Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)

Chapter 3

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O conde de Barcellos, como quer que assignou este Regimento, n„o foi porÈm d'elle satisfeito, por lhe n„o ficar n'elle alguma parte; e como homem que para acrecentar por qualquer maneira seu nome e proveito, teve sempre grande cuidado, desejando que todavia o casamento d'El-Rei com sua neta se fizesse, vendo que o alvar· que a Rainha tinha dado ao Infante D. Pedro lhe era para isso grande embargo, ordenou por si e por outros de sua tenÁ„o que a Rainha com razıes obrigatorias com que a moveram, mandasse pedir o alvar· ao Infante D. Pedro. A qual como quer que, como virtuosa o refusasse, por n„o quebrar sua verdade, e mais a determinaÁ„o d'El Rei D. Duarte seu marido; porÈm como importunada e induzida lh'o fizeram consentir.

E, porque algum dos outros que eram n'este acordo, n„o ousou de ir em nome da Rainha ao Infante pedir-lhe o alvar·, o conde de Barcellos acceitou o cargo, e foi ao Infante, e lhe disse:

´Senhor, a Senhora Rainha vos manda dizer que sabeis, que vos tem dado um alvar· sobre o casamento d'El-Rei nosso Senhor, seu filho com vossa filha; e por quanto este caso È de tamanho peso e importancia, que o n„o devera passar sem accordo e conselho dos principaes do reino, a que tambem toca; e agora por estes movimentos n„o È, nem pÛde n'isso entender, vos roga que lhe mandeis o alvar·, e que sobre isso ter· a maneira que vir que cumpre, fallando primeiro com nÛs outros, de quem sabeis que n„o ha de sahir, salvo cousa que seja vossa honra e acrecentamento.ª

O Infante lastimado da embaixada e avisado de sua destruiÁ„o, d'onde nacia, a que fim vinha, disse:

´O alvar· que dizeis, È em meu poder; e eu, se quizesse, justa e honestamente podia denegar · Senhora Rainha a entrega d'elle; porque n„o sei como o que por El-Rei meu Senhor e irm„o me foi outorgado, e por ella depois a mim lembrado, requerido e outorgado, se me pÛde revogar sem causa; bem creio que em suas virtudes haveria firmeza de cumprir o que promette, e mais em cousa t„o justa e t„o honesta, se a n„o movessem d'ella conselheiros pouco fieis, no que lhe fazem pouco serviÁo; porÈm, porque n„o pareÁa que eu por forÁa quero, nem tomo, o que com raz„o me devia ser requerido e dado, dae a sua Senhoria seu alvar·, e ir· roto, e n„o s„o a seu poder, em testemunho da quebra de sua verdade, que me quebrou.ª

E logo o tirou de um cofre, e o rompeu, e roto o entregou ao conde.

CAPITULO XVII

_Como El-Rei se foi a Lisboa, onde o Infante D. Jo„o veiu a primeira vez_

Um mez e alguns dias mais duraram as cÙrtes em Torres Novas, em fim das quaes, por ser o anno de mantimentos mui esteril, e aquella comarca mui cara, acordou a Rainha e os Infantes de se irem, como foram, com El-Rei para Lisboa, onde, por via do mar com industria e aviamento de bons regedores, se buscou razoado provimento, que deu causa serem hi os mantimentos em menos careza, que em alguma outra parte do reino.

O Infante D. Jo„o, depois de convalescido da doenÁa de que j· se disse, soube do fallecimento d'El-Rei seu irm„o, de que sobre todos seus irm„os mostrou ser mais anojado e n„o era sem raz„o; porque por fallecimento da Rainha D. Filippa, sua madre, o Infante D. Jo„o e Infante D. Fernando ficaram pequenos; e El-Rei D. Jo„o recolheu para si o Infante D. Fernando, que era mais moÁo; e deu o Infante D. Jo„o a El-Rei Duarte que o criou e amou sempre, como proprio filho: e por esta criaÁ„o, que com elle teve, ·lem da geral e natural divida d'El-Rei e irm„o lhe devia o Infante D. Jo„o, sentiu sobre todos sua morte; porque vindo ante a presenÁa d'El-Rei e da Rainha, depois da obediencia e reverenÁa devida, suas continuas lagrimas e dorosas palavras davam claro testemunho do sentimento de seu coraÁ„o pela morte d'El-Rei. E ali em publico fez logo uma falla · Rainha de grandes offerecimentos, de a servir e amar mais que nunca, com palavras de muita discriÁ„o e amor, e acatamento, em que tambem com razıes evidentes lhe tocou, que lhe parecia que se n„o devia antremeter no regimento do reino; e que assi como esta havia de ser sua tenÁ„o, assi seria tambem que em todo o mais sua honra, estado, acatamento e serviÁo se guardasse por todos o mais inteiramente, do que se nunca guard·ra a outra Rainha; do que ella n„o foi contente, e muito menos os da sua tenÁ„o, que eram presentes: e porque isto foi dito de praÁa, logo o rumor d'isso sahiu pela cidade, com que os povos e a gente d'ella principalmente comeÁaram de se alvoroÁar e praticar entre si secretamente, como tirariam o Regimento · Rainha.

CAPITULO XVIII

_Do despacho que se deu aos embaixadores de Castella_

Os embaixadores de Castella, que eram na cÙrte, como se atr·s disse, pelos desvairos que sobre o Regimento houve em Torres Novas n„o foram ouvidos, nem despachados atÈ Lisboa, onde juntos · Rainha e Infantes com os deputados do conselho deram sua embaixada, a qual, por ser desgosto d'este reino, se crÍ que tardou tanto em se ouvir; porque j· a sustancia d'ella seria revelada.

Requereram em nome d'El-Rei D. Jo„o o segundo, que ent„o reinava em Castella, que as egrejas que pela Cisma ent„o foram tiradas aos bispados de Tuy e Badalhouce, e eram regidas por administradores, se tornassem a seus proprios prelados. Outrosi que os mestrados d'Aviz, e Santiago d'estes reinos tornassem um · Ordem e obediencia de Calatrava, e o outro · de Santiago de Castella, cujos membros foram, e que os titulos ficassem, como eram, e as enliÁıes se fizessem c·; mas as confirmaÁıes d'elles se houvessem pelos superiores de Castella. Requereram outrosi que alguns bispados d'estes reinos reconhecessem superioridade ao arcebispo de Sevilha, como Metropolitana sua, que sempre fÙra. E assim apontaram sobre tomadias de navios, que se fizeram, requerendo restituiÁ„o, apontando e allegando sobre cada uma d'estas cousas muitas razıes e fundamentos de direito: porque entre elles era um grande doutor de direitos.

Ouvida esta embaixada, em que tambem os embaixadores tocaram aggravos de sua tardanÁa, houve sobre o despacho d'elles grandes divisıes, segundo os votos de cada um; porque a uns parecia bem responder-lhe manso, poendo a defesa d'esto em razıes de direito; e a outros parecia que no esforÁo e confianÁa d'armas e valentes coraÁıes; e finalmente foi havido ent„o por melhor acordo envia-los, como enviaram, sem alguma certa resposta, escurando-se com os movimentos, torvaÁıes e pouco assessego que pela morte d'El-Rei ainda no reino havia; e que El-Rei, depois d'haver em todo seu conselho, enviaria logo a El-Rei de Castella a resposta com sua embaixada.

E o que d'estes requerimentos se pÙde logo saber, foi que n„o nasceram da propria vontade d'El-Rei, em cujo nome vinham; mas dos Infantes d'Arag„o, seus cunhados, que ent„o picavam com elle, e governavam o reino, com fundamento de meter este reino em necessidade, e elles por seus meios e com sua privanÁa o remedearem, e esperando que por isso carregariam maior obrigaÁ„o a El-Rei de Portugal e a seus reinos e vassalos, para as necessidades suas, em que esperavam de se vÍr, como viram: por quanto fizeram ent„o lanÁar fÛra d'El-Rei de Castella e de sua cÙrte o condestabre D. Alvaro de Luna, grande poderoso, e muito seu imigo.

CAPITULO XIX

_Como a Rainha comeÁou de reger e ser em seu regimento prasmada_

A Rainha regia o reino, e tinha El-Rei em seu poder, e por seu aio Nuno Martins da Silveira: e como ella era de boa e virtuosa tenÁ„o tomava o encarrego do Regimento com mais trabalho e continuaÁ„o do que tivera em costume, nem requeria sua fraca desposiÁ„o; e des-hi os requerimentos assi pela boa ordem que se logo deu ao ouvir d'elles, como por haver j· dias que se n„o despachavam, cresciam cada vez mais; o que cada dia, alÈm de ser prenhe, lhe causava dÙres e enfermidades, que contrariavam seu bom e verdadeiro proposito; e, sendo com raz„o aconselhada que temperasse seu grande trabalho, e entrepozesse nos negocios alguns dias para seu repouso e descanso, ella constrangida j· de suas proprias necessidades o comeÁou de fazer, n„o sem reprensıes do povo, com que indevidamente logo comeÁaram a acusar sua innocente fraqueza, e queriam asolver seus muitos e desordenados requerimentos, e incomportaveis importunaÁıes. Pelo qual alguns se atreviam j· havendo por serviÁo de Deus e d'El-Rei e bem do reino de cometer ao Infante secretamente que tomasse o Regimento de todo; mas elle, ou por sua dissimulaÁ„o, ou por ser assi sua vontade, a todos tirava de tal esperanÁa; antes em taes cousas assi se fazerem, posto que melhor se podessem e devessem fazer, sempre escusava as fraquezas e innocencia da Rainha com quanto podia.

CAPITULO XX

_Fallecimento da Infante D. Filippa_

N'este anno de mil e quatrocentos e trinta e nove, no mez de MarÁo, porque comeÁaram de morrer em Lisboa, e se finou de pestenenÁa a Infante D. Filippa, de onze annos, filha d'El-Rei D. Duarte e da Rainha sua mulher, El-Rei e o Principe se foram a Almada; e a Rainha se foi a uma quinta junto com Santo Ant„o, que se chama Monte Olivete.

CAPITULO XXI

_Nascimento da Infante D. Joana_

E alli pariu a Infante D. Joana, que depois foi Rainha de Castela, e lhe vieram novas como o Infante D. Pedro, seu irm„o mais moÁo, fÙra morto em Italia de uma bombardada, estando com El-Rei D. Affonso seu irm„o, em cerco sobre a cidade de Napoles. E assi veiu · Rainha n'este anno uma carta consolatoria do Papa Eugenio, confortando-a sobre a morte d'El-Rei seu marido, e amoestando-a que por alguma maneira se n„o desse a cidade de Ceuta por a soltura do Infante D. Fernando, allegando-lhe para tudo razıes santas e catholicas quanto a Deus, e de muita honra e louvor para este reino.

CAPITULO XXI

_Praticas que o Infante D. Pedro teve sobre descontentamentos que tinha da Rainha ·cerca do Regimento_

No mez d'Agosto d'este anno de mil e quatrocentos e trinta e nove, a Rainha se foi da quinta de Santo Ant„o para Sacavem: e o Infante D. Pedro ficou com El-Rei em Lisboa, onde fallando com D. Alvaro Vaz d'Almada, capit„o mÛr do mar, e com outros de que se fiava, disse:

´Que por quanto n'esta parte do Regimento que aceit·ra, segundo era pequena, e a Rainha se havia soltamente em todo, e defamava a elle e todas suas cousas, elle recebia grande abatimento: sua vontade era, por muitas razıes que apontou, leixar aquelle pequeno cargo que lhe fÙra dado, e ir-se para suas terras: e que porÈm queria saber que lhes pareciaª.

No que por seus conselheiros houve votos desvairados, c· uns tinham que emprendesse e tomasse o Regimento de todo: e outros que se contentasse com a parte que tinha, e se s„o fosse: outros que leixasse tudo e se fosse: e a cada um n„o falleciam razıes assaz aparentes para justificar seu parecer. E finalmente foi acordado que d'estas seguisse a parte que ao Infante D. Jo„o melhor parecesse; porque era de crÍr que · sua seria o Infante D. Anrique e o conde de Barcellos, e assi seus filhos os condes d'Ourem e d'Arrayollos.

CAPITULO XXII

_Como o Infante D. Pedro e o Infante D. Jo„o ambos se viram e fallaram sobre o Regimento_

Pelo qual o Infante D. Pedro enviou pedir ao Infante D. Jo„o, que era em Alcohete, que se vissem, como viram logo ambos, no Oratorio de Santa Maria do Paraiso, em que se depois fundou e mudou o mosteiro de Santos da Ordem de Santiago.

E porÈm ante da ida do Infante D. Jo„o, elle primeiro foi avisado do capit„o Alvaro Vaz, como de si mesmo, da tenÁ„o porque o Infante D. Pedro se queria com elle vÍr.

Alli os Infantes se apart·ram sÛs, onde o Infante D. Pedro com largo recontamento propoz a tenÁ„o em que era de leixar a parte do Regimento que tinha: como era aconselhado pelo contrairo, apontando as causas e razıes em que uns e outros se fundavam: e que porÈm lhe pedia que n'isso o aconselhasse; por que na confianÁa que tinha de seu saber e certid„o de amor, que entre elles havia, sua vontade era seguir o que a elle melhor parecesse.

O Infante D. Jo„o lhe respondeu:

´Senhor irm„o, ante d'isto eu tinha j· n'este caso ass·s consirado; e, porque mui em breve vos responda, sabei que se chamais erro acceitardes o Regimento, como sois aconselhado, n„o sei cousa que possaes acertar, c· se vÛs nascereis primeiro e vos n„o fizera Deus t„o bom e t„o prudente como soes, e assi ao Infante D. Anrique nosso irm„o, crÍde que eu requerÍra o Regimento para mim; e se m'o n„o quÏzerem dar, eu o tom·ra ou morrÍra sobre isso; porque com quanto a Rainha È mui virtuosa e mui discreta e amiga de Deus, nunca vi mÛr vergonha e abatimento nosso, que sermos regidos por ella; pois È mulher, e mais estrangeiraª.

O Infante D. Pedro lhe respondeu:

´Senhor irm„o, bem vejo o que dizeis ter fundamento de muita raz„o, se por todos se quizesse assi consirar com juizos livres de paix„o; mas como n'este caso haja propositos e tenÁıes desvairadas, tenho receio nascer d'ellas alguma divis„o, que a qualquer reino grande faria perder, quanto mais a este de Portugal t„o pequeno, que sem sua destruiÁ„o n„o padece algum desacordo; e por elle ser a herdade em que nascemos e que nos criou, e porque nosso padre tanto sangue espargeu, e tanto trabalhou pela conservar e manter, eu sentiria em egual de morte para mim ser eu causa de sua perdiÁ„o: verdade È que, se com prazer de todos e sem alguma divis„o se podesse fazer, logo por serviÁo de Deus e d'El-Rei meu Senhor, e bem de seus reinos e minha honra, folgaria aceitar este cargo.ª

O Infante D. Jo„o lhe disse:

´A divis„o e desacordo do reino que temeis, n„o querendo vÛs usar do Regimento, n„o se escusa se a Rainha com estes que agora esforÁam sua tenÁ„o o reger; porque elles n'esta contrariedade que seguem n„o h„o respeito a algum amor que tenham · Rainha, nem menos ao reino em que vivem, mas sÛmente por segurarem e escaparem os castigos de seus erros passados, e d'outros, se os fizerem; e para com achaque de necessidades fingidas tomarem causas de pedirem e encurtarem o patrimonio real e acrecentarem o seu; e por esta conta, que È verdadeira, a justiÁa e a fazenda do reino, em que consiste toda sua sustancia, cairiam com elle de necessidade na perdiÁ„o que temeis: e alÈm de o cuidado e trabalho de reger ser incomportavel ·s forÁas da Rainha, hei ainda mais por principal inconveniente o Regimento d'este reino ficar sÛ · sua disposiÁ„o esta vinda dos Infantes de Arag„o, seus irm„os, a Castella; porque, como s„o homens amigos de novidades, e tem no mesmo reino grandes competencias, certo È que se h„o de favorecer com este, e poer muitas vezes as gentes d'elle em perigo; e as rendas em despesa por sua ajuda e favor: assi que por estas razıes e inconvenientes, que em vÛs regendo todos cessam, meu conselho È que vÛs todavia rejaes: e quando o vÛs n„o quizerdes ou n„o poderdes fazer, que o faÁa o Infante D. Anrique nosso irm„o; e des-hi eu, se o caso a isso chegar, e da divis„o que tocaes, n„o tenhaes receio; porque o Infante D. Anrique e o conde de Barcellos, e seus filhos, os condes d'Ourem e d'Arrayllos, que s„o as pessoas principaes do reino, seguiriam em tudo nossa tenÁ„o, quanto mais esta, em que ha tanta necessidade, justiÁa e honestidade: e se d'alguma parte devem de esperar honra e interesse, em vÛs a ter„o mais certa: e por tanto eu me affirmo que todavia deveis reger; e que logo o declareis; e nas cÙrtes que se ora h„o de fazer ·cerca d'isso, eu darei e susterei a voz por vÛs: e n„o sinto alguem t„o ousado, que m'a ouse contrariar.ª

O Infante D. Pedro finalmente disse:

´Que seu parecer era, que por ent„o n„o devia ·cerca d'isto fazer altercaÁ„o nem mudanÁa alguma; porquanto atÈ ·s cÙrtes havia ainda bom espaÁo de tempo, no qual poderia ser que a Rainha mesma cansaria n'este cargo, e n„o se sentiria desposta para elle, e seria contente d'algum tal meio, porque cessassem odios e escandalos entre elles, e o reino seria regido em outro bom assessego, como desejava.ª

E n'este acordo ficaram; e o Infante D. Jo„o se tornou a Alcochete; e o Infante D. Pedro se foi a Camarate, junto com Sacavem.

CAPITULO XXIII

_Como a Rainha lanÁou fÛra de sua casa certas donzellas, por suspeitas a ella, e affeiÁoadas ao Infante D. Pedro_

A Rainha estava em Sacavem com El-Rei e seus filhos, onde seu coraÁ„o n„o tinha repouso com novas de mudanÁas e alvoroÁos, que se em Lisboa cada dia moviam, de que logo era avisada por pessoas que por isso esperavam haver com ella mais graÁa, e pelas cousas que lhe faziam crÍr, ella comeÁou d'haver e declarar por suspeitas e contrairas a si mesma todas cousas do Infante D. Pedro; pelo qual com palavras irosas, e que n„o cabiam em sua prudencia, mansid„o e virtudes, lanÁou fÛra de sua casa duas donzellas, filhas de Izabel Gomes da Silva, mulher de Pero GonÁalves, vedor da fazenda, e filha de Jo„o Gomes da Silva, e irm„ d'Aires Gomes da Silva; e assi n„o consentiu em sua casa outra donzella, filha de Jo„o Vaz d'Almada, sobrinha do capit„o, por serem pessoas do Infante D. Pedro: o que a Rainha fez por induzimentos alheios sem aquelle resguardo e bom conselho, que a seu estado e serviÁo cumpria; porque o lanÁar d'estas donzellas fez contra ella grande escandalo na cidade de Lisboa, por serem dos naturaes e principaes d'ella, e assi por se declarar imiga do Infante D. Pedro, que do povo era mui amado; porque atÈ li sua desavenÁa d'ambos podia jazer em suas vontades; mas sua rotura n„o se dizia nem mostrava t„o depressa como se por isto mostrou.

CAPITULO XXIV

_Do alvoroÁo que se seguiu contra a Rainha pela execuÁ„o dos varejos de Lisboa_

Acrecentou mais este escandalo contra a Rainha, e para a maior parte do povo soltamente contrariar seu Regimento, passar uma carta em nome d'El-Rei, porque fazia mercÍ a Nuno Martins da Silveira, seu aio, dos varejos a que os mercadores de Lisboa eram obrÌgados de sete annos, cuja publicaÁ„o e esperanÁa de execuÁ„o aos ditos mercadores causou tanta tristeza e sentimento, que certificados de suas perdiÁıes, se se executassem, se soccorreram · camara da cidade, e com palavras em que moviam todos a piedade para si mesmos, e com muitas razıes que pareciam de serviÁo d'El-Rei e bem do reino, lhe pediram que com a Rainha e com o conselho, ou por outra qualquer maneira a tal mercÍ impedissem.

A cidade fez sobre isso seu ajuntamento, em que por forÁa entraram mais dos ordenados; e a elle vieram um Bertolameu Gomes, contador, e outro Alvaro Affonso, escriv„o da sisa dos pannos, criado de Nuno Martins, em cujo poder era a carta, por serem os solicitadores d'ella; e, sendo lida em publico, foi tanta a defens„o e alvoroÁo em todo o povo, por ser passada por sÛ auctoridade da Rainha sem accordo do Infante D. Pedro, que Alvaro Affonso, com fundamento de lhe fazerem padecer morte mais crua, o fizeram saltar por uma janella, mas, por cair primeiro em um telhado, n„o morreu; e a Bertolameu Gomes alguns cidad„os seus amigos com grande difficuldade defenderam a vida: c· n'estes, por serem mui ensinados no que pertencia ·s rendas d'El-Rei, havia suspeita, que deram azo e conselho, como esta mercÍ se pedisse.

Os que fizeram este insulto e alvoroÁo em desacatamento da Rainha, eram quasi todolos do povo com alguns principaes da cidade, e com temor que tinham de a Rainha com rigor de justiÁa os mandar castigar como porventura mereciam, procuravam e ordenavam assi em secreto, como j· em publico, que o Regimento lhe fosse de todo tirado, sobre o qual tinham suas praticas, que enviavam logo ao Infante D. Pedro, dando-lhe muitas razıes e esforÁo para sÛ tomar o carrego de reger. O qual, como quer que atÈ li sempre mostrasse estranhar com palavras de honestidade aos que lhe em tal caso fallavam, porÈm a este tempo por ter sabido e visto como a Rainha se declarava ter-lhe desamor e m· vontade, d'hi em diante, aos que n'isso o comettiam, j· recebia e ouvia mais com rostro de lhe agradecer que o fizessem para vir a effeito, que de lhe pesar.

E porque na cidade havia n'este caso propositos e vontades contrairas, assi naciam d'ellas bandos e rumores que mostravam signaes de rompimentos perigosos, aos quaes nem por provimentos e penas dos officiaes de justiÁa, nem por pregaÁıes que se de industria de bons religiosos para ello fizeram, nunca se pÙde atalhar, antes crecia cada vez mais.

CAPITULO XXV

_Ida do conde d'Arrayollos a Lisboa sobre assessego d'ella, e como n„o aproveitou_

Era a este tempo na cidade Pedro Anes Lobato, homem de grande auctoridade e bom cavalleiro, ao qual, como quer que de grande condiÁ„o de sangue n„o fosse, El-Rei D. Jo„o por conhecer d'elle ser bom e discreto, e em armas homem esforÁado, deu a governanÁa da justiÁa da casa do civel, e a tinha; e por vÍr a uni„o e desacordo na cidade tamanho, a que com sua vara e forÁas n„o podia resistir, avisou de todo a Rainha, e por muitas causas lhe enviou pedir trigoso remedio. A qual com esses que com ella eram presentes, teve sobr'isso conselho, onde foi acordado que o conde d'Arrayollos, que estava em uma quinta junto com Loures, por ter cargo da justiÁa do reino e ser pessoa de valor e autoridade, fosse poer assessego nas cousas da cidade, para o qual foi logo chamado, e fallou com a Rainha o que n'aquelle caso cumpria: e d'ella por ser de boa tenÁ„o e s„ conciencia, e tambem de si mesmo por ser virtuoso e justo, foi avisado segundo o feito estava, de o tratar e assessegar mui mansa e temperadamente.

Partiu-se logo o conde para Lisboa com a triganÁa que se requeria, onde chegou · tarde, e para haver melhor informaÁ„o das cousas, e ter conselho sobre o remedio d'ellas, quizera repousar algum pequeno espaÁo de tempo sem n'ellas intender; mas ao outro dia por sua ida foi tanto o alvoroÁo e desacordo na cidade, e com tanta soltura de palavras deshonestas e mostranÁas de desobediencia, que o conde n„o sabia que caminho de remedio tomasse; porque os da parte da Rainha favoreceram-se com sua ida, affirmando em seu favor que era para fazer justiÁa dos alevantadores da uni„o sobre o caso dos varejos, e que contrariavam o Regimento da rainha: e os da parte do Infante D. Pedro e Infante D. Jo„o com muitos da cidade, que eram d'outro acordo, tomaram receio de ser por ventura verdade; especialmente porque um Luiz GonÁalves, official na relaÁ„o, criado de Pedro Anes Lobato, e que ·s cousas da Rainha havia grande affeiÁ„o, affirmou de praÁa que por a ida do conde · cidade cedo veriam por justiÁa as gigas da ribeira cheias de pÈs e m„os de muitos, como de pescado, o que logo se soltou publicamente: e por ser homem d'algum credito e ter officio na casa da justiÁa, fizeram para isso suas palavras alguma impress„o e crenÁa; e pareceu que as n„o diria sem ter alguma cousa d'isso sentido. Pelo qual alguns principaes cidad„os com verdadeiro temor e occupaÁıes fingidas de proverem suas fazendas, se ausentaram da cidade, temendo que em tanto alvoroÁo n„o houvesse justo juizo, e que por ventura poderiam receber pena sem culpa.

Mas os do povo posposto todo o medo assi continuavam, e acrecentavam a cada vez mais sua uni„o, e com tanto rumor d'algum fim perigoso, que o conde desesperado de com suas forÁas, nem da justiÁa poder assessegar o feito como desejava, havido primeiro sobre isso conselho, tentou de o remedear com prÈgaÁıes, palavras brandas, e de conciencia, que por algum bom e entendido religioso em ajuntamentos publicos se dissessem.

E havido este por melhor e derradeiro remedio, o conde fez chamar um Frei Vasco da Allagoa, da Ordem de S. Domingos, ao qual por ser padre d'auctoridade e de letras, e ter boa audacia para dizer, encommendou que sobre o caso das uniıes e desaccordos da cidade, o domingo seguinte prÈgasse no seu mosteiro, avisando-o primeiro que todo seu fundamento fosse commover o povo a paz e assessego.