Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II)
Part 6
«Porque eu tenho grande esperança em Jesu Christo meu Senhor, e nom menos confiança na Glorioza Virgem sua Madre, e assi singular devaçam na Ordem, e Abito de Sancta Clara, assi como sempre ha tiveram aquelles de que descendo, sempre puz em minha vontade, que falecendo primeiro ElRei meu Senhor, e marido, eu acabar ha vida no dicto Abito, e por esso ho tenho feito, e aa muitos dias que comigo ho trago, e em minha arqua, por taal que se por ventura acontecesse delRei meu Senhor, primeiro que eu falecer, ho que Deos nom queira, eu vestisse logo ho dicto Abito por lembrança de minha tristeza, e por sinal de tamanha mudança destado, que eu mais nom devo teer, nem por fazer no dicto Abito profissam, nem obedecer ha alguma Ordem que nom hee minha tençam fazello. Especiaalmente porque eu por minha idade, e grandes infirmidades nom poderia soportar hos grandes encargos, e trabalhos da Relegiam, mas posto que eu esse Abito vista, e traga, por esso nom leixarei minha Caza, nem has Donas, e Donzelas, que comigo vivem, mas prazendo ha Deos, espero trazer estas, e tomar outras como filhas, e irmaãs, e cazallas, e aviallas com ho que eu poder de meus beens, e fazenda, porque como dice, eu proponho nom fazer profissaõ nesta Ordem, nem em outra alguma, nem tenho em alguma feito voto pubriquo solene, nem secreto, e esto digo porque em cazo, que no meu corpo vista ho dicto Abito, que minha alma fique livre pera de minha fazenda seem algum outro cargo, nem obrigaçam de Relegiam poder despoer livremente todo ho que por beem tiver, e assi ho tenho dicto, e decrarado muitas vezes aho Ifante D. Affonso meu filho, e ha Frei Johaõ meu Confessor».
E com esto sendo ha doença delRei cada vez mais perigoza, e mortaal, teendo mui craro conhecimento, que hos dias de sua vida se acabavam, elle como Princepe virtuozo, prudente, e mui catolico, proveo seu testamento, que tinha feito com grande devaçam, e muito temor de Deos, e ho confirmou, no quaal mandou, que ho seu corpo se enterrasse no seu Moesteiro de S. Diniz Dodivellas da Ordem de Cistel, on de S. Bernardo, que elle de novo fundou, e dotou, no quaal entam avia oitenta Freiras de Cogula com voto de ençarramento, que nom teem has dos outros Moesteiros desta Ordem, e em que jaa tinha feita sua sepultura, e de sua fazenda, apartou no dicto testamento pera soos descargos de sua alma, trezentas e sinquoenta livras, que taxadas pelo preço dagora ha razam da valia da prata, e ouro, que daquelle tempo tinham ho valor, e preço, que agora teem hos ducados, e cruzados douro, como muitas vezes jaa dice, e esta soma mandou que logo se tirasse da torre do tezouro de Lixboa, que agora hee do Tombo em que tinha grandes tezouros, e se entregassem ha seus testamenteiros, de que ho principaal foi ha Rainha Dona Isabel sua molher, e ha estes mandou, que tivessem este dinheiro de sua maão no tezouro da See da dicta Cidade, de que cada hum tivesse sua chave pera nom aver embargo, nem estorvo quando delle quizessem despender, e comprir hos legados, e couzas, que ordenava, e leixou ha sua Capella toda aho dicto Moesteiro Dodivellas.
E toda outra sua fazenda, e baixellas douro, e prata, joias, e colares, pedrarias, e panos aho Ifante D. Affonso seu filho erdeiro, e destes cento e corenta mil cruzados ordenou muitas, e grandes esmolas repartidas por todolos Moesteiros, e Espritaaes, e Cazas piedozas do Regno, e assi certa soma pera cazamentos de moças orfaãs, e pera criaçam de meninos engeitados, e tambem dellas ordenou, que hum Cavalleiro de booa vida, e vergonhosa estivesse em Jerusalem, e servisse por elle na guerra contra hos infieis dous annos, e pera esto ordenou tres mil livras, que eraõ mil e duzentos cruzados, e quando se nom achasse taal Cavalleiro, ou nom ouvesse desposiçam pera ir ha Ultra-maar, que este dinheiro se convertesse em vistir pobres, e envergonhados, e outro si ordenou, que outro boom homem de booa vida, fosse estar em Roma duas quarentenas, e que por elle andasse todalas Estaçoens em que ganham has Idulgencias plenarias, e ha este ordenou mil livras, e depois desto confeçando seus peccados com grande contriçaõ, e arrependimento delles, recebendo ho Corpo de N. Senhor, e todolos outros Sacramentos como Rei mui Catolico, e fiel Christaão acabou vida dando sua alma ha Deos em Santarem, ha sete dias de Janeiro do anno de mil trezentos e vinte sinquo, em idade de sessenta, e quatro annos, dos quaaes Regnou quorenta e seis.
E ha Rainha que era prezente se apartou logo em huma Camara, e das maãos de humas Freiras seculares, que consigo trazia recebeo logo, e vestio ho Abito de Sancta Clara, que trazia feito, como jaa dice, e sendo nelle vestida ante de se fazer do corpo delRei alguma mudança, ella prezente muitas que ha ouviam, dice estas palavras: «Pois Deos por seu grande poder, e profundo Juizo ouve por beem, que ha morte delRei meu Senhor, e marido antepassasse ha minha, e seem a sua vida eu fiquo, e sam tanto como morta, e de razam eu jaa morri com elle, e por esso eu quis logo mudar hos vestidos, e trajos que vedes, que sam este Abito pardo cingido com esta corda, e este veeo branquo, que ponho sobre minha cabeça porque ha vida, que seem elle viver seja com doo, e tristeza pera sempre, e esto nom faço por seer Freira, nem teer feito algum voto, e obrigaçam de Religiam como teenho dicto, mas por minha humildade, porque nelle sirva a Deos, nas couzas em que ha sua graça me ajudar».
E com esto acabado ho corpo delRei fiquou concertado, como devia, e com muitas tochas acezas, e acompanhado da mesma Rainha, e do Ifante D. Affonso seu filho, e do Conde D. Pedro, e D. Johaõ Affonso, e doutros Prelados, e riquos, e nobres homens do Regno, que ali eram juntos, e assi de muitos Clerigos, e Religiozos que com elle iaõ rezando, e encomendando sua alma ha Deos, foi levado aho dicto seu Moesteiro de S. Diniz Dodivellas, onde nom seem grandes prantos, e lamentaçoens foi metido em sua ordenada sepultura, e depois de seu enterramento, fiquou i ha Rainha por algum tempo comprindo seus legados, e fazendo outras muitas esmolas, devaçoens, e oraçoens, por beneficio, e descargos de sua alma. E da vida que depois esta Rainha, e como acabou, e quantos milagres fez Deos por seus rogos, e merecimentos, e onde jaas, direi na Coronica delRei D. Affonso seu filho, em cujo tempo, e Regnado ella depois faleceo, que foi onze annos depois da morte delRei D. Diniz, como se diraa.
CAPITULO XXXII
_Das obras, e couzas notaveis, que ElRei D. Diniz fez em sua vida._
Has obras, e feiçoens, e couzas notaveis que este mui excellente Rei D. Diniz fez em toda sua vida aalem das que nesta Coronica tenho escritas, em cazo que por desvairados tempos has fizesse, e mandasse fazer, porque de certidam dos annos, e tempos em que semelhantes obras se fizeram, esta Estoria que delle escrevo, nem hos que ha lerem nom teem alguma final necessidade, e assi juntas se comprendem, e entendem melhor, por tanto has reservei pera este derradeiro capitolo, e has mais principaaes saõ estas, primeiramente elle fez muitas Lex, e Ordenaçoens em seu tempo, e deu boons foraaes ha muitos Lugares de seus Regnos, fez ho Estudo de Coimbra, que foi o primeiro de Portugal, e fez ho primeiro Mestre de San-Tiaguo izento de Castella, e ordenou primeiramente ha Ordem de Christo, e fez nella o primeiro Mestre, como jaa dice. Este Rei em seu tempo fez quasi de novo todalas Villas, e Castellos de riba Dodiana, ha saber: Serpa, Moura, Olivença, Campo maior, Ouguella, cujos alcaceres, e Castellos fez de fundamento com muitas despezas, e assi fez na dicta Comarqua dantre Tejo, e Odiana hos Castellos de Monforte, e Darronches, Portalegre, e Marvam, Alegrete, Castello Davide, Borba, Villa Viçoza, Arraiolos, Evora monte, Veiros, e ho Alandroal, Monçaraas, e Noudar, e acrescentou ho Castello de Jurumenha, e fez ho Redondo, e ho Assumar, e fez ha Torre, e Alcacer de Beja, e na Comarqua da Beira, e riba de Coa, fez de novo estes Castellos, ha saber, Avoo, que agora hee do Bispo de Coimbra, ho Sabugal, Alfaiates, Castel Rodriguo, Villar maior, Castel boom, Almeida, Castel melhor, Castel mendo, Sam Felizes dos Galegos, que tem agora Castella, e nom fez ho Castello de Monforte de riba de Coa, que tambeem lhe foi dado por estar em maa despoziçam da teerra, e sua força pera defençaõ do Regno, nom seer muito necessaria, fez mais Pinhel, e seu Castello, e nas Comarquas dantre Douro, e Minho, e Tralos montes fez estas Villas, e Fortalezas, ha saber, cerquou Guimaraães da cerqua, que agora teem, e Braga, e Miranda de Douro, e seu Castello, e Monçam, e Crasto Laboreiro, e povoou de novo, e fez hos Castellos de Vinhaes, e Villa frol, Alfandega, Mirandella, Freixo Despada Cinta, Villa nova de Cerveira, e fez de novo, e do primeiro fundamento Villa Real, que fazem numero de corenta, e coatro Villas, Castellos, e Fortalezas do Regno, de que algumas fez novamente, e outras reformou, e fez de novo hos Castellos, e assi fez outras muitas povoaçoens, assi como Muja, Salvateerra, Atalaia, Ceiceira, Montargil, e outras semilhantes, e fez ha rua nova de Lixboa, e assi ho Moesteiro de Sam Diniz Dodivellas em que jaas, ho quaal logo ha pouquos annos, que Regnou mandou começar, e em sua vida se acabou em dés annos, e foi logo dado aas molhores Monjas, pera que foi ordenado, porque ho Moesteiro de Sancta Clara de Coimbra fez, e dotou ha Rainha Dona Isabel sua molher, e nelle jaas, como aho diante direi.
DEO GRATIAS
INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS
A
Affonso III (El Rei D.) de Portugal, em que dia, e anno falleceo. Fez doação das Villas de Portalegre, e Marvão, e dos Castellos da Vide, e Arronches a seu filho o Infante D. Affonso.
Affonso (D.) chamado o Casto filho de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão, não cazou mas morreo Religiozo Franciscano.
Affonso (D.) Rei de Castella, Avô del-Rei D. Diniz de Portugal, fez doação a sua filha a Rainha Dona Beatriz, mãe do dito Rei D. Diniz, das Villas de Niebla, Serpa, Moura e Mourão.
Affonso (Principe D.) Filho herdeiro del-Rei D. Diniz em que anno, e lugar naceo. Tendo sete annos, lhe nomeou seu pae officiaes para a sua caza. Em que parte se recebeo com a Infante Dona Beatriz. Discordias, que teve injustas com seu pai. Parte para Castella contra vontade de seu pai. Intenta matar a seu irmão Affonso Sanches, e quanto machinou para este fim. Continua em machinar novas falsidades contra seu irmão. He avizado pelo Papa João XXII, a que dezista do odio contra seu irmão, e não cessa de o perseguir. Intenta batalhar com seu pai, mas deziste deste intento. Toma os Castellos de Coimbra, Montemor e Feira, e a Cidade do Porto. Faz levantar o sitio que tinha posto a Badajoz o Infante D. Felippe.
Affonso (Infante D.) Filho del-Rei D. Affonso III de Portugal, cazou com Dona Violante, filha do Infante D. Manoel, filho del-Rei D. Fernando II de Castella, e da Infante Dona Constança. Que filhos teve deste matrimonio. Deu-lhe seu pai as Villas de Portalegre, e Marvão, e os Castellos da Vide e Arronches. Differenças que teve com seu irmão El-Rei D. Diniz. Fez guerra a seu irmão, e mata a D. Lopo Conde, e senhor de Biscaya, e a D. Diogo Lopes de Campos. Cede das contendas, que tinha com seu irmão por intervenção de sua cunhada Santa Izabel. Em que anno falleceo, e onde está enterrado.
Affonso (Infante D.) Filho do Infante D. Affonso, e Dona Constança filha de D. Jaymes primeiro Rei de Aragão, e neto del-Rei D. Affonso III de Portugal, foi senhor de Leiria, e falleceu sem filhos.
Affonso Pires de Gusmão, acompanhado de muitos Capitaens entra em Portugal onde obra algumas hostilidades, e priziona novecentos homens.
Affonso Sanches (D.) Chamado de Albuquerque, foi filho natural del-Rei D. Diniz. Seu filho D. João Affonso de Albuquerque cazou com Dona Izabel, filha de D. Tello, e Dona Maria neta del-Rei D. Affonso III de Portugal. He notavelmente aborrecido por seu irmão o Principe D. Affonso.
Arronches. O seu Castello, foi doado por El-Rei D. Affonsso III de Portugal a seu filho o Infante D. Affonso. He cercado por El-Rei D. Diniz.
B
Beatriz (Dona), mãe del-Rei D. Diniz, foi senhora das Villas de Niebla, Serpa, Moura, e Mourão por doação que dellas lhe fez seu pai D. Affonso Rei de Castella.
Benedicto XI. Manda Nuncio para pacificar a El-Rei D. Fernando de Castella com El-Rei D. Jayme de Aragão, e o Infante D. Affonso de Lacerda. Insinua a El-Rei D. Diniz, que seja medianeiro nestas pazes.
Branca (Dona). Filha de Pedro Annes de Portel, cazou com D. Pedro filho natural del-Rei D. Diniz.
C
Carlos, Irmão de S. Luiz Rei de França, recebe a investidura dos Reinos de Secilia, e Napoles do Papa Urbano IV, e vence na batalha de Benavente a Manfreu Rei de ambas as Secilias, na qual morreo. Cerca a Cidade de Messina, e levanta o sitio. Queixa-se ao Papa Martinho IV, da violencia com que o queria despojar de Secilia El-Rei D. Pedro de Aragão. Dezafia a este Rei para Bordeos. Morre em Messina.
Celestino V. Confirma o privilegio concedido por seu Antecessor Niculao IV, de que se elegesse Mestre da Ordem de San-Thiago em Portugal independente do de Castella.
Clemente V. Como foi eleito, e das promessas, que fez a ElRei Felippe de França chamado o Fermozo.
Constança (Rainha Dona), Filha de Manfreu Rei de ambas Secilias, mulher delRei D. Pedro de Aragão, e mãe da Infante Dona Isabel, que cazou com El-Rei D. Diniz de Portugal.
Constança (Dona), Filha de D. Jaymes Decimo Rei de Aragão, e a Rainha Dona Violante, cazou com o Infante de Castella D. Manoel, Avô da Infante Dona Constança, mulher que foi delRei D. Pedro I de Portugal.
Constança (Dona). Filha delRei D. Diniz de Portugal, e a Rainha Santa Isabel, cazou com D. Fernando III de Castella.
Constança (Dona). Filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, foi cazada com Nuno Gonsalves de Lara de quem não teve geração.
D
Diniz (El-Rei D.) Em que tempo foi aclamado Rei e que idade tinha. Virtudes, e acções heroicas, que praticou. Hospedou magnificamente no seu Reino a pessoas muito grandes de Castella. Prendeo a João Nunes de Lara, senhor de Biscáya, e o soltou fazendo-lhe grandes mercês. Caza com a Infante Dona Isabel, filha delRei D. Pedro IV de Aragão, e que idade tinha quando se recebeo. Celebrão-se estes despozorios em Trancozo. Filhos legitimos, e naturaes que teve. Diferenças, que teve com seu irmão o Infante D. Affonso. Avista-se com ElRei D. Sancho de Castella, e ajusta com elle os cazamentos de seus filhos D. Affonso, e D. Constança. Ordena a seu irmão D. Affonso, que se não faça hostilidade alguma contra D. Sancho de Castella, e lhe não obedece. Manda cercar Arronches, Mourão e Portalegre, onde estava seu irmão. Por intervenção de sua espoza Santa Isabel se pacifica com seu irmão, e este lhe entrega as Villas e Castellos, que tinha em seu poder. Manda Embaixadores a ElRei de Castella D. Sancho porque lhe largue os Lugares, que lhe tem uzurpado. Por morte de D. Sancho manda novos Embaixadores a seu filho D. Fernando, e do que lhe disserão os Embaixadores, e de como se concertarão estes Principes. Prepara se com exercito para vingar a inconstancia das promessas delRei de Castella. Recebe por seu vassallo a D. Sancho de Ledesma, filho dos Infantes D. Pedro, e Dona Margarida, e lhe affirma copioza renda. Entra por Castella com exercito, onde faz muitas hostilidades. Toma o Castello de Medicina. He solicitado por El-Rei de Castella a que celebre com elle pazes, e assim o executa. Avista-se em Alcanizes com El Rei de Castella para ajustar as pazes, e os cazamentos mutuos de seus filhos, e de que modo se celebrou este acto. Parte de Alcanizes donde traz em sua companhia a Dona Beatriz, filha delRei D. Fernando de Castella, para molher de seu filho D. Affonso. Das pessoas que nomeou para officiaes da Caza que fez ao Principe seu filho. Escreve-lhe o Papa Benedicto XI para que seja medianeiro entre as discordias delRei de Castella, e o de Aragão. Parte a Castella acompanhado da Rainha Santa Isabel, e muitos Cavalleiros a compor as discordias, que havia entre os Reis de Castella e Aragão. Passa a Granada com Santa Isabel, onde é recebido magnificamente por ElRei D. Jaymes e a Rainha Dona Maria. He arbitro em Tarraçona entre as contendas que havia entre D. Fernando de Castella, e D. Jaymes de Aragão sobre o Reino de Murcia, e como os compoz. Voltando de Tarraçona é recebido por El-Rei de Castella e a Rainha Dona Maria, onde deu preciosas joias a D. Affonso de Lacerda. Firma pazes com os Reis de Castella e Aragão. Não aceita dés mil dobras de ouro a ElRei D. Jaymes de Aragão que lhe tinha emprestado. Dá muitas e preciosas joias á Rainha Dona Branca, mulher delRei de Aragão, e aos Senhores daquella Côrte. A meza de prata em que comia mandou dar a um Fidalgo que por esquecimento não tinha sido premiado como os outros. Que idade tinha, e em que anno fez esta jornada a Castella. Manda Martim Gonsalves de Souza seu Alferes mór com setecentos cavallos a ElRei D. Fernando para ajuda da guerra contra os mouros e lhe empresta dezasseis mil, e seis marcos de prata para o mesmo fim. Funda em Coimbra os primeiros estudos, que houve em Portugal, e como alcançou do Papa João XXII privilegios para elles. Izenta os Cavalleiros de San-Thiago da obediencia do Mestre de Castella, e institue Mestre em Portugal por Bulla de Niculao IV. Ajusta com D. Fernando de Castella os bens dos Templarios dos seus Reinos não fossem dados pelo Papa a outra Ordem. Representa por seus Embaixadores ao Papa João XXII não ser conveniente, que as rendas dos Templarios se dessem aos do Hospital de S. João. Institue a Ordem Militar de Jesus Christo a quem assina as rendas que erão dos Templarios. Assina para gasto de seu filho D. Affonso quando cazou com a Infante Dona Beatriz, alem de muitas Villas que lhe deu, outenta mil livras de prata. Sentimento que teve com a morte de seu neto o Infante D. Diniz. Relatão-se as discordias que teve com o Principe seu filho. Manda o processo que este Princepe tinha machinado para matar seu irmão D. Affonso Sanches, e acha ser falso. Pratica que fez na prezença dos seus vassalos quando descubrio ser falso tudo quanto tinha machinado o Princepe seu filho contra D. Affonso Sanches seu irmão. He buscado por seu filho para lhe dar batalha. Manda a Lourenço Annes Redondo, que mate a todos os que deram entrada em Santarem ao Princepe seu filho, e assim se executa. Por intervenção da Rainha Santa Isabel, se concerta com seu filhe D. Affonso. Avista-se em Guinaldo com a Rainha Dona Maria, e o que aqui passou. Significa aos Reis de Castella o sentimento que teve com a morte dos Infantes D. Pedro e D. João. Pede-lhe seu neto El-Rei D. Affonso de Castella os danos que fazia naquelle Reino seu tio o Infante D. Felippe, e o obriga a levantar o sitio de Badajoz. Celebra Côrtes em Lisboa, onde não assiste o Princepe D. Affonso seu filho. Sem embargo de que não queria que entrasse em Lisboa seu filho, este o executa com gente armada de que se seguirão muitas mortes. Em Santarem depois de uma grande contenda, se compõem com o Princepe. Legados que dispoz, antes de morrer. Em que lugar, dia e anno morreo. Foi levado a enterrar ao Mosteiro de S. Diniz de Odivellas que elle fundara. Das açoens heroicas que obrou, e das Villas, e Cidades que fundou, e reedificou.
Diogo Garcia, Chanceller mór do sello da puridade delRei D. Diniz, e Mordomo mór da Rainha Dona Constança sua mulher assiste em Tarraçona com o mesmo Princepe para compor as discordias, que havia entre D. Fernando de Castella, e D. Jaymes de Aragão.
F
Filippe (El-Rei de França) chamado o Fermozo, como concorreu para ser Pontifice Clemente V a quem pedio que queimasse o corpo de Bonifacio VIII. Á sua instancia, extinguiu o Papa a Ordem dos Templarios. Morre desgraçadamente, e que filhos deixou.
Felippe, (Ifante D.) Tio delRei de Castella, cerca a Badajoz, e é obrigado a levantar o sitio pelo Princepe D. Affonso, filho delRei D. Diniz.
Fernando, (El-Rei D.) Terceiro de Castella, cazou com Dona Constança filha delRei D. Diniz, e Santa Isabel. Com que circunstancias, e conveniencias foi contratado este casamento. He requerido por El-Rei D. Diniz, que largue os Lugares, que lhe tinha uzurpado, e da pratica que lhe fizerão João Annes Redondo, e Mem Rodrigues Rebotim Embaixadores de Portugal. Recebe-se por palavras de prezente com a Infante Dona Constança, e da pratica que fez aos circunstantes. Sahe a receber a El-Rei D. Diniz com o Infante D. João na Villa de Coelhar. Pede soccorro a D. Diniz para continuar a guerra contra os Mouros, e lhe manda setecentos cavallos, e lhe empresta para a mesma empreza dezasseis mil, e seiscentos marcos de prata. Dá-lhe em caução deste emprestimo as Cidades de Badalhouse, Alconchel, e Brugilhos. Cerca Algezira, e levanta o sitio. Onde morreo, e de que idade.
G
Gibraltar foi tomado aos Mouros por João Nunes de Lara.
Gil Martins, (D. Fr.) He eleito primeiro Mestre da Ordem militar de Jesu Christo, instituida por ElRei D. Diniz.
Guimarães, o seu Castello é defendido por Mem Rodrigues de Vasconcellos, contra a invasão do Infante D. Affonso.
H
Henrique (Infante D.) Filho delRei D. João I de Portugal, foi perpetuo administrador da Ordem de Christo.
Honorio II. Deu regra aos Templarios.
I
Isabel, (Rainha Santa) Filha de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão, sendo pretendida de muitos Princepes para espoza, é preferido entre todos ElRei D. Diniz de Portugal. Acompanhada do Bispo de Valença, e outros Cavalleiros, parte para Portugal, e como della se despedio seu pai. Sahe a recebella em Castella seu primo com irmão, o Infante D. Sancho, e das palavras, que lhe disse. Chega a Bragança, onde é cortejado pelo Infante D. Affonso irmão delRei D. Diniz, e outros Cavalleiros. Virtudes que praticou em toda a sua vida, e milagres que fez. Por sua intervenção, e deligencia, se ajustarão as discordias del-Rei D. Diniz com o Princepe seu filho. Segunda vez pacifica ao mesmo Princepe com seu pai. Por morte de seu Espozo se veste no habito de Santa Clara. Edifica o Convento desta Santa em Coimbra, e o dotou da sua fazenda, e nelle está sepultada.
Isabel (D.) Filha do Infante D. Affonso de Portugal, e a Infante Dona Violante, foi casada com D. João o Torto, filho do Infante D. João chamado Rei de Lião.
Isabel (D.) Filha de D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e da Rainha Dona Violante, cazou com o Princepe D. Felippe filho herdeiro de São Luiz Rei de França.
J
Jaymes (D.) Decimo Rei de Aragão, e avô paterno da Infante Dona Isabel, mulher de D. Diniz de Portugal como naceo, e a cauza porque lhe puzerão o nome de Jaime. Tomou segunda vez Valença de Aragão aos Mouros. Acabou a vida feito Monge. Cazou com Dona Lianor filha delRei D. Affonso Nono de Castella, e foi separado pela Igreja deste matrimonio. Casa segunda vez com Dona Violante, filha de D. André Rei de Ungria de quem teve muitos filhos.
Jaimes, (D.) Rei de Malhorca, e Minorca, foi filho de D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e da Rainha Dona Violante.
Jaimes, (D.) Filho de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão a quem ficou o Reino de Secilia, foi depois Rei de Aragão.
João XXII. Concede privilegios para os Estudos que em Coimbra instituio ElRei D. Diniz. Expede uma Bulla na qual consola a D. Diniz nas discordias que tinha com o Princepe seu filho. Escreve huma carta a este mesmo Princepe sobre as discordias, que tinha com seu pai.
João, (D.) Infante de Castella sendo desterrado daquelle Reino, é recebido em Portugal por seu tio ElRei D. Diniz.
João Affonso (D.) Foi filho natural delRei D. Diniz.