# Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

## Part 2

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Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal, seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande louvor destos mesmos Reis de Portugal.

Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida obrarem virtudes, para que mereçam a Deos no outro mundo, e neste leixem de seu tempo memoria, não sómente, que viveram o que as animalias tem por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que é proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para nós necessario nos é nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo maior obrigação de seu carrego, que é serem Reis postos por Deos, para regedores principaes na terra sobre os outros homens para execução, e exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposição para obrar virtudes por muito que naça com a pessoa não póde ser comprida, nem haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. Grandes e perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graça, com os Reis vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com tão clara mostrança de os querer honrar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento da sua Santa Fé, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, até em si mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graça, e poder a vossos Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na Christandade, alcançáram por suas louvadas famas, e obras, em todo o genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de seus Reinos, e esto então poucas idades, que se as contarmos parece mui pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de serviço em especial de punhar pela Fé vossos Antecessores fossem sempre mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo se grandemente manifesta no grande louvor, e não menos mysterio de vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas concludem, e claramente mostram não menos, que vosso Divino nome ser Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem parecer adulação o que digo.

Primeiramente vossa successão nestos Reinos por nosso Senhor tão claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella precediam, segundo seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escuza-me o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso coração para seu serviço, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lançado fóra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro de sua Christã Religião, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devação, e cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros, em as partes Dafrica, do que não satisfeito vosso manhanimo coração, e desejo, que sempre ha por menos o muito de tão santas emprezas, não leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da Christandade contra os Turcos, e por Capitão della D. João de Menezes Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de Tanger, mui dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, até que se vio feito por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas, terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes sabidas, nem de nós conversadas, o que nem aquelle grão Rei Alexandre Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande parte Deuropa, nem Romãos, que todos os outros passaram em senhorio, poderam alcançar trabalhando-se desso, como se lê, nem esso mesmo fazer vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes, grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em tão breve espaço se fizesse de uma só viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes, outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas mãos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prégação dos Apostolos, para notificação de nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus peccados depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca houveram, e de necessidade hão de haver, segundo affirma Santo Agostinho, que em tempo dos Apostolos não foi prégada a Fé de Christo por todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos annos despois, dando logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos Cativos, que se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso a dita universal manifestação havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora assás confirma por vossa navegação e conquista o qual mysterio traz consigo grande mostra, e pronostico de ser, não sómente para convertimento de muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os começos, e proseguimentos de seus maravilhosos effectos.

Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui singulares obras, e virtudes mui compridas, se tão facil me fosse poder-lhe dar cabo, quão facil me é achar-lhe começo, e se a elle não aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficará tempo, e lugar para com sua graça se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma necessaria á presente materia, a qual é, mandar-me V.A. mui afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa dos tempos, não só em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca não achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar, e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como é meu desejo para vosso serviço, e na confiança que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas para nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que quanto está conhecido, que tão grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta graça Divinal, não pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum prasmo deve de folgar achar-se vencida de tão excellente materia, cujo mui estimado pezo mais é de culpar quem não queira, que quem não possa leva-lo; porque ainda não leixará de precalçar muito louvor, e contentamento quem de tão nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que foram, posto que não abaste dinamente faze-la de quão louvados foram, pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se póde estimar, que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e serviço menos da maneira, e estimação de meus serviços; porque certo amor, e vontade, sobeja não acha serviço minguado, nem devem de mais para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, não devem tolher atrevimento, maiormente quando por algumas rezões necessarias a seu mais serviço se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se, assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo descobrimento, e renovação de cousa ácerca perdida, que tanto devia estar sã, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra que vossos Reinos tem, e logram, no que não menos, que em todas outras cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de muitas virtudes, e não invejar as alheias, quem as dos outros muito ama, e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer-que álem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre mim juizos de muitos; porém pois V.A. o ha tanto por bem, e serviço seu, e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo, que haverei ante elle grado se não de sufficiencia, ao menos de obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me não atrevo fazer, me não pude, nem soube negar.

LICENÇAS

DO SANTO OFFICIO

Vistas as informações, pode-se imprimir (menos o riscado) a Chronica do Senhor Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença para correr, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 23 de Julho de 1726.

_Rocha.--Fr. R. de Allencastre.--Cunha.--Teixeira.--Silva.--Cabedo._

DO ORDINARIO

_Approvação do Reverendissimo P. Mestre Fr. Joseph de Sousa, Religioso da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, Lente jubillado na Sagrada Theologia, Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do Real Convento do Carmo de Lisboa Occidental, Vigario Provincial Apostolico, que foi da dita Provincia, Provincial, Commissario, Visitador Geral que foi da mesma Ordem nestes Reinos, &c_.

Illustrissimo e Reverendissimo Senhor

Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel Lopes Ferreira, dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias daquelle seculo dourado, em que Portugal no berço da sua infancia, com maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube despedaçar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros, capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim, em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos, com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar sentidissimo de Mafoma, em tão perfiados recontros, e em tão sentidas batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um só Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os seus Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal gloriosamente triumfante, e senhor pacifico não só das terras, que pela repartição dos Estados tocavam á sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hespanha, porque de umas, e outras, á força de forte braço, e duro ferro fez largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo Heroe D. Affonso Henriques, que efficazmente soccorrido da mão Omnipotente do Senhor dos exercitos, na miraculosa apparição do Campo de Ourique quando batalhou com cinco Reis Africanos, ficou seu valente braço revestido de uma fortaleza tão desmedidamente grande, que já vibrando a lança, nunca tirou bote, que não fosse inexoravel desizivo da morte, já empunhando a espada não descarregou golpe, que não fosse infeliz Parca da vida. E sendo tal o esforço de seu braço, que o manejo das Armas, não era menos o valor do seu coração para o exercicio das virtudes: porque foi constantissimo no da Justiça administrando-a, e fazendo-a guardar rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe embaraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre empunhada representava um vivo simulacro da Justiça. No da Humildade foi singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar, e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos despojas das batalhas, (e não foram poucos) primeiro os enfardelavam os soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos, porque até destes repartia seu nobre coração com os que o ajudavam a vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque não cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para o Hospital de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fóra em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaça, aos quaes dotou de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religião, todo este livro é breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice adiantando-se este tanto nos seus augmentos que não cabendo na esfera de sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes, uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se separou com a differença de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a outra com o distintivo de Occidental que é o sitio deste Reino a respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria lá tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem foi o primeiro em Portugal; mas sem questão, deve o seo glorioso augmento á Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica Magestade do Senhor Rei D. João o V no nome que somando na linha de todas suas acções sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal, realçando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor D. Thomás de Almeida da Nobilissima Casa de Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso coração de que o nome da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, té o Occaso onde fenece: «A Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine».

Tão gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas acções do Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e é mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade, um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admiração. Este o meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de 1726.

_Fr. José de Sousa_.

Vista a informação, póde-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726.

_D. F. Arcebispo de Lacedemonia_.

DO PAÇO

_Approvação do Reverendissimo P. Mestre D. José Barbosa, Clerigo Regular da Divina Providencia, Chronista da Serenissima Casa de Bragança, e Academico do Numero da Real Academia da Historia Portugueza, &c_.

SENHOR

Por Ordem de V. Magestade vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro não posso deixar de lhe não occultar a negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas como vejo riscados nella alguns Capitulos, e tudo vejo reformado pelo Doutor Frei Antonio Brandão Chronista mór deste Reino no 3.^o tomo da Monarchia Lusitana, bem se póde imprimir sem escrupulo. Vossa Magestade ordenará o que fôr servido. Nesta Casa de N. Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 1726.

_D. Jose Barbosa C.R._

Que se possa imprimir vistas as licenças do S Officio, e Ordinario, e despois de impresso tornará á Mesa para se conferir, e taxar, que sem isso não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Agosto de 1726.

_Pereira.--Galvão.--Teixeira.--Bonicho._

_Chronica do muito alto, e esclarecido princepe D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal_

CAPITULO I

_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por Condado com certas condições_.

Começando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações Espirito Santo, que assi participou com elles de sua infinda graça para as obras, me queira dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrança, por tal que não pareçam falecidas minhas palavras na grande excellencia de tão louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho será o meu esforçado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal, fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para tão alto cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu immenso louvor não menos se verá ao diante acrescentado, e conformado pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, são por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D. Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques, é forçado recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa Santa Fé Catholica, de que então a Espanha estava occupada, a cuja mui devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por ser serviço de Deos, e salvação de suas almas, participarem de suas santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes senhores, a saber, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França, e o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobrinho deste Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irmã, e Del Rei Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por El-Rei D. Affonso recebidos.

Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforçado Cavaleiro, e não menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias, por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proença, e tendo El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimão de Tolosa, de que depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador, donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira, cazou com o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença; outra chamada D. Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa, dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra até o Castello de Lobeira, que é uma legua além de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado chamado o Condado de Portugal, com tal condição, que o Conde D. Anrique o servisse, e fosse ás suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse doente, ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe mandasse um dos mais principaes de sua terra a seu serviço com trezentos de cavalo, não havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e seus successores com muito esforço, e valentia por muito arriscados perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que não querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe aprouvesse, como de cousa sua propria.

CAPITULO II

_Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e donde se chamou Portugal_.

