# Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

## Part 10

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Tanto que essa ordenança foi feita, o Ifante mandou a D. Pedro Paes, que fosse pela oste a encomendar a cada um o que havia de fazer, porque naquelle tempo o Alferes tinha aquelle carrego, e poder, que ora tem os Condestabres. Ao outro dia ante menhã, fez o Ifante dar ás trombetas, foram logo todos levantados mui prestemente, de si ordenáram suas azes, e onde cada um havia de ir, e estar. O Ifante fez mover sua bandeira, e assi todos os outros, e foram todos em ordem até chegarem aonde os Mouros estavam, e logo sem mais detença foram dar, e ferir em elles. Os Mouros receberam-nos mui esforçadamente; ao juntar houve logo muitos derribados, de uma parte, e da outra, e muitos cavallos andavam pelo campo sem senhores. Sobre a az do Ifante, que primeiro juntou com os Mouros carregaram tantos delles, que se não fora soccorrida, em modo algum se pudera sofrer, que vendo D. Gonçalo de Souza, e D. Lourenço Viegas o Ifante assi cercado, e encerrado antre tantos Mouros, foram a gram pressa a ferir nelles; tambem os Condes D. Pedro das Esturias, e D. Ramiro, Capitães das azes, e depois de as azes todas assi envoltas, e antre si mui feridas, partio-se a peleija em quatro, ou cinco partes mui brava em todolos cabos. Era para louvar a Deos, e folgar de ver o esforçado peleijar dos nossos, que por força fizeram juntar-se onde estava o pendão de Sevilha; e do Ifante, se acha escrito, que bem mostrava ser filho de seu pae, em ferir, assi de lança como de espada peleijando mui esforçadamente, onde quer que se acertava. Em esto vendo D. Pero Paes Alferes, os Mouros assi todos juntos com o pendão de Sevilha dando vozes a Mem Moniz, e a outros Senhores, remeteo ao Alferes que o tinha, e deu-lhe tais duas feridas de espada, que o desatinou, e leixando cair sua espada dependurada por uma cadea, para esso segundo parece custumada travou no Alferes, e como era forçoso deu com elle, e com o pendão em terra.

Nesto os Mouros, que com algum esforço, ou vergonha de ver ainda o seu pendão levantado, sostinham a peleija, tanto que o viram derribado começaram todos a fugir, via da Cidade, e o Ifante e os seus apoz elles matando, e derribando quantos podiam, e ao entrar de Trianna foi tanta a pressa nos Mouros, que não poderam cerrar a porta, e os nossos entraram de volta com elles. Os Mouros que tinham já a ponte passada, por tornarem a soccorrer os que ficavam atraz, acalçados dos nossos, deram tanto empacho e torvação aos trazeiros, que tiveram os nossos grande e despejado tempo, e lugar, para fazer em elles grande matança, e em muitas partes se acha escrito haver sido tanta mortindade dos Mouros, feridos, e mortos no rio Guadalquibir, que suas aguas pareciam sangue, segundo o sangue tinge sempre mais de sua quantidade a agua em mostra muito maior. O Ifante feito este tão grande desbarato dos Mouros, tornou-se para onde elles tiveram seu arraial de ante sentado, no qual acharam prezas grandes, e ouro, e prata, e muitas joias, e cavallos, e outras cousas, as quaes repartio por esses Grandes, e Cavalleiros, e outra gente, como bem lhe pareceu sem tomar nada para si, do que todos foram delle mui contentes.

CAPITULO LIII

_Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella_.

Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua defenção, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que nella ficaram alguns com medo de a não poderem defender, se partiram della para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo certo como a Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que não tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e chegaram a pôr cerco sobre ella. Os poucos Christãos que dentro estavam, corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de ligeiro, como traziam por certo, e assi por sua multidão, e os defensores da Villa serem poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa, fazendo conta, que ainda que a não tomassem, logo em chegando a tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, e começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo cumpria.

Quando os de dentro da Villa viram a determinação, e assento dos Mouros, tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial cavallo, o qual como foi noite saio-se fóra da Villa com tal tento, e avizo, que não houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a carta que levava era que os da Villa se encomendavam em sua mercê, e lhe pediam que lhes acorresse em tão grande fadiga e trabalho em que estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra, que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruição nos Mouros por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo: _Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer_. E todos acordaram que para andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal Villa, como era Beja. Então pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente até mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de pôs elle o milhor que podessem direito a Beja.

Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: «Que cousa Senhor será irdes vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em que me eu não ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, até agora me sempre achei.» O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Então ficou D. Pero Paes com a gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobrinho, por nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais Lugares, e caminhos, que os Mouro não poderam haver novas delles, e passaram pelo váo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar novas á Villa, e porque o Ifante passava ao Serão, e a Villa era mui forte, não temeram os Mouros de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de pé, e de cavallo fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo váo das Asenhas passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo não ser outrem se não o Ifante D. Sancho.

Havido este recado, foi muito grande alvoroço no arraial dos Mouros, e uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor aguardarem, e peleijarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não trigassem a andar por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e mao, e vinham trabalhados, e por causa desso não poderam chegar á vista dos imigos se não a ora de Terça. Tinham os Capitães dos arraiaes, especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandáram logo essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornáram logo á pressa com elle a seus Capitães, e sabida a verdade por elle, esses milhores do arraial, por escuzarem vergonha de não esperar, mostraram grande esforço, e tenção de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle, havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a corações encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este incerto alvoroço dos Mouros deu espaço para o Ifante poder chegar sem elles poderem al fazer, se não esperar, e sair-se fóra do arraial, tão acerca viam já o pó da gente dos Christãos.

Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com suas azes prestes, e sem mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espaço que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e começáram a fugir, e foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os dous Capitães Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou seu arraial fóra da Villa, sem querer entrar nella, até que chegasse a outra gente sua, que elle mandára que o seguisse. Os da Villa sairam fóra, e trouxeram-lhe serviços desso que podiam. O Ifante os recebeo com muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforço, e bondade que tiveram em defender a Villa, sendo tão poucos.

Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dascenção de N. Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almançor, mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixará a Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos Mouros de toda aquella terra, e contará de uma entrada que El-Rei Guami Mouro, e um seu irmão fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e prezo em Porto de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas Roupinho.

CAPITULO LIV

_Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. Fuas Roupinho Alcaide do Castello_.

Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja, de socego, parecendo-lhes que com a occupação que lá teria, elles podiam a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora é Caceres, e Valença, que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de gente das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christãos, até chegar a Porto de Mós. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro, que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle se não saia se não para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o roio de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinhão de gente, e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e vendo o Castello tão pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão profiado, que dureu até noite, dos Mouros foram muitos mortos, e feridos, e assi da parte dos Christãos houve danno assás, e durando o combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse.

* * * * *

«Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém eu vos rogo, que vos rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazerá a Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vão, e vós sede certos, que os que eu leixei no Castello são taes, que se defenderão bem, ainda que creio que os Mouros de os ter em pouco, não cessarão do combate até que a noite os desparta, e esso é o que eu mais desejo, porque então do caminho e combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dormir, e nós ante menhã daremos nelles, e os desbarataremos.»

E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues ao sono, e não menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraçarem antre si, e desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmão com elle, e outros muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer e gazalhado, e mandou meter em prizão a El-Rei Guami, e todos os que com elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na batalha fez grandes mercês, como cabe aos Principes fazer por serviços, e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de Maio, era de mil cento e oitenta annos (1180).

CAPITULO LV

_Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e tomou delles nove Galés_.

Estando assi D. Fuas Roupinho com El-Rei em Coimbra, quando lhe levou aquelle Rei Mouro prezo, escreveram os de Lisboa a El-Rei como hi andavam nove Galés de Mouros, de que era Almirante um Mouro por nome João Ferreira Dalfamim, o qual fazia muita guerra e dando por aquella Costa, que fosse sua mercê manda-lo remediar. El Rei havendo este recado, chamou D. Fuas Roupinho, encomendou-lhe que fosse a Lisboa, e fizesse armar Galés, e que fosse elle por Capitão, para ir peleijar com os Mouros, se o esperassem; e deu-lhe logo cartas e mandados para seus officiais, que lhe dessem para ello todo o que lhe fizesse mister, e outra para a Cidade, de como o mandava lá para armar aquella frota, e por tanto fizessem todo o que acerca desso elle lhes requeresse. Tanto que D. Fuas foi despachado, espedio-se del-Rei, e partio-se para Lisboa, e como chegou deu a Carta del-Rei á Cidade, e as outras aos officiaes daquelle carrego, e logo á pressa se deu ordem para se armar a frota, e como foi prestes, D. Fuas entrou em ella, e partio volta do Cabo de Espichel, por haver novas que na paragem do rio de Setubal continuadamente, continuavam mais as Galés dos Mouros, e faziam sua guerra, as quais havendo lá nova da Armada que se fazia, vinham tambem contra Lisboa a sabe-lo, e trova-lo se podessem, e em dobrando o Cabo, houveram vista da frota dos Christãos, e sem mais detença se foram aferrar uns com outros, peleijando mui fortemente, e quiz N. Senhor que os Mouros foram desbaratados, e todas suas Galés tomadas. Esto foi na era já dita de mil cento e oitenta annos (1180) a quinze dias de Julho. Tornou-se então D. Fuas para Lisboa com grande vitoria e honra, com a qual como era rezão foi recebido.

CAPITULO LVI

_Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado del Rei D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os seus_.

Tanto que D. Fuas Roupinho tornou a Lisboa, com este vencimento, segundo muitas vezes, pequena boa andança engana para dezaventura maior, escreveo logo a El-Rei D. Affonso a Coimbra da vitoria que houvera onde o mandára, e mais lhe fazia certo, que os da Cidade, e toda a terra ao redor estavam em grande reto, e vontade de entrar nas Fustas e Galés para irem fazer guerra aos Mouros, e se houvesse por seu serviço, elle os serviria nesso. E El-Rei lhe mandou dizer, que lho tinha muito em serviço, e que assi o fizesse, escrevendo á Cidade sobre esso, e visto o recado del-Rei armaram logo uma soma de Galés, e D. Fuas, foi Almirante, e foram correr a Costa do Algarve; mas de couza notavel, e para contar que hi fizessem nada achamos escrito, e então D. Fuas teve Conselho do que fariam, e acordáram ser bem ir sobre o porto de Cepta, e hi acharam Fustas de Armada de Mouros, e tomaram-nas, e assi outros Navios grandes com elles, e depois de estarem ahi dous dias ante Cepta, tornáram para Lisboa trazendo os Navios tomados comsigo, vindo com grande prazer e contentamento de suas prezas, e logo a poucos dias depois de chegados, com não menos alvoroço, sem tento, o que não consente rezão ser sempre ditozo, se fizeram prestes para tornarem lá.

Os Mouros mui sentidos dos dannos feitos por D. Fuas, receando-se de mais adiante, mandáram sobre ello recado por toda a Mourisma da praia, e tambem das partes da Espanha, e ajuntáram cincoenta e quatro Galés, e D. Fuas não sabendo desto parte, entrou pelo Estreito dentro, e depois achou-se lá com Galés dos Mouros, e pela grande corrente lançaram-se as nossas Galés sobre a frota dos imigos, e não poderam os nossos al fazer, se não peleijarem com elles, e assi aferráram, e peleijaram muito espaço. Mas pela grande desigualança, e os Mouros serem muitos mais foram os nossos vencidos, e desbaratados, e mortos muitos, e antre elles o nobre D. Fuas Roupinho. Esta foi aos dezasete de Outubro da dita era de mil e cento e oitenta annos (1180).

CAPITULO LVII

_Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho, em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso, que veio a soccorrer seu filho_.

Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para sua defensão, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dáquem, e dalém mar, e segundo diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, não era em memoria até aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha, e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se não acham escritos, e vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo um Domingo, dia de S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e á Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte de Pompeo, e á Terça feira se ajuntáram todos na Redinha, e á Quarta feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentáram seu raial, e esta conta da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como quer que um letreiro dos que estão no Convento de Thomar, desvaire algum tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de pé, poderia passado o Tejo de tanta multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto.

O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, não tendo comsigo gente, que com rezão podesse peleijar com tanta multidão de Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de defender, e segundo achamos escrito ainda então a maior parte de Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra de Alfam, até Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar a defensão saio-se fóra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de redor, e então repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde lhe pareceo haver de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhã Quinta feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta aquella Estoria achada em Santa Cruz, como já disse, e em chegando, tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por desprezo, e fez logo dar ás trombetas, e mover toda sua gente, e combater o palanque.

Foi o combate tão forte, que morreram e foram feridos muitos de uma parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o arravalde de fóra do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos Mouros maior praça, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta sofreram os Christãos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates, desde pela menhã até noite; e segundo conta a dita Estoria, quando El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho, ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto á pressa, que aos tres dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Mós. Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso não leixáram por esso seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e ao quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mouros, e postos em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos dos Christãos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com todo mui esforçadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que não foram entrados, e já não tinham modo de defensão, se não desemparar o palanque, e acolher-se ácerca; mas o Senhor Deos, que é poderoso em todalas cousas, quando se os homens em ellas não sabem, nem podem valer, então acode elle com sua ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que começaram a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos, a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e desmandar-se, quando se menos póde reger, e os Christãos vendo os raiaes dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de pé do Ifante contra elles, e os Mouros se afastáram para um Lugar, que se chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo todos a cavallo, e juntos com El-Rei déram nos Mouros, fazendo nelles grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande desbarato.

