Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)
Chapter 2
´Senhor irm„o, e honrados senhores fidalgos que aqui estaes, bem vÍdes que a nova idade d'El Rei nosso Senhor assi n'elle, como nos outros meninos, È sojeita a muitos casos e desastres, de que Deus nosso Senhor o guarde e defenda. E porque d'aqui atÈ que sua MercÍ tenha idade e desposiÁ„o para casar e haver filhos, se passar· bom espaÁo de tempo: meu voto È, por sermos fÛra d'algumas duvidas que por sua morte em tal tempo podiam sobrevir, que o Senhor Infante D. Fernando seu irm„o, seja logo aqui intitulado e jurado por Principe e seu herdeiro, atÈ que a Deus praza de dar a El-Rei nosso Senhor filho que de tal nome se possa intitular, e o sobceda: e n'isto n„o sÛmente faremos o que È necessario, mas ainda pagaremos o que devemos a nossa lealdade, e ao grande amor que tinhamos a El-Rei meu Senhor e irm„o, e ao que somos certos que nos elle tinha. E este tempo È tal, em que estas obrigaÁıes se devem a seus filhos pagar, em todo o que redunda em suas honras, estado e serviÁoª.
Acabou o Infante sua proposiÁ„o, em que n„o foram necessarias mais razıes para suas sinas, para se louvar, e haver por justa e bÙa sua tenÁ„o. Pelo qual os Infantes e o Conde de Barcellos, e os outros senhores que eram presentes, por si e por todolos do reino logo fizeram d'isto um auto solemnisado por juramento, perante notairos publicos, em cumprimento do qual o Infante D. Fernando se chamou e intitulou por Princepe, atÈ que El-Rei houve filho.
CAPITULO VI
_Primeiro consentimento da Rainha para El-Rei seu filho casar com a filha do Infante D. Pedro_
A Rainha por este accordo e determinaÁ„o de que foi certificada, recebeu em sua tristeza muita consolaÁ„o, e em seus cuidados descanÁo, e em seus receios grande seguranÁa: especialmente por ser d'ella inventor e principal movedor o Infante D. Pedro, em quem, pelas causas que j· toquei, lhe faziam sem causa ter suspeitas, a seus filhos perigosas, e a ella desleaes; como quer que por elle nunca foram cuidadas, nem por alguma obra, nem congeitura fossem sentidas. Pelo qual, como Senhora virtuosa e agardecida a boa vontade e obras que o Infante D. Pedro comeÁ·ra de mostrar, mandou logo a elle o doutor Ruy Fernandes com esta mesagem:
´Senhor, diz a Rainha nossa Senhora, que por saber bem o grande amor que vos El-Rei seu Senhor tinha, e o desejo que sempre teve para vossa honra e acrecentamento: e como, em cumprimento de sua tenÁ„o leixou dito a Frei Gil de Tavulla, seu confessor, que sua derradeira vontade era, que o Principe seu filho casasse com D. Isabel vossa filha; que assi por cumprir principalmente a vontade d'El-Rei seu Senhor, como por vos mostrar com obras de vossa honra e contentamento, o contrairo do que por ventura vos fazem d'ella crÍr: e des-hi, porque vÍ que È este um dos melhores casamentos do mundo que a El-Rei seu filho, Senhor, agora melhor pode vir, lhe apraz que este casamento logo entre ambos se faÁa; e que para isso vos envia por mim seu consentimento, que por ventura atÈgora haverieis por duvidoso, e n„o t„o certo.ª
CAPITULO VII
_Resposta do Infante D. Pedro · Rainha_
O Infante, como ouviu este recado, em que viu o cabo de sua bemaventuranÁa, com o coraÁ„o cheio de alegria, e os olhos por isso n„o vasios de lagrimas, disse:
´Doutor amigo, dizei · Rainha, minha Senhora, que lhe beijo as m„os por tamanhas duas mercËs, como em sua embaixada me mandou offerecer: c· uma, de sua Senhoria haver por bem que este casamento se faÁa, È a maior que para mim pode ser. E a outra n„o na estimo em menos; pois se lembrou de m'a fazer sem meu requerimento. E que ·lem da paga principal que n'isso recebe de suas muitas virtudes, prazer· a Deus que eu a servirei por maneira que se n„o arrependa d'este seu proposito: mas que por agora me n„o parece tempo conveniente para isso, assi por a pouca idade d'El-Rei meu Senhor, em que se n„o perde tempo, como pela tristeza geral, em que com tanta raz„o todos seus vassallos estamos; e que sua Senhoria haja por bem que isto se alargue mais alguns dias, nos quaes se procurar· a dispensaÁ„o que se requer, e o povo perder· parte d'este sentimento, e se poder· fazer ent„o melhor e com mais honestidade, e com aquellas cerimonias e festas que se a taes pessoas deve.ª
CAPITULO VIII
_ContradicÁ„o que houve em algumas pessoas no consentimento do casamento d'El-Rei com a filha do Infante D. Pedro_
O consentimento e prazer da Rainha ·cerca d'este casamento, n„o foi egualmente recebido nos coraÁıes de todos os que alli eram: c· uns o aprovavam com prazer e sem paix„o, e outros com tristeza, odio, inveja e cobiÁa, o n„o podiam padecer. E entre alguns d'estes que hi havia, o principal, diziam, que era o conde de Barcellos, a quem parecia que da conclus„o e outorga d'este casamento pesava muito. E, como quer que em publico o n„o contradissesse, procurava porÈm secretamente, por meio do Arcebispo D. Pedro, de Lisboa, a quem a Rainha dava muita fÈ, e n„o tinha boa vontade ao Infante D. Pedro, como do que ·cerca d'este casamento lhe tinha prometido, ella se desdissesse, com fundamento de trabalhar com toda sua possibillidade que El-Rei casasse com sua neta, D. Isabel, filha maior do Infante D. Jo„o; porque o conde de Barcellos, como j· disse, foi filho natural d'El-Rei D. Jo„o, e teve tres filhos legitimos da filha do Condestabre D. Nuno Alvares Pereira, com quem primeiro casou: saber D. Affonso, conde d'Ourem; e D. Fernando, conde d'Arrayolos: e a Infante D. Isabel, mulher do Infante D. Jo„o; e por falecimento da filha do Condestabre casou com D. CostanÁa de Noronha, filha do conde de Gyam e irm„ d'este Arcebispo, que elle com raz„o amava muito; porque n'ella havia assaz de virtudes e fremosura e outras bondades, porque o bem merecia: e d'ella n„o houve filho nem filha, e por seu respeito o conde de Barcelos amava muito todas suas cousas d'ella, e em especial seus irm„os, entre os quaes o principal era o Arcebispo, asi por sua idade maior, como por sua denidade; e por isso o conde fiava d'elle, e lhe encarregava a estorva d'este casamento d'El Rei com a filha do Infante D. Pedro: e n„o falleciam outros que o n'isso assaz ajudavam. Da qual cousa o Infante por seus meios foi logo avisado: e como era prudente e discreto, n„o lhe esqueceu o que geralmente se crÍ e afirma da inconstancia e pouca firmeza que muitas mulheres por sua natural condiÁ„o tem, qu„o ligeiramente se movem. Pelo qual, por segurar o passado, foi logo fallar · rainha, pedindo-lhe com palavras em que havia muita raz„o e honestidade, que da mercÍ e consentimento que lhe tinha prometido ·cerca do casamento d'El-Rei com sua filha, lhe desse uma certid„o e seguranÁa assignada por ella; do que a Rainha muito aprouve, e encommendou ao Infante que a fizesse, como fez, em um Alvar·, na fÛrma que cumpria: e Ella o assignou e lh'o deu, que o tivesse.
CAPITULO IX
_De como se fez o saimento d'El-Rei no mosteiro da Batalha_
El-Rei e o Principe seu irm„o, e a Rainha e Infantes, e outros muitos prelados e condes, e senhores do reino, partiram de Thomar para o mosteiro da Batalha no fim do mez d'Outubro, que era o termo, a que as gentes, para o saimento d'El-Rei, se haviam n'elle de ajuntar, e des-hi para as cÙrtes em Torres Novas, e por estas ceremonias de saimentos, que aos Reis e Princepes, depois de suas mortes, em suas reaes sepulturas se fazem, serem t„o geraes e t„o costumadas em Espanha e assim n'estes reinos de Portugal, que pela mÛr parte todos h„o d'ellas noticias e informaÁ„o: por fugir o vicio e avorrecimento da proloxidade, a mim pareceu escusado descreve-lo aqui particularmente, e sÛmente abaste brevemente saber que na pompa e cerimonias de suas exequias se guardou e cumpriu todo o que ao estado de um t„o alto Principe em tal auto cumpria; e nos bureis e lutos dos corpos de todos, e nas lagrimas geraes de todolos olhos, e na commum tristeza de todolos rostos, em todo o reino claramente parecia quanto em sua vida era de todos amado, e a grande perda e desamparo que, por sua morte e pelo perder, todos recebiam.
CAPITULO X
_Como ante de se fazerem as primeiras cÙrtes em Torres Novas, se fez uma conjuraÁ„o contra o Infante D. Pedro_
Acabado o saimento, assi como alli eram juntos, assim se foram todos a Torres Novas, onde por dar logar que alguns alcaides e outras pessoas acabassem de vir, para fazer as menagens e dar a obediencia a El-Rei, sem se comeÁarem as cÙrtes se passaram alguns poucos dias: nos quaes por meio principalmente de Vasco Fernandes Coutinho, marechal, que depois foi primeiro conde de Marialva, foram liados por juramento contra o Infante D. Pedro casi todolos fidalgos do reino, em que entravam, por mais principaes, o Arcebispo D. Pedro, e D. Sancho seu irm„o, e o priol do Crato D. Frei Nuno de Goes; os quaes juntos secretamente em uma egreja, o marechal, como quer que outros hi estivessem de mÛr valor e auctoridade, elle para os mais commover a seu proposito, porque tinha para isso audacia, lhe fez uma falla com largas razıes, cuja sustancia foi:
´Que o regimento do reino e criaÁ„o d'El-Rei e seus irm„os por disposiÁ„o do testamento d'El-Rei fic·ra, como sabiam, que n„o saisse do poder da Rainha; o que elles deviam requerer e procurar que se cumprisse; assi por ser raz„o, como por a Rainha ser mulher estrangeira, da qual por se mostrarem em favor de seu serviÁo e tenÁ„o sempre receberiam honra, favor, mercÍ e acrecentamento; e por isso deviam trabalhar que n„o viesse em maneira alguma ao Infante D. Pedro, de cujos rigores e mostranÁas suas falsas, que fazia ao povo, de justo e s„ conciencia, n„o podiam receber se n„o o contrairo; e que isto lhes seria facil de fazer; porque por parte do Infante D. Pedro, quando muito podesse ser, seria povo e gente meuda, que sem cabeceiras n„o teriam forÁas nem dariam ajuda, e que por a sua d'elles eram os que estavam presentes com outros muitos que logo seriam com elles; e mais cria do Infante D. Anrique, e sabia do conde de Barcellos, que seriam em sua ajuda, pedindo-lhe em conclus„o, que o houvessem todos assi por bem, e o affirmassem, e segurassem com juramento.ª
Do que a todos aprouve, e o poseram em escripto, que logo juraram.
Mas, como quer que n'isto entrassem grandes homens, e de muita auctoridade, porÈm seus signaes e juramentos tiveram d'hi a pouco pouca firmeza; todos os mais se desdisseram e acostaram · banda do Infante D. Pedro e dos outros Infantes que foram com elle; porque n'aquelle tempo todo o reino finalmente estava · vontade e disposiÁ„o dos filhos e netos d'El Rei D. Jo„o.
E d'este ajuntamento assi jurado, que · rainha logo foi notificado, porque confiou n'elle muito mais do que devera, se lhe seguiu todo seu damno, perda, desassocego, e emfim a morte, n„o como a seu estado cumpria; porque crendo, que n'estes para seus feitos haveria a firmeza que juraram e lhe prometteram, n„o se contentou no principio d'estes movimentos d'alguns meios bons e honestos, que lhe foram apontados; do que a ella pelos n„o acceitar se seguiu muito mal, e ao reino, e a muitos d'elles pouco bem, como se dir·.
CAPITULO XI
_Como se deu a obediencia e fizeram as menagens a El-Rei e se praticou sobre quem regeria_
Assignado o dia da proposiÁ„o das cÙrtes, El-Rei teve seu estrado e Real Estado em uma pequena praÁa, que se faz ante a egreja de Santiago d'aquella villa, onde todolos senhores e officiaes e procuradores dos povos postos em sua costumada e antiga ordenanÁa, comeÁou e fez arenga, que para tal auto se requere e costuma, o doutor Vasco Fernandes de Lucena, mui elegante e cheia de mui dÙces palavras e graves sentenÁas para aquelle caso da obediencia; e com necessarias e vivas razıes exortou todolos que eram presentes para a fazerem; como a arenga foi acabada os Infantes primeiro, e des-hi os condes e os outros senhores deram logo suas menagens e obediencias a El-Rei, segundo sua boa e devida lealdade; e comeÁaram logo de mover sobre quem teria o regimento do reino, que das cÙrtes era o ponto mais sustancial, no que houve entre todos grandes desvairos; porque os mais se mostravam segundo opini„o das parcialidades que tinham, justificando cada uns suas tenÁıes, e aos menos, que haviam respeito ao bem commum e assessego do reino, n„o eram recebidos nem ouvidos seus meios.
CAPITULO XII
_Concordia feita entre a Rainha e o Infante D. Pedro acerca do regimento_
E porque a competencia e deferenÁa do regimento n„o era principalmente salvo entre a Rainha e o Infante D. Pedro, a Rainha, como senhora, que de sua virtuosa condiÁ„o desejava todo o bem e assessego, sentindo os malles e damnos que d'estas diversıes se podiam seguir, pelos atalhar com alguma justa concordia, enviou rogar ao Infante D. Pedro por meio do Infante D. Anrique, que lhe fosse falar: do que o Infante foi muito alegre; e, escolhendo para isso tempo conveniente, satisfez logo a seu requerimento: e, sendo ambos sÛs apartados, a Rainha lhe disse muitas rasıes sobre o desvairo do regimento, em que bem pareceu que havia n'ella muita virtude, s„ conciencia e grande discriÁ„o e justo juizo, concluindo que lhe rogava que ambos sem outro meio se quizessem sobre isso concordar.
O Infante D. Pedro, como era Principe justo, bom, e temente a Deus, foi de suas palavras assaz contente; e com outras de grande reverencia e acatamento lh'as teve muito em mercÍ; e depois d'alguns meios, sobre que entre si debateram, finalmente foram acordados d'esto:
´Que com a Rainha ficasse o cargo da criaÁ„o de seus filhos, e com a governanÁa e ministraÁ„o de toda a fazenda; e ao Infante ficasse o regimento da justiÁa e o titulo de defensor dos reinos por El-Rei.ª
O qual meio, por muitas rasıes, que entre si praticaram, houveram por justo e razoado; e mostraram ambos ser d'elle muito contentes.
CAPITULO XIII
_Da contradiÁ„o e mudanÁa que houve n'este acordo_
Fez-se este acordo entre estes senhores pela manh„, no qual dia os que eram ajuramentados, em especial o Arcebispo de Lisboa, por meio de seus meios, que dentro trazia, souberam logo da falla que a Rainha e o Infante houveram; e, como ficaram ambos d'acordo, do que lhes muito pesou, e em especial se disse, que desprouvera muito ao conde de Barcellos, que desejava e procurava entre elles haver desacordo, por se n„o aceitar o casamento de El-Rei com a filha do Infante, esperando com a vinda do Infante D. Jo„o · cÙrte, que El-Rei casasse com sua filha, como atraz se tocou.
E ao outro dia, sendo ante a Rainha juntos alguns d'estes Principaes seus servidores, lhe pergunt·ram em que maneira se concord·ra com o Infante. E a rainha lhes disse que era bem concordada; e que por assi ser dava graÁas a Deus, dizendo-lhe logo a concordia em que ficaram, e as causas e razıes porque ella devia ser, e era d'isso contente. A qual cousa lhe logo todos desdisseram; e que fÙra n'isso muito enganada, e seu estado muito abatido; e que ainda err·ra fazer nada em cousa semelhante sem primeiro lh'o fazer saber, ao menos para a aconselharem, afeando tal concerto com razıes e inconvenientes assi cÛrados, e t„o aparentes, que a Rainha, vencida d'elles, creu que em fazer tal acordo n„o podera fazer cousa em todo mais errada. Pelo qual logo alli lhe fizeram tomar outra determinaÁ„o contraira · em que fic·ra com o Infante; e que todavia se afirmasse ella sÛ reger sem outra ajuda; e, quando n„o podesse com alguma parte do regimento, que de sua m„o a dÈsse e encarregasse a quem sentisse que havia de servir e fazer sua vontade. O que n„o ficou logo por saber ao Infante D. Pedro.
CAPITULO XIV
_Apontamentos que publicamente se fizeram contra o testamento d'El-Rei para a Rainha n„o dever reger_
Com esta volta que a Rainha fez do proposito e acordo em que fic·ra com o Infante, comeÁaram outra vez as differenÁas e debates entre os grandes e povo sobre o regimento.
A Rainha com os de sua parte requeriam para ella toda a governanÁa em solido, assi como no testamento d'El-Rei fic·ra determinado: os povos geralmente com outros da parte do Infante D. Pedro requeriam o regimento para elle sÛ sem outra ajuda nem companhia, allegando que a Rainha por muitas razıes n„o devia reger; e d'este voto foram Pedro de Serpa, e Vicente Egas, cidad„os e procuradores de Lisboa, homens honrados, bem entendidos, e de grande autoridade. Os quaes altercando sobre estes debates perante El Rei, como quer que era menino, quando um e quando o outro lhe disseram:
´Muito alto e poderoso Principe, Rei nosso Senhor, porque nos parece que acerca de se regerem estes reinos por vÛs, sois requerido que cumprindo o testamento d'El-Rei vosso padre, que Deus haja, deis inteiramente o regimento · Rainha nossa Senhora vossa madre, nÛs, como procuradores da vossa cidade de Lisboa, e assi em nome dos outros procuradores que aqui s„o, nossos irm„os, dizemos que sob reverencia de vossa real pessoa, El-Rei vosso padre n„o podia fazer tal testamento; nem em tal caso leixar Regedor do reino · sua disposiÁ„o; porque a nÛs vosso povo pertence por direito enleger quem por defeito de vossa madura edade nos haja por VÛs de defender com as armas e reger por leis com justiÁa.
E isto n„o aggrava vossa legitima sobcess„o; nem ming˙a em vossas lealdades; c· por serdes seu filho maior legitimo, e bar„o, nÛs alegremente vos reconhecemos e recebemos por nosso verdadeiro Rei e Senhor; e com ajuda de Deus vos guardaremos aquella lealdade, fÈ, e amor, que bons, leaes vassalos devem a Senhor; mas quanto a enleger Regedor, atÈ que VÛs sejaes em edade para nos por vÛs regerdes, nÛs buscaremos e enlegeremos quem em vosso nome nos haja de reger e governar; porque asi como a nÛs sÛmente pertence enleger Rei, se a real e legitima sobcess„o dos Reis d'estes reinos por algum caso, o que Deus n„o queira, se destinguisse, e se n„o guardaria em tal caso o testamento, nem disposiÁ„o do Rei postumeiro; assi pertence a nÛs enleger agora Regedor por VÛs; e para serdes servido abasta que nÛs o enlejamos tal, que seja natural, e do vosso real sangue, e n„o estrangeiro, e em que haja virtudes, saber, e conciencia, e sobre tudo lealdade, a que se n„o deva poer suspeita. E vossa mui Real Senhoria, guarde-nos nossa justiÁa e liberdade, como esperamos, no que recebereis muito serviÁo: e nÛs vossos vassalos com vossos reinos receberemos mercÍ, proveito e assessego, que deveis desejar: e assi o pedimos a vÛs, mui illustres Infantes e magnificos condes; e requeremos a vÛs, honrados senhores, e leal povo de Portugal, que aqui sois juntos para celebrar estas reaes cÙrtes, que assi juntamente o peÁaes e requeraes que se faÁa.
No cabo d'esta falla, assi como os coraÁıes dos que a ouviram eram desvairados, assi n„o houve rostos nem consentimentos eguaes; e por isso n„o cess·ram os primeiros debates do Regimento, os quaes, como sÛmente eram entre a Rainha e o Infante, como disse, alguns por assessego apontavam que ambos fossem exclusos de reger, e enlegessem outros; outros diziam, mas que ambos regessem juntamente n'aquella parte que a cada um bem coubesse; outros tinham que a Rainha sÛmente tivesse o Regimento; e outros o davam inteiramente ao Infante: e a esta parte se inclinavam mais os povos; e a cada uns para execuÁ„o de seus votos n„o falleciam autorizadas razıes.
CAPITULO XV
_Do meio que o Infante D. Anrique tomou entre a Rainha e o Infante D. Pedro ·cerca do Regimento_
O Infante D. Anrique era a estas differenÁas presente, e como virtuoso meio trabalhou de as poer em alguma temperanÁa: e posto que alguns tiveram que elle fÙra sempre mais inclinado · parte da Rainha que · do Infante; porÈm, passados quinze dias d'apontamentos e conselhos, foi feita por acordo do Infante D. Anrique, e dos outros do conselho e procuradores do povo uma determinaÁ„o por maneira de Regimento, que se denunciou em publico ajuntamento por Nuno Martins da Silveira, escriv„o da puridade, cuja sustancia foi:
´Que a Rainha ficasse por tetor e curador d'El-Rei seu filho com a ministraÁ„o das rendas e officios; e o Infante D. Pedro tivesse cargo da defens„o do reino com titulo de defensor, e o conde d'Arrayollos, filho do conde de Barcellos tivesse cargo da justiÁa; e que na cÙrte, onde El-Rei estivesse, andassem sempre seis do conselho repartidos a tempos, e mais um prelado e um fidalgo, e um cidad„o; e na cÙrte outros alguns sem especial necessidade n„o podessem andar: e que com estes seis do conselho e tres dos estados se determinassem todas as cousas que sobreviessem com autoridade da Rainha e acordo do Infante D. Pedro, estando sempre pelas mais vozes. E sendo caso que seus votos fossem em desvairo por egual, que o notificassem ent„o aos Infantes e condes; e que segundo as mais vozes fosse o negocio da duvida determinadoª.
E as repartiÁıes d'estas cousas, em que estes senhores haviam de ter cargo, eram assi limitadas, que muito poucas, e de pequena sustancia podia cada um em seu cargo, por sÛ determinar.
Foi mais ordenado ´que em cada um anno se fizessem cÙrtes, ·s quaes n„o viessem mais que dois prelados e cinco fidalgos, e oito cidad„os, e n'ellas se determinassem as duvidas que os do conselho por si n„o podessem concludir, ou algumas outras em sustancia assi especiaes, que para aquelle tempo devessem ou podessem ser reservadas, assi como mortes de grandes homens e privaÁ„o d'officios grandes, e perdimentos de terras, e corregimento ou fazimento de leis e ordenaÁıes; e que nas cÙrtes vindoiras sempre se podesse correger e emmendar qualquer defeito ou erro que houvesse nas passadas.ª Com outras particularidades, cuja mais express„o n„o È necessaria.
E n'este accordo cuidou o Infante D. Anrique que, se o Infante D. Pedro o assignasse e consentisse, que levemente acabaria com a Rainha que tambem assi o fizesse; mas ella, a que o dito acordo foi primeiro mostrado, por induzimentos de n„o verdadeiros e s„os conselheiros o denegou fazer, querendo que o Regimento lhe fosse dado inteiramente, e que ella de sua m„o daria d'elle a parte que quizesse a quem lhe bem parecesse.
E o Infante D. Pedro, como quer que mostrasse do dito acordo sentimento, por lhe ser n'elle mui limitada e adelgaÁada a parte do reino que havia de reger, porÈm por assessego disse: ´que faria o que o Infante seu irm„o quizesseª.
Mas o Infante D. Anrique, vendo t„o forte o proposito da Rainha, houve o feito por descordado de todo. De que o povo foi logo sabedor, e posto em grande alvoroÁo contra a tenÁ„o da Rainha, e de seguirem a do Infante D. Pedro, qualquer que fosse. Ao qual os povos por Lopo Antonio, que depois foi escriv„o da puridade, fizeram saber ´que estavam para seguir o que elle ordenasse, affirmando que elle sÛ sem outrem havia de reger.ª
A Rainha por os de sua parcialidade, que d'este alvoroÁo foram logo sabedores, foi conselhada que para o atalhar, como cumpria a seu serviÁo e honra, e bem do reino, convinha que logo assignasse o accordo, e n„o parecesse que por sua parte ficava; · Rainha prouve fazel-o, e mandou logo chamar o Infante D. Anrique, em cujo poder era o Regimento, e o assignou, e ordenou que os Infantes e os outros prelados e condes, e procuradores, o assignassem e jurassem juntamente, o que todos fizeram em um altar, perante notairos publicos, salvo o arcebispo D. Pedro, que n„o quiz por n„o ficar o Regimento _in solido_ · Rainha. Mas cada um que assignou e jurou, fez assi seu juramento, e sÛ escreveu seu signal com taes cautellas e palavras, que bem parecia querer leixar a sua disposiÁ„o fazer sempre depois o que quizesse, sem parecer que o quebrantava.
CAPITULO XVI
_Como a Rainha por meio do conde de Barcellos enviou pedir ao Infante D. Pedro o alvar· que lhe tinha dado sobre o casamento d'El-Rei_