Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)
Chapter 4
E sendo n'aquelle dia por aviamento e rogo do conde juntos no mosteiro quasi todolos da cidade, Frei Vasco comeÁou seu serm„o, e por ser servidor da Rainha e ·s cousas de seu serviÁo mais inclinado, esquecido do aviso que lhe fÙra dado d'amansar o povo com esperanÁa de bem, tocou o caso e revoltas da cidade com tanta reprens„o dos cidad„os e povo d'ella, que com altas exclamaÁıes os chamava ingratos e desleaes, trazendo-lhes ·s memorias entre outros exemplos, a pena que os cidad„os de Bruges mereceram e houveram pela desobediencia e traiÁ„o que cometteram contra o duque Filippe.
E estando j· todo o povo mui descontente e escandalisado das palavras de Frei Vasco, um barbeiro em meia voz, e com rostro iroso disse contra os que junto com elle estavam:
´E como egual È o nosso caso dos framengos, que quizeram matar seu principe e Senhor?--NÛs n„o somos tredores mas mui leaes, e n„o havemos de matar nosso Rei e Senhor; mas porque o amamos havemos todos de morrer por elle, quando lhe cumprir: mas certo este frade alguma cousa tem sentida: porque nos pıe esta raiva.ª
E estas palavras com algum rumor comeÁaram ir de puridade em puridade pelas orelhas de muitos do povo, os quaes assi como as ouviam assi volviam logo os olhos de sanha contra o frade, e com mostranÁas de tanta indinaÁ„o, que elle sentindo seu alvoroÁo, por se n„o vÍr em perigo, desamparou sem conclus„o o pulpito, e se acolheu ao mosteiro.
O conde d'Arrayollos foi mui descontente do prÈgador, por errar em todo a sustancia de seu proposito, e do que era para o tempo necessario. E vendo que para amansar o povo j· lhe n„o ficava remedio para o fazer, e que sua estada d'hi em deante lhe faria abatimento, se partiu da cidade, e foi · Rainha dar-lhe de tudo conta.
E o povo depois de comer n„o esquecido do escandalo do serm„o foram ao mosteiro e disseram ao priol que logo lanÁasse Frei Vasco fÛra d'elle, se n„o que o derribariam e queimariam. E o priol aconselhado da necessidade do tempo assi o fez; e o prÈgador se salvou secretamente.
CAPITULO XXVI
_Como o Infante D. Pedro foi a Lisboa reprender e assessegar as uniıes da cidade_
O Infante D. Pedro estava em Camarate como j· disse, e sabendo que a ida do conde seu sobrinho · cidade nas revoltas d'ella n„o aproveitara, desejando poelas em assessego se foi l·; e no mosteiro do Carmo onde pousou fez logo ajuntar os principaes da cidade com os officiaes da Camara, e com a cara grave e palavras de grande autoridade sustancialmente os reprendeu de suas uniıes e alevantamentos, com que faziam doÈsta · Rainha e a elle e a todolos que tinham cargo de reger por El-Rei o reino; e que por isso tinham merecido aspero castigo, e o mereciam maior se o n„o atalhassem; e que, se sobre aggravos que tivessem recebidos queriam requerer suas liberdades e direito, que o fizessem por outra maneira como subditos, e que seriam bem ouvidos; e n„o com presumpÁ„o de superiores, de poer e despoer Regedor · sua vontade, como diziam, tocando-lhe sobr'isto muitas e notaveis razıes conformes a este proposito, as quaes alguns tomaram que n„o sahiram verdadeiramente de sua vontade; porque tinham concebido que lhe n„o pesava de semelhantes movimentos por serem contra o Regimento da Rainha e com fundamento de elle o ter; mas a determinaÁ„o d'este juizo fique sÛmente a Deus que o soube.
Os cidad„os, depois de ouvido o Infante, lhe responderam mui mansamente, tendo-lhe em mercÍ aconselha-los bem; e d'es-hi asolvendo-se como melhor podÈram dos alevantamentos passados, especialmente no caso dos varejos, em que houveram respeito a n„o serem os mercadores da cidade pela execuÁ„o d'elles destruidos, e assi em quererem ·quelle escriv„o, que persumiram ser inventor, dar tal castigo, que outros por seu exemplo semelhantes cousas n„o inventassem, pedindo ao Infante que em seus trabalhos e aggravos os quizesse ajudar e favorecer, obrigando-o para isso com razıes assaz honestas e boas. Onde logo por um dos procuradores dos mestres foi apontado que as divisıes e escandalos n„o nasciam no reino, salvo por o Regimento d'elle ser repartido por muitos, e que para bem ser, ou havia de ficar sÛmente · Rainha ou a elle, allegando do contrairo muitos inconvenientes n„o sem fundamentos de raz„o, como cousa em que j· muitas vezes tinham praticado.
E o Infante depois de sobretudo haver largas repricas e praticas, lhe encommendou muito o assessego da cidade, e que para as cÙrtes que se chegavam, podiam livremente requerer e apontar o que lhes bem parecesse, e que elle no que fosse direito e justiÁa os ajudaria: e com isto se despediu d'elles, e se tornou a Camarate.
CAPITULO XXVII
_Como a Rainha mandou secretamente preceber os de sua valia que viessem ·s cÙrtes armados_
A Rainha sendo d'estas cousas informada, sentindo que os alvoroÁos da cidade n„o cessavam, antes creciam com fundamento de o Regimento lhe ser tirado, o notificou logo pelo reino a todolos fidalgos, e pessoas d'estima, que entendeu serem por ella, encommendando-lhes que para as cÙrtes logo vindoiras viessem d'armas e gentes assi percebidos, que com sua seguranÁa podessem resistir a qualquer contrariedade que os povos em seu dessserviÁo quizessem ordenar e fazer: e para ser mais em segredo, n„o o escreveu a todos particularmente, mas ordenou regimentos para cada comarca, e escudeiros de que fiava; e com suas cartas de crenÁa os andassem secretamente mostrando ·quellas pessoas que ella queria.
A qual cousa com quanto pareceu ser incoberta, foi logo ao Infante D. Pedro revelada, e ainda mostrado por mÛr certeza um dos proprios regimentos: e maravilhado d'isso o descobriu e mostrou logo ao conde d'Arrayollos, que com grande triganÁa veiu sobr'isso fallar · Rainha, espantando-se muito de tal movimento, e reprendendo quem lh'o conselh·ra, pedindo-lhe afincadamente com respeitos de serviÁo de Deus e d'El-Rei, e d'ella, e bem do reino, que o atalhasse, e escrevesse ·quelles que cessassem do que lhes tinha escripto.
E como quer que ella por sua virtuoza tenÁ„o lhe pareceu assi bem e prometesse ao conde de o assi fazer, n„o se achou porÈm quem depois o fizesse; antes se soube que logo veiu a ella Pedro Annes Lobato certificar-lhe que os percebimentos e alvoroÁos d'alguns creciam cada vez mais por seu respeito, e que a fama era que ella os ordenava assi para morte d'alguns principaes por sua vinganÁa, o que como quer que elle sabia o contrairo e o desdissesse, que o n„o criam como suspeito a suas cousas; e assi tambem lhe pediu que com assessego o remedeasse.
E a Rainha crendo que aproveitaria sua desculpa, escreveu logo sobre aquelle caso mui graciosamente · cidade, certificando-lhe o contrairo do que tinham concebido; e encommendando-lhes sua paz e assessego com grande instancia, e com sua crenÁa a Pedro Annes, o qual com quanto em camara dissesse alÈm da carta da Rainha muitas razıes e causas para desfazerem suas maginaÁıes e cessarem de seus alevantamentos, n„o aproveitou nada: e com tudo responderam · Rainha ´que a causa dos receios e alvoroÁos que tinham, os seus principalmente os faziam, affirmando e divulgando cousas para assi ser; que os mandasse castigar, e tudo cessariaª.
E como quer que a Rainha para satisfaÁ„o d'elles mandasse sobr'isso fazer exame e deligencias para ser asperamente punido quem taes movimentos fizesse: finalmente n„o se achou certo autor, nem cousa a que em especial fosse raz„o dar-se fÈ nem autoridade, e com tudo a furia do povo n„o amansava.
CAPITULO XXVIII
_Como o Infante D. Pedro e o Infante D. Jo„o sobre estas cousas se torn·ram a vÍr, e o que acord·ram_
O Infante D. Jo„o a este tempo era doente em Alcochete; e enviou ao Infante D. Pedro que fosse, como foi, ve-lo, e sendo ambos juntos, o Infante D. Jo„o lhe disse:
´Senhor irm„o, por n„o estar em disposiÁ„o de poder ir onde estaveis, vos enviei pedir que chegasseis aqui; assi porque folgo muito de vos vÍr, como principalmente por saber parte de vÛs, e de vossos feitos com a Senhora Rainha, os quaes n„o devem estar bem nem como · vossa honra cumpre, segundo a soltura e atrevimento que todolos fidalgos tem de fallar contra vÛs, tirando os de minha casa, e para se isto remedear convem que faÁaes o que n„o fizestes, que È nomearde-vos logo por Regedor do reino in solido. E para sosterdes vossa empresa tendes em vossa ajuda mui certos a mim e ao conde d'Ourem que aqui est· comigo; e assi a cidade de Lisboa que vo-lo requere; e comvosco ser„o outros muitos que nos ajudar„o n'esta contenda; e ent„o venham os do juramento armados contra vÛs; e os Infantes d'Arag„o entrem a favorecer o partido de sua irm„ª.
O Infante D. Pedro lhe disse:
´Leixando o mais que me dizeis, a esta derradeira condiÁ„o por mais sustancial vos responderei primeiro; e digo que j· vos disse outras vezes, qu„o pouco contente sou da Rainha e de seus m·os conselheiros, e da dureza de sua condiÁ„o, com que nunca quiz perder esta seita contra mim; e Deus sabe que c· lhe n„o fui nunca nem sou em culpa para assi ser; antes lhe tive sempre merecimento, por desejar de a servir como era raz„o: e o galard„o que d'ella houve foi sempre odio e m· vontade para mim e minhas cousas; e mais agora, onde na esperanÁa de suas honras e mercÍs j· os fidalgos como dizeis me n„o olham sen„o por desprezo, crendo que o que mais fizer contra mim maior parte haver· d'ellas. E por isto e principalmente por minha seguranÁa, certo prazer-me-ha muito ter corregimento; mas porque a esta saz„o e tempo, segundo as divisıes est„o, eu o n„o poderia fazer sem esperanÁa de muito damno e grande perda d'este reino, o que eu n„o queria, a mim parece como vos j· disse, leixarmos vir o tempo das cÙrtes; e se n'ellas se acordar que tenha o Regimento, ent„o serei contente de o tomar; e d'outra maneira n„oª.
O Infante D. Jo„o disse:
´Certo bem me parece vossa conclus„o; mas tenho receio a estes de Lisboa com esta vossa dilaÁ„o perderem por ventura este fervor que tem para vossa ajuda, e serem depois m·os de tomar a nosso prepositoª.
´N„o cureis (respondeu o Infante D. Pedro) c· se Deus vir que È seu serviÁo, Elle por sua bondade ordenar· como se faÁa; e por isso sede certo, que por nenhuma cousa n„o emprenderei encargo que seja sem cÙrtes; mas que sei que a Rainha escreve aos fidalgos que s„o de sua parte, que venham a ellas poderosos, eu como defensor o quero fazer saber ·s cidades e villas do reino; e que sejam prestes para qualquer movimento e novidade que se seguir.ª
E com esta tenÁ„o que seu irm„o aprovou, se despediu d'elle.
CAPITULO XXIX
_Como o Infante D. Pedro avisou e percebeu o reino sobre os alvoroÁos que se ordenavam_
E Tanto que o Infante D. Pedro foi em Camarate, que era no comeÁo de Setembro do anno de mil e quatrocentos e XXXIX, logo escreveu a todolos logares do reino notificando-lhe os movimentos que se esperavam, de que era certificado, e as causas de quem procediam, encommendando-lhe que logo se fizessem e estivessem prestes para quando vissem seu recado; por quanto de semelhantes uniıes n„o se podia seguir, salvo desserviÁo de Deus e d'El-Rei e grande mal e damno de seus reinos e naturaes, e assi foram avisados do Infante os messageiros que levaram as cartas, que todas em todo o reino a um dia certo e logo assignado por elle, fossem dadas. E tanto que assi escreveu, se partiu para Coimbra e suas terras.
A carta para Lisboa foi dada na Camara da Feitura a XV dias, sendo j· o Infante partido, e depois de vista foi posta nas portas principaes da SÈ, onde esteve alguns dias sem haver logar de se poder acabar de lÍr, e de noite com candeias a vinham trelladar; e sobre as cousas d'ella as praticas e alvoroÁos eram tamanhos, que em publico e em secreto n„o se fallava em outra cousa.
Os da cidade depois de haverem seu conselho acordaram responder ao Infante, em que remercearam sua notificaÁ„o, e se offereceram para todalas cousas que fossem de sua honra e serviÁo, e elle dispozesse e mandasse. As outras cidades e villas do reino responderam todas conforme a isto em sustancia; sÛmente a cidade do Porto emadeo mais, que queria que o Infante D. Pedro sÛ, sem outra ajuda nem companhia fosse Regedor: e com estas cartas houve no reino grande alvoroÁo, com alguma indinaÁ„o contra a Rainha, por n'ellas se tocar entrada de gentes extrangeiras n'este reino em seu favor e ajuda.
Mas se o Infante isto escreveu por ter d'isso a esse tempo alguma certid„o, ou o fez de industria por alvoroÁar as gentes contra a Rainha e contra os que seguiam sua tenÁ„o, isto fique a Deus e em sua conciencia, sÛmente È de crÍr que o Infante o n„o faria sem causa; especialmente porque a esse tempo os Infantes d'Arag„o irm„os das Rainhas de Portugal e de Castela prosperavam n'aquelle reino; e era de presumir que nos aggravos de que se ella queixava, se socorreria a elles, que a deviam e podiam bem ajudar, e elles lh'o n„o denegariam por seu sangue e grandeza.
CAPITULO XXX
_Como se o Infante D. Pedro despediu da Rainha, e da falla que como descontente lhe fez_
Ante que o Infante D. Pedro partisse de Camarate para suas terras, foi a Sacavem fallar a El-Rei; e depois de se despedir d'elle e lhe beijar a m„o entrou onde a Rainha estava, e com a presenÁa carregada lhe disse em pÈ e de praÁa algumas palavras, cuja sustancia foi recontar-lhe serviÁos que lhe tinha feitos com desejo de fazer outros maiores, de que finalmente atÈ ent„o n„o houvera d'ella outro galard„o, salvo odio e m· vontade com que sempre procur·ra em todo sua deshonra e abatimento; e assi lhe tocou nas differenÁas em que andavam, e nos percebimentos que mand·ra fazer, e em outras cousas d'esta calidade, com razıes assaz graves e honestas, e em fim declarou ´que atÈ li a Rainha o tivera como ella queria, e que d'hi em deante o tomaria como o achasseª. E n'esta conclus„o que pareceu de rompimento, se despediu d'ella sem lhe beijar a m„o, nem cometer de o fazer. O que a Rainha ouviu com grande seguranÁa e assessego, e n„o lhe respondeu cousa alguma; porque o Infante com sua trigosa partida n„o deu a isso lugar, e porÈm sentiu muito partir-se assi d'ella o Infante com mostranÁa de tamanho desacatamento; o que por assi passar de praÁa foi logo divulgado, que a uma parte e a outra acrecentou mais materia d'alvoroÁos e uniıes.
CAPITULO XXXI
_Como a Rainha com El-Rei e seus filhos se foi a Alanquer, e do que se seguiu em Lisboa_
A Rainha se partiu com El-Rei e seus filhos e sua casa para Alanquer, muito revosa dos movimentos e alvoroÁos de Lisboa, e pouco segura em Sacavem onde estava, por ser aldÍa fraca e t„o perto da cidade, como quer que d'alguns seus fosse aconselhada que o n„o fizesse, antes que se fosse dentro · cidade; porque era de crÍr que sua presenÁa daria ao povo menos ousadia para contra ella seguirem e acabarem o que tinham comeÁado; e que sua ausencia com mostranÁa de temor causaria o contrairo.
Os officiaes de Lisboa vendo esta mudanÁa da Rainha fizeram logo seu ajuntamento, onde Vicente Egas, homem cidad„o velho, entendido e de grave representaÁ„o fez uma falla com largo recontamento, cuja sustancia foi avisar a cidade dos males e perigos que por as mudanÁas presentes se lhe aparelhavam; e como para terem por cabeÁa alguma pessoa que por ella os resistisse, lhe era necessario enlegerem e tomarem alferes, apontando logo o capit„o Alvaro Vaz d'Almada, que da cidade fÙra o derradeiro alferes, como por outros muitos e mui dinos merecimentos e louvores que d'elle com verdade recontou; no que todos consentiram, e por dois cidad„os o enviaram logo chamar,por quanto era fÛra da cidade; e em chegando · ribeira, sendo j· sabido a determinaÁ„o sobre que vinha, se ajuntou com elle a mÛr parte da cidade, e assi acompanhado com grande honra foi levado · Camara, onde por os vereadores com certas cerimonias e largas palavras de grande seu louvor e muita confianÁa, lhe foi entregue a bandeira da cidade com suas condiÁıes; e elle a recebeu com palavras cortezes e discretas, e de grande esforÁo; porque era cavalleiro que n'este reino e fÛra d'elle por esperiencias mostrou que isto e muito mais de louvar havia n'elle, c· em FranÁa por sua ardideza e bondades foi feito conde d'Abranxes, e em Inglaterra por sua valentia foi recebido por companheiro da Ordem da Garrotea, de que principes christ„os e pessoas de grande merecimento s„o confrades; e em Portugal por todas estas, e mais por sua linguagem e fidalguia mereceu ser como foi capit„o mÛr do mar.
CAPITULO XXXII
_Accordo que o povo de Lisboa fez ·cerca do Regimento_
Estando o Regimento do reino n'este balanÁo, mais com mostranÁas de guerra que de paz, e com signaes mais de perigo que de seguranÁa, os officiaes macanicos de Lisboa com outra gente popular se ajuntaram em S. Domingos da Cidade, onde fizeram escrever e assignaram um acordo, em que por algumas razıes que apontaram, e em especial por o perigo e n„o bom Regimento do reino, declaravam e se affirmavam, ´que o Infante D. Pedro fosse seu Regedor e defensor sÛmente; e que assi promettiam de o requerer nas cÙrtes; e que o contrairo n„o consentiriam ou morreriam sobr'isso, se o caso assi requeresse.ª
A qual cousa sendo logo sabida, como quer que a alguns parecesse determinaÁ„o de pouco peso e auctoridade, o contrairo pareceu a Pedro Annes Lobato, que por ser muito servidor da Rainha, se foi logo a Alanquer onde estava, e lhe notificou com tristeza aquelle acordo, havendo-o por principio mui contrairo a seu serviÁo, affirmando que n„o podia ser sem favor e consentimento dos principaes, e com aquelle acatamento que devia a reprendeu muito da seguranÁa que n'estes feitos sempre tivera, e o pouco cuidado de os remediar nos comeÁos ante d'alguma execuÁ„o, especialmente estando t„o ·cerca e t„o avisada cada dia dos movimentos que se faziam.
E perguntado pela Rainha e pelos do conselho que hi eram, que se faria ou que remedio se daria para o povo cessar de seu alvoroÁo, Pedro Annes respondeu ´que j· n„o sabia, salvo pedi-lo a Deus.ª
E finalmente depois de sobre isso praticarem, acordaram que a Rainha escrevesse, como logo escreveu · cidade, e alÈm das razıes santas e virtuosas na sua carta logo declaradas, por que deveram ser bem seguros dos receios com que se alteravam, Pedro Annes que era o messegeiro, lhes disse outras muitas mais, a ellas conformes, em que n„o fallecia siso e prudencia; mas d'isto em fim se fez pouca estima, e responderam a tudo como j· endurecidos em sua maginaÁ„o e porfia.
CAPITULO XXXIII
_Como a cidade de Lisboa entendeu contra o Arcebispo D. Pedro pelos cubelos da alcaÁova que tomou_
N„o È de duvidar que a Rainha para toda paz, bem, e assessego do reino tivesse sempre mui virtuoso desejo; mas muitas vezes por ventura, por estar assi determinado na providencia divina, os seus sem vontade d'ella damnavam e faziam duvidoso seu proposito; porque estando a cidade de Lisboa em alguma consiraÁ„o de repouso por o que a Rainha lhe tinha escripto e enviado dizer, o Arcebispo D. Pedro seu primo, que em todo seguiu sua tenÁ„o, pousava nos seus paÁos d'AlcaÁova pegados com Sancta Cruz, e porque entre elles e o castello vae um lanÁo de muro em que est· a porta, que se chama de Martim Moniz com alguns cubellos altos, mandou cobrir e abrir para elles uma porta porque se corriam por cima do muro, ficando a porta da cidade que sahia para fÛra sujeita a sua disposiÁ„o, e da outra parte dos paÁos contra o bairro dos escolares, tinha dias havia feita uma torre mui alta, forte e fremosa em que se acolhia; e sendo as cousas da Rainha havidas na opini„o do povo por t„o suspeitas, o Arcebispo alÈm da obra e refazimento que nos cubellos mandara fazer, dizia soltamente palavras ques pareciam ameaÁas com esforÁo alheio. E deu aos seus armas alÈm das custumadas, e dizia-lhes de praÁa taes razıes, que os mettia em alvoroÁo; e elles fallando ousadamente pela cidade, mettiam a outros muitos em outro maior: e com isto n„o apagavam, mas acendiam mais a suspeita e receios que o povo tinha: a qual cousa sentida pelos officiaes, fizeram sobre isso vereaÁ„o e acordo; e por dois deputados para isso mandaram requerer em sustancia ao Arcebispo que logo despachasse e leixasse o muro e cubellos, que eram proprios da cidade, de que a tinha forÁada. O qual anojando-se de tal recado, como era de aspera condiÁ„o, e n„o muito sobjecto a deliberado conselho, respondeu aos messegeiros de maneira que foram d'elle mui descontentes; sobre o qual se tornaram outra vez a juntar em camara, e se alguns com difficuldade o n„o temperaram, o primeiro acordo era de mÛr rigor e damno; mas em fim acordaram que os cubellos fossem logo despachados, e fechada a porta que o Arcebispo mand·ra abrir; do que elle mui anojado, sendo constrangido para o cumprir, se sahiu logo da cidade, e depois para Castella, como ao diante se dir·.
CAPITULO XXXIV
_Vinda do Infante D. Jo„o · cidade_
A cidade de Lisboa, pela confus„o e receios em que estava, acordou de enviar o capit„o Alvaro Vaz ao Infante D. Jo„o, notificar-lhe os feitos como estavam e pedir-lhe por mercÍ, que para ser sua cabeceira quizesse estar na cidade, porque sua presenÁa lhes era mui necessaria, atÈ que nos feitos se tomasse alguma boa conclus„o.
Ao Infante prouve muito de o fazer; e se veiu logo a ella e pousou nas casas da Moeda, onde entendida a sustancia do caso, conhecendo que a maior parte da inclinaÁ„o e vontade do povo e cidad„os, era o Infante D. Pedro reger, louvou muito seu proposito, e os esforÁou n'elle.
CAPITULO XXXV
_Como a Rainha escreveu a Lisboa e todo o reino sobre o assessego d'elle_
A Rainha como foi em Alanquer, logo escreveu a Lisboa, e alli geralmente a todas as cidades, villas e povos do reino, notificando-lhe alguns beneficios e boas obras que j· lhes procurara para os obrigar; e assim as causas dos aggravos e sem razıes que ·cerca do Regimento recebia, para os mover a piedade, descarregando-os com razıas boas, honestas e de raz„o, dos temores que d'ella tinham ·cerca do meter das gentes estrangeiras n'estes reinos, e segurando-os da vinganÁa que lhes faziam crÍr que ella d'alguns cruamenta queria tomar; encommendando-lhes e requerendo finalmente, que para as cÙrtes que se chegavam, cessassem de requerer novidades acerca do Regimento, e quizessem approvar o que El-Rei D. Duarte seu marido leixara, ou ao menos o que nas cÙrtes de Torres Novas fÙra acordado, com alguns protestos fundados em sua boa e virtuosa tenÁ„o, mandando que por seu descargo se d'ello se seguissem alguns males e inconvenientes, que suas cartas se registassem nos livros das camaras, e puzessem nos cartorios das religiıes: o que se n„o fez assim; porque na maior parte do reino era o alvoroÁo tamanho contra a Rainha, que ·lem de n„o quererem vÍr suas cartas, ainda tratavam os messegeiros d'ellas asperamente, e n„o como deviam. E porque Gomes Borges que era escriv„o da chancelaria d'El-Rei, poz nas portas da SÈ a carta que a Rainha enviou a Lisboa, foram os povos sobre elle, e t„o indinados, que com difficuldade escapou da morte.
CAPITULO XXXVI
_DeclaraÁ„o que Lisboa fez de o Infante D. Pedro sÛ reger o Reino_
Estando assi as cousas n'esta confus„o, o doutor Diogo Affonso Mangancha em que havia letras e ardideza com pouco repouso, e um Lopo Fernandes, tanoeiro de Lisboa, homem velho afazendado, e de que o povo fazia grande cabeceira, estes ou por serem afeiÁoados · parte do Infante D. Pedro, ou por lhes parecer raz„o elle sÛ reger e n„o a Rainha, ordenaram e praticaram entre si que o doutor fizesse na camara uma publica falla sobre isso, affirmando que todavia era bom, antes das cÙrtes se fosse possivel, assi se declarar e requerer; e que ao menos no cabo da falla conheceriam nos rostos dos mais suas vontades para seu aviso: e era opini„o que d'esto n„o desprazia ao Infante D. Jo„o, pelo favor que dava e gasalhado que fazia a este tanoeiro.