Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)

Chapter 1

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BIBLIOTHECA

DE

CLASSICOS PORTUGUEZES

PROPRIETARIO E FUNDADOR

_MELLO D'AZEVEDO_

Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo

CHRONICA

DE

EL-REI D. AFFONSO V

POR

_Ruy de Pina_

VOL. I

_ESCRIPTORIO_

147--Rua dos Retrozeiros--147

LISBOA

1901

Duas palavras de introducÁ„o

El-rei D. Manuel _encomendou com grande efficacia_ a Ruy de Pina a chronica de D. Affonso V. E elle escreveu baseado em informaÁıes e nos documentos que poude alcanÁar, com uma sinceridade notavel em chronista de palacio occupando cargos de confianÁa regia.

Parcial todavia, pouco inclinado a cousas de Hespanha e da nobreza, conta-nos a historia d'esse periodo de fÛrma que parece preparar o espirito do leitor para as grandes luctas do reinado seguinte.

A historia da Èpocha de D. Affonso V importa ao estudo da nacionalidade portugueza em qualquer ponto de vista. Affirma-se a auctoridade real, apezar das prodigalidades do rei, a independencia da naÁ„o em combates rijos, a expans„o ultramarina define-se com o arrojo dos navegantes e dos homens de guerra, a cultura dos espiritos sÛbe, os costumes policiam-se, attende-se a melhoramentos materiaes nas povoaÁıes.

A propria figura do rei desperta vivamente a attenÁ„o; os seus primeiros annos passaram num meio agitado, difficil, triste talvez, pelas luctas palacianas, mas util para a formaÁ„o de espirito culto pela frequencia, provavel, de homens superiores como os infantes D. Pedro e D. Henrique. Pelo que nos conta Ruy de Pina foi lastima que Affonso V fosse rei, porque era bom de mais, com sua parte de phantasia mansa.

Era um sereno, de _piadosa condiÁ„o_, _familiar_, grande amador de musica e de livros, e tambem de emprezas arriscadas.

Quando a Excellente Senhora professou, grassava em algumas cidades do paiz o contagio com grande intensidade, elle desconsolado quiz deixar a governanÁa, queria ser leigo no seu mosteiro do Varatojo.

Como era generoso e pouco calculista, sem sentir, pouco a pouco, foi accumulando de mercÍs certos fidalgos insaciaveis, o que originou depois a grande lucta dos primeiros annos de Jo„o II.

N'esses quadros agitados destacam-se figuras principaes como o infante D. Pedro, o das sete partidas, e D. Henrique o navegador, sempre com a sua idÈa fixa de descobrir terras, os condes de Viana, e de Avranches, grandes senhores, e aquelle singular bispo D. Garcia de Menezes t„o brilhante orador e guerreiro que tristemente encerrou a sua vida.

Outros vultos de raro perfil movimentam ainda a Èpocha, D. Pedro o rei intruso de Arag„o, filho do infante D. Pedro, erudito, collecionador de livros e medalhas, o duque de Borgonha, a Excellente Senhora. No meio das luctas e intrigas estrondea o casamento de D. Leonor. Depois das gloriosas jornadas de Alcacer, Tanger, AnafÈ e Arzilla, a ida para FranÁa.

O chronista n„o esquece os movimentos populares, as luctas na cidade de Lisboa, as uniıes e alvoroÁos; nem a lucta contra o Turco que em 1480 quasi se assenhoreou do Mediterraneo.

Hoje conhecemos outros documentos, os antecedentes da Alfarrobeira est„o mais esclarecidos, papeis de aleivosia como o testemunho do escudeiro Jo„o Rodrigues correm impressos.

Ha documentos tambem para o modo de viver da Èpocha que em geral n„o mereceram attenÁ„o aos chronistas, os que dizem respeito a costumes, a questıes economicas, ao direito. A publicaÁ„o das OrdenaÁıes, comeÁadas em tempo de Jo„o I.^o È facto capital. Em chronicas francezas encontram-se noticias de valor, ainda n„o approveitadas. Finalmente ser· preciso estudar noutra parte, e hoje ha muitos elementos publicados, o admiravel esforÁo do infante de Sagres, e da sua gente, n'este periodo, nos gloriosos descobrimentos dos novos caminhos maritimos, dos archipelagos do Atlantico revelados successivamente,

G. Pereira.

PROLOGO

DA

Chronica do Mui Alto e Mui Poderoso Principe

EL-REI D. AFFONSO

D'ESTE NOME O QUINTO

_E dos Reis de Portugal o duodecimo, dirigido ao muito alto e muito excellente Principe, El-Rei D. Manuel, seu sobrinho, nosso Senhor, por cujo mandado Ruy de Pina, Cavalleiro de sua casa e seu Chronista MÛr e Guarda MÛr da Torre do Tombo, nova e primeiramente a compoz_

O mais singular e mais proveitoso conselho, Serenissimo Rei, que Demetrio Phalereo, philosofo mui sabedor, deu ao grande Tholomeu, Rei do Egypto, para sobre todolos Reis de seu tempo poder ser mais excellente, foi que procurasse de vÍr, e ter por mui familiares os livros, principalmente aquelles, em que os virtuosos costumes e claros feitos dos illustres Reis e Principes passados fossem verdadeiramente escriptos: amoestando-o que com vivo cuidado os lesse e ouvisse: nem era sem causa; porque, como mui prudente, sabia que os livros, posto que sejam conselheiros mortos, sempre porÈm ensinam e d„o verdadeiros e s„os conselhos, mui livres e isentos das paixıes dos conselheiros vivos, dos quaes muitas vezes por n„o saberem, e outras por n„o quererem, e muitas mais por n„o ousarem, se nega e esconde a clara verdade, que a seus maiores e Senhores pospıem ·s proprias inclinaÁıes e paixıes d'affeiÁ„o, odio, lisonjaria, interesse ou temor, que s„o causa da mais certa queda, e principal destruiÁ„o de reinos e senhorios. E por tanto, muito poderoso senhor, no conhecimento dos bons exemplos e das cousas passadas, de que a Historia È um vivo espelho, e os livros s„o fieis thesoureiros, se recebe, para n„o errar, conselho sem paix„o, e doutrina sem receio, de que · Humanidade e ao Estado Real principalmente se segue um mui seguro proveito, e por isso a Deus grande e mui assignado serviÁo.

E posto que das Chronicas e lembranÁas escriptas das perfeitas bondades e memorandas faÁanhas dos claros barıes n„o naturaes e estrangeiros, quando as lemos e ouvimos, logo nos movem para aborrecer os vicios, e com uma virtuosa inveja de seus gloriosos exemplos, nos espertam e guiam para o caminho de suas louvadas virtudes e fama; porÈm, outra differenÁa de vergonha, outra viveza de gloria, outro acendimento d'esforÁo sentimos logo em nossos coraÁıes, quando lendo topamos, e com tento esguardamos nas excellentes virtudes e prosperas empresas de nossos proprios naturaes, e maiormente d'aquelles de que descendemos; porque tanto mais nos acendem e obrigam para os semelharmos e seguirmos, quanto a certa verdade de suas virtuosas obras e grandes feitos È de maior contententamento e mais chegada a nosso fresco conhecimento, com que a n„o duvidamos.

E por esta t„o urgente causa e bem t„o universal, e principalmente por honra e gloria de vossos reinos de Portugal, Vossa Mui Real Senhoria, como virtuoso Rei mui piedoso e verdadeiro successor d'elles que È, sabendo que a memoria das reaes virtudes e feitos imperiaes do mui glorioso Rei D. Affonso o quinto, vosso tio e predecessor, cujo irm„o legitimo era o mui illustre Infante D. Fernando vosso padre, por negligencia sua ou mingoa d'escriptores n„o eram j· do escuro esquecimento menos gastadas, que sua carne e seu corpo que a terra comia: por mais illustrardes vossa legitima descendencia, e vossa corÙa real n„o ficar sem uma guarniÁ„o de pedraria t„o preciosa, como È sua clara e louvada memoria: e assi por Vossa Alteza mostrar um santo ensino e maravilhoso exemplo de Rei, encommendou com grande efficacia a mim Ruy de Pina, Cavaleiro de vossa casa, Chronista MÛr de vossos reinos e Guarda MÛr da Torre do Tombo d'elles, que, quanto · minha deligencia e entendimento fosse possivel, trabalhasse de haver as cousas notaveis de seu tempo, e para sua Chronica mais necessarias, e a compozesse. E como quer, muito poderoso Rei, que a carrega e peso d'esta Obra, por ser t„o digna e t„o necessaria, e com desejo e cuidado t„o virtuoso, como È este vosso, j· foi outras vezes posta e encommendada sobre os hombros e forÁas d'outros chronistas d'estes reinos, que ante mim foram pessoas de singular doutrina e mui sufficientes: e por suas grandes e desesperadas difficuldades e peso incomportavel, elles nem sÛmente a moveram; porÈm eu que para vencer e passar com ella caminhos j· t„o cerrados e de tanta aspereza e escurid„o, convertidas j· em uma manifesta impossibilidade, por vir ao fim de vosso desejo e esperanÁa, tomei por guia e salvo conduto de tantos temores vosso mandado e o vivo desejo que sobre todos em mim sinto de sempre bem e lealmente servir Vossa Real Senhoria, e inteiramente lhe obedecer: confiando que ao menos, pelo merecimento de minha obediencia, algum tanto serei relevado do erro da ignorancia e temeraria ousadia com que emprendi e acabei esta real e mui verdadeira chronica, cuja sequencia È n'esta maneira.

CHRONICA

DO

SENHOR REI D. AFFONSO V

CAPITULO I

_NarraÁ„o_

O muito alto e muito excellente Rei D. Duarte, d'este nome o primeiro, e onzeno dos Reis de Portugal, acabou sua desejada e necessaria vida com claros signaes de grande contriÁ„o, e com certo testemunho de salvaÁ„o de sua alma, em a Villa de Thomar, quinta feira IX dias de Setembro, anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos e XXXVIII: no qual dia por espaÁo de duas horas o sol em grande cantidade foi cris, assi como tambem o foi na hora do fallecimento d'El-Rei D. Jo„o seu padre, e da Rainha D. Filippa sua madre. E as cousas que de sua antecipada morte se conjeituram, e aos autos de prantos e tristezas que se n'ella n„o podiam escusar, e como foi levado ao mosteiro da Batalha, onde jaz sepultado, em sua Chronica, onde propriamente pertence, com maior declaraÁ„o est„o apontadas.

E por seu fallecimento ficaram legitimos dois filhos e quatro filhas: I o Principe D. Affonso filho seu maior, primogenito herdeiro, que logo foi alevantado por Rei, que de sua edade havia seis annos e entrava em sete: e o Infante D. Fernando, padre d'El-Rei D. Manuel nosso Senhor: e a Infante D. Filippa, que no anno que o dito Rei falleceu se finou em Lisboa de onze annos: e a Infante D. Lyanor, que foi imperatriz d'Allemanha: e a Infante D. Catherina que sem casar falleceu e jaz em Santo Eloy de Lisboa: e a Infante D. Joanna, de que a Rainha D. Lyanor ficou prenhe, e foi Rainha de Castella, casada com El-Rei D. Anrique, o quarto d'este nome.

E ficaram outrosi vivos estes irm„os d'El-Rei D. Duarte, filhos d'El Rei D. Jo„o I; o Infante D. Pedro, que era duque de Coimbra: e o Infante D. Anrique, que era duque de Vizeu e tinha o Mestrado de Christus: e o Infante D. Jo„o, que era Condestabre do Reino e tinha o Mestrado de Santiago: e o Infante D. Fernando, que ent„o era captivo em Fez e tinha o Mestrado d'Aviz: e a Infante D. Izabel, legitima duqueza de Borgonha, casada com o duque Filippe: e D. Affonso conde de Barcelos, que depois foi duque de BraganÁa, que era filho natural d'El-Rei D. Jo„o.

Ao tempo que o dito Rei falleceu n„o eram em Thomar outras pessoas principaes, depois do Principe D. Affonso e seu irm„o, salvo a Rainha D. Lyanor sua mulher, filha d'El-Rei D. Fernando d'Arag„o, e o Infante D. Pedro, irm„o primeiro legitimo d'El-Rei: o qual, por dar ordem ao alevantamento d'El-Rei D. Affonso seu sobrinho, e ·s outras cousas que pertenciam para bem do reino, ficou na dita villa e n„o foi com o corpo de seu irm„o, a que n„o falleceu outra muita e honrada companhia.

CAPITULO II

_Alevantamento d'El-Rei_

Era quinta feira logo seguinte, dez dias do dito mez: o Infante D. Pedro, como Principe a que das cerimonias reaes e das outras cousas em que cabia descriÁ„o e virtude nada s'escondeu, fez fazer antre o convento e os paÁos do castello da dita villa um assentamento assi real e ricamente guarnecido, como para o auto cumpria. E · bespora do dito dia, o Infante com todolos fidalgos e nobre gente da cÙrte foram aos paÁos d'El-Rei, que eram dentro no convento, vestidos por ent„o os corpos dos panos mais ricos, mas as almas e caras de clara tristeza, que em todos n„o era fingida, mas verdadeira e justa, assi pela privaÁ„o d'El-Rei, que era muito virtuoso e para todos de grande humanidade e boa condiÁ„o, como por lhes os coraÁıes revelarem as grandes divisıes e muitos trabalhos, em que pela soccess„o de t„o novo Rei se haviam de vÍr, como viram.

O Principe D. Affonso posto em vestiduras reaes, e bem acompanhado de todos, sahiu fÛra ao assentamento, onde pelo Infante D. Pedro com grande reverenÁa, e muito acatamento foi posto na cadeira real. E emquanto um Mestre Guedelha, singular fysico e astrologo, por mandado do Infante regulava, segundo as influencias e cursos dos planetas, a melhor hora e ponto em que se poderia dar aquella obediencia: o Infante volveu a contenenÁa ao povo, e com gr„o seguranÁa e palavras mansas disse:

´Como quer que, o dia d'hoje com muitos dos que vir„o, teriamos justa causa dar lugar a nossos olhos, que com muitas lagrimas testemunhassem a dÙr e perda que recebemos na morte de um Principe t„o catholico e t„o virtuoso, e t„o necessario a nÛs todos como foi El-Rei meu Senhor e irm„o, cuja alma Deus haja: devemos, porÈm, consirar como catholicos e de raz„o, que, pois em escusar sua morte n„o ha remedio, que duas cousas sÛmente nos ficam, para que a Deus e ao mundo certefiquemos o amor e boa vontade que lhe tinhamos. A primeira, em nossas oraÁıes, jejuns e obras meritorias havermos sua alma em memoria para a encommendarmos a Deus. A segunda, este ramo em todolos signaes de virtudes t„o florecido, que de seu real Tronco naceo, que È o mui excellente Princepe D. Affonso seu filho nosso Senhor, que temos presente, havermo-lo de reconhecer, servir e amar por nosso sÛ natural e verdadeiro Rei e Senhor, como o requere nossa mui antiga e costumada lealdade, e o Direito nos obriga. E, porÈm, vo-lo apresento aqui para o assi em todo o reconhecerdes, e vos encommendo da sua parte, que para o assi fazerdes n„o hajaes respeito · sua nova idade, mas ·s velhas obrigaÁıes em que para isso lhe soes e sua Real Senhoria nos d· j· uma mui certa esperanÁa d'acharmos n'elle honra, mercÍ, favor e justiÁa, como cada um o merecer e lh'o requerer.ª

E em dizendo Mestre Guedelha, que era boa hora para fazer sua obediencia, o Infante com os giolhos em terra tomou as m„os ao Principe, e em lh'as beijando disse:

´Muito alto e muito excellente Senhor, assi como vos eu hoje ponho n'esta seda, em que vÛs por graÁa de Deus legitimente recebeis o real Septro e senhorio d'estes vossos reinos, assi espero com sua ajuda e minha grande lealdade de vo-los ajudar a manter e deffender com todas as minhas forÁas e poder, e saber, quando me vossa MercÍ mandar, ou eu sentir que cumpre a vosso estado e serviÁo.ª

E com estas palavras acabando se alevantou.

E logo D. Duarte de Meneses, alferes mÛr, filho do conde D. Pedro de Meneses, primeiro capit„o de Ceuta, com a bandeira real levantada, e os reis d'armas e arautos com elle comeÁaram alli sua grita, e depois com ella foram pela villa, repetindo-a tres vezes, segundo custume, com toda aquella cerimonia e solemnidade que a tal auto real pertencia; porque o Infante D. Pedro, por cuja ordenanÁa e mandado se fazia, era Principe n'aquellas cousas mui ensinado, e quiz n'aquelle auto que n„o ficasse cousa dina por fazer: assi porque assi o requeria sua grande bondade e a muita lealdade em que nascÍra: como por mostrar a muitos de damnadas maginaÁıes, e · Rainha D. Lyanor principalmente, que aquella fÙra sempre, e era sua leal e verdadeira tenÁ„o d'obedecer, e n„o a outra falsa de querer por forÁa reinar, como lhe faziam crÍr que elle desejava. Porque a Rainha, como quer que sempre foi muito honesta, virtuosa, prudente, devota e muito amiga da vida e honra d'El-Rei seu marido: porÈm sempre em sua vida mostrou ao Infante D. Pedro que n„o lhe tinha boa vontade: e as causas porque assim fosse eram occultas para culpar o Infante, salvo se procedessem de induzimentos alheios, que em sua feminil fraqueza de ligeiro fariam impress„o, ou por ventura procederia das imisades que foram entre El-Rei D. Fernando d'Arag„o, pae da rainha, e o conde d'Urgel, pae da Infante D. Izabel, mulher do dito Infante D. Pedro, que pertendeu por direito na success„o d'Arag„o, e foi d'El-Rei n'ella vencido.

CAPITULO III

_De como comeÁaram de entender nas cousas do reino, e se viu o testamento d'El-Rei_

Tanto que a Rainha viu seu filho alevantado por Rei, logo fez chamar · sua casa o Infante D. Pedro, e o Arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha, primo com irm„o de seu pae d'ella, e as outras principaes pessoas que hi eram. Perante as quaes, em presenÁa de notairos publicos, fez abrir e lÍr o testamento d'El-Rei seu marido, em que foi achado ella, sem ajuda d'outra pessoa, ficar in solido testamenteira de sua alma, e titor e curador de seus filhos, e regedor do reino, e herdeira de todo o movel. E encommendou n'elle muito que, por dinheiro, ou captivos, ou por outra qualquer maneira tirassem de poder dos mouros o Infante D. Fernando seu irm„o; e quando por semelhantes meios n„o fosse possivel, que ent„o Ceuta sem escusa se desse por elle; da qual publicaÁ„o a Rainha por sua guarda mandou tomar estromentos, e comeÁou logo a usar do regimento inteiramente sem alguma publica contradicÁ„o: como quer que alguns seus servidores avisados e virtuosos, e que de verdade amavam sua vida, honra e descanso, logo s„ e secretamente lhe disseram em conselho n'esta maneira:

_Conselho que se deu · Rainha_

´Senhora, o peso d'este cargo de reger, que assi soltamente tomaes, È mui grande e tal, que muitos barıes abastados de fortaleza de coraÁ„o e de prudencia o rece·ram. E por serdes mulher e ainda estrangeira, como quer que para isso haja em vÛs s„ consciencia e conhecidas virtudes com mui santo desejo, em caso que n„o houvesseis n'elle alguma contradicÁ„o, certo duvidamos que o possaes soffrer; porque Vossa Senhoria ha-de consirar que s„o n'este reino tres Infantes, grandes Principes, e de muita autoridade, e naturaes da terra, que h„o d'estimar por quebra e abatimento de seus estados serem regidos por mulher, especialmente n„o natural nem herdeira, como vÛs sois, e que o por suas bondades e assessego de todos quizessem consentir, n„o falleceriam outros amigos de novidades, que lh'o fariam sentir e obrar por outra maneira: de que se n„o podem escusar odios, escandalos e outros muitos males, em especial claros impedimentos para vÛs, nem elles estes reinos poderdes reger, como a serviÁo de Deus e d'El-Rei, e bem d'elles cumpre: de que vos muito deve pesar. E n„o vos fieis nos offerecimentos e muita parte que vos muitos de si agora prometem, para crerdes que o esforÁo d'estes enfraquent·ra o dos outros; porque em fim todos, ou a mÛr parte h„o de seguir a vontade dos Infantes, qualquer que fÙr, quanto mais que j· agora pelas praÁas se solta, que El-Rei nosso Senhor, vosso marido, que santa gloria haja, vos n„o podia leixar este cargo de reger: c· este poder demleger regedor do reino era sÛmente ao reino e aos tres estados d'elle reservado; e d'onde isto agora sae de presumir È que mais jaz. Pelo qual nosso conselho seria, que agora com prazer e assessego vosso, e do reino, consirados todos estes inconvenientes, leixasseis assi de vossa vontade este regimento, antes que depois o leixardes forÁada, ou impedida de vossa natural fraqueza, ou de outras forÁas maiores: o que deve ser com pouca honra e contentamento vosso. E a vÛs, Senhora, bem abastara terdes cuidado da criaÁ„o de vossos filhos, e do descargo d'alma d'El-Rei vosso marido, que s„o cousas ass·s grandes, honradas e honestas.ª

A Rainha, como era senhora de bom entender e de tenÁ„o s„, e conforme em todo ao serviÁo de Deus, pareceu-lhe bem este conselho, e quizera-o seguir; mas n„o falleceram logo outros, que com outras razıes cÛradas ao revÈs d'estas, a mudaram d'este proposito, e fizeram tomar determinaÁ„o de todavia reger sÛ: dando-lhe estes, por principal causa, a seguranÁa da vida e estado de seus filhos, que em poder do Infante D. Pedro lhe faziam crÍr que n„o seriam muito seguros, por ser principe poderoso, amado do povo, e tinha filhos, e podia n'elle entrar o desejo de reinar, que vence todolos outros; e assi venceria n'elle a divida lealdade para o executar.

CAPITULO IV

_Da vinda do Infante D. Anrique ‡ cÙrte, e das cousas que se logo acordaram_

O Infante D. Anrique, depois da vinda do cerco de Tangere, que veiu fallar a El-Rei seu irm„o a Portel, como anojado do captiveiro do Infante D. Fernando, seu irm„o: e por o feito se n„o seguir, como desejava, se tornou logo ao reino do Algarve, sem mais tornar a este; e como l· foi avisado da doenÁa d'El-Rei, pelo grande amor e muita lealdade que lhe tinha, partiu logo: e assi trigou suas jornadas, que em mui poucos dias chegou a Thomar, onde j· achou El-Rei fallecido. Mas a Rainha, e o Infante D. Pedro, e toda a cÙrte, vendo-o com sua triste livrÈ, renovaram com sua vista outros prantos maiores, nem era sem raz„o; porque n'elle pareciam signaes de tanta tristeza, e dizia palavras de tanto sentimento, que aos dormentes na dÙr espertava para chorar, e ser tristes.

A Rainha depois d'esto enviou chamar o Infante D. Pedro, e lhe disse:

´Senhor Irm„o, porque sinto que È necessario dar-se ordem e remedio ·s cousas do reino, que est„o ora suspensas, eu vos rogo muito que tomeis cuidado de ter em vossa casa conselho: e VÛs, e o Infante vosso irm„o, com os principaes que aqui s„o, apontae o que em taes tempos e casos convem que se faÁa: e trazei-m'o para o vÍr, e me acordar comvosco e se fazer o que fÙr serviÁo de Deus, e d'El-Rei meu filho, Senhor, e bem de seus reinosª.

A qual cousa se poz logo em execuÁ„o, e se teve conselho, em que foi acordado que aos embaixadores de Castella, que hi eram por despachar, fosse por ent„o respondido, que esperassem a vinda dos grandes do reino, com que El-Rei ordenava de fazer cÙrtes e ter conselho: e que logo haveriam resposta.

E estes embaixadores vinham a El-Rei D. Duarte, e chegaram ao tempo de seu fallecimento; e as pessoas que eram, e o que requeriam, e com que fundamento, ao diante se dir·.

Acordaram outrosi, por quanto em Castella comeÁava d'haver movimentos, que pareciam principios de guerra, que os alcaides das fortalezas dos estremos fossem avisados sobre bÙa guarda e defens„o d'ellas: e assi que se fizesse o geral acostumado chamamento, para o saimento que se havia de fazer na Batalha, e cÙrtes em Torres Novas. E as cartas, que sobre isto haviam de ir, acordou o Infante D. Anrique com os do conselho, que fossem assignadas pelo Infante D. Pedro; mas elle com mostranÁa de muita honestidade se escusou: e a Rainha assignou aquellas, e todalas outras atÈ ·s cÙrtes; porque n'ellas se acordou outra ordem de Regimento, como se dir·.

E assi tomou cuidado a Rainha de cumprir aquellas cousas do testamento d'El-Rei, que logo cumpriam de se acabar. E de todo o movel que lhe foi leixado tomou para si a capella e reposte, e repartiu as cousas de guarda-roupa e estrebaria por essas pessoas a que lhe parecia raz„o, e a que mais afeiÁoada era: n„o se esquecendo prover com vestimentas, das roupas e pannos de seda que fic·ram, a algumas egrejas e mosteiros, em que sentiu que podia d'isso haver necessidade.

CAPITULO V

_Como o Infante D. Fernando foi jurado por Princepe, se El-Rei n„o houvesse filho legitimo_

Estando assi estes Senhores em Thomar, esperando o tempo do saimento e cÙrtes, foram alli juntas quasi todolas pessoas principaes do reino, com esperanÁa e certid„o de futuras mudanÁas, salvo o Infante D. Jo„o, que era doente em Alcacere do Sal, a que por grande resguardo da Infante sua mulher, a morte d'El Rei seu irm„o n„o foi descoberta se n„o depois que foi retornado em sua saude, a que n„o fossem contrairas novas para elle t„o tristes. E sendo presentes em conselho os Infantes e o conde de Barcellos seu irm„o, e o Infante D. Pedro propoz logo primeiro dizendo: