# Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

## Part 9

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O pezar que me faz, e a todos fará vendo este dezastre del-Rei D. Affonso Anriques, me faz falar contra as maldições dos pais, e mãis, que ameude se lançam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o nome em que se conclue, e encerra a maior obrigação e ajuntamento de reverencia, e amor que póde haver, antre nós, nem de nós para elle, por onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mãis, segundo por Deos lhe é distintamente mandada escuzar de os provocar a semilhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, por injustas que sejam, como se diz das excommunhões, que desprezando-as haverá por ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos, porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mãis, quanto a lei de justiça, e ordenança de Deos, lho devem ainda por grande obrigação de natural reverencia, e amor.

E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes maldições, quanto mais idade, e entender tem, concirando que são homens, e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro tanto a seus pais, e mãis, maiormente que os erros dos filhos não podem ser tão danosos, que muito mais não sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada ira, não procedesse, não haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e mãis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho: «Má morte te mate», vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam, e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos, leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de que aos outros devemos tomar que são pais, e filhos, os quais toda a rezão obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa tão crime como é desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como é aos filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos de maldição, a qual por esto só tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo, em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro não possamos, se não pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e estrangeiro, e não del-Rei D. Affonso, que sendo tão virtuoso, e todos seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço de Deos, não leixou maldição de mãi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na fazenda, e na honra, a filho tão virtuoso.

CAPITULO XLVI

_Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D. Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e os desbaratou e venceo_.

Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino, andando em colos de homens, e outras horas em carros como já em cima dissemos, veio-se para Santarem, e correndo novas pela terra, do desastre do britamento da perna, e da preitezia e menajem que ficára com El-Rei D. Fernando de Lião por cuja causa, não cavalgava em cavallo, nem era de sua pessoa poderoso para fazer guerra como dantes, nem suas costumadas cavallarias, tomaram os Mouros ousadia, e esperança grande de se vingarem, e fazer grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de Sevilha, ajuntou grande multidão de Mouros, de toda Andaluzia, e de outras partes, e atravessando todo, antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por onde vinham, vieram cercar Santarem, onde El-Rei D. Affonso estava, destroindo-lhe toda a terra de redor. Saiam os Christãos ás barreiras a escaramuçar com elles, e de uma parte, e da outra morriam muitos.

El Rei D. Affonso por não poder cavalgar a cavallo, e sair a elles era mui enojado em seu coração acostumado a vencer nos campos, e cercar, e não ser cercado, pelo qual determinando de sair fóra em carro, a lhes dar batalha, alguns dos seus lho contradisseram, e outros diziam que era bem ficar na Villa, e que elles sairiam a peleijar com os Mouros, concelhos ambos muito fóra do parecer del-Rei, e do seu grande animo, e por tanto lhe respondeo, e disse: «Amigos não cumpre agora ver se sairemos, ou não; mas é tempo de tomardes tal esforço para peleijar, que eu possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e eu mesmo em pessoa vos ajudarei a esso contra os imigos, quanto em mim fôr como sempre fiz, e se pela ventura alguns tiverem receo, o que não cuido, fiquem na Villa, e não vão lá que eu não poderei sofrer já mais tanta vergonha.» Então acordaram que era bem sair fóra em toda maneira, e estando já prestes para um dia certo, e corregidos como deviam de ir, e de quaes havia El-Rei de ser guardado, aconteceo virem novas a El-Rei D. Affonso como El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, vinha com muita gente, o qual por ser Rei mui virtuoso, e mui chegado a Deos, como quer que se quitasse de sua filha, e sobre vence-lo parecesse ser rezão estar delle queixoso, por buscar azo de não cumprir a menagem que lhe tinha feito de tanto que cavalgasse em uma besta, acudir a sua Corte, não olhando nada desto, como soube, que El-Rei Albojame com grande poder tinha cercado El-Rei D. Affonso em Santarem ajuntou sua gente, e partio para o ajudar, e andando então a era do Senhor em mil e cento e setenta e um annos, (1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Affonso Anriques de como El-Rei D. Fernando de Lião era acerca, e que em poucos dias seria com elle, foi em grande pensamento, cuidando que vinha contra elle por rezão da menagem a que não fora, e posto nesta duvida tanto mais, determinou de peleijar primeiro com os Mouros, e tambem os Mouros de sua parte quando souberam de sua vinda, crendo que vinha contra elles, em ajuda del-Rei D. Affonso seu sogro, determinaram levantar o cerco, e saio então El-Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha ordenado, e depois de muito peleijarem fez grande mortindade nelles, e desbarato, de muitos prezos, mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos tomados.

Assi se foram os Mouros destroçados fogindo quanto mais podiam. El-Rei D. Fernando quando soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D. Affonso descercado, não quiz ir mais adiante, posto que perto fosse, e esteve alli quedo tres dias, enviando dizer a El-Rei D. Affonso que tomasse prazer, e nada receasse delle, que não abalára, nem vinha a outra cousa, se não só por o descercar, e pois os Mouros já eram idos, que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei D. Affonso lhe deu por ello muitas graças, e é que desque foi prezo na batalha que houve com este D. Fernando de Lião seu genro, nunca depois foi visto ledo, nem haver prazer como dantes, e quando lhe lembravam as cavallarias que dantes soia fazer contra Mouros, e quam temido era delles, não podia estar que mui enxergadamente se não entristecesse, mas porque deste tempo até que o Corpo de S. Vicente foi trazido a Lisboa, não achamos outra cousa que de contar seja, queremos aqui dizer como, e em que modo foi aqui trazido.

CAPITULO XLVII

_Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que o foram buscar_.

Já antes desto, em seu lugar contamos como El-Rei D. Affonso Anriques foi por si com grande cuidado, e devação, buscar o Corpo de S. Vicente, e não o pôde achar havendo já vinte e seis annos que a Cidade de Lisboa era em poder de Christãos, tomada a Mouros, fez El-Rei Albojaque tregoas, com El-Rei D. Affonso Anriques por cinco annos, as quaes foram feitas quatro dias do mez de Maio era do Senhor de mil cento e setenta e trez annos, (1173) então, certos homens de Lisboa, com grande devação, vendo que já podiam ir seguros áquelle lugar onde o Corpo de Vicente jazia, fizeram prestes uma barca, com todo o que lhes fazia mister, e foram-se lá sem nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e desembarcaram no mesmo lugar, onde postos em oração, mui devotamente a Deos pediam que lhes mostrasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso Martyr; a poz esto começaram a cavar, e aprouve a N. Senhor que o acharam, e dando-lhe muitas graças e louvores, o tomaram com muito prazer, e devação, e puzeram-no dentro na barca, e logo Deos alli mostrou por elle um grande milagre, que um dos que iam na barca, em desenterrando aquelle santo Corpo, furtou um dos ossos, e tanto que o tomou, cegou logo de todo, pelo qual cortado de medo, e arrependimento tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe foi restituida toda sua vista, e foi são como dantes, e tambem se deve atribuir aos grandes merecimentos deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli alevantado, e perigoso, e reçafa muito grande, foi visto tão chão e manço fóra do acostumado ao embarcar do seu Corpo, como se fôra em qualquer outro lugar, onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, e assi tornaram com muito prazer a salvamento.

CAPITULO XLVIII

_Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa_.

Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era, arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D. Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos, foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N. Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle santo Corpo, mas não lhe foram dadas.

Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór, e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho, lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S. Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).

CAPITULO XLIX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe sobre ello disse_.

Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D. Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que álem desto seria cousa honroza, se com a defenção della, se assás se ganharem mais alguns Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns do seu Concelho lhe disse assi: «Filho tu sabes bem quanto trabalho tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com El-Rei Albojaque já ser acabada, hei por certo que os Mouros, não estarão quedos, e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e já me foi falado e requerido que entendesse na defensão delles, pelo qual eu cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande lá em pessoa, e esto por duas rezões, a primeira, porque sabes que está meu cazo de não poder cavalgar em besta por não ir ás Cortes del-Rei D. Fernando, o que eu não fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hás de ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora commeces, e o faças.»

Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as mãos, dizendo: «Senhor, eu vos tenho em mui grande mercê esto, que me encarregais, e espero em a graça do Senhor Deos com os bons Senhores e Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu serviço, e vossa vontade, e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja vossa mercê querer que se faça logo; porque quanto mais cedo for tanto porei a terra em milhor estado, e defensão.» El-Rei respondeo que lhe prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia; esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos que o Ifante havia de ter no feito da guerra, que havia de começar.

CAPITULO L

_Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo no meio da Ponte se despediram todos del-Rei_.

Despois de vindos todos os que eram chamados ao tempo que lhes foi assinado, fez El Rei fazer Alardo no campo que se chamava Arnado, de assás fermoza, e ataviada gente de armas, e de bésteiros, e piães, e outros todos com grande mostra de coração, e mui ledos para ir com o Ifante D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada um convinha em tal cazo, e desque o soldo foi pago, e elles todos prestes partiram de Coimbra no mez de Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus Paços a pé, e veio até ponte, e o Ifante D. Sancho, e todolos outros Grandes com elle, e a outra gente passada da parte dálem, e chegando ao meio da ponte disse o Ifante a El-Rei: «Senhor esto e assaz de vossa vinda, não tome vossa mercê mais trabalho, mas lançai-nos vossa benção, e com a graça de Deos eu, e estes Senhores vossos Cavalleiros, e Vassalos, que aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle que sempre endereçou vossos feitos, e teve em sua boa guarda apraza de nos ajudar em tal modo que vosso coração seja ledo, e descançado.» Respondeo El-Rei: «Filho vós fazeis muito bem, mas crede que me é tão grave vossa partida, e destes Vassallos meus naturaes com que soia estar, e ter continos comigo, que ainda que vós, e elles fosseis a cavallo e eu sempre a pé, parece-me que não enfadaria, nem cansaria tanto, que muito mais não faça, como faz este apartamento; mas pois é forçado, pesso a N. Senhor em cujo serviço his vos ajude a todos, e vos haja em sua guarda de guiza, que por vós seja sua santa Fé acrecentada, e seus imigos lançados fóra da terra, que nossos antecessores ganharam». Esto assi passado, quantos ahi estavam foram beijar a mão a El-Rei, e se despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se delle despedio beijando-lhe as mãos. El-Rei lhe lançou sua benção, e se tornou para a Cidade, e elles cavalgaram todos, e se foram seu caminho.

CAPITULO LI

_Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com os Mouros peleijasse_.

Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o Ifante a todos que lhe parecia bem não irem juntos, e que para irem mais folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde mais quizesse, porém que se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja, pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Então mandou chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de gente, que para sua defensão lhe fazia mister.

O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178) e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se começaram de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho, contra Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto mais ouzarem de chegar tão a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e pozeram-se todos á saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando muitas graças a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir contra aquelles infieis seus imigos, mandou então chamar os Grandes, e outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: «Quero-vos amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço. Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos estão aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, cousa com que elle seja mui servido, e vós grandemente honrados, que por eu ser novo nestas cousas, e vós que comigo vindes Cavalleiros, em ellas tão provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha, pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de menhã vamos a elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade levar, que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade fazer, nem meter-vos esforço para esso, conhecendo-vos que sois tais, e que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas, e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que soies mais para dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguem; hei por assás lembrar-vos, que ponhaes em vossos corações o mais que tudo vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a Fé de N. Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, a elle que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se não perde trabalho: nos encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em nós o querer, nos cumpra o poder que façamos com sua graça de menhã, por onde corram de nós taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descançado, e vejam todos que para parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos, não faz mister ser elle presente». Com estas palavras do Ifante folgaram todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: «Senhor, nós todos somos vossos, e por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua ajuda vós ganheis muita honra para vós, e para nós, e desagora ordenai logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em que lugar ha de ir, e estar».

CAPITULO LII

_Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve_.

Esto assi passado, o Ifante se apartou logo com os principais para o haverem de fazer, e ordenáram de toda sua gente cinco azes, a primeira fosse a vangarda, e a outra apoz esta batalha do meio; e a terceira reguarda, e as outras duas azes o Ifante levava comsigo, dous mil e trezentos de cavallo, a fóra os corredores que agora chamam ginetes. O Ifante meteo na primeira az em que elle ia, seiscentos de cavallo. Eram hi com elle D. João Arcebispo de Braga, e o Conde D. Gonçalo, e D. Pero Paes Alferes, que então naquella ida servio o Ifante de seu officio, e D. Mem Moniz: a outra batalha segunda, foi encommendada a D. Gonçalo de Souza, com outros seiscentos de cavallo, a terceira, que era reguarda, com outros seiscentos a D. Lourenço Viegas, a az direita levava D. Pedro das Esturias, com duzentos e cincoenta de cavallo, e a esquerda o Conde D. Ramiro, com outros tantos, e os mais dos corredores com homens de pé pozeram tras a carruagem, que a houvessem de guardar, se alguns Mouros quizessem dar nella, e da gente de pé não lemos conto, nem repartição acabada, mais que de quatro mil, de que na avanguarda, onde o Ifante ia, foram metidos mil e quinhentos homens de pés. Ás azes foram dados dous mil, e os mais com a carruagem como dito é.

