Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

Part 6

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Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros: «Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui, e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei: «Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,» querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei: «Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse: «Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em que lugar.

Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle, e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro nenhum prometter nem ficar por tal caso.--«Senhor Santo Padre!» disse o Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é, ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa.

E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias.

Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria.

CAPITULO XXV

_Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique veio tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e tomou Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar Leiria aos Mouros_.

El-Rei Ismar, que foi vencido no Campo Dourique, por El-Rei D. Affonso Anriques como já dissemos, tendo sempre grande vontade em guerrear Christãos, em especial depois de haver aquelle grande desbarato, ajuntou muitas gentes, e veio-se a Santarem, e dali partio levando consigo a Euzari que era Alcaide da Villa, e correo a terra, até chegar a Leiria, a qual combateo tão fortemente, que entrou por força matando os mais dos Christãos que hi acharam, e levando cativo Paio Goterres, que o Prior de Santa Cruz ahi leixára por Alcaide, e depois de leixarem Mouros no Castello, e Villa, que a bem mantivessem, e guardassem, tornaram-se logo para suas terras, fazendo tudo esto com tanta preça, e trigança, que El-Rei D. Affonso estando em Coimbra não teve tempo para soccorrer, e vir á batalha com elles.

Foi tomada Leiria del-Rei Ismar era de N. Senhor de mil cento e quorenta annos (1140). Quando o Prior de Santa Cruz a que chamavam Theotonio homem ante El-Rei muito estimado, vio tomada Leiria, que lhe El-Rei D. Affonso com muita devação, e vontade tinha dado, tomou em si grande pezar, e partindo-se do Moesteiro, foi-se a guerrear ás terras de Alentejo, que os Mouros pessuiam, onde tomou a Villa de Arronches, e em quanto assi o Prior lá andou guerreando, El-Rei D. Affonso tendo grande pezar por se assi tomar Leiria, ajuntou outra vez gente, e foi sobre ella, e Deos que sempre o ajudava em todos os seus feitos, lhe deu tão boa esquença, que por força a tornou a tomar, posto que os Mouros a mui bem defendessem. E esto foi quatro dias por andar de Fevereiro era do Senhor de mil cento e quorenta e cinco annos (1145) e porque vio o Prior a quem elle dantes dera a Villa lha não guardára bem, poz em ella, e no Castello tal guarda, como compria para sua defensão, que lha não podessem assi os Mouros outra vez ligeiramente tomar, e tornou-se a Coimbra.

CAPITULO XXVI

_Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz, e assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D. Anrique de Lara_.

Acabo de dias, estando El-Rei D. Affonso em Coimbra chegou o Prior de Santa Cruz, e disse a El-Rei: «Senhor vós déstes a esta vossa Egreja a Villa de Leiria quando a tomastes aos Mouros, e com quanto eu fiz para ella ser guardada todo o que bem podia, e devia, porém por nossos peccados foi tomada de Mouros como se vio, pelo qual eu tomei tanto nojo, que me fez leixar o modo de meu viver ordenado, e tomar vida de andar em guerra, no que me ainda Deos ajudou tanto que tomei a Villa de Arronches, e ora Senhor somos aqui ante vós, eu, e meus amigos, o feito de Arronches, e Leiria todo pomos em vossas mãos». El-Rei havendo sobre esso concelho, e vendo como os negocios temporaes não convinham a tal Habito, e religião, maiormente em feitos de guerra, teve por bem que todo o espiritual destas Villas ambas, fosse de Santa Cruz, e o temporal ficasse sempre aos Reis de Portugal.

Estando assi El-Rei D. Affonso com mui grande honra, e fama em Coimbra, foi-lhe cometido o cazamento com Dona Mofalda Anriques filha do Conde D. Anrique de Lara, e a elle aprouve-lhe muito de cazar com ella por estes respeitos, primeiramente por a Caza de Lara ser havida, por a mais alta linhagem de Espanha, esso mesmo porque em toda Espanha, não havia molher nhuma de linhagem de Reis a que elle não fosse mui chegado em parentesco, tambem por ella ser muito fermosa, e dotada de muitas virtudes, e bondades, e por tanto tomou mui grande contentamento deste cazamento, o qual foi feito em Coimbra, era de N. Senhor de mil cento e quorenta e seis annos (1146) havendo já sete annos que fora levantado por Rei, e fazendo cincoenta e dous annos de sua idade, e por se não achar escrito nada das cousas, que se neste cazamento fizeram, nem como foram, se não poz aqui mais, que sómente cazar El-Rei, e o tempo em que cazou, pelo qual passando por esto, falaremos, como se El-Rei moveo depois para tomar a Villa de Santarem.

CAPITULO XXVII

_Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D. Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou_.

Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miçamidas entraram por Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo já oito annos que depois de alçado por Rei reinava, o qual havia muito que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma, por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastança de seu assento, que da parte do Oriente a vista dos homens não se póde fartar de ver a fermosura dos campos mui chãos, abastados de muito pão, correndo por elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaçoso, e ao Norte contra os Montes, grande avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui magoado, e todo penoso em seu coração por a ver em poder de Mouros, e não poder toma-la, com quanto trabalho já tomára sobre ella, porque a Villa não era tão grande de manter, nem defender, aos que dentro estavam, nem tão pequena, que se pudesse furtar de poucos, álem desto, era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que os Mouros chamam Alfão, porque parecia deste cabo cham, em respeito do outro cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christãos que tinham cativos, com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e temerosa, porque lançavam por alli os que eram condenados por sentença á morte, e iam os corpos mortos ter ao fundo á ribeira do Tejo, e da parte do Sul por rezão da propriedade da terra esbarrondada que seubre chamavam Alfange, que em Portuguez soa quebrada, e não se podia por alli haver entrada ao lugar, se não por recaios, e da parte do Norte não menos está afortalezado, pela grande altura do Monte que é pedregoso, e aspero, pelo qual assi pela grande Fortaleza da Villa, que por nhuma maneira de engenhos se podia combater, como pelo grande percebimento de muito boa gente, e mantimentos que dentro havia, não podia El-Rei D. Affonso haver modo de a tomar, nem remedio para tolher a grande guerra, que já de gram tempo desta Villa se fazia a Coimbra, e a outros seus lugares.

Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a defficuldade para se poder tomar a grandeza das aguas do Tejo, que por junto corre, porque quando lhe El-Rei punha guardas de uma parte, se passavam com seus gados para a outra, demais que estes campos eram tão cheos de pavez, e insoas, nem se podiam andar, se não por barcas em tempos certos: por onde a Villa era tão grave de filhar, que seu avô El-Rei D. Affonso de Castella nunca a pudera tomar, senão por fome, nem esto mesmo Cid Rei Mouro, nem Abderazaca que teve o senhorio della trinta e quatro annos, o que parecerá cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semilhante Villa foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques com tão pouca gente, e como quer que elle cuidasse muitas vezes em seu pensamento como a poderia tomar por força, ou por algum despercebimento, aquelles com que esta cousa comunicava, representavam-lhe sempre duvidas, de muito grande perigo, e receo.

CAPITULO XXVIII

_Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que teve com os seus para ir sobre ella_.

Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nesta maneira de poder tomar a nobre Villa de Santarem, assi pelas duvidas que punham esses com que falava, como pela grande deficuldade que desse mesmo feito parecia, com todo seu grande animo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas deficuldades se rendia, determinou toda via de trabalhar sobre esso, e fazendo treguas com os Mouros, por certo tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo este negocio, e conselho lá, para que visse, por qual parte, se podia a Villa furtar, e entrar mais descançado, e seguramente, o qual indo lá, e assentando a tregua espiou todo mui bem, como homem mui avizado, e de grande engenho, e esforço que era, e da tornada falou com El-Rei em segredo fazendo-lhe o caso possivel, prometendo-lhe que elle seria o que fosse diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e poria a sua bandeira sobre o muro, e quebraria as fechaduras das portas, e assi o fez depois, porque era tão bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto, que para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas cousas lhe pareciam mui ligeiras, e seguras de perigo.

El-Rei foi mui ledo com seu recado, e esforço, porque entendia, fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, a Villa poderia tomar, não sendo primeiro descuberto, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com grande segredo, que não quiz falar esta cousa aos de seu Conselho, em seu Paço, receando-se de poder ser em algum modo ouvido, antes foi um dia a folgar ao campo chamado Arnado, e alli apartou D. Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza, e D. Pero Paes seu Alferes, e outros, e contou-lhes todo seu intento, e proposito do que queria fazer, mandou-lhes que o tivessem em mui grande segredo sobpena de morte, em tal guiza, que ninguem o podesse entender, em quanto alli estivessem, nem á partida, e o conselho acabado, tornou-se El-Rei para o Paço, e vindo pela rua da figueira velha chegando á Praça disse uma velha regateira contra as outras: «Quereis vós saber, o que El-Rei com aquelles seus companheiros falou» disseram ellas: «Que falou?» Falou disse ella, «como fossem furtar Santarem». El-Rei que passando ouvio tudo, e vendo todos aquelles com que falara esta cousa ir comsigo diante sem nunca se apartarem delle, foi assi maravilhando-se até o Paço, e como descavalgou chamou os todos, e disse-lhes: «Não atentastes no que disse aquella velha, certo se algum de vós se apartára de mim, eu cuidava que fora descuberto por elle, e lhe mandara por ello cortar a cabeça, sem o merecer».

CAPITULO XXIX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella hora lhe foi revelado lá em França, onde estava_.

Depois desto fez El-Rei prestes sómente os seus continuos de sua caza, e alguns poucos de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi mantimentos que lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha grande e singular devação, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu serviço, e que esta couza tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei uma segunda feira não sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o comunicara, e levaram o caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros não houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada até tres dias, que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava, tornou á quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmão bastardo del-Rei, que fora já em França, ia falando com elle dos muitos milagres, que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então era vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia.

Então El-Rei movido a devação pelas couzas que lhe seu irmão assi contava, disse: «Eu á honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S. Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda esta terra para a sua Ordem quanta vejo daqui até o mar, e que faça um Moesteiro em que Frades da sua Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja mais acrecentada». E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto, logo lhe a elle foi revelado lá em França, onde estava esta promessa del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de todalas couzas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e ricos Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade.

Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta revelação mandou logo tanger a Cabido, e todos os Monges juntos, lhes contou o que lhe fora revelado, então todos cantando: «Te Deum Laudamus», foram á Egreja dar graças a Deos, e mandáram logo partir certos Monges para Portugal com livros da sua regra, e ordenança, e os que quizessem, viessem para alli, os quaes em se começando a obra do Moesteiro, vieram hi ter, e tomaram posse pela ordem da Doação que lhe El-Rei fizera, começando hi de viver, segundo sua Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor aprouve que fosse sempre depois, e agora neste tempo.

CAPITULO XXX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre Santarem, e das rezões que disse a todos_.

Na serra Dalvados, que acima dissemos, esteve El-Rei a quinta feira até noite, e dahi abalaram ao serão andando toda a noite, até a mata que está sobre Pernes, onde chegaram sexta feira amanhecente, então concirou El-Rei que era bem descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez-lhe uma falla nesta maneira: «Meus bons Cavalleiros, e amigos, mais verdadeiramente, que a outros nhuns se ha de chamar, bem sabeis quantos trabalhos, e fadigas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa de que ácerca estamos, e quanta guerra, e males tem feitos á nossa Cidade de Coimbra, e a todo meu Reino por muito tempo, pelo qual detreminei de a vir com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e ainda que parece necessario chamar mais gente para esso, e seja certo que me viera de mui boa vontade, porém não quiz, nem escolhi mais que vós soes, em que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e cuja lealdade, e valentia, em muitos perigos meus conhecida me deu sempre de vós, tal, e tão firme confiança, que com a graça de Deos, ei já por feito o que vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e continencias não menos sentirdes, e dezejardes, esta couza que eu mesmo, o que me cauza tanto prazer, que já me não parece termos nisto mais pejo, que a detença deste dia, que passe azinha, para com a graça de N. Senhor nos irmos a noite seguinte apossentar dentro na Villa, e o que tenho cuidado para se esto mais ligeiramente fazer, escolham-se cento e vinte de nós, para dez esquadras partidos a cada uma doze, que logo no primeiro sobir, se achem não menos de dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto da gente.

Os primeiros que sobirem alevantem logo minha bandeira, para esforço dos nossos, e esmaio dos imigos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai as fechaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que pela porta entrarem, ajuntados com os de dentro esmaiarão mais os imigos, em cuja matança de homens sahidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quam pouco ha de fazer. Vós a nhuma pessoa não perdoeis, nem deis vida, nem a homem, nem a mulher, moço, nem velho, de qualquer idade, e qualidade, todos andem á espada, e esto fazei com grande e trigozo esforço, que Deos será ahi em nossa ajuda, para cada um de nós matar cento delles, e hoje, e á menhã fazem por nós oração geral o Prior, e todos os Conegos do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que partisse notifiquei o que vinhamos fazer, e assi tambem a Cleresia, com todo o povo, e por que lhes disse que tinha trato, e intelligencia na Villa, para nos dentro receberem, me perdoe Deos esta mentira, que ácinte lhe disse, porque lhe esforçasse os corações, e vontades; assi meus amigos vos esforçai, e peleijai como sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, por mi, e por vós, por vossos filhos, e netos, hi serei eu, e me verei com vosco, que não póde haver afronta, nem perigo, que a viver, e morrer me aparte de vós, como vejo que fareis por mi».

Ouviram todos a El-Rei, mui promptos, e animados, em seus corações, para ouzarem, e cometerem todo o que lhes falou, mas consirando elles antre si, a grande ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria poer, apartaram-se com elle, e disseram. «Senhor vossa pessoa, não irá com nosco, que se formos vencidos, nossos imigos não haverão tanto louvor, nem que morramos delles, ou todos, não é muito de curar, salva vossa pessoa, e tirada de semelhante risco, cuja perda que Deos defenda seria perder-se Portugal, e leixando-vos nòs entrar em tamanho perigo, seria nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como filhos de tredores, que tendo tal Rei consentiram perde-lo». El-Rei respeitando o que lhe assi diziam, a muito amor respondeo-lhes com outro tanto, estas palavras: «Oh amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei de viver sem vós tais Cavalleiros tomardes esta Villa de Santarem, a elle praza que antes eu desta vez em ella morra».

CAPITULO XXXI

_Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de Santarem, e dos sinais que pareceram_.

Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso, aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforçou muito mais os corações; viram uma estrella grande ardente com grande raio correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir no mar. Vendo esto disseram logo todos. _Senhor Deos todo poderoso a Villa é em vossas mãos_. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa, appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo acezas, desde o cabo até á cabeça. O que esses mais sabedores antre os Mouros, intrepetáram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da Estremadura era.