Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)

Chapter 10

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´Que ante de tudo · Rainha por uma pessoa honrada fosse primeiro pedido e requerido que se tornasse para suas terras, ou para outro qualquer logar que ella quizesse n„o sendo sospeito, com todalas seguranÁas que ella pedisse, e que elles todos iriam por ella e a serviriam e acatariam como ella merecia, por ser mulher e madre de dois seus naturaes Reis e Senhores, e que se ella o quizesse fazer, todo seu trabalho o houvessem n'isso por bem empregado; porque com isso o menos ficaria por acabar, e que quando ella esto n„o houvesse por bem, que ent„o fossem cercar e combater o Crato atÈ o tomarem por forÁa, ou como melhor podessem, guardando sempre qualquer casa ou torre em que a Rainha e a Infante estivessem, por acatamento e reverenÁa de sua real pessoa e estado, c· era raz„o apagar-se logo aquella pequena brasa; porque d'ella se n„o seguisse ao reino outro incendio e dano maior.ª

A Rainha como foi certificada que os Infantes determinavam ir cerca-la, vendo que o conde de Barcellos e os outros fidalgos se escusavam de ir por ella e a servir como ficaram, quizera-se logo partir do Crato para Castella; mas foi aconselhada que por agravar mais seu caso n„o o fizesse atÈ os Infantes serem j· em caminho contra ella; porque ent„o pareceria raz„o faze-lo; pois poderiam dizer que com temor de a n„o prenderem ou deshonrarem o fazia, pelo qual tanto que soube que elles moviam seu arraial da Ribeira de Seda contra o Crato, ella na noite em que amanheceu dia de S. Thom·s, que vem a XXIX de Dezembro, de mil e quatrocentos e quarenta e um, se partiu para Albuquerque, e foram principaes em sua companhia o Priol do Crato e D. Affonso Anriquez, e D. Affonso, senhor de Cascaes, e D. Fernando, seu filho, e alguns outros; porque a mais gente ficou no castello do Crato com GonÁalo da Silveira e Vasco da Silveira, filhos de Nuno Martins da Silveira, a que a guarda de todo ficou encomendada. E estes acabaram depois em serviÁo da Rainha suas vidas em Castella, e assi os ditos D. Affonso e D. Fernando, e o Priol do Crato, que no Agosto seguinte falleceram em «amora.

Alguns moradores do Crato e principaes, comquanto alli estavam sobjeitos ao Priol, eram porÈm servidores secretos do Regente. E como sentiram a partida da Rainha, fizeram logo dois avisos, um ao Regente do caso como passara, e outro a Garcia Rodriguez de Siqueira, Comendador MÛr d'Aviz, que era capit„o em Alter, para que fosse logo como foi por meio e engenho d'elles cobrar a villa, e depois de se bem apoderar d'ella e a segurar com fortes palanques do dano que os do castello lhe poderiam fazer, o notificou logo aos Infantes, que acordaram enviar logo a GonÁalo da Silveira, e a Vasco da Silveira, Vasco Martins de Mello, por ser casado com uma sua irm„, filha tambem de Nuno Martinz da Silveira, para que os aconselhasse como o tempo e raz„o requeria e que sem mais resistencia entregassem o castello. Mas GonÁallo da Silveira, sobre quem a defens„o principalmente pendia, se escusou da entrega, como fidalgo em que pareceu que havia bondade, lealdade e discriÁ„o, e o coraÁ„o lhe n„o fallecia.

Com este recado tornou Vasco Martinz aos Infantes, que n„o leixaram de seguir seu caminho atÈ serem sobre o logar; porque receiaram que a Rainha com gente e mantimentos de Castella bastecesse os logares, pois n'elles com essa esperanÁa leixava sua gente.

O conde d'Ourem com a gente de Lisboa se aposentou dentro na villa, e os Infantes fÛra em torno do castello, onde em chegando fizeram publico alardo com toda a gente, em que se acharam doze mil homens de peleja com muita artilharia, que logo foi assentada em ordenanÁa de combate, de que os mais do castello tom·ram grande desmaio; e porÈm ante d'algum cometimento, o Regente mandou outra vez por o dito Vasco Martinz requerer GonÁallo da Silveira que entregasse o castello e se tornasse para El-Rei que lhe faria muita mercÍ, e serviria seu officio d'escriv„o da Puridade como o fÙra seu pae, e que seu irm„o seria acrecentado com outras abastanÁas e razıes, de que GonÁalo da Silveira algum tanto vencido com prazer dos Infantes, tomou assento que o n„o combatessem por X dias, dentro dos quaes se a Rainha depois de ser requerida por elle, lhe n„o desse soccorro e ajuda com que bem se podessem defender que elle entregaria a fortaleza, e que se lh'o desse, que elle aquelle trabalho e outro maior soffreria atÈ, morrer por seu serviÁo.

Foi logo a Rainha de todo esto avisada por GonÁalo Annes, criado do Priol e alcaide do Crato, que como prudente messegeiro, lhe disse mui largamente as difficuldades que havia na defens„o do castello, por ser tamanho e contra tal e tanta gente, e enfraquentou muito com vivas razıes a esperanÁa que a Rainha lhe dava, e tinha em uns oitocentos homens d'armas que a Rainha de Castella sua irm„ lhe mandara para isso offerecer, dizendo-lhe ´que estes n„o eram pagos nem juntos, e estavam ainda em Castella por suas casas. E que por tantos favores de p„es, de que os Infantes seus irm„os enganosamente a basteciam, n„o abastavam para tal tempo e tamanha necessidade, e que em caso que esta gente e outra mais os quizesse soccorrer, que pois n„o podia ser pelo cÈo, menos seria pela terra em que por todalas partes havia tanta e t„o forte resistencia, que era impossivel ou assignada sandice fazer-se.ª

E emfim a Rainha com o Priol visto todo, accordaram que o castello se entregasse, para que logo mandou Pero de Goes seu filho, que com seguranÁa dos castellos o leixou livre, e o Regente o entregou logo ao Infante D. Jo„o, e deu em nome d'El-Rei o Priorado do Crato a D. Anrique de Castro, filho de D. Fernando de Castro, e depois a D. Jo„o d'Atayde, por cuja morte o houve tambem D. Vasco d'Atayde seu irm„o. E depois de despedir com mercÍs e mui graciosas palavras aquellas pessoas que n'esta jornada o vieram servir, e que por ent„o n„o houve mester, se partiu caminho d'Abrantes, e com elle o conde d'Ourem. E o Infante D. Jo„o se tornou para a cidade d'Evora.

CAPITULO LXXV

_Como o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a Lamego para passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos se poz em defesa, e do que se n'isso passou_

E ante de seu apartamento tiveram conselho sobre o que ao diante deviam fazer, e accordaram que por quanto j· se comeÁara d'entender contra os que eram reveis e desobedientes a seu Regimento, que o Regente se fosse · Beira juntar-se com o Infante D. Anrique, para que ambos pela melhor maneira que o tempo lh'o offerecesse, assessegassem os desmandos e alvoroÁos em que os fidalgos d'aquella comarca andavam. E assi soubessem logo se o conde de Barcellos queria estar · sua obediencia e ordenanÁa como os outros, e se o contradissesse, que procedessem contra elle de feito e direito, como sua contumacia requeria, pois com ella dava causa a se fazer em muita parte do reino muito mal, e pouca justiÁa.

Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que pÙde, e posta em ordenanÁa e com esperanÁa de guerra se foi a Vizeu, e alli no Couto se viu com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de gente, armas e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem que cumpria se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de assi poderosos passarem o Douro, e o Regente usar inteiramente de seu officio nas comarcas d'Entre Doiro e Minho, e Tras os Montes.

A Rainha por conselho do conde de Barcellos se partiu d'Albuquerque, com fundamento de ir ao longo do estremo atÈ atravÈs da comarca de Tras os Montes, para ir entrar em Portugal pelas terras d'Alvaro Pirez de Tavora, onde o conde de Barcellos e os de sua opini„o se offereceram de a irem receber e servir. E de Ledesma a que chegou, enviou seus messegeiros ao conde para saber sua determinaÁ„o e vontade, e para lh'a fazer maior e mais forte, lhe enviou novos esforÁos com esperanÁa de grande honra e acrecentamento seu; os quaes messegeiros foram a elle, que estava em Guimar„es ao tempo que os Infantes chegaram a Lamego, e sendo de sua chegada d'elles certificado, e da maneira e tenÁ„o com que iam, n„o pÙde dessimular a muita tristeza e grande cuidado que por isso recebeu, e respondeu · Rainha escusando-se com coisas necessarias, a n„o poder cumprir por ent„o seu requerimento, reprendendo com largas razıes o pouco cuidado que os Infantes d'Arag„o para sua restituiÁ„o mostravam. E por se mostrar forte aos que de sua parte j· sentia mui fracos, enviou dizer ao conde d'Ourem seu filho, que dissesse como disse da sua parte ao Regente, que escusasse passar o Douro, porque elle lh'o n„o havia de consentir, de que o Infante mostrou grande sentimento, e com palavras e contenenÁa n„o livres de sanha, respondeu ao conde por maneira, que sentindo elle como a honra e estado de seu pae se despunha a grande perigo, pediu ao Regente por mercÍ que sobre o caso n„o houvesse por mal que elle mandasse um cavalleiro por messegeiro a seu pae, de que ao Infante aprouve, e ainda com desejo de mais assessego o obrigava que para isso elle n„o devia mandar alguem, mas ir em pessoa. E porque Luiz Alvarez de Sousa, que ao conde foi sobr'isso enviado, n„o lhe abrandou em nada sua tenÁ„o tornou a elle em pessoa o conde d'Ourem seu filho, o qual como quer que com palavras de muito amor e razıes de grande efficacia lhe pedisse que se decesse de sua opini„o, pois o tempo e a raz„o assi o queriam, nunca o pÙde acabar, e assi assaz triste e anojado tornou para o Regente sem alguma conclus„o.

O conde de Barcellos moveu de Guimar„es com mostranÁa de ao Infante defender por forÁa a passagem. E assentou-se com sua gente em auto de guerra em Meisanfrio, que È logar sobre o Douro duas leguas de Lamego. E mandou alagar e metter de sob a agua todalas barcas e bateis do rio, pelo qual o Infante aceso j· em desejo de vinganÁa para que os desprezos e porfia do conde o moviam, determinou logo de passar contra elle, e para isso ordenou que no Douro sobre toneis se fizesse uma ponte porque a gente e cavallos podessem em breve e mui seguramente passar, e assi se fez prestes do mais que para rompimento e peleja cumpria. As quaes cousas vendo o conde d'Ourem aparelhadas com tal triganÁa para destruiÁ„o de seu pae, ajuntou comsigo para sua ajuda alguns principaes, perante quem fallou ao Regente. E com palavras de grande prudencia e muita piedade, e com outras de n„o menos obrigaÁ„o, lhe pediu que sobrestivesse em sua passagem e lhe desse logar que volvesse a seu pae; porque esperava de o tornar · sua obediencia e serviÁo prouve d'isso ao Infante, e lhe louvou muito a dÙr e cuidado que para remedio de seu pae a todos mostrava. Porque entre as outras virtudes muitas que no Infante havia, esta era n'elle de grande perfeiÁ„o, ser para as execuÁıes de sua sanha mui temperado, e mui ligeiro de mover por rogos e intercessıes dos bons.

O conde d'Ourem foi logo a seu pae, e t„o evidentes lhe mostrou os erros de sua dureza e os principios que se ordenavam para sua quÈda, que vencido do evidente perigo que via, mais que de sua propria vontade, lhe prouve vir como veiu a Lamego falar aos Infantes. Os quaes como souberam de sua vinda sahiram a recebe-lo fÛra da cidade acompanhados de muita e mui nobre gente.

E posto que entre o conde e o Regente havia odios mui verdadeiros, porÈm n'aquella hora que se viram houve entre elles palavras fingidas de tanto amor e cortezia, e se abraÁavam a cada passo com tanta alegria, que pareceu que um n„o estimava nem desejava mais bem que a vista do outro, sem alguma lembranÁa de roturas passadas, e nas contenenÁas do povo que os assi viam, bem parecia que todos haviam d'isso grande prazer.

Era hi presente o Arcebispo de Braga D. Fernando, que com vozes altas comeÁou de cantar o principio do salmo _Ecce quam bonum & quam jucundum habitare fratres in unum_; como a quem parecia que na concordia d'estes Senhores se segurava de todo a paz e descanÁo do Reino. Os quaes como foram na cidade fallaram entre si suas cousas, e assi nos desvairos passados, e o Regente recebeu com bem na cara as desculpas do conde, que ficou de todo · sua obediencia, approvando em todo o seu Regimento, e prometteu de mais n„o servir nem seguir a Rainha, salvo n'aquellas cousas em que os mesmos Infantes a servissem, e assi concludiram que o casamento d'El-Rei de necessidade se fizesse logo com a filha do Infante, ao menos com recebimento simples; porque ao tomar de sua casa, se fariam depois suas festas solenes e reaes, como a sua honra e estado cumpria. E assi prouve ao Regente a requerimento do conde que seu cunhado D. Pedro, o Arcebispo de Lisboa, que andava em Castella desterrado, fosse como foi · sua dinidade restituido, e lhe outorgou para si e para os seus outras muitas graÁas e mercÍs, a que depois seu agardecimento n„o respondeu com egual balanÁa.

E concordado assi todo se despediram uns dos outros: o Regente e o conde d'Ourem para Lisboa, e o Infante D. Anrique para suas terras, e o conde de Barcellos tornou-se d'onde viera; e isto foi no fim de Fevereiro do anno de mil e quatrocentos e quarenta e um.

CAPITULO LXXVI

_Das cÙrtes que se fizeram sobre o casamento d'El-Rei com a Rainha D. Isabel, filha do Infante D. Pedro_

Como o Regente foi em Lisboa logo ordenou cÙrtes, que com solene ordenanÁa de cidades e villas, e pessoas principaes do reino se fizeram em Torres Vedras, onde alÈm d'outras muitas cousas, em que por bem da Republica se entendeu, o Infante D. Pedro com fundamentos passados da vontade d'El-Rei D. Duarte, e com a necessidade presente que disse, com muita autoridade e eficacia requereu aos do reino outorga e consentimento para El-Rei seu Senhor casar com sua filha, e o povo por conhecer ser verdade o que apontava, e que em christ„os n„o havia por ent„o mulher com que El-Rei t„o bem podesse casar como a seu estado e honra cumpria, e assi movidos da humanidade e resguardo com que o pediu, n„o sÛmente foram d'isso todos contentes, mas ainda para quando embora tomasse sua casa lh'offereceram um rico presente. Pelo qual o Infante se foi a Obidos, onde era El-Rei, e alli em dia da Ascens„o, · tarde, no anno de mil e quatrocentos e quarenta e um, · vista de todos se celebraram os esposoiros entre El-Rei e a Rainha, nas m„os de um Dai„o d'Evora que servia El-Rei de seu fisico, entrando El-Rei em edade de dez annos. E como os procuradores do povo acabaram de ser respondidos a seus capitulos e requerimentos, se despediram.

CAPITULO LXXVII

_Como o Regente por meio do conde de Barcellos procurou de se concordar com a Rainha D. Lianor, e das cousas por que ella n„o quiz_

O Infante D. Pedro de se assi concordar com o conde de Barcellos mostrou que recebia prazer e descanso, crendo que para tranquillidade do reino que procurava, tinha a mais aspera difficuldade passada. E para temperar e vencer a outra da Rainha que sobre tudo desejava, ante de partir de Lamego fallou com o conde seu irm„o, e lhe pediu que para ambos se concordarem, como sempre desejara, quizesse entre a Rainha e elle ser medeaneiro; porque elle tinha raz„o de n'isso a servir, e ella de o querer.

Mostrou o conde que d'isso lhe prazia muito, e enviou logo a ella que era j· em Madagal, Alvaro Pirez de Tavora, de que muito fiava, encommendando-lhe muito com razıes e causas mui evidentes o concerto da Rainha com o Infante, e assi sua desculpa pela n„o servir na fÛrma que com ella tinha assentado.

A Rainha n„o ouviu esta embaixada com boa vontade, nem a acceitou como se confiava. Assi por haver j· por suspeito o conde, pela concordia feita entre elle e o Regente, em que Alvaro Pirez tambem entrara; como porque lhe parecia, segundo os Infantes seus irm„os estavam ent„o apoderados de Castella e Arag„o e Navarra, que com as gentes e poder d'estes reinos apremariam e guerreariam o Regente por maneira que de necessidade lhe conviesse leixar a ella livremente o Regimento, como requeria e desejava. E este esforÁo e presunÁ„o tomava ella porque n'este tempo os Infantes seus irm„os e o Principe D. Anrique, com odio que tinham ao conde e Condestabre se concordaram e cercaram El-Rei em Medina del Campo, e o entraram por forÁa, e recolheram sua pessoa d'El-Rei a seu poder, e lanÁaram fÛra fugidos e destroÁados o Condestabre e o Mestre d'Alcantara, e outros que eram dentro em ajuda e defens„o d'El-Rei. E n'esta sombra de prosperidade em que a Rainha via seus irm„os em Castella, tomou tanta confianÁa para seu recurso, que n„o quiz haver por bom nenhum meio que de Portugal sem o Regimento e criaÁ„o d'El-Rei lhe fosse cometido. Antes para mais apressar sua destruiÁ„o e proveza, foi como n„o devia aconselhada, que para em seu caso obrigar mais seus irm„os, quando os fosse vÍr devia levar e dar-lhe para sua ajuda alguma gente d'armas, de que em suas revoltas tinham a necessidade que sabiam, o que · Rainha pareceu bem, e para prover aos seus e a outros que para isso tomou, de cavallo armas e soldo, vendeu e apenhou a mÛr parte de quanta prata e joias tinha. E camanho erro n'isso fez, ella em suas minguas sem longa tardanÁa o sentiu, porque finalmente o amparo e soccorro que em suas fadigas houve de seus irm„os, com quanto eram tamanhos Senhores, se tornou sÛmente em fortunas dobradas, e claros enganos em que a trouxeram, e com que acabaram de lhe levar todo o que para repairo seu e dos seus lhe ficava.

CAPITULO LXXVIII

_Como a Rainha D. Lianor se foi · cÙrte d'El-Rei de Castella, e das embaixadas que vieram a Portugal_

A Rainha n'esta enganosa confianÁa de sua certa restituiÁ„o se foi · cÙrte d'El-Rei de Castella, a que os Infantes d'Arag„o ent„o governavam de todo; dos quaes logo em sua chegada foi com muita honra e acatamento recebida e agasalhada. Onde depois de em pessoa recontar suas querellas e aggravos, com mais graveza por ventura do que foram em effeito, El-Rei por satisfazer a ella e cumprir a vontade dos Infantes, enviou ao Infante D. Pedro uma e muitas vezes mui continuas embaixadas, umas brandas e outras com aspereza, umas mostrando desejar paz, e outras mais desafiando guerra, apontando sempre taes meios em favor e contentamento da Rainha, que a sem raz„o e o desserviÁo d'El-Rei de Portugal e o dano do seu reino, que claramente comsigo traziam, conselhavam que se n„o acceitassem; especialmente porque em todos se requeria que a criaÁ„o d'El-Rei e do Principe seu irm„o e irm„s fosse · desposiÁ„o da Rainha, ou ao menos em poder de dois cavalleiros, quaes a ella prouvesse, que fossem de todo isentos da juridiÁ„o e mandado do Infante, o que o reino todo por causas mui evidentes e necessarias sempre contrariou, e muito mais o Regente, que mostrava haver por singular bem-aventuranÁa e grande repouso para si e para seus filhos o amor d'El-Rei, de que tinha certa esperanÁa, pois com tanto amor e perfeiÁ„o o criava, e de que seria desesperado se fÛra de seu poder, e com seu odio e de muitos outros o criassem.

E porÈm sempre lhe prouve, e assi o respondia, que · Rainha tornando-se a estes reinos fossem inteiramente dadas todalas terras e renda que n'elles tinha, com a criaÁ„o de seus filhos livremente. Ainda que em umas cÙrtes que n'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e dois em Evora se fizeram, foi por todolos tres estados requerido e concordado que a Rainha devia por direito ser de todo privada, e que principalmente n„o devia vir a estes Reinos, assi pela gente estrangeira que como imiga n'elles metera e os guerreara, como pelos grandes trabalhos e muitas despezas que com receio de guerra tinham por sua causa padecido, em especial se houve por mui perigoso inconveniente o odio e m· vontade que aos principaes do reino j· tinha, de que se esperava ella com El-Rei seu filho procurar sempre destruiÁıes e cruas vinganÁas, que a muita lealdade de seus vassallos lhe n„o mereciam.

Os Infantes d'Arag„o confiados no mando da governanÁa de Castella que possuiam, havendo por seu abatimento n„o se fazerem os feitos da Rainha sua irm„ · sua vontade, enviaram ao Regente que era em Santarem outra embaixada, que elles fingiam ser j· derradeira, em que vieram por embaixadores um Gomez de Benavides, e outro Affonso Fernandes de Ledesma, doutor em leis, e pessoas de grande estima e auctoridade em Castella; estes em seus apontamentos seguiram os passados dos outros. Trazendo logo comsigo arautos e trombetas, como officiaes de desafio real, para que se ·s cousas tocantes · Rainha n„o respondessem conformes a seu requerimento, que solemnemente desafiassem logo a guerra de reino a reino. A qual publicavam mui soltamente, crendo que com medo d'ella este reino ·cerca do Regimento se mudara de seu primeiro proposito.

E estando estes embaixadores ainda por responder, veiu com uma carta da m„o d'El-Rei para o Regente, um Custodio, da Ordem de S. Francisco de Castella, e com o trellado d'ella aos embaixadores, em que sustancialmente affirmava o que elles mesmos j· requereram. Apontando as cousas porque devia com ras„o favorecer e ajudar a Rainha. E que por ellas sem quebrantamento das pazes podia a estes reinos justamente fazer guerra.

CAPITULO LXXIX

_De como o Regente sobre a resposta que a estas embaixadas se daria, fez cÙrtes geraes_

Estes accidentes t„o apressados pozeram o Infante D. Pedro em muito cuidado; porque eram taes, que de necessidade ou teria guerra, ou por fraco perderia toda sua honra e estima; porque por isto foi certificado que ao povo de Castella em ajuntamento de cÙrtes prouve por industria dos Infantes que para restituiÁ„o da Rainha se fizesse guerra a estes reinos, e para isso se fizessem apuraÁıes e lanÁassem pedidos, que se logo lanÁaram.

E porÈm o Infante disse aos embaixadores que os casos de seu requerimento eram de calidade, a que se n„o podia dar direita resposta sem accordo de todo o reino, e portanto lhes rogava que tivessem assi atÈ se fazerem cÙrtes, onde elles tornariam a ser ouvidos e respondidos, como a todos bem parecesse.

Os embaixadores foram d'isto mui contentes; porque viram levemente o effeito do principal fundamento e desejo que traziam, que era por semearem temor divulgar-se sua embaixada por todo o reino.

Assignou o Regente as cÙrtes na cidade d'Evora, onde por suas cartas mandou que os procuradores do povo se juntassem no Janeiro do anno que comeÁava, de mil e quatro centos e quarenta e dois. Notificando-lhe logo a sustancia e causa de sua vinda; e porque lhe parecia que a guerra se n„o poderia escusar, e n„o fossem com algum improviso dano salteados por negligencia, determinou que os Infantes a que tambem escreveu, fossem logo ·s frontarias de suas comarcas, e provessem todalas fortalezas da raia e as fizessem velar, armar, bastecer e repairar, como para tal necessidade cumpria se sobreviesse, e assim mandassem arredar os gados e provisıes dos estremos. E defender os mercadores que n„o entrassem em Castella; e assi se cumpriu e se poz em todo o reino tanto resguardo, como se a guerra fÙra claramente rota, e aos Infantes e grandes e pessoas principaes do conselho que n„o podiam vir a ser presentes, enviou a sustancia de toda a embaixada, e a cada um ·cerca do que responderia pediu seu conselho e parecer em escripto, como sempre costumou.

Partiu-se o Regente para Evora, e assi os embaixadores, e ao dia que tinha posto foram juntos os procuradores, onde o Infante por si lhes propoz com largo recontamento a necessidade que o movera aos chamar, e assi lhes apresentou a embaixada presente, resumindo as outras passadas da mesma sustancia, cuja conclus„o era que El-Rei de Castella requeria que por bem e paz d'este reino, El-Rei e seus irm„os fossem entregues · Rainha, com inteira governanÁa do reino, se n„o com forÁa e por guerra de Castella se faria, rogando-lhe que sobre todo consirassem, e como bons portuguezes e leaes vassallos d'El-Rei lhe dissessem o que devia dizer e fazer; havendo sempre respeito ao que mais fosse serviÁo de Deus e honra d'El-Rei e bem de seus reinos. Apontando a necessidade que havia de dinheiro, para que sua ajuda cumpria.