Chronica de el-rei D. Affonso Henriques
Part 5
«Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vós, por sempre ser de vós mui bem servido, e guardado, e porque desto me contento muito, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels imigos da Fé, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, não são convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vós sede mui esforçados, e não temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja Fé somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue, como elle fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os dará vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje é, será nosso Capitão, e valedor nesta batalha». Responderam elles todos: «Senhor praza a Deos que assi seja, e não menos o esperamos de sua graça, porém para elle ser milhor serviço de vós, e de nós neste feito, e em todos os outros adiante, é mui necessario que vos alcemos por Rei, e não deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto pedimos, e desejamos». O princepe vendo-se tão aficado delles, disse que pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Então todos o levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: «Real, Real, por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal». Anno de Christo de mil cento e trinta e nove (1139).
CAPITULO XVII
_Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande vencimento della_.
Feito esto El-Rei cavalgou logo em um cavallo grande, e fermoso, que lhe foi trazido cuberto de suas armas brancas, como dantes trazia, e os senhores Cavalleiros se tornaram cada um a suas azes, e lugares ordenados, e sem mais tardança, moveram contra os Mouros que já vinham contra elles. El-Rei quando vio ser tempo disse a D. Pero Paes seu Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e toda sua az, o fez assi, e foram todos juntos ferir nos Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia diante ferio um Mouro da lança, de tal sorte, e encontro, que deu logo com elle morto em terra, e rompendo a primeira az dos Mouros chegaram á segunda da gente mui grossa, e ali foi grande sem conto o poder dos Mouros, que tambem das outras azes carregaram sobre El-Rei. Então D. Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza que traziam a reguarda acodiram a El-Rei mui esforçadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de ambas as partes, esso mesmo Martim Moniz, e Mem Moniz irmãos, Capitães das azes entraram cada um de sua parte na batalha, como esforçados Cavalleiros que eram, fazendo grande matança nos Mouros.
Todos o faziam muito bem: mas em especial El-Rei da ventagem que era mui grande de corpo, e de mui assinada valentia, de força grande, e coração muito maior, e gram cortador de espada, e por tanto seu peleijar onde se topava, antre todos era avantejado. Foi esta batalha tão bravamente peleijada, que durou até horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia tão quente, e tanto pó naquelle tempo, que cada uma destas cousas com pouca mais afronta os devera cansar; mas N. Senhor que era com El-Rei D. Affonso tão esforçado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforço, como nem com nhuma destas cousas, nem com tanta multidão de Mouros afraquassem dando-lhe batalha, e de tudo tão grande vencimento, qual se não deu, de tão poucos, e tantos em batalha campal aprazados; foi assi vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mouros que vinham com elle, e mortos na peleija mui grande conto de Mouros, e muitas das molheres pelejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Christãos foi a vitoria sem perda grande, morreram muitos antre os quaes Martim Moniz Capitão da az direita, e D. Diogo Gonçalves, homens mui principaes.
Não se espante ninguem, nem duvide do que em cima escrevo da grandeza deste vencimento, como já vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando Plutarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio com outros Latinos, concordando affirmam, e dizem a vitoria da batalha que Lucullo Lentullo Capitão de Roma houve em Asia contra El-Rei Tigrames ser a maior que o Sol nunca vio sendo os Romãos onze mil de pé, a fora a gente de cavallo, e os imigos duzentos e vinte mil de peleija, havendo-o logo com gente tão cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem delles cem mil no desbarato, dos Romões sómente cinco morreram, e feridos não passaram de cento, donde se escreve, que os Romãos houveram vergonha, e se riram de si mesmos por tomarem armas para tão vil gente, da qual segundo affirma Tito Livio eram os vencedores quasi a vigessima parte, o que em mui maior gráo, e desigualança se deve estimar, e dizer desta vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais numero de imigos, e menos dos Christãos, como pela valentia, e animosidade, e seita contraria dos infieis, e além desso vezados ás mesmas guerras nossas, e a muitas vitorias havidas contra nós, com que se tinham feito vencedores da Christandade, e senhoreado o mundo, nem des o tempo de Lucullo Lentullo para cá, não acho vitoria destas mais assinadas, que foram; porque desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer menos do que disse.
CAPITULO XVIII
_Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_.
Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo, como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem, e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos, pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta dinheiros, e desta maneira se trazem agora.
Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão, outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar de cativeiro.
Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres. Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado, e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S. Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa.
CAPITULO XIX
_Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de Christo_.
Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora é no Reino de Aragão, de nobre linhagem, de Fé, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmão de S. Lourenço, e sendo enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valença, o qual por ser empachado na lingoa, em prégações, e muitos outros autos do serviço de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador de Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima persecução contra Christãos, que durou dez annos, e foi maior, e mais cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores, que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o qual estando em a Cidade de Valença, tanto que soube da vida de S. Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prégavam, os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e ameaços pelas obras que faziam, e prégavam, e S. Valerio por ser já velho, e empachado da fala, como dito é, começou a responder manço, e de vagar.
Disse então S. Vicente a S. Valerio: «Padre não cumpre aqui resposta que seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz». S. Valerio respondeo: «Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho minhas vezes cometido». Então S. Vicente respondeo, e falou a Daciano com tanto fervor, e constancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por então morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o lançassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuação de tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e não caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes.
Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo delle, se não de sendo vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: «Pois em vivo o não venci, morto o vencerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás aves, e animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma sanha, e crueza dantes demais: «Se nem morto o poderei vencer». Então mandou atar uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra não pudéra; mas o Corpo de S. Vicente milagrosamente veio até á terra primeiro que o mesmo barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi sabido e recolhido seu Corpo dalguns Christãos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: «Oh Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras, venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo morto».
CAPITULO XX
_Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de S. Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo achar se tornou para Coimbra_.
Contam as Estorias dos Arabigos, que andando a era dos Mouros, em cento e trinta e cinco annos, se levantou nas Espanhas um poderoso homem, a que chamavam Abdenamer, o qual começou a conquistar, e sobgigar por Espanha assi Mouros, como Christãos, não achando Santuario de Christãos, que não destruisse, nem ossos de Martyres, que não queimasse, e andando nesta conquista foi ter a Aragão, e a Valença, e os homens que tinham o Corpo do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua vinda, e do que fazia ás Reliquias, e Corpos dos Santos, houveram seu acordo de fogirem com elle, para terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de os guiar áquelle Cabo chamado ora de S. Vicente, como acima se diz, para o seu Corpo alli ser enterrado, e escondido, e aquelles homens bons que o trouxeram, estiveram continuadamente com elle até que por alli chegou um Cavalleiro Mouro, que morava naquella terra dos Algarves, natural do Reino de Fês a que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em como elle disse, que andando por alli de noite achára certos homens guardando aquelle Corpo, os quaes matara, e leixara o Corpo.
El-Rei D. Affonso ouvindo o conteudo nesta Estoria com o que lhe tinham falado e affirmado os dous velhos Moçaraves de como estiveram no mesmo lugar, onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com os seus em que modo o poderiam haver, e acordaram que fizessem tregua com os Mouros, e por tempo certo. Ellas feitas El-Rei D. Affonso partio de Coimbra para aquelle lugar, com tanto desejo, e devação, que apagava em seu coração todo receio, trabalho, e perigo que nisto corria, e chegando lá fez buscar com grande deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N. Senhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Martyre fosse na Cidade de Lisboa onde agora jaz, a qual ainda então era de Mouros. Quando El-Rei D. Affonso vio que não podia achar este Santo Corpo, como quer que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar á vontade de Deos, que por então parecia ser aquella, e dali tornou-se para Coimbra.
CAPITULO XXI[4]
_Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a El-Rei Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso passou com o Bispo_.
Depois disto, estando El-Rei D. Affonso Henriques em Coimbra, sua Mãi se enviou muito querelar ao Santo Padre da prisão em que a tinha seu filho tantos tempos havia; e o Padre Santo teve aquella cousa por estranha e muito mal feita, e determinou de mandar a Portugal sobre isto o Bispo de Coimbra que então lá estava em Roma, dando-lhe cartas e grandes mandados para El-Rei D. Affonso que tirasse sua mãi da prisão, e não o querendo assim comprir fosse interdito posto em todo o reino.
Partio-se o Bispo para Portugal, e veio a El Rei, ao qual depois de dar as letras do Santo Padre e dizer sua embaixada, El-Rei disse ao Bispo: «Que tinha o Santo Padre de fazer em elle ter sua mãi preza? Que fosse bem certo que nem por mandado do Papa nem d'outro nenhum elle em modo algum a soltaria, porque o havia assim por mais serviço de Deos e bem de seu Reino.» Quando o Bispo vio que outro recado não podia nem esperava achar em El-Rei, trabalhou-se de comprir o que o Santo Padre lhe tinha mandado, e então excummungou toda a terra e partiu-se de novo fugindo.
Quando veio pela manhã disseram a El-Rei que era excommungado e toda sua terra, do que sendo mui irado se foi á Sé, e fez entrar todos os Conegos no Claustro em Cabido, e disse-lhes: «D'entre todos me dai um Bispo». Elles responderam todos: «Bispo temos; como vos daremos outro Bispo?» Disse El-Rei: «Esse, que vós dizeis nunca aqui será Bispo em todos meus dias; mas pois assim é, sahi-vos todos pela porta fora, e eu catarei quem faça Bispo». Elles sahiram-se, e El-Rei vindo pela Claustra vio vir um clerigo que era negro, e disse-lhe: «Como has nome?» O clerigo respondeu: «Hei nome Martins».--«E teu pai como se chamava».--Colleima disse elle. El-Rei perguntou-lhe: «És bom clerigo, ou sabes bem o officio da Igreja?» E elle respondeu: «Não ha ahi melhores dous na Hespanha, nem que o melhor saibão». Então disse El-Rei: «Tu serás Bispo Dom Colleima, e ordena logo como me digas Missa». «Senhor», disse elle «eu não sou ordenado como Bispo, para vo-la poder dizer». Acudio El-Rei: «Eu te ordeno como Bispo, que m'a possas dizer, e apparelha-te como logo m'a digas, senão eu te cortarei a cabeça com esta espada». E o clerigo, com medo, revestio-se para dizer Missa solemnemente como Bispo.
Sabido este feito em Roma, cuidaram que El Rei era herege, e enviou-lhe o Papa um Cardeal que lhe ensinasse a fé.
CAPITULO XXII
_Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_.
A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques assim poderá parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de exorbitancia. No que certo, assim como se não pode negar cousas de tal modo feitas serem fóra do que os homens devem, assim se não pode deixar de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fóra dos outros homens; que o Rei não é Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o coração do Rei é na mão de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso faça nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda que seja fóra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem nosso saber, nos leva muitas vezes por onde não queremos ao que mais devemos querer, assim é de cuidar que dispensa occultamente, sempre porem justamente, como se faça ás vezes o que parece que não deve ser, porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja.
Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para muito misterio de seu serviço, e exalçamento da santa fé; como elle seja louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razão póde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer assim este bispo como figura já então prognosticada do grande misterio que só por mão de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua navegação e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé de Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado então neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre Igreja,--quanto agora a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em mui e muitos outros, por mão dos successores de quem aquillo fêz. Assim que era El-Rei D. Affonso posto então nos começos destas cousas, tendo Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os bens e ajudas, como não creremos que dispensando com a ordem que deu geralmente entre os homens, inspirasse no coração de El-Rei D. Affonso que houvesse por bem fazer assim por então aquellas cousas, e as fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem mostrança d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever com impedimentos humanos contrarios a tal disposição e juiz divino?
Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se matarão, por em seus corpos não consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo Sansão, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja por certo que o virtuoso coração destes não podia obrar tamanho mal como é matar-se, senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos por Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas não carecerão neste mundo de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso por que se conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se fizesse, maiormente não sendo as tribulações e penas deste mundo condenação para o outro, mas provação ou mezinha por de um muito bom rei fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrança e conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os males que neste mundo nos apressão para Deos nos empuxão; pelo qual os similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei D. Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeiramente julgar, que não remettamos o intrinseco delles áquelle Supremo Saber do Senhor Deos, por cuja providencia se não faz nada neste mundo sem causa, e assim não nos fará novidade nem espanto lê-los nem ouvi-los.
CAPITULO XXIII
_Como o papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles se passou em Coimbra_.
Quando as novas chegaram ao Santo Padre de como El-Rei D. Affonso Henriques não queria obedecer a suas cartas e mandados para soltar sua mãi, e fizera assim aquelle Bispo da maneira que se disse, o Santo Padre, e toda a Côrte, teve que elle era Herege, e propozeram de lhe enviar um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a fé, e corrigisse de quaesquer erros que tivesse. O qual veio pelas Côrtes dos Reis de Hespanha, que sahião a recebe-lo mui honradamente. E vindo já o Cardeal perto de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e disserão-lhe: «Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma por estardes em desprazer e descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes.» Disse El-Rei. «Ainda me não arrependo.» Elles proseguindo mais avante pela nova do Cardeal, disseram: «Senhor, todos os Reis por cujas terras vem, segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e provão para lhe beijarem a mão.» Disse então El-Rei: «Não sei Cardeal nem Papa que a Coimbra viesse, e me tendesse a mão para lh'a beijar em minha casa que lhe eu não cortasse o braço pelo cotovello com esta espada, e disto não podia escapar.»
Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra, e tomou grande receio, e El-Rei não quiz sahir fóra a recebê-lo. O que logo o Cardeal teve a máo sinal, e portanto em chegando se foi direito a Alcaçova onde El-Rei pousava. Alli o recebeo El-Rei mui bem e disse-lhe: «Pois, Cardeal, a que viestes a esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma para estas hostes que tão a miude faço de dia e de noute contra Mouros? Dom Cardeal amigo? Se vós por ventura me trazeis algo que me dês, dai-mo, e se me não trazeis nada, tornai-vos vossa via.» «Senhor,» disse o Cardeal: «Eu sou vindo a vós da parte do Santo Padre para vos ensinar a fé de Christo.» Respondeu então El-Rei: «Certo assim temos nós outros cá bons da fé nesta terra como vós lá em Roma, e portanto bem sabemos como o Filho de Deos encarnou na Virgem Maria e della nasceo, e isto por obra do Espirito Santo, e como morreo na cruz por remir a geração humanal e descendeu aos infernos, e ao terceiro dia resurgiu não mortal, e que o Padre e o Filho e o Espirito Santo são Tres Pessoas realmente distinctas em uma só essencia. Esta fé temos e cremos firmemente tão bem como vós lá em Roma; pelo qual não havemos por agora mister de vós outra doutrina nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que houverdes mister, e de manhã, se Deos quizer, eu e vós fallaremos.»
Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou logo pôr cevada ás bêstas, e tanto que foi meia-noute mandou chamar todos os clerigos da cidade e excommungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se da guisa que ante manhã andou duas legoas.
CAPITULO XXIV
_Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle passou_.