Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)
Chapter 6
´A mim prazera, respondeu a Rainha ir ·s cÙrtes como requereis, se ante d'ellas as cidades e villas do reino revogarem a enleiÁ„o do Regimento que tem feita ao Infante D. Pedro, e elle a renunciar. E mais por quanto alguns fidalgos e outras pessoas por juramento s„o obrigados, assi a mim como a elle, de sosterem a parte que seguirmos, È bem que tudo isto se revogue, para uns e outros poderem livremente dizer e conselhar o que lhes parecer serviÁo de Deus e d'El-Eei meu filho Senhor, e bem de seus reinos. E se isto primeiro assi se n„o faz, eu por alguma maneira n„o irei ·s cÙrtes.ª
Com esta resposta assignada pela Rainha se partiu o conde para Coimbra, onde achou sÛmente o Infante D. Pedro. O qual depois de a vÍr, disse:
´A inclinaÁ„o que os povos sem mim e meu requerimento acordaram, elles pois tem o poder se o assi houverem por bem a revoguem. E para isso È mais raz„o e mÛr necessidade que a Rainha v· ·s cÙrtes, onde por ella e por aquelles que seguem sua vontade se poder· acerca d'isso requerer o que lhes parecer direito e justiÁa, e eu o n„o contradirei. C· em caso que quizesse, hi haver· taes pessoas para sostimento de tamanha justiÁa e honestidade, que minha resistencia aproveitaria pouco. E quanto ao juramento de que aponta que releve os que seguem minha parte, seja certa que com verdade nunca se achar· um sÛ, que para tal obrigaÁ„o me seja obrigado, e se alguns o s„o, n„o È por semelhante forÁa, nem contra suas vontades, mas sÛmente por criaÁ„o ou bemfeitoria que de mim tem recebido.ª
O conde de Barcellos se foi logo a Guimar„es, onde fez ajuntar D. Sancho, e o Arcebispo de Braga, e Vasco Fernandes, e Martim Vaz da Cunha, e Pero Gomez d'Abreu, e Lionel de Lima, e Alvaro Pirez de Tavora, e Luiz Alvarez de Souza, que segundo geral opini„o seguiam todos a parte da Rainha, e com elles concertou que escusassem sua ida ·s cÙrtes, posto que elle fosse, e que em qualquer forma que a qualquer parte ficasse o Regimento, sempre seria com seguranÁa de suas honras, e esperanÁa de mais seu acrecentamento.
CAPITULO XLV
_Recado da Rainha ao Infante D. Pedro quando de Coimbra vinha para Lisboa ·s cÙrtes_
O Infante D. Pedro partiu de Coimbra para Lisboa, e com elle ·lem dos de sua casa, Jo„o Gomez da Silva, e D. Fernando de Menezes, e Alvaro GonÁalves de Tayde, e D. Fadrique de Castro, e Fern„o Coutinho, irm„o do marechal, e GonÁalo Vaz Coutinho, meirinho mÛr, e Pero de Lemos, e Jo„o de Tayde, senhor de Pena Cova, e a gente do Bispo de Coimbra, que faziam numero de mil e oitocentos homens de cavallo, e dois mil e seiscentos de pÈ, da qual cousa a Rainha foi avisada, e sendo certificada que o Infante havia de Torres Vedras ir a Alanquer para comsigo segundo diziam levar logo El-Rei ·s cÙrtes, e receosa de assi ser, pelo desviar de tal proposito enviou a elle Anrique Pereira, que o topou em Alfazeir„o, pedindo-lhe ´que na maneira em que ia escusasse sua ida onde El-Rei e ella e seus filhos estavam, assi porque pareceria desacatamento, estando elles t„o sÛs, como por a villa n„o ser capaz de seu aposentamento, e menos bastante para os manter. E que se sua ida assi era necessaria, que se n„o podia escusar, que quizesse ir muito aforrado.ª
Como o Infante isto ouviu disse:
´Anrique Pereira, vossa vinda sobre tal caso fÙra bem escusada, e verdadeiramente assi me salteam estes accidentes, que n„o sei que vos responda, sÛmente dizei · Senhora Rainha, que me doem muito estas sospeitas, e porÈm saiba que dos que se mais mostram a seu serviÁo, se deve mais guardar, pois t„o erradamente a aconselham, e mais contra mim que desejo mais de a servir que a nojar. E que n„o fallo no que cumpre ao estado e serviÁo d'El-Rei meu Senhor; porque em desejar de o lealmente servir e amar, n„o darei avantagem a nenhum do mundo.
E com este recado se tornou Anrique Pereira · Rainha.
Seguiu o Infante sua viagem atÈ o Lumiar, onde a petitorio dos da cidade de Lisboa, que ante de sua entrada quizeram fallar primeiro com elle, sobre-esteve alguns dias. Aos quaes com palavras de grande aguardecimento e mercÍs, tendo respondido, despediu a gente que com elle viera, leixando sÛmente os seus continos e alguns que para as cÙrtes vinham ordenados.
Lisboa porque seus accordos eram mui difficeis, e para os particulares n„o havia perfeita auctoridade, deputou doze cidad„os, a que por consentimento de todos o conselho e deliberaÁ„o de todalas cousas de peso, que ent„o occorriam foi comettido. Os quaes juntos sustancialmente accordaram que o Infante fosse logo declarado por Regedor in solido, sem outra ajuda nem companhia, atÈ El-Rei ser em idade de per si o poder reger. E este accordo foi publicado a todo o povo no refeitorio de S. Domingos, onde logo com vozes e signaes de todos foi sem contradiÁ„o approvado e consentido.
E os cidad„os enviaram logo ao Infante Pero de Serpa, e Martim «apata, e Ruy Gomez da Gr„, e Jo„o Carreiro a notificar-lhe o accordo passado, e pedir-lhe que ao outro dia quizesse entrar e ser seu hospede, com fundamento, que primeiro havia de prometter e jurar que logo sÛ sem outra companhia nem ajuda comeÁasse uzar do Regimento inteiramente. O Infante depois de lhes aguardecer sua ida e tenÁ„o, lhes disse:
´Amigos, sabei que n'este caso acordastes mais o que quizestes, que o que devieis; porque eu n'elle para o que a mim cumpre tambem n„o posso fazer se n„o o que devo, que È d'este cargo n„o me antremeter assi absolutamente, sem meus irm„os e sobrinhos, e sem os procuradores dos tres Estados que para isso s„o chamados. Porque do contrairo, a uns ser· desacatamento, e a outros causaria escandalo. Pelo qual me parece que a triganÁa para isso n„o È agora necessaria; mas que deveis sobre-ser atÈ as cÙrtes que ser„o logo. E o que n'ellas se accordar e determinar, isso ser· o que se ent„o deve fazer e cumprirª.
´Senhor, disseram elles, essas justificaÁıes de que vossa honestidade se acautella, bem era que cessem assi; mas ellas para este caso j· s„o feitas; porque das cidades e villas, que n'elle h„o de dar voz, aqui temos por suas cartas seus consentimentos. E para o cumprimento de vossos irm„os, aqui tendes vosso irm„o o Infante D. Jo„o que o requere assi e ha por bem. E com os outros j· fallastes, que o n„o contradizem. E por tanto Senhor, vos pedimos que n„o alongueis o que vos t„o justa e devidamente offerecemos. Nem deis causa que de vossa escusa se sigam alvoroÁos e desconcertos de povo, que ser„o depois impossiveis, ou mui trabalhosos de concertar.ª
CAPITULO XLVI
_Entrada do Infante D. Pedro em Lisboa, e como ante as cÙrtes acceitou o Regimento_
E como quer que da vontade do Infante fosse todavia leixar tudo para determinaÁ„o das cÙrtes. PorÈm vendo-se constrangido dos cidad„os, teve conselho com esses principaes que trazia, dos quaes todos foi aconselhado, que ao outro dia entrasse na cidade e fizesse o que ella lhes requeria, pois o contrairo pelas cousas que eram j· n'isso passadas, n„o contradizia a honestidade nem raz„o. Pelo qual o Infante consentiu no entrar ao outro dia. E defendeu a solemne prociss„o e outros grandes estrondos e cerimonias com que ordenavam de o receber. Mas que seu recebimento fosse sÛmente ao costumado que lhe sohiam fazer sem outra ennovaÁ„o.
Ao outro dia entrou o Infante, sendo no caminho recebido do Infante D. Jo„o e de todolos fidalgos e pessoas de conta da cidade com gram prazer e alegria. E assi foi levado ·s casas do Mestre d'Aviz, que est„o junto com a SÈ, onde pousou.
E ao outro dia, dia de Todolos Santos, foi ouvir missa · SÈ, onde lhe foi requerido que o juramento que a cidade tinha acordado, elle o fizesse, como logo fez, nas m„os de D. Alvaro d'Abreu, Bispo d'Evora, onde publicamente jurou e prometeu com as m„os postas sobre os Evangelhos e Cruz, de bem e lealmente reger e defender estes reinos em nome d'El-Rei D. Affonso seu Senhor, atÈ ser em disposiÁ„o de os per si poder reger e defender, e que ent„o lh'os entregaria livremente e sem contradiÁ„o nem cautella, e o serviria sempre com amor e lealdade, como bom e leal vassallo.
Tardou o ajuntamento das cÙrtes atÈ os dez dias de Dezembro, onde os Infantes com todolos procuradores sendo juntos nos PaÁos d'AlcaÁova, o Infante D. Jo„o se levantou em pÈ e disse que algumas cousas que a todos ali queria propoer por serviÁo de Deus e d'El-Rei, e bem do reino, por n„o estar por ent„o em disposiÁ„o de per si as poder dizer, encomendou ao doutor Diogo Affonso Mangancha que por elle as dissesse, pedindo-lhes que logo o ouvissem.
O doutor que era presente, cessando todo o rumor, propoz uma arenga grande e bem dita, cuja sustancia foi aprovar em nome do Infante D. Jo„o, que fÙra bem feito enleger o Infante D. Pedro por sÛ Regedor, contradizendo o accordo e determinaÁ„o das cÙrtes de Torres Novas, em que o Infante n„o fÙra, e de si mostrou com claras razıes, aprovadas por Direito Divino e Humano, e autorizadas por claros exemplos, que mulher n„o devia ter Regimento. Nem que dois em companhia n„o deviam reger; mas um sÛ, e para ser um sÛ devia ser o Infante D. Pedro, e que a Rainha servissem e acatassem todos como era raz„o e o requeria ser mulher e madre de taes dois reis, sangue e virtudes que tinha.
Foi por todos geralmente consentido na proposiÁ„o do doutor, e aprovaram sem contradiÁ„o o Infante D. Pedro haver sÛ de reger, de que se fez um accordo que testemunharam quatro notairos que a todo eram presentes, Lopo Affonso e Ruy Galv„o, e Martim Gil, e GonÁallo Botelho, officiaes da camara e fazenda de El-Rei. O qual accordo foi logo por todos alli assignado, salvo pelo conde d'Arrayollos, que se escusou de o assignar, nem chamou depois ao Infante Regente, mas seu nome; como quer que obedecesse a seus mandados inteiramente, e melhor que alguns que o enlegeram e assignaram.
Foi isso mesmo acordado que o Infante fizesse como fez, juramento na fÛrma do passado, de reger bem o reino e o entregar livremente a El-Rei, como fosse em edade e disposiÁ„o de o por si reger e deffender. E certo o Infante D. Pedro o fez assi sempre bem, e como devia, que para ser louvado sobre todolos Principes de seu tempo, n„o lhe falleceu se n„o ser Rei; porque em Regedor n„o dava assi as cousas · inteira execuÁ„o que se requeria. E tudo por temperanÁa e assessego do reino, e por evitar escandalos, odios, invejas a que n„o pÙde fugir, c· em fim o encalÁaram com a morte, e com quebra de seu estado, como adiante se dir·.
CAPITULO XLVII
_NotificaÁ„o do acordo passado · Rainha, que o n„o consentiu_
O Infante D. Pedro por si sÛ, e des-hi os outros infantes, condes e fidalgos e procuradores das cidades e villas que foram presentes, por suas cartas notificaram logo · Rainha que estava em Alanquer, todo o passado, com razıes e fundamentos de serviÁo de Deus e d'El-Rei, e grande descanÁo d'ella. Pedindo-lhe todos com muito acatamento que o houvesse assi por bem e quizesse trazer El-Rei · cidade para lhe ser feita a reverenÁa que lhe todos deviam e desejavam fazer. E para em sua presenÁa se tratarem algumas cousas, que a seu estado e serviÁo, e bem de seus reinos convinham.
Com este recado o Infante enviou · Rainha Alvaro GonÁalvez de Tayde, governador de sua casa, homem prudente e bem razoado, e de que muito fiava.
A Rainha recebeu a messagem com signaes de grande tristeza, e por conselho dos que com ella eram, sustancialmente respondeu _que se os Senhores Infantes, condes e povo, revogassem a enleiÁ„o do Regimento, que era feito ao Infante, e o dessem a ella como eram obrigados, seria contente levar El-Rei · cidade. E d'outra maneira que o n„o faria_. E ao dar da resposta tomou d'isto estromentos por seu resguardo.
Tornou-se Alvaro GonÁalez aos Infantes com esta resposta, e vendo-a contraira a sua determinaÁ„o, acordaram de enviar a ella com a mesma sustancia Affonso Nogueira, que depois foi Arcebispo de Lisboa, e o ministro de S. Francisco, confessor d'El-Rei, como pessoas esprituaes, e de boas conciencias, os quaes como quer que para a commoverem a consentir no passado lhe dissessem causas e razıes para Deus e para o mundo assaz evidentes, ella forÁada por ventura de sua fraca humanidade, ou dos errados conselheiros, que em contrairo tinha ouvido, acusou com palavras mui honestas a si mesma, e a dureza de sua conciencia por o n„o poder fazer. E em fim nem consentiu em o Regimento lhe ser tirado, nem de levar El-Rei, nem dar lugar que fosse por outrem levado a Lisboa, com quanto lhe fossem feitas grandes seguranÁas de logo El-Rei lhe ser tornado, como na cidade estivesse alguns dias.
CAPITULO XLVIII
_Ida do Infante D. Anrique · Rainha para leixar vir El-Rei ·s cÙrtes, e lh'o tornarem_
Com este recado foram os Infantes mui descontentes, e o povo mui alvoraÁado, e leixadas muitas praticas e tenÁıes que se moveram, finalmente foi acordado que o Infante D. Anrique por derradeiro e principal cumprimento fosse sobre o mesmo caso a ella, como foi.
E apartados ambos, o Infante lhe fez uma falla, em que obrou tanto sua virtuosa tenÁ„o e bom proposito com que ia, que demoveu a Rainha ao que desejava. D'onde foi de crÍr, segundo era virtuosa e amiga de Deus, que se conselheiros apassionados a n„o torvaram, ella e sua vida e estado conseguiram outro fim de mais sua honra e descanso.
Ao outro dia partiu d'Alanquer o Infante D. Anrique com El-Rei e com a Rainha e Principe, para Santo Antonio, camara do Arcebispado de Lisboa, e o Infante D. Pedro, sabendo que a Rainha n„o resistiria ao Infante D. Anrique, e viria ao que elle quizesse e levava ordenado lhe requerer, se foi de Lisboa a Alverca, d'onde sahiu ao caminho, e com grande acatamento beijou as m„os a El-Rei e · Rainha, como quer que ella se quizera d'isso muito escusar, e assi cheg·ram a Santo Antonio bespora de Natal, onde foi acordado que El-Rei e a Rainha tivessem a festa. A qual passada, os Infantes todos tres foram por El-Rei e por o Principe seu irm„o. Dando primeiro · Rainha seguranÁa por seus assignados, de logo lhe tornarem El-Rei a seu poder, criaÁ„o e governaÁa.
CAPITULO XLIX
_Entrada d'El-Rei em Lisboa para as cÙrtes_
Veiu El-Rei por agua atÈ Lisboa e foi recebido · Porta d'Oura, e d'alli levado · SÈ e aos PaÁos d'AlcaÁova. Indo El-Rei e seu irm„o e os Infantes sÛmente a cavallo, e os condes e outros senhores foram todos ante elles, e esse recebimento foi com tantas cerimonias d'acatamento, obediencia e alegrias assi celebrado, que em qualquer parte do mundo onde mui altamente recebimentos se costumassem fazer, este fÙra mui muito louvado, e o Infante D. Pedro foi sÛ o que poz El-Rei a cavallo e o deceu. O que n„o sÛmente fez aquelle dia, com assignado acatamento e leal obediencia e grande reverencia, mas sempre depois o continuou e acrecentou, em dez annos que por elle regeu seus Reinos. C· por si o serviu e fez aos outros servir com tamanho cumprimento de seu estado e serviÁo que se n„o pÛde dizer que outro algum Principe fosse melhor criado no mundo, nem ensinado.
Mandou logo o Infante D. Pedro a Ruy GonÁalves de Castel-Branco, vÈdor que fÙra d'El-Rei D. Duarte, que fizesse nos paÁos correger em grande perfeiÁ„o a salla em que El-Rei havia d'estar nas cÙrtes. E concordado o dia, que foi aos dez dias de Dezembro de quatro centos e XXXIX, e assentado El-Rei em sua cadeira, e acompanhado de senhores e officiaes, como para auto t„o real convinha e se acostumava, o doutor Diogo Affonso Mangancha propoz a arenga em nome d'El-Rei ao povo, cuja principal sustancia foi: ´aprovar e confirmar a enleiÁ„o por elles feita de o Infante D. Pedro para por elle reger, e agardecer-lhes e prometer-lhes mercÍs, honras e liberdades pela assi fazerem, e assi encommendar ao Infante que o fizesse assi bem e direitamente, como d'elle confiava, e mandar a todos que lh'obedecessem, como · sua propria pessÙaª.
E em acabando o doutor, o Infante D. Pedro com os giolhos em terra beijou a m„o a El-Rei, e sua Senhoria lhe entregou logo um p·o em que estava atado o sello secreto, em signal e nome de poderio. E como se deu fim a estas cousas, foi logo El-Rei tornado · Rainha sua madre, segando pelos Infantes lhe fÙra prometido.
O Infante D. Pedro na casa das cÙrtes fez logo ajuntar os do povo e alguns do conselho, e sendo entre elles em pÈ, lhes disse com muita gravidade:--´que pelo grande cargo do Regimento que lhe fÙra encommendado, era necessario elle fazer de si outro homemª.--Pelo qual lhe fez alguns avisados amoestamentos, em signal de sua grande bondade e muita prudencia, para os que bem e direitamente vivessem esperassem d'elle em nome d'El-Rei seu Senhor, bem e mercÍ, e assi pena e castigo aos que o contrairo fizessem, encommendando-lhes outrosi que o amassem e lhe obedecessem, e quizessem ajuda-lo e deffende-lo com seus corpos e fazendas, assi como elle faria a elles mesmos quando lhes cumprisse. E principalmente que confiassem d'elle que todo o que fizesse seria afim de bem e justiÁa, em caso que lhes parecesse o contrairo. ¡s quaes cousas lhe foi por um deputado respondido, conforme a sua tenÁ„o e petitorio, e o Infante descobrindo sua cabeÁa lh'o agardeceu.
O conde de Barcellos mostrava d'este feito n„o ser contente, e desejoso de haver para si alguma parte do Regimento, e por enfraquecer ao Infante seu poder fez e ordenou certos capitulos em fÛrma de Regimento, que o Infante havia de ter em sua governanÁa. Pelos quaes todolos feitos principaes tirava de seu juizo e os remetia ·s cÙrtes, que cada anno apontava que se fizessem. O qual Regimento mostrado aos procuradores dos povos, houveram por escusado ennovar-se mais do que tinham acordado, e El-Rei aprovado. De que o conde mostrou ser ass·z descontente, e comeÁou logo de requerer a restituiÁ„o da posse do Arcebispado ao Arcebispo D. Pedro seu cunhado; e porque n„o podia ser sem prazer e consentimento dos cidad„os, que d'elle tinham apellado para Roma, o Infante D. Pedro por contentar e assessegar vontades contrairas, e tirar inconvenientes e torvaÁıas a seu regimento, e assi tambem o Infante D. Jo„o, entenderam e trabalharam n'isto muito com diligencias, que pareciam verdadeiras e n„o fingidas. E em fim a cidade por Pero de Serpa seu cidad„o, se escusou de o consentir com muitas razıes, em que pareceu que n„o fallecia serviÁo de Deus, honestidade e muita justiÁa. Afirmando, que todavia haviam de seguir sua appellaÁ„o, durando a qual seria o Arcebispo suspenso, e trabalhariam porque fosse privado, e por esta dureza que os infantes acharam nos cidad„os, pela mais n„o agravar, houveram por bem leixar por ent„o este requerimento, esperando que depois se faria melhor, como fez. De que o conde de Barcellos n„o sÛmente contra os cidad„os, mas contra o Infante principalmente, mostrou grande sentimento, parecendo-lhe que por sua conjuntura e prazer a cidade tinha aquelle esforÁo de resistir.
A estas cÙrtes entre as outras graÁas e liberdades que o Infante D. Pedro em nome d'El Rei outorgou ao povo, foi que n„o houvesse aposentadoria em Lisboa, fazendo estados e casas, em que se El-Rei e sua cÙrte podessem alojar; e depois se deu assi a Evora e Santarem.
CAPITULO L
_De como se apontou e aprovou n„o ser bem El-Rei se criar em poder da Rainha_
Estando j· as cÙrtes e despachos d'ellas em conclus„o para os procuradores se poderem ir, um Jo„o GonÁalvez, procurador da cidade do Porto, com outro seu parceiro se foram · camara de Lisboa, sendo os officiaes d'ella em vereaÁ„o. E cuidando os da cidade que iam despedir-se d'elles, como era de cortesia e custume, Jo„o GonÁalves disse:
´Senhores, a mim e a meu parceiro parece, que vÛs e todolos outros nossos irm„os e parceiros, que em nome do reino a estas cortes viemos, as daes j· por acabadas. E certo muitas cousas, mercÍs a Deus, se concludiram n'ellas; porque El-Rei nosso Senhor È mui servido, e nÛs contentes. PorÈm a principal ficou por requerer e fazer. Sem a qual, todo o que se fez a nosso parecer È nada ou aproveita muito poucoª.
Os cidad„os enleados de sua proposiÁ„o, sabendo que era homem d'autoridade, cessaram de suas praticas em que estavam, e seguraram os rostos e as vontades para o ouvir. O qual proseguindo disse:
´Porque concludindo brevemente meu proposito, digo-vos que por se escusarem muitos danos e grandes inconvenientes que se n„o escusam, El-Rei n„o deve ficar em poder da Rainha como est·, e alguns apontarei e os outros mais vÛs por vossa discriÁ„o e saber os entendei. Primeiramente a criaÁ„o d'El-Rei por ser em poder de mulher, È a elle mui danosa, e sempre por isso ficar· fraco e feminado. Que para qualquer homem privado È aleij„o sobre todos, quanto mais para Rei. E se as comparaÁıes n„o fossem odiosas, e isto n„o fosse t„o claro, por exemplos bem vo-lo poderia provar. Outrosi de sua creaÁ„o, por tal maneira est· mui evidente o perigo do Infante D. Pedro Regente, e tambem nosso; porque segundo a Senhora Rainha, isto que acordamos sente por sua deshonra e grande quebra de seu estado, como em suas cartas e protestaÁıes parece claro, n„o È duvidar que criaria El-Rei em odio contra o Regente e contra nÛs, de que ao diante poderia por isso commeter uma grande crueldade, em que n„o haveria remedio. Porque como naturalmente aquellas cousas que os moÁos recebem na tenra edade se lhe emprantam no coraÁ„o e em sua memoria para sempre, esta principalmente se lhe emprantaria muito mais, por lhe ser dita t„o a meude, e com tantas lagrimas. Outro dano È a que se deve atalhar o crecimento de despezas desordenadas, a que as rendas do reino n„o bast·ram. C· umas s„o necessarias ao Regente para manter seu estado e do reino, e outras cumprem de necessidade a El-Rei e a seu irm„o, e outras · Rainha e suas filhas. Com outros inconvenientes que agora s„o escusados apontarem-seª.
Aos cidad„os pareceu bem o motivo de Jo„o GonÁalves, e fizeram logo avisar os outros procuradores, que logo · tarde foram hi juntos, onde depois de havidas algumas praticas e altercaÁıes sobre o caso, accordaram que El-Rei e seu irm„o deviam todavia ficar em poder do Infante D. Pedro. Ao qual d'este accordo logo avisaram, pedindo-lhe que o quizesse assi consultar com os Infantes seus irm„os, com os quaes ordenasse que se cumprisse.
O Regente depois de ouvir dois cidad„os que a elle sobr'isso foram, lhes respondeu:
´Dizei aos cidad„os e procuradores, que lhes rogo muito que cessem d'este movimento, e n„o me daria persumir-se que eu n'elle cabia por principal, se fÙsse devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na verdade ei por muito melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irm„o em poder de sua madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua consolaÁ„o e contentamento como È raz„o e est· concordado, como tambem por mais minha seguranÁa e descargo, e sua Senhoria moÁo È, e sujeito como todos a enfermidades e casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor n„o queira e o defenda, È certo que seria com grande minha tristeza e muita pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e d'hi ·vante eu com este cargo tenho tantas cousas em que entender, que a essa n„o poderia satisfazer como a ella requere e È raz„o; e que podesse, sabei que queria fugir aos odios dos aios, que eu com tal cargo n„o posso escusar, especialmente refreando El-Rei e seu irm„o em cousas a que sua mocidade os inclinar·, em que por ventura mereceram mais emmenda e reprens„o que louvor.ª
Os cidad„os lhe replicaram: