Chronica de el-rei D. Affonso Henriques
Part 3
Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua molher descendem todolos Reis de Portugal, que até agora foram, e a causa porque a terra se chamou Portugal, foi que antigamente sobre o Douro foi povoado o Castello de Gaya, e por aportarem ahi mercadores, e navios, e assi pescadores pelo Rio dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra parte para isso mais conveniente, se povoou outro lugar, que se chamou o Porto, que ora é Cidade mui principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi chamado Portugal. E era então naquelle tempo costume, que todos os filhos dos Reis se chamavam Reis, e as filhas Rainhas, posto que fossem bastardos, e como quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este Condado de Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua filha, e ella se chamasse Rainha; porém elle nunca se chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Principe D. Affonso, até que houve uma grande batalha, e vencimento no Campo de Ourique, contra cinco Reis Mouros, onde foi alevantado por Rei de Portugal, cuja geração veio de Reis, assi da parte do pai, como da mãi, que segundo já dissemos este Rei D. Affonso Anriques primeiro Rei que foi de Portugal, era neto de El-Rei Dungria da parte do pai o Conde D. Anrique, que foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua mãi, era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de sua filha Dona Tareja, por onde se mais manifesta a esclarecida gloria dos Reis de Portugal, pela nosso Senhor de todolos cabos tanto a exalçar, que de Nobreza, e Realeza de sangue não menos, que de excellentes virtudes, fossem em tanto gráo illustrados.
CAPITULO III
_Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo_.
Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso Senhor de mil noventa e quatro.
Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego; porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D. Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria, de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança, com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos amor, e cuidado como se fora são.
E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos, lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz, e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos da Fé».
Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre, como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda aleijão, como se nunca tivera nada della.
Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando, e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade, que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei ser seu nacimento como disse.
CAPITULO IV
_Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu filho ante que falecesse_.
Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez, (1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem, conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira.
«Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego, porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça, nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma braçada.
«Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo, e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante, ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita honra prosperada».
CAPITULO V
_Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi Dona Tareja_.
Desta doença se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes, e cinco dias antes que o prazo de Lião fosse acabado. Seu finamento foi no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, e perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem perda, e então se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de Lião que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha não poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmão filho do Conde D. Reymão de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de sua mãi a Rainha Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e então se foi a Portugal, e não achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alçara com sua mãi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D. Fernando Conde de Trastamara seu irmão delle lha tomou, e cazou com ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D. Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, que elle tinha em sua casa, que chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D. Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem de Espanha que Rei não fosse, e por esta causa se alçou toda a terra ao Principe D. Affonso Anriques com sua mãi.
CAPITULO VI
_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a sua mãi com elle_.
Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que não tinha onde se acolher, e que sua mãi tão pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes vemos as mãis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a seu padrasto, tanto que vieram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de presente, e disse o Conde D. Fernando: «Principe não nos afadiguemos mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vós quando quizerdes, e ou vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o Principe D. Affonso. «Não devia de aprazer a Deos tal cousa que vós me queirais deitar fóra da terra que meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua mãi dizendo. «Minha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma leixou». Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não andemos mais neste debate, ou vós vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso filho, se mais poder que nós».
Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se ájuntar em Guimarães em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco quero eu ir á batalha; porque tenhais mais rezão de fazer mais por meu amor, e trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior poder temos que elle».
A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lançado do campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimarães encontrou com D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e quando D. Egas o vio disse: «Que é esto Senhor, como vindes vós assi». Respondeo o Principe: «Venho mui desbaratado, que me venceu meu padrasto, e minha mãi, que hi era com elle». Disse então D. Egas: «Não fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa mãi, recolhei a vós toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a peleijar». Respondeo o Principe: «Praza a Deos que assi seja».
Tornáram então á batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu padrasto, e sua mãi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O Principe D. Affonso poz então sua mãi em ferros e ella vendo se assi preza, disse. «Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra, e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores em meu ventre, e fóra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a Deos praza que assi seja». E depois aconteceo a este Principe D. Affonso sendo já Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, como se ao diante dirá, dizendo todos, que lhe acontecêra por lho assi mal dizer sua mãi.
CAPITULO VII
_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um Rei Mouro cercar Coimbra_.
Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a não queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pôde a El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu avô, em que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que seu era, como pelo que devia á virtude em acudir por uma sua tia posta fóra de seu marido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a quizesse vir livrar, pois não tinha a quem com mais rezão se soccorresse, e lhe podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia, aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella, e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou com mui grande poder contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da prizão, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D. Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e então se vieram todos para o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um lugar que chamam Val de Vez, entre Monção e Ponte de Lima, e ali esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande peleija, e tão grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi logo dalli levando comsigo sua mãi preza, e todos os lugares que se levantáram contra elle os tomou por força, e tratou asperamente os que os tinham.
Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mãi, El-Rei Achi Mouro veio guerrear Coimbra com grande multidão de Mouros que ao juizo de todos passariam de trezentos mil de pé, e teve-a cercada muitos dias combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforço, e ajuda de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastança em quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e sentindo a abondança de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar, e levantáram o cerco destruindo pães, vinhas, olivaes, e foram-se perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e valia o vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117).
CAPITULO VIII
_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco_.
A cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador em Toledo sentindo muito seu desbarato, e vencimento que delle houve o Principe D. Affonso Anriques tendo elle que toda Espanha lhe havia de obedecer, e conhecer senhorio, determinou em mui secreto conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gente o mais dessimulada que pode, abalou para Galiza, e chegou de supito a Guimarães onde cercou o Principe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem a Vílla estava bastecida, que a poucos dias a tomára El-Rei de Castella se tivera o cerco, e sobre esto vendo D. Egas Moniz Aio do Principe o grande perigo em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo trajo, e nome daquelle tempo, cavalgou secretamente um dia pela manhã cedo, sem levar ninguem comsigo, e foi-se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei, e andava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais ligeiramente se poderia combater, e tomar, e chegando D. Egas a elle, fez-lhe sua reverencia, e beijou-lhe a mão; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que vinha. Respondeo D. Egas que queria falar com elle; então se apartáram ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque se viera lançar sobre aquella Villa? E El-Rei respondeo, que viera cercar D. Affonso Anriques seu primo porque lhe não queria conhecer senhorio, nem ir a suas Cortes como era rezão, e como lhe faziam em toda Espanha, que sua determinação era leva-lo prezo comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senhorio com ella.
Respondeo entonces D. Egas, e disse: «Senhor não fostes bem aconselhado virdes aqui cercar esta Villa, porque o Principe vosso primo é tal Cavaleiro como vós bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e tão boa afóra muita que tem pela terra muito a seu querer, e mandar, que grande será o poder, e muito mor a ventura de quem lhe forçar, e tomar a Villa, porque Senhor havei por certo, que destes movimentos das guerras que com vosso primo houvestes, elle foi sempre tão suspeitoso, e receado de vós, e se poz tanto a recado para semelhantes cazos, esperando cada dia de se ver nelles comvosco, como se ora vê, que toda sua terra e Fortalezas fez guarnecer, e abastecer grandemente, e assi as tem bem providas, e bastecidas, em especial esta Villa, em que a miudo está que a meu entender, outra mais gente da que está, dentro, se nella podesse caber teria abastança para muitos annos de cerco, pois estando vós tempo sobre ella, ainda que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer trovação a vosso estado, assi dos de vosso Reino, como dos Mouros que tão vizinhos, e fronteiros tendes, e quanto ao que Senhor dizeis que vosso primo vos conheça senhorio, e vá a vossas Cortes, certo a mim parece rezão, e ainda Senhor, me parece mais, que se vos partirdes daqui para vossa terra, que não pareça que vosso primo por força, nem rendimento de medo o faz; eu acabarei com elle que vá a vossas Cortes onde vós quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, e omenagem». Quando El-Rei de Catella esto ouvio, prouve-lhe muito de receber a omenagem de D. Egas Moniz a cerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro dia, e depois de dada, e recebida a dita menagem D. Egas se tornou para a Villa mui callado como della saira, sem dar conta a ninguem do que viera fazer.
CAPITULO IX
_Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre Guimarãez, e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas Moniz_.
Ao dia seguinte levantou El-Rei de Castella o cerco, e se partio com toda sua Corte, como ficára a D. Egas Moniz, e o Principe D. Affonso vio partir El-Rei, e espantando-se muito porque não sabia a causa, perguntou a D. Egas Moniz que lhe parecia de tal alevantamento, e partida de El-Rei de Castella, porque entendia que era? D. Egas lhe contou então tudo o que era, e como a causa passára; ouvindo o Principe esto, houve grande pezar, e foi mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto, que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. Egas: «Senhor não haveis de que vos queixar, que no que eu fiz vos tenho feito muito serviço; porque El-Rei de Castella por força vos tomara, segundo estaveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que para vossa defensa cumpria, assi que em todo o cazo foreis prezo, ou morto, e o senhorio de Portugal dado a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto á menagem que fiz a El-Rei de Castella não vos dê desso nada, que assi como o fiz sem vosso mandado, assi o livrarei sem vosso conselho com a graça de Deos».
CAPITULO X
_Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de Guimarães_.