Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

Part 4

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Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir ás Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua molher, e filhos, e chegáram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei estava, e ali se despiram de todolos panos senão os de linho, e sua molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalçaram-se todos, e pozeram senhos baraços nos pescoços, e assi entráram pelo Paço onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou então D. Egas Moniz, e disse.

«Senhor estando vós em Guimarães sobre o Principe vosso primo meu Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua pessoa e honra áquelle tempo corria grande risco de se perder por na Villa não haver mantimentos, nem percebimento algum para defensão, se lhe vós tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me ir a vós, e fazer esso que fiz». Recontando dahi ávante perante todos cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por causa desto Senhor me venho presentar ante vós, e eis aqui estas mãos com que vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago aqui minha molher, e estes moços meus filhos para se vossa ira houver por maior minha culpa que a vingança do meu corpo só, por esta molher, e por estes moços a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe apiedar-se, seja vossa indinação satisfeita, prestes Senhor vos trago tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um só vingança de muitos, do pai, da mãi, de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me pezará que vossa sobeja vingança faça maior meu cumprimento, e que se diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou».

Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres que ahi estavam lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezão de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão de lhe fazer muita honra, e mercê, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e depois de lhe fazer muitas mercês o mandou livremente elle, e sua molher, e filhos tornar para Portugal.

CAPITULO XI

_Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de Castella se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual apoz esto juntou gente, e foi tomar Leiria_.

Desque D. Egas Moniz se assi partio del-Rei de Castella quite, e livre de sua menagem, e com sua graça veio caminho de Guimarães, e ante que ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriques sabendo sua vinda o sahio a receber com toda sua Corte mui alegre como quem parecia que aquella ora cobrava de novo um tal servidor, e vassallo, como era D. Egas; porque sempre esperára que elle em Castella fosse morto, ou deshonrado para sempre, e tudo sómente por seu respeito, ou serviço, e assi quanto lhe estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora sobejo prazer com sua vinda em salvo. Quando D. Egas chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as mãos, e o Principe as tirou a si, e abraçou-o mui de vontade com grande gazalhado parecendo-lhe com muita rezão que tal obra, e merecimento mais merecia ser recebida com mostrança de muita honra, e agradecimento que sobgeição, e assi vieram ambos fallando com muito prazer até Guimarães, onde depois dalguns dias o Princepe por se prover de não cair em outra tal mingua, e desastre de se ver cercado, e não apercebido como dantes, começou abastecer seus Castellos, e Villas de todalas cousas que para sua defenção lhe compriam, e em dar ordem a esto per si, e pelos seus, passáram alguns dias.

E dahi veio-se a Coimbra onde lhe pareceo que estava mui de vago, e sem proveito, pois se não occupava em mais, que no que tinha mandado aos seus que fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entrada na terra dos Mouros, e no primeiro lugar em que deu foi Leiria a qual combateo rijamente, e posto que o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui bem defendessem tomou-o por força, e os mais dos Mouros que ahi achou andáram á espada, e assi esta Villa tomada o Princepe a deu ao Prior de Santa Cruz de Coimbra, por ser homem em que elle tinha grande devação, e fez a elle, e ao Moesteiro doação della no temporal, e espritual, e o Prior lha teve em mui grande mercê; e pondo-lhe logo por Alcaide no Castello Paio Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe D. Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, seguio mais sua entrada pela terra dos Mouros, e tomou Torres Novas, e então se tornou para Coimbra com muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de despojos, e estas duas Villas foram tomadas no mez de Dezembro andando a era do Senhor em mil cento e dezasete annos (1117) de sua idade.

CAPITULO XII

_Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros daquelle tempo_.

Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria, e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa gente, que era bastante para peleijar com elle.

E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio, e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D. Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente. Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal, ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado Cavalleiro.

Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S. Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos, conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia deixar de ser.

CAPITULO XIII

_Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como sentaram seus arraiaes um á vista do outro_.

Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito é, o Princepe D. Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de tão honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiança; seguio avante o que ia fazer, por serviço de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D. Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas que agora ainda hi ha, e então seriam maiores, e sahindo dellas começou a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova, mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor, mandando seus alvites, que elles entre si hão por homens de santa vida, que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem á terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar muita em sua ajuda de Mouros dáquem, e dalém mar, e outras gentes barbaras, que era infinda a multidão delles em tanta desigualança dos Christãos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes não achamos escritos, e vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes, foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforço, e vontade de servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar, que se hora chama Cabeças de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma Ermida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentáram seus arraiaes um á vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor de mil cento e trinta e nove (1139).

CAPITULO XIV

_Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao Principe D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez sobre esso_.

Os Christãos que eram com o Principe, vendo a grande multidão dos Mouros sem conto, começaram de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui grande desigualança, que havia delles aos Mouros. Então se foram ao Principe, e lhe disseram: «Senhor quem sua carga compassa póde com ella, e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e cuidardes de com tão pouca, como tendes peleijar com elle, é cousa fóra de toda a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, antes por muito seu desserviço para tamanha aventura, e risco de uma só ora o senhorio de Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a todos parece, e não com mingoa de coração, e vontade que em nós nunca achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha». Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e posto que nelle só houvesse o esforço que a toda a Oste compria, lhe pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos ajuntados, assi começou.

«Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a tenção e desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua santa Fé Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando nós já em vista dos que viemos buscar, será grande mingua, e ainda poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, não peleijando, que peleijando receaes se fogissemos ás batalhas a que nos Deos, e nossas vontades tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento não podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade nunca abrio mão dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com estes imigos da Fé, e os venceram poucos, pois não é agora menos poderosa a mão do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos Princepes, e Senhores Christãos, em semelhantes casos, e tanto mais da ventagem de nossos imigos; deve nosso coração, e esforço quanto temos mais justas causas, e rezão de peleijar. Nós peleijamos por Deos, pela Fé, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos, pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e furtada, e querem furtar. Nós pelo sangue, e vingança de nossos Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós por poer nossos pais, nossas mãis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com liberdade, elles a nós todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christãos por nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu desfazimento, e destruição, não desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e a tamanho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Cavalleiros, e a quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e feito tão glorioso, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam mais desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por nós, peleija sua, e nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa Fé, em que nos elle salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e honra temporal, morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a quem se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a Christo, que o seu proprio por nós espargeo, nem que podemos fazer neste mundo por elle, que muito mais, o primeiro não fizesse por nós, elle sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de Deos, e nós filhos de homens, ainda por elle não faremos por onde filhos de Deos pareçamos? Elle padeceo por nós, só nu, e despido, sem galardão, e nós cubertos de armas, e acompanhados, e com galardão, muito maior que merecimento, receamos peleijar por quem assi por nós morreo, para que nos fez logo Deos, para que nos teve amor tão sobejo, que por remir tão ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por nós, e nós possamos fazer por elle) feito tudo só por nós, e para nós, que Deos nada lhe faz mister? Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e muito menos de Christãos, e mais nós Portuguezes recearmos trabalho, que nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhã em que com sua graça venceremos a batalha, será de tanto prazer para nós, e nos aprezenta tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio, faz ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas rezões, nem temores que a lembrança de Deos só, e de tanto bem nosso, no los deve lançar fóra de nossos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai com muito prazer, e descanço o dia damenhã, tão ledo, e de prazer, como nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de Deos, e sua graça ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como sempre o é com os seus, e elle por sua piedade no-lo dará feito, e vencido, em nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde me faça mester vossas mãos, e ajuda».

Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e tão confiado esforço do Principe, foram assi todos esforçados, e animados de um coração para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser trespassado em cada um o mesmo esforço, que no Princepe viam, responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia, elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde elles decendiam.

CAPITULO XV

_Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques, posto na Cruz como padeceo por nós_.

Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em seu arraial, o Irmitão que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a elle, e disse-lhe: «Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas ledo, e esforçado, elle te fará de menhã vencer El-Rei Ismar, e todos seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires tanger uma campainha que na Irmida está sairás fóra, e elle te apparecerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». (E já antes desto elle tinha feito, e dotado com grande devação o Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, á honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se partio o Irmitão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e disse: «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti só conheço, e tenho em mercê os grandes bens e mercês que me tens feito, e fazes em me mandares prometer tão grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os quaes, por serem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por amigos, e pois em quanto viver, me não heide partir de teu serviço á tua infinda piedade peço que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo da linhagem humanal não seja poderoso para torvar teu santo serviço, nem fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos».

E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando foi uma hora, ante menhã tangeo-se a campa, como o Irmitão disséra, e então o Princepe saio-se fóra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse, e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo que disséra o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmação do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre outras palavras falado alguma sobre coração, e espirito humano dizendo: «Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma duvida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesmo não é para leixar de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S. Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados, e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto atégora, e será para sempre; tudo é para crer que N. Senhor queria, e faria a Princepe tão virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis tão virtuosos, para tanto seu serviço, e da santa Fé Catholica, e por suas cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrança de escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada fama.

CAPITULO XVI

_Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei_.

Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e esforço, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar ás trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos levantados, e começaram-se de confessar, e ouvir suas Missas, e commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devação, e alegria. Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de pé, e na reguarda fez outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de pé; uma das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de pé, outra az fez de outros tantos, que eram por todos dez mil homens de pé, e mil de cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonçalves, que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Lourenço Viegas, e a D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D. Egas Moniz já finado, e a direita a seu irmão Martim Moniz.

Não cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados, correndo por todos a anima-los, e esforça-los, chamando-os por seus nomes, trazendo-lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomendado, e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas dos Christãos, maiormente indo acompanhados da graça de Deos resplandeciam e reluziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem, não havia poder maior que os não temesse.

Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de gente mui grossa, assi de pé, como de cavallo, e quando os Senhores e grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande multidão delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: «Senhor, nós vimos a vós que nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua geração». O Princepe lhe respondeo que dissessem, que não havia cousa, que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse, elles disseram: «Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é, que vós consintais que vos façam Rei, e assi haverão mais esforço para peleijar». Respondeo elle e disse: