Chronica de el-rei D. Affonso Henriques
Part 8
Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondança de sua infinda benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o serviço deste Cavalleiro Anrique, appareceo á cabeceira de sua sepultura uma palma semelhante áquella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas mãos; assi começou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra, em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre, louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e deitavam ao colo logo eram sãos a essa hora, de qualquer infermidade que tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo sãos das dores que tinham, e tanta foi a continuação da muita gente que vinha tomar daquella palma, que a pouco tempo não ficou nada della sobre a terra, até por não porem boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo, levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N. Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram, tinha El-Rei nelles mui grande devação, que se sentia em si algum abalamento de doença deitava-se em oração sobre seus jazigos, e achava-se logo remediado.
CAPITULO XXXIX
_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa Bispado, e quem foi o primeiro Bispo della_.
Passado assi todo esto fez El-Rei juntar toda sua gente que com elle era, e disse-lhe: «Amigos meus eu até agora como vistes depois de tomada esta terra, e Cidade, me ocupei em ordenar, e destribuir os bens temporaes della, os quaes muitas vezes tem rezão, não em dignidade, nem em preiminencia, mas em ordem para se haver primeiro de entender nelles, que nos espirituaes, para que Deos seja assi mais ordenadamente servido, segundo requere a orde, e maneira das cousas deste mundo, e a fraqueza da condição humana sem o temporal não póde vagar no espiritual, agora é muita rezão que não tardemos mais de entender no espiritual, ordenemos, e elejamos quem nesta Cidade seja Bispo, e Pastor de nossas Almas, e regedor da Egreja Cathedral». Louvaram todos o que El-Rei dizia, e então foi eleito um homem virtuoso, que alli era, chamado Gilberto, de muito boa vida, e costumes, e leterado em Degredos, e a poz esto mandou El-Rei logo notificar ao Papa cumpridamente o cerco, e tomada de Lisboa, da eleição do Bispo, que por serviço de Deos novamente fizera, pedindo a Sua Santidade o quizesse confirmar. O Papa lhe outorgou todo esto, e outras mais cousas que lhe enviou pedir, dando-lhe grandes perdões, indulgencias para as Egrejas que tinha feitas. Tanto que este recado veio de Roma chamou El-Rei o Bispo Gilberto, e disse-lhe: «Bispo estas duas Egrejas, foram aqui edeficadas como sabeis, tendo nós ainda esta Cidade cercada para se nellas enterrarem os que morriam, pois a N. Senhor aprouve de vermo-lo, e podermo-lo fazer, eu quero dotalas começando primeiro no Moesteiro de S. Vicente de Fora». E então o dotou de muitas posseções, porque entendeo que poderiam bem, e sem mingoa viver, os que em elle houvessem de servir a Deus, e para os Povos terem mais azo, e devação de ajudar, e fazer o Moesteiro poz em elle grandes indulgencias, que lhe o Papa mandou, e assi tambem na Egreja de Santa Maria dos Martyres.
CAPITULO XL
_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem_.
E depois desto consirando El-Rei como o seu Moesteiro de S. Vicente de Fóra houvesse de ser milhor servido prepoz de poer em elle Capellães Clerigos onestos, e estando neste seu preposito, aconteceo chegar a Lisboa um Frade Flamengo de boa, e onesta vida, chamado Gualterio, e com elle quatro Frades seus companheiros, que vinham a buscar onde fizessem um Moesteiro da Ordem de que elles eram, para nelle viverem. El-Rei sabido de sua vida e preposito folgou muito, e mandou por elle dizendo-lhe como edeficara aquelle Moesteiro de S. Vicente, rogando-lhe que elle, e seus companheiros quizessem nelle viver, e estar por ser caza para esto mui conveniente, e para Deos hi delle ser servido; aprouve muito dello a Gualterio, e a seus companheiros, e foram-se logo para o Moesteiro.
Queria muito este Prior Gualterio, que o Moesteiro fosse chamado da Ordem que elle era, e que El-Rei no Moesteiro não tivesse nhum especial poder, o que não querendo El-Rei consentir, se partio Gualterio com os seus compenheiros para onde vieram. El-Rei fez então Prior um Conego Estrangeiro, que havia nome Damer, o qual a cabo de poucos annos se foi tambem para sua terra, por onde parecendo a El-Rei que Religiosos assi vaguanãos, e fóra de Suprior, por muita devação que tragam, e presumam não hão graça para durar á ordem, e serviço de Deus, determinou de mandar ao Moesteiro do Banho que é da Ordem dos das sobrepelizes por um Conego que chamavam Guodinos, que fosse o Prior do Moesteiro, o qual assi Prior por suas virtudes foi eleito por Bispo de Lamego, e El-Rei então mandou por outro Conego a esse mesmo Moesteiro do Banho, que havia nome D. Mendo, e havendo oito annos que era Prior, se veio a finar; e a poz este houve outro Prior, que chamavam D. Paio, e foi o derradeiro Prior que em S. Vicente houve em tempo del Rei D. Affonso, e posto que estas cousas que dissemos fossem feitas por espaço de tempos, em vida del-Rei D. Affonso, nós contamo-las aqui juntas por pertencerem á tomada de Lisboa. Ora adiante diremos outras cousas que se fizeram logo seguintes á sua tomada.
CAPITULO XLI
_Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na Estremadura, e Alem do Tejo_.
Depois de El-Rei D. Affonso Anriques ter tomado Lisboa como se já disse, logo naquelle anno seguinte andando a era de N. Senhor em mil e cento e quorenta e oito annos, (1148), foi El-Rei sobre Alanquer, e Obidos, e Torres Vedras, e sobre outros Castellos da Estremadura, que ainda eram de Mouros, durando em os tomar seis annos, e depois que os teve assentados, e assi toda a terra da Estremadura, ajuntou todas suas gentes, e passou-se a Alentejo, onde fez grande destruição em os Mouros, tomando-lhes Alcacere, Evora, Elvas, Moura, e Serpa, e outros lugares até chegar a Beja, o qual tendo-a cercada entrou grande poder de Mouros pela Comarca da Beira a fim de retraher, e fazer cessar o dano que El-Rei em elles fazia em Alentejo, e cercaram Trancozo, e depois de combatido e tomado por força destruiram o logar, e deixaram-no, matando muitos Christãos, e levando muitos delles cativos.
El-Rei D. Affonso posto que lhe estas novas chegassem, não se quiz levantar do cerco, que tinha sobre Beja, antes a combateo então fortemente com engenhos, e artilharias, até que a tomou por força, e pelo despeito que tinha do mal que os Mouros fizeram em Trancozo, todos os Mouros de Beja andaram á espada, ficando mui poucos vivos. Foi Beja tomada na era do Senhor de mil cento e cincoenta e cinco annos (1155). Feita assi esta destruição nos Mouros, e havidas estas vitorias nas terras Dalentejo, leixou El-Rei Beja, e todolos outros Lugares mui bastecidos, e providos de Cavalleiros, e gente que os mui bem podassem defender, e guardar, e tornou-se para Coimbra com muita honra, e grande prazer, pelas mercês, e grandes vencimentos, que lhe N. Senhor Deos contra Mouros dera.
CAPITULO XLII
_Dos filhos que El-Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha Dona Mofalda_.
Tanto que El-Rei D. Affonso chegou a Coimbra lhe foi logo commettido cazamento para sua filha Dona Mofalda; elle teve tres filhas, e um só filho, o filho houve nome D. Sancho, que herdou o Reino por falecimento de seu pai, e em sendo Ifante foi sempre mui bom e esforçado Cavalleiro, e valente, e depois que Reinou, não menos bom, virtuoso, e esforçado Rei, fazendo muitas cavallarias, e accrescentando seu Reino como em seu logar contaremos, e a primeira filha houve por nome Dona Mofalda, que foi cazada com D. Reymondo, filho do Conde D. Reymondo de Barcelona, e a outra chamada Dona Urraca, cazou com El-Rei D. Fernando de Lião; a terceira filha houve nome Dona Tareja. Esta foi cazada com D. Felippe Conde de Frandes, e sendo assi commettido a El-Rei D. Affonso o dito cazamento para sua filha Dona Mofalda, o vieram a concertar, que o Conde D. Reymondo de Barcelona viesse á Cidade de Tuye, que era del-Rei D. Affonso, e alli fizessem vistas antre si sobre este cazamento. Então se partio El-Rei para lá com muitos Senhores, Prelados, e Cavalleiros, levando comsigo a Rainha Sua mulher, e suas filhas. Chegáram a Tuye dez dias andados do mez de Janeiro; dahi a oito dias chegou o Conde D. Reymondo; fez-lhe El-Rei dar bairro, e pouzadas grandes, e boas para elle, e toda sua gente, que com elle vinha, a qual era muita, e mui luzida; vindo o Conde, El-Rei sahio-o a receber acompanhado de honrados Prelados, e outros Grandes do Reino, e Cavalleiros mui principaes; iam com elle D. João Arcebispo de Braga, D. Mendo Bispo de Lamego, D. Izidoro Bispo de Tuye, D. Pedro Conde das Asturias, o Conde D. Ramiro, e o Conde D. Vasco, D. Gonçalo de Souza, D. Pedro Paes seu Alferes, e outros muitos ricos homens, e Cavalleiros com muita gente. Quando o Conde chegou veio El-Rei para elle, e o recebeu com muita honra, e gazalhado, trazendo-o consigo até o Paço, alli descavalgáram, e se foram logo para onde estava a Rainha, e as Ifantes, e o Conde esso mesmo fez grande reverencia á Rainha, e suas filhas, de que foi mui bem recebido, e depois de fallarem alli um pouco tomou El-Rei o Conde, e levou-o para onde haviam de comer.
Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, elle, e todos os que com elles vinham, e assi a Rainha, e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas, e desque acabáram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e foram grandes danças. Isto acabado, havendo-se o Conde de ir colher a suas pouzadas se quizera alli despedir del-Rei, e elle não quiz, se não que se espedice só da Rainha, e suas filhas, e foi-se com elle até porta do Paço onde havia de cavalgar, e El-Rei tinha já ahi cavallo para ir com o Conde; mas o Conde não o quiz consentir em nhuma maneira; ficou então El-Rei, e todos os outros Senhores, e Cavalleiros da Corte, se foram com o Conde até sua pouzada. El Rei mandou a todos seus Officiaes, que dessem todas as cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, em quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, começáram a fallar no trato do cazamento da Ifante, e do filho do Conde; estiveram em o concertar até dous dias por andar de Janeiro em que se fez o cazamento; no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, e Prelados, e Cavalleiros de uma parte e da outra, foi lida á Rainha, e Ifantes uma Procuração de D. Reymondo filho do dito Conde porque dava poder a seu Pai, que em seu nome podesse receber com elle a Ifante D. Mofalda filha del-Rei D. Affonso. E vista a Procuração, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante o Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela mão, e assi a Ifante, e então os recebeu, elle como Procurador de seu filho, e ella por si, como manda a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entregou El-Rei sua filha ao Conde, que a levasse consigo até onde houvessem de ser feitas as vodas, e o Arcebispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e Donzelas foram em sua companhia della. Deu El-Rei ricas joias ao Conde, e aos seus fez mercês de modo que elle, e todos os que com elle vinham partiram mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando a Ifante consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para Coimbra com toda sua gente, e Corte.
CAPITULO XLIII
_Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama_.
Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella, e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos. Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente, começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até ir recado aos do arraial.
El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos, quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço, mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos, poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo, haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço, nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou de morto me não partir do campo».
Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço, e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados, antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo, que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe, que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração, e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava. Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam. Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve dello, e assi houve a Villa de Palmella.
CAPITULO XLIV
_Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El Rei D. Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada_.
Sendo El-Rei D. Fernando de Lião casado com Dona Urraca, filha del-Rei D. Affonso Anriques como acima dissemos, veio a deixa-la, e apartar-se della por mandado do Papa, por serem parentes mui chegados, e cazarem sem dispensação, mas o modo como este apartamento foi feito, nem o que se fez desta Rainha Dona Urraca não achamos escrito, salvo, que houve della um filho chamado D. Affonso, que depois da morte de seu pai foi Rei de Lião. Tomando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, pôs em sua vontade de ir cercar Badalhouse, que estava em poder de Mouros, por ser da Conquista del-Rei D. Fernando de Lião, e ajuntando suas gentes para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe pães, e vinhas, e fazendo-lhe tanto dano, e apresso, que veio a toma-la. Como quer que os Mouros se mui bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube que El-Rei D. Affonso de Portugal tomára Badalhouse, enviou lhe a dizer por seus Mensageiros, que lha leixasse, pois sabia que era sua, e de seu Reino, e El-Rei D. Affonso lhe respondeo que lha não havia de leixar, e então o dezafiáram sobre esto, pelo qual El-Rei D. Fernando de Lião ajuntou logo seu poder, e veio contra El-Rei a Badalhouse, e vinha com elle D. Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irmã chamada Dona Urraca Lopes filha do Conde de Navarra, foi depois cazado este Rei D. Fernando. Vinha tambem D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo então ambos vassallos deste Rei D. Fernando de Lião, dezavindos del-Rei de Castella, e vindo já acerca disseram a El-Rei D. Affonso.
«Senhor, aqui é El-Rei D. Fernando, e toda a sua oste. Pois assi é, disse El-Rei: Armemo-nos, e saiamos a elle ao campo, que pois nos vem buscar, bem é que nos achem lá fóra em campo comsigo». Então se armáram todos, e sahiram fóra da Villa, e nisto disseram a El-Rei D. Affonso como os seus se embaraçavam já com D. Diogo o bom, e com D. Fernando Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui bons Cavalleiros, e El-Rei com este recado abalou rijo a cavallo, correndo por sahir fóra da Villa a chegar aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho não ficára bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, assi como ia correndo topou nelle com uma ilharga de guiza, que se ferio muito, e quebrou a perna esquerda del Rei, o qual não deixou por esto de chegar aos seus a ajuda-los, e nisto o cavallo que ia ferido, não podendo mais sofrer-se cahio com El-Rei em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de quebrar de todo, de modo que os seus não poderam mais levanta-lo, nem poer a cavallo, e então Fernão Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi dizer a El-Rei D. Fernando: «Senhor ali jás El-Rei D. Affonso com uma perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem trabalho vo-lo deu Deos nas mãos do que eu cuidava.»
Chegou então El-Rei D. Fernando onde El-Rei jazia, e por os seus, que o viram cair, e se acertaram serem poucos, e os imigos muitos, houve de ser tomado, e prezo com estes que hi eram com elle; não se podendo valer, nem ser valido, e com os outros seus, que se colhiam á Villa, entráram os del-Rei D. Fernando de mistura, e devulgando-se já o dezastre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, segundo logo tudo falece, como falece o Capitão. Levou assi El-Rei D. Fernando consigo a El-Rei D. Affonso para a Villa, e fez-lhe mui bem pençar da perna, e em quanto o teve em poder, assentando-o sempre a par de si, fazendo-lhe muita honra; despois veio apreitejar com elle, que lhe desse a terra da Corunha, que é do Minho, até o Castello da Lobeira, uma legoa álem de ponte Vedra, e porcima pelos chãos de Castella, aquella terra, que deram ao Conde D. Anrique seu pai, como no começo da Estoria se disse, fazendo-lhe tambem menagem, que tanto que em besta cavalgasse se tornasse a sua prizão; El Rei D. Affonso nem podendo al fazer disse que lhe prazia.
Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer a dita menagem, El-Rei D. Fernando o soltou, e elle tornou para seu Reino, e sendo mui bem são da perna, nunca mais quiz cavalgar em besta, por não tornar a menagem, antes sempre depois andou em carro, como soiam andar os Reis antigamente, e logo no anno seguinte de mil e cento e sessenta e seis annos (1166), dia Dassenção, em Coimbra fez El-Rei como mui prudente, e discreto que era, fazer todos os Grandes, e Conselhos do Reino todo menagem a seu filho o Ifante D. Sancho, e este seu quebramento de perna, foi sempre atribuido ao que sua mãi lhe rogou, quando a poz em prizão, segundo atraz nesta Estoria se contem.
CAPITULO XLV
_Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar as maldições dos pais, e mãis aos filhos_.