAPITULO LI
_Como a Rainha teve pratica com os seus principaes sobre a ida dos Infantes a ella e como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu irm„o_
Partidos os Infantes, a Rainha a esses principaes que com ella eram notificou logo os apontamentos de sua vinda. E assi a conclus„o com que ficara, e quiz d'elles saber o que lhes parecia, dizendo:
´N„o pode ser mÛr angustia da que meu coraÁ„o tem n'este caso. C· de uma parte o sentimento e nojo que tenho do Infante D. Pedro me faz desejar n„o haver cousa no mundo para o poder vÍr, e d'outra segundo o que sinto, isto È j· quasi privarem-me de meus filhos. Cuja natural piedade e grande amor que lhes tenho, me constrange n„o os leixar. Especialmente me obriga muito parecer-me que segurarei com a graÁa de Deus suas pessoas, de que teria mÛr esperanÁa, e com menos receios, que de andarem sem mim em poder do Infante D. Pedro. O qual segundo j· descobre sua grande cubica para reinar, quem duvidaria que para o fazer mais livremente, n„o lhes encurtara mais cedo as vidas. E n'elle ha muitas dessimulaÁıes e hipocresias com que tudo saber· mui bem encobrir. Assi que n'estes dois tamanhos extremos n„o sei qual meio tome, ou ter meus filhos e andar com elles por sua seguranÁa, e ir com o Infante · melhor parte sem outro encarrego, ou leixa-los de todo · disposiÁ„o de Deus que os guarde, e da fortuna boa ou m· que lhes pode vir. O primeiro d'estes bem sinto que È um bom desejo da alma, a que por ventura consirando tudo sem paix„o eu devia ser mais conforme. O segundo È apetito do corpo e da honra, em que sinto tamanhas forÁas, que me inclinam a elle de todo, e n'esta tamanha diferenÁa e torvaÁ„o a que meu juizo n„o abasta, quero saber de vÛs o que vos parece.ª.
Os quaes responderam, dizendo:
´Senhora, esta derradeira È a melhor determinaÁ„o que podeis ter, e o vosso coraÁ„o para qu„o real È, n„o deve soffrer andar sobjeita em poder de um homem vosso imigo, e que segundo o desamor que vos tem, vos far· cada dia mil nojos e abatimentos, e a nÛs outros que vos servimos, como desesperados d'elle em todo bem e mercÍ, ser· raz„o que nÛs vamos ·s judarias ou fÛra do reino, pois havemos ser d'elle pior tratados que judeus. O que n„o deveis haver por pequena dÙr e vituperio vosso, e com isto bem sabeis que ha n'elle praticas e cautellas, para com todo mostrar ao povo que o faz muito pelo contrairo; porque elle n„o ha mais mester que favor de vill„os que o tem por idolo. Pelo qual nosso conselho È, o com que despedistes os Infantes, n„o aceitardes a criaÁ„o de vossos filhos sem governardes toda a fazenda, e que pois haveis de ser agravada, que o sejaes de todo, principalmente pois sabeis que a emmenda d'isto se apressa, e n„o pode j· tardar muito. E pelo que ora vossos irm„os vos escrevem de Castella, e assi de Portugal o Priol do Crato e o Marechal, e os outros fidalgos que defendem vossa querella, o podeis mais claramente vÍr e afirmar, e para seguranÁa de vossos filhos, sob reverenÁa de vosso juizo, È muito pelo contrairo. C· para o Infante D. Pedro cumprir seu m·o proposito, se o tem de acabar vossos filhos, sabei que vossa presenÁa È mais azo, e a melhor encuberta que para isso pode ter. E por ventura o far· mais levemente, e com menos temor em vosso poder que no seu. E nas enculcas e espias que j· agora traz comvosco, de que sabe aqui n„o sÛmente o que fallaes, mas o que cuidaes, podereis conjecturar se para tal caso achar· ministros. Assi que leixai-lhe todo o Regimento, e os filhos juntamente atÈ que Deus queiraª.
N'este conselho contrariou com razıes mui vivas Pero LourenÁo d'Almeida, AlmotacÈ MÛr do reino, que era presente, desfazendo · Rainha e aos outros conselheiros com fundamentos mui claros as esperanÁas que tinham de seus irm„os em Castella, e assim dos fidalgos de Portugal. Pedindo-lhe que quizesse acceitar o meio que os Infantes lhe tinham apontado, que segundo a disposiÁ„o do tempo houve por bom. Mas como a vontade da Rainha, e assi a dos outros estavam para o contrairo determinadas, n„o aprovaram o conselho de Pero LourenÁo, reputando-lhe n„o a siso mas a fraqueza por se n„o sahir de sua casa e boa fazenda que tinha em Lisboa. Pelo qual a Rainha determinou partir-se e leixar seus filhos, e levar sÛmente as filhas comsigo.
Isto se passou em Santo Antonio a um sabbado, e logo ao domingo a Rainha mandou chamar secretamente alguns seus de Lisboa, que vieram hi dormir. E passada a meia noite ouviu missa, e fez alevantar os filhos da cama, e tomou El-Rei nos braÁos, e com muitas lagrimas lhe disse:
´Filho e Senhor, praza a Deus por sua piedade que vos guarde e vos dÍ vida, e a mim n„o leixe viva e desamparada de vÛs, como o sou d'El-Rei meu Senhor vosso padre.ª
E com isto se despediu com tamanho pranto seu e de todos, como se os leixaram soterrados para os nunca mais vÍr.
El-Rei salteou-se com tamanha novidade, e posto que para isso n„o teve edade de que se esperasse tamanho accordo, n„o lhe falleceu natural prudencia e discriÁ„o com que n'aquella hora, com grande repouso e seguranÁa, e por palavras doces e avisadas, soube confortar a Rainha sua madre, que se partiu para Cintra, de que o aviso foi logo a Lisboa, e o Infante D. Anrique como o soube se partiu a gram pressa pela alcanÁar no caminho, e j· n„o pÙde sen„o no logar d'onde a n„o pÙde mover de seu proposito, e o Infante D. Pedro e o Infante D. Jo„o foram logo a Santo Antonio e trouxeram El-Rei e o Principe seu irm„o a Lisboa, onde a cada um deram casa com seus officiaes apartados, porque atÈ alli se serviam ambos juntamente, e n'estes movimentos foi tanta a prudencia e resguardo d'El-Rei, que sendo de t„o pequena edade, e tendo tanto amor e affeiÁ„o · Rainha sua madre, como era raz„o, nunca por se vÍr d'ella apartado foi ninguem que n'elle contra o Infante podesse conhecer algum signal de m· vontade. Nem que reprendesse ou louvasse os feitos de um nem do outro, nem com seu escandalo.
CAPITULO LII
_Como Lisboa commetteu de querer fazer uma estatua ao Infante D. Pedro pelo beneficio do relevamento das aposentadorias, e do que lhe respondeu_
Os procuradores do reino com isto acabado se foram, e os cidad„os de Lisboa por memoria da mercÍ e liberdade que lhes o Infante em nome d'El-Rei fizera, quando lhes tirou as aposentadorias, como j· disse, lhe quizeram com seu consentimento ordenar uma estatua de pedra sobre a porta dos Est·os, que o Infante novamente mandou fazer, e perguntando-lhe em que fÛrma a haveria por melhor que estivesse, o Infante com o rostro carregado de tristeza e pensamento, o desviou e defendeu, dizendo-lhes, como por verdadeira prophecia de sua fim:
´Se a minha imagem alli estivesse esculpida, ainda vir„o dias que em galard„o d'essa mercÍ que vos fiz e d'outras muitas que com a graÁa de Deus espero de vos fazer, vossos filhos a derribariam, e com as pedras lhe quebrariam os olhos. E por tanto Deus por isso me dÍ bom galard„o, c· de vÛs em fim n„o espero outro se n„o este que digo, e por ventura outro pior.ª
Das quaes palavras foram ent„o os cidad„os t„o maravilhados, como foram depois certificados que dizia verdade, quando assi o viram cumprir. E seguiu-se mais depois, para se presumir que o Infante alguma revelaÁ„o tinha de sua morte, que em Coimbra indo elle quando regia, e o Infante D. Anrique para a porta de S. Bento, que sae · ponte onde est„o as armas da cidade, que s„o uma mulher posta sobre um calez, com uma corÙa na cabeÁa, e a uma teta um le„o, e a outra uma serpe, o Infante D. Anrique olhando-as, disse pelo contentar:
´Bem se pÛde Senhor Irm„o comparar a vÛs esta figura, pois tambem de uma parte daes mantimento ao le„o, que È Castella, e da outra a Portugal, que È a serpe do nosso timbre.ª
´Verdade È, disse o Infante D. Pedro; mas vÍde-a melhor, e consirae que est· sobre calez, que significa sangue, em que mais claro parece, que de meus trabalhos, serviÁos e beneficios, esse ha de ser meu galard„o.ª
E certo, com quanto este Principe era mui catholico, devoto e justo, e em que havia muitas outras virtudes, assi se seguiu como ao diante se dir·.
CAPITULO LIII
_Como a Rainha sobre suas cousas se querellou aos Infantes d'Arag„o seus irm„os, e da embaixada que enviaram_
A Rainha como dos effeitos da esperanÁa que tinha, e lhe davam para reger, comeÁou de se vÍr no reino enganada, dobrou-se n'ella o desejo de seu proposito. E por um modo j· de victoria e vinganÁa, assi no reino como fÛra d'elle, para cobrar o Regimento dobrou suas forÁas e deligencias, para o qual enviou notificar e se queixar aos Infantes d'Arag„o e · Rainha de Castella seus irm„os, como por forÁa lhe tiravam o Regimento, e a titoria de seus filhos. E assi o aggravo e abatimento que n'isso recebia, fazendo-os participantes na injuria do caso pelos mais obrigar e acender para o que desejava, crendo ella que por serem j· retornados em Castella, logo teriam o poder onde tivessem a vontade, e que com seu receio em Portugal se n„o faria a cousa em que elles recebessem descontentamento.
Mas os Infantes seus irm„os sabendo a pouca firmeza e seguranÁa que tinham em Castella, e que lhe n„o cumpria fazer por ent„o novas alteraÁıes contra si, tomaram a parte mais branda, e enviaram aos Infantes d'estes reinos com sua embaixada um D. Affonso Anrique, bisneto d'El-Rei D. Anrique, que da sua parte com palavras honestas lhes rogou em sustancia ´que sobre a determinaÁ„o das primeiras cÙrtes n„o fizessem com a Rainha sua irm„ alguma outra enovaÁ„o.ª Ao qual os Infantes responderam ´que · Rainha n„o era feita injuria nem desserviÁo, nem lhe tiravam sen„o cuidados e trabalhos, a que suas forÁas por ser mulher n„o abastavam, e cargos de conciencia, o que ella devia querer; porque o Regimento do reino a ella de raz„o e direito n„o pertencia. E a quem direitamente convinha e o saberia e poderia fazer o tinham dado.ª
Com esta resposta se houve D. Affonso por despachado, e se foi a Cintra por vÍr a Rainha. E posto que fosse homem de grande linhagem, n„o havia porÈm n'elle aquelle tento, discriÁ„o e prudencia, que a pessoa de tal cargo pertencia. Porque em lugar de poer a vontade da Rainha em bom assessego e temperar suas paixıes, acendeu-lh'as muito mais com esperanÁas v„s, que lhe deu de ser por forÁa, e com ajuda de seus irm„os restetuida e vingada. Offerecendo-se para o caso com gentes de cavallo e de pÈ, como principal capit„o do reino, e para logo a vir servir n„o tomou largo prazo. E com estes enganos em que a Rainha levava gloria, tirou d'ella prata dinheiro, e tornou-se para Castella onde deu resposta aos Infantes. Os quaes, porque suas cousas n„o estavam em desejada seguranÁa para fazer movimentos, ao menos por n„o parecer que desamparavam de todo os feitos da Rainha sua irm„, tornaram a enviar ao Infante D. Pedro e aos Infantes seus irm„os um Dai„o de Segovia, pedindo-lhe com palavras mansas e honestas que guardasem · Rainha o acatamento e reverencia que ella merecia, e lhe tivessem aquelle amor que deviam. De que os Infantes foram mui contentes depois em todo ao cumprir, para o qual encommendaram ao Dai„o que fosse fallar com ella para que quizesse repousar a vontade, e n„o dar causa a boliÁos, de que tanto mal se podia seguir; porque com isso ella seria servida e acatada, como se El-Rei seu marido fosse vivo.
O Dai„o lhe foi fallar e a aconselhou, dizendo-lhe ´que por quanto os feitos de seus irm„os n„o estavam em Castella n'aquelle assessego que convinha para n'elles de certo remedio ter firme esperanÁa, que em tanto temperasse e dessimulasse c· a seus negocios o melhor que podesse; porque concertados os dos Infantes em Castella, em Portugal se faria dos seus o que ella desejava.ª
CAPITULO LIV
_De como se entendeu na redempÁ„o do Infante D. Fernando, e do que se seguiu_
E porque n„o pareÁa que a redempÁ„o e soltura do Infante D. Fernando, depois da morte d'El-Rei seu irm„o se esqueceu, È de saber, que com todalas mudanÁas e divisıes passadas entre a Rainha e o Infante D. Pedro, sempre d'elles foi muito lembrada e negociada, cuja deliberaÁ„o foi muitas vezes aos mouros cometida por grande somma de dinheiro ou de captivos, e por outras maneiras. Nas quaes elles n„o quizeram nunca entender, e se mostravam que entendiam, logo se mudavam em outras sentenÁas, afirmando-se finalmente que lhes dessem Ceuta segundo fÛrma do contrato que o Infante D. Anrique e os outros capit„es do palanque de Tangere com elles fizeram. Pelo qual a Rainha e o Infante D. Pedro ante de seus desvairos, por se satisfazer ao Infante D. Fernando e cumprir a vontade d'ElRei D. Duarte, que em seu testamento o leixara muito encommendado, determinaram com os do conselho, e houveram por bem, que pospostas amoestaÁıes do Papa e conselhos de muitos Principes christ„os que o contrariavam, que Ceuta todavia se desse por elle, e sobre isso passaram em nome d'El-Rei as cartas e procuraÁıes necessarias, assignadas por ambos, com as quaes foram por embaixadores Martim de Tavora, reposteiro mÛr d'El-Rei, e o licenceado Gomes Eanes, desembargador na casa do civel.
E em chegando a Arzilla acertou-se que morreu «alabenÁala, que fÙra senhor de Ceuta ao tempo que se tomou, e a este tempo era alcaide de Tangere e Arzilla, com o qual os ditos embaixadores haviam de tratar. Depois de sua morte ficou seu irm„o Muley Buquer portector do filho maior do dito «alabenÁala, o qual seu filho tambem por dependencia do mesmo caso do cerco de Tangere era captivo, e fÙra dado por arrefens em Portugal.
E querendo os embaixadores entender com elle no negocio, certificando-o da abastanÁa do poder d'El-Rei que para o caso levavam, elle se escusou dizendo:
´Christ„os, sabei que Ceuta È tamanha cousa, que em quanto D. Fernando conde de Villa Real, capit„o d'ella fÙr terceiro para a entregar, nunca crerei que vÛs trazeis desejo d'alguma certo conclus„o, c· por elle n„o perder tal senhorio com tanta honra como agora em Ceuta tem, bem sei que mostrando que n„o desobedece a vosso Rei e seus governadores, sempre buscar· corados achaques e cautellas para a nunca entregarª.
E depois de os embaixadores lhe desfazerem com razıes sua opini„o e haverem entre si sobre o caso muitas altercaÁıes, finalmente se concordaram ´que Muley Buquer notificasse a vinda dos embaixadores a Muley Buzaceri, Rei de Fez, em cujo poder o Infante estava, e que se n'este feito desejava boa conclus„o, que tornasse o Infante a Arzilla, e como alli fosse, se o conde D. Fernando logo por elle n„o entregasse Ceuta como era concordado, que ent„o se teriam outros meios com que sem escusa se fizesseª. D'esta conclus„o foi o mouro contente; sÛmente disse ´que emquanto elle n'isto entendia, elles se viessem a este reino e com El-Rei procurassem que da sua tornada em Africa viesse logo com elles outra pessoa, e com taes provisıes a que Ceuta logo se entregasse e tirasse do poder o condeª.
Com este apontamento se tornaram os embaixadores, e por acharem a Rainha e o Infante D. Pedro no meio dos mÛres desvairos sobre o Regimento, sobre-esteve o negocio atÈ sem contenda se dar inteiramente ao Infante como j· disse, o qual ouviu logo os ditos embaixadores em conselho, onde foi determinado por algumas causas em que se fundaram, mais de piedade do dito Infante que de honra do reino, que Ceuta sem mais debate se desse por elle.
E por quanto a duvida de Muley Buquer, quando lhe pareceu que o conde D. Fernando, por n„o perder tal governanÁa retardaria a entrega de Ceuta se houve por razoada, acordaram que a D. Fernando de Castro, Governador da casa do Infante D. Anrique, e a D. Alvaro seu filho, a ambos e a cada um fosse entregue a cidade, e n'ella estivessem para a darem, e receberem por ella o dito Infante, e que a este reino se viesse o conde D. Fernando, a quem se daria por a capitania e governanÁa d'ella sua dina satisfaÁ„o, e que Martim de Tavora e o licenceado estivessem por negoceadores em Arzilla.
D. Fernando de Castro era homem de nobre sangue, prudente, e de grande conselho, e tinha boa fazenda; e porque houve este encargo por de muita honra para si e sua linhagem, ordenou sua ida para o mar e para a terra, o mais perfeita e honradamente que pÙde. Especialmente o moveu a isso com maior cuidado e diligencia levar esperanÁa que o Infante D. Fernando havia de casar com uma de suas filhas, de que estando em Fez lhe enviara sua certid„o, consirando que seu conselho e auctoridade lhe podia por isso em sua deliberaÁ„o muito aproveitar, e D. Fernando para o mais obrigar havendo sua soltura por certa, lhe levava feitos · sua custa todolos corregimentos que para a pessÙa, cama e mesa de um tal Princepe eram pertencentes. E assi levava navios sobresalentes para o Infante e o conde, e os moradores de Ceuta n'elles se virem, alÈm d'outros em que para sua seguranÁa levava mil e duzentos homens, entre os quaes iam muitos fidalgos e gentis homens da casa d'El-Rei e dos Infantes, e com tudo prestes, partiu D. Fernando de Lisboa no mez d'Abril de mil e quatrocentos e quarenta e um, com vento de boa viagem. E indo os navios de sua companhia espalhados pelo mar: alÈm do Cabo de S„o Vicente, acertou-se que uma carraca de Genoa, que andava d'armada, veiu demandar e afferrar o navio em que o dito D. Fernando ia, o qual como quer que logo por razıes d'amizade e depois com armas e grande esforÁo quanto foi possivel se defendesse, finalmente o navio com a mais forÁa da carraca foi entrado e roubado, e D. Fernando acabou n'elle sua vida de uma bombarda, e os genoeses achando-se com tal rica presa, receiosos da emmenda, porque a outra frota j· vinha sobr'elles, meteram suas vellas e tomaram o mar por sua salvaÁ„o. E quando os outros navios da conserva acudiram sobre o navio do capit„o e o acharam morto, vendo que a vinganÁa de sua morte j· n„o estava em seu poder, tornaram-se a Tavila, onde em S„o Francisco enterraram seu corpo, com assaz honra e lagrimas.
D. Alvaro seu filho a que a capitania e negocio do Infante ficava encommendada, sem alguma mais detenÁa se foi d'hi a Ceuta, d'onde escreveu ao Regente o triste caso passado, pedindo-lhe ordenanÁa e provis„o para o futuro. E posto que ent„o fosse mancebo, por haver n'elle muita discriÁ„o, foi-lhe respondido com abastante commiss„o para o acabar como D. Fernando seu pae: mas Lazaraque-Martin governador d'El-Rei de Fez, n„o sÛmente n„o deu logar que o Infante fosse tirado de Fez para Arzilla, ou para algum outro poder, como por Muley Buquer lhe fÙra j· requerido, mas ainda quando depois soube que a vontade d'El-Rei e do Regente era que todavia Ceuta se desse, e que o conde D. Fernando se fosse, para que D. Alvaro de Castro com poderes abastantes era vindo, disse ´que era contente se lh'a entregassem primeiro, e que para seguranÁa dos christ„os, elle por Mafamede e por sua Lei faria juramento, em que como d'ella fosse apoderado, logo entregaria o Infante D. Fernando, e que esta era seguranÁa assi abastante e segura para os christ„os, que com ella n„o deviam ter d'elle receio nem sospeita algumaª!
Mas porque sua fianÁa por suas maldades, pouca verdade e tirania, se houve por duvidosa, n„o foi raz„o acceitar-se seu meio. E como quer que outros muitos seguros meios e mui razoados lhe fossem apontados, nunca em algum d'elles quiz condescender. E o que de sua contrariedade e contumacia se pÙde n'este caso verdadeiramente entender, foi que claramente lhe pesava entregar-se Ceuta aos mouros, e nos modos que sempre teve para se n„o acabar pareceu mui claro que a causa d'isto era, porque com a necessidade da guerra de Ceuta ocupava assi os sentidos do povo infiel, que lhe n„o dava lugar acabarem de poder entender e remediar os grandes males de sua tirania. Da qual cousa sendo o Regente certificado, havendo a negociaÁ„o por escusada, mandou a D. Alvaro e aos embaixadores que se viessem ao reino, como vieram, com fundamento de se consultar algum outro remedio para a deliberaÁ„o do Infante. A qual como quer que o Infante D. Pedro, segundo suas mostranÁas e continuas diligencias, pareceu que sobre todalas cousas desejava, nunca porÈm sobre ella se apontou e requereu meio por evidente que fosse, que podesse vir a effeito.
CAPITULO LV
_Como a Rainha D. Lianor se partiu de Cintra para Almeirim contra vontade d'El-Rei e dos Infantes, e como se El-Rei foi a Santarem, e do que se seguiu_