Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

Part 7

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Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lançaram-se em um valle encuberto, e escuso, tão acerca do lugar, que ouviam falar as velas do muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum sentimento.

Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com grande devação ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus Conigos orações publicas, e particulares, e elle em seu orar mui devotamente dizia: «Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem força humana fizeste cair os muros de Jericó, e a rogo, e voz de Jezoé, mandaste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaão, pesso á tua infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para teu serviço, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa Fé, e por tal que a çuja seita de Mafamede seja lançada fóra della, e o teu santo nome seja sempre hi louvado.

CAPITULO XXXII

_Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de Santarem, e foi entrada, e tomada_.

Desque veio a madrugada sobre o quarto dalva, quando elles entenderam que as velas estavam mais sosegadas, e sonorentas, e os da Villa mais desegurados, e entregues ao sono, partiram donde estavam, leixando naquelle valle os pajes com os cavallos, e tomaram o somideiro antre Motiraz, e a fonte Datamarma, a qual assi chamam em Arabigo, pelas aguas della, que são doces, e foram assi pelo meio do Vale, indo diante D. Mem Moniz que sabia bem as entradas, e saidas, e El-Rei mais atraz, e posto que por onde levaram tenção de escalar, achassem o contrario do que cuidavam, porém Deos a cujo poder não póde haver contrario, lhe tornou em bem este impedimento, por mostrar assi seu poder e ajuda, que no lugar porque haviam de entrar, e sobir, tinham por certo não haver ahi nhuma guarda, e acharam estar duas velas, postas em um cadafalço, feito de novo, que se espertavam um ao outro; e nisto, a rolda que andava pelo muro requerendo ás velas, chegou por hi, e falou-lhe, e os Christãos leixáram-se estar quedos, em um pão, que hi estava, até lhes parecer que as velas poderiam adormecer.

E ao cabo de pouco abalou D. Mem Moniz trigozo com os seus pelo infesto, e foi por cima da caza de um oleiro, ao muro a poer a escada, em uma aste a fundo, e deu no telhado fazendo grande som; do que D. Mendo havendo grande pezar de pela ventura, espertarem as velas amergeu-se, e de hi a pouco fez assentar curvo, um mancebo, e por cima delle poz a escada mais entregue no muro por onde tanto que acima sobio logo levantou a bandeira del-Rei, que levava; subiram dous com elle, e não sendo ainda mais de tres sobre o muro, não leixaram as velas de acordar, e senti-los, e falou um delles com voz rouca, e dormente, como desvelado, e tresnoitado, e disse: _Menhu_ que quer dizer, _quem anda ahi_. Respondeo então D. Mendo por Aravia, que era dos da rolda, e tornava por lhe dizer cousas que compriam, que decesse abaixo; o Mouro tanto que deceo foi D. Mendo mui prestes a mata-lo, e cortou-lhe a cabeça, e deitou-a aos de fóra, para mais seu esforço, e seguro, e nesto a outra vela quando ouvio, e conheceo que eram Christãos, e não sendo ainda em cima do muro, mais que dez dos nossos, chegaram os da rolda correndo aos brados da vela que ouviram, e encontrando-se com os Christãos, vieram ás cutiladas bravamente os nossos por darem começo, e entrada ao porque iam, e os Mouros pola tolher, antes que o mal mais crecesse.

D. Mendo nesta afronta bradou chamando em ajuda Santiago Patrão de Espanha; e El-Rei tambem do pé do muro, altas vozes acodio: «Santa Maria Virgem Bemaventurada, e glorioso Apostolo Santiago acorre-nos». Bradando aos seus, que eram em cima do muro. «Matai-os: andem á espada todos, que não fique nhum», e os que sobiram, apartaram-se logo pelo muro, em duas partes peleijando cada uma com os Mouros que vinham.

Era já tamanha a volta, e arroido de ambas partes que se não podiam entender, El-Rei disse então aos seus mui apressado: «Façamos ajuda aos nossos, e tenhamo-nos á parte dextra se podermos sobir alfam, e Gonçalo Gonçalves com os seus a seextra, que filhe primeiro o caminho que do ceicego, que não possam os Mouros vir por lá, e tomar primeiro a entrada da porta, e assi atalhados se percam os nossos dentro á nossa mingua, e deshonra». Mas o Senhor Deos, que ajuda as obras de seu serviço lhes mudou em melhor, e mais seguro sua tenção, e fadiga, que onde se trabalhavam de entrar pelo muro, entraram pela porta, e de dez escadas que fizeram, duas sós abastaram para tudo, porque sobiram até vinte e cinco, os quaes correram mui prestes a quebrar as portas com um machado que lhes fora dado de fora, e britadas as fechaduras, e ambudes entrou El-Rei a pé com os seus, e poendo os giolhos em terra, antre as portas, com grande prazer, se encomendou, e deu muitas graças a Deos.

Os Mouros acodiram todos alli peleijando mui rijamente, e vendo já dentro comsigo tanta gente desesperando de se poder alli ter, acolheram-se os mais delles a Alfam, mas pelo despercebimento em que se acharam foram logo entrados, e mui muitos delles homens, e molheres, e moços trazidos á espada de que foi o sangue tanto pelas ruas, que parecia serem alli mortos grande multidão de gados. Todos os que escaparam de não serem mortos na peleija, foram cativos com grandes, e ricos despojos que na Villa se acharam. Foram hi antre outros cativos, tres Cavalleiros principaes mui ricos de que El Rei houve fazenda de grande valia. Para o escalamento desta Villa foram escolhidos, primeiramente D. Mem Moniz Guarda mór del-Rei, e delle mui querido, filho de D. Egas Moniz, e D. Pedro Affonso irmão del-Rei bastardo, e D. Lourenço Viegas, e D. Pero Paes seu Alferes, e D. Gonçalo de Souza, e outros nobres homens.

CAPITULO XXXIII

_Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para Sevilha, e El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa Santarem_.

Entrada, e tomada assi a Villa de Santarem, Auzary Alcaide mór della, escapou fugindo, com tres de cavallo consigo caminho de Sevilha, quanto mais pôde. Estava El Rei Mouro de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada, e quando Auzary assomou vendo-o El-Rei vir, veio-lhe por sentido, segundo muitas vezes o coração sente dante mão, e advinha as cousas, que seria aquelle Auzary, e disse-o alli aos que com elle estavam; elles mostráram não cair em couza de tão longe enxergada, e tambem por desviar El-Rei do sentido de más novas antecipado; e disse então El-Rei: «Se aquelle que vem é Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos cavallos: Santarem é tomado; e se não derem de beber, Santarem é cercado, e vem Auzary a gram pressa a demandar soccorro». Os de cavallo chegando ao porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se mais de sua prognostica, e chegando Auzary, contou-lhe como se tomára a Villa, e da grande mortindade que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e todos os Mouros houveram grande pezar, não só pela perda desta Villa, mas de outras a que a perda desta dava cauza forçada.

El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella seu Alcaide, leixando-a abastecida como compria, e tornou-se para Coimbra com muito prazer, onde contando á Rainha sua molher, e a outros muitos como lhe acontecera na tomada de Santarem, disse estas palavras: «Dou a Deos dos Ceos muitos louvores, ante cujos olhos todalas couzas são sabidas, e conhecidos; que não tenho agora a grande maravilha, serem pelo seu poder em outro tempo os muros de Jericó, como se lê derribados, nem estar quedo o Sol por rogo de Josué um dia todo, em comparação da piedade, e misericordia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um tão forte lugar tomado com tão pouca gente, pelo qual glorifico o seu Santo nome, e suas maravilhosas obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz mostrar neste feito, tanto sobre poder humano, que qaando me eu vi ante as portas da Villa abertas, poendo meus giolhos em terra com muita devação, e prazer de minha alma, orei a elle palavras que me elle naquella hora, como todo o al, então deu no esprito quejandas agora não saberia dizer: mas dos ousados esforços, e cometimentos, que se na tomada da Villa fizeram, digam-no os que se alli acharam, porque não é em mi dize-lo». Esta Villa se chamava antigamente Cabilycrasto, e depois da morte de Santa Eyrea, lhe pozeram os Christãos nome de Santarem, que vem de Santa Eyrea Martyre que a ella veio ter.

CAPITULO XXXIV

_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou, e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda_.

Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo que se segue.

Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar terra á rocha de Sintra.

Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava, vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.

Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como elles bem veriam.

Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos, edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D. Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca velha.

Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço, passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força.

Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados, peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos, paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram.

CAPITULO XXXV

_Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras_.

Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e com grande procissão se foram á Mesquita onde ora está a Sé edeficada, e depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo sua ordem, com _Te Deum laudamus_, entraram nella, e assi foi consagrada, e instituida á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé Cathedral, se ao Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e disse-lhes. «Amigos bem sabeis como concertámos se nos Deos desse a Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve de a tomarmos, muitos louvores, e graças lhe sejam dadas, vós escolhei, e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi todalas cousas que dentro, e fóra della houver, e forem achadas.»

Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho, e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação delles foi, que pois partiram de suas terras, e foram alli vindos, só com tenção de servir a Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, não queriam haver Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais não lhes parecendo cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder de Christãos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo, offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles izentamente, e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente com os Capitães, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi se espediram delle com muita sua graça, e os que ficáram para morarem na terra escolheram para sua povoração vivenda a Atouguia, e Lourinhã, e Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor daquelles que a povoaram havia nome Rolim, não que por esso fosse Childe Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella frota vinha, o qual não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais com rezão se devera partir com elle ficando na terra, mas é bem de crer, que fosse outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que folgassem de ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desentão, e hoje em dia seus sucessores, bem mostráram sua cavallaria, e fidalguia com muita honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns destas gentes povoaram Almada, e pela nomeação deste nome se mostra que foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em linguagem Ingreza é, vimadel, que quer dizer em Portuguez: _todos a fazemos_, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o nome, lhe chamáram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial de um Cavalleiro Alemão por nome Anrique, sendo muita razão, que os Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua gloria por Deos manifestada, se faça louvada menção, pois se faz de seus temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo mereçamos, não chega á gloria, e louvor do premio, que no outro ante Deos se alcança.

CAPITULO XXXVI

_Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que morreo quando a Cidade de Lisboa foi entrada_.

Acima se disse, como durando o cerco de Lisboa soterraram os mortos naquellas duas Egrejas, que nos reaes se fizeram para esso, e tomando-se a Cidade aconteceo dos que na entrada soterraram na Egraja que ora é chamada S. Vicente de Fóra, um nobre, e valente Cavalleiro Alemão chamado Anrique, comprido de bons, e virtuosos costumes, foi morto naquelle combate peleijando mui esforçadamente, e sendo assi enterrado naquelle lugar N. Senhor em cujos olhos é mui preciosa a morte dos seus Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle disse, que no amor de Deos, quanto mais os que por seu amor morrem, fazia por este Cavalleiro Anrique muitos milagres de que alguns sómente por mostra brevemente diremos.

Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous homens surdos, e mudos de seu nacimento, e indo um dia á sepultura daquelle Cavalleiro deitaram-se apar delle com grande devação, pedindo em suas vontades, que por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor Deos piedade, e misericordia para sua infermidade, elles jazendo assi adormeceram ambos, e appareceu-lhes logo em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos de Romeiro, trazendo na mão um bordão de palma, e falou áquelles mancebos, dizendo-lhe: «Alevantai-vos folgai, e havei prazer, e hi ouvi, e falai, que pelos merecimentos meus, e destes Martyres, que aqui jazemos, ganhastes do Senhor Deos graça, a qual é com vosco». E dito esto desapareceo; elles então acordaram, e achando-se sãos de todo, ouvindo, e falando milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara, começaram a contar a todo o povo o milagre que Deos em elles fizera pelos merecimentos deste Cavalleiro.

E El-Rei D. Affonso, e todos os que hi estavam davam muitas graças, e louvores ao Senhor Deos, que taes maravilhas obra, como diz o Profeta, por honrar, e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavalleiro Anrique natural de uma Villa que se chama Bom composta na ribeira de Reina quatro leguas acima de Colonha, na qual eu fui, e estive dessas vezes, que áquellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a sempre com muita affeição, e saudosa lembrança deste Santo Cavalleiro Anrique.

CAPITULO XXXVII

_Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom, mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada de Lisboa muito ferido morrera_.

Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle, dizendo-lhe: «Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christãos enterraram o meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, não deve ser apartado na sepultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestação tão pouco curou desso, como da primeira, então lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçando-o com palavras de grande medo, se logo não fosse comprir o que por tantas vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se levantou logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde jazia o Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si só e lhe fez uma cova a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando veio pela menhã, achou-se o velho tão são, e sem cançasso do trabalho da noite passado, sendo impossivel por sua cançada idade pode-lo fazer, como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram todos muitos louvores a N. Senhor.

CAPITULO XXXVIII

_Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que Deos por elle fazia_.