Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II)

Part 5

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Sabe, que tu nom combates has Villas, e Fortalezas dos imigos, nem ganhas teerra alhea, mas destrues ho Regno, que por direito te hee devido, ho quaal parece que nom queres, pois nom obedeces aaquelle, que te gerou. Ó obra merecedora de gram doesto! Ó mancebia mui dina de seer chorada! prouvesse ha Deos filho meu muito amado, que com lima de melhor razam tu esquaaldrinhasses todas estas couzas, mas certamente ho teu odoor filial jaa perdeo seu boom cheiro, antes hee jaa convertido em fedoranto, ha presença do padre injuriado, quem poderaa sofrer seem amargura, que hum irmaão por soo odio seem outra injuria se mova contra outro, ha procurarlhe com todas suas forças ha derradeira queda de sua morte, com sua infamia, e desonra tam pubriquada? Ha quem nom avorreceraa muito, que hos sogeitos sejam tam ouzados, que cortados hos noos, e rota ha preitezia de sua leaaldade, se trabalhem de someter, e derribar ha Reaal Alteza de seu senhor, que segundo por fama commum, e mui notoria fomos certifiquados, hos vassalos do mesmo Rei, por teu favor se alevantaram contra elle, querendo querer tam desonesto, que elle nom aja poderio sobre seus Regnos? Pois seendo desto tantas vezes combatido, que queres que nesto façamos, por ventura calarnos-emos e nom te daremos ho saaõ Concelho, que aas mister? Certamente nom.

Antes esguardando todas estas couzas com mui afiquado desejo, como ha filho muito amado te rogamos, que ames, e honres teu padre, e lhe obedeças, e por esso teus dias seram longuos sobre ha terra, e esto por teu beem te dizemos, nom te aggraves, porque todo nosso dezejo, e tençam hee que vivas em paaz, e obediencia com elle, pelo quaal com humildozas preces, rogamos aho mui alto Deos, que sobre toda ha teerra senhorea, em cuja maão saão hos poderios dos homens, e hos direitos dos Regnos, que elle prestes, e beninamente queira esguardar sobre ti, e sobre hos moradores desses Regnos de guiza, que de voos aparte toda dezavença, e hos coraçoens de todos firme em booa concordia, e humildade, e noos de nossa parte devotamente pediremos aaquelle Senhor, cuja providencia em sua ordenança hee certa, e nom enganada, que em taal maneira esforce ha Reaal seda desse Regno, que aproveite assi, e ahos seus, e hos Reja de taal maneira, que vam pera saude perduravel com folgança de paaz.

E se ho teu Reaal resplandor assi mostrado, nom quizer penssar, e obedecer ha esto que te avemos dicto, obedecendo em tudo ha teu padre, noos por ha que com toda ha afeiçam dezejamos paaz necessaria, e por taal que possamos trazer nosso dezejo ha boom efeito, em ha nossa vontade amoestamos filho logo ha ti sopena de excõmunham, e ha todolos outros de quaalquer estado que sejam assi pessoas Ecclesiasticas, como seculares, que torvam, ou anojaõ esse Rei, e seu Regno como nom devem, ou contra elle pobriqua, ou em secreto te dam ajuda, conselho, ou favor, daqui em diante se cavidem, e ho nom façam, porque em outra maneira ainda, que seja com grande door nossa, see certo que passados oito dias da pubriquaçam desta nossa carta, noos mandamos aho venerado irmaão Bispo Devora, que logo excommungue ha ti, e ha todos aquelles, que se ha ti chegarem, ainda que sejam Bispos, e quaaesquer outras maiores, e superiores pessoas, que torvem ha paaz de teu padre contiguo, seem embargo de quaaesquer privilegios que tenham, que desta nossa carta nom fizerem mençam, paaz, e asecego, venha ha ti e ha esses Regnos como dezejamos, por maneira, que hos perigos das almas sejam escuzados, e ha ti creça titulo de honra acerqua dos homens, e abastança de merecimentos ante Deos».

Esta carta, ou Bulla do Papa foi dada aho Bispo Devora, que ha fizesse pubriquar aho Ifante estando ElRei em Lixboa, mas porque ha esse tempo ElRei estava jaa em alguma concordia com seu filho, nom foi pubriquada, mas depois em outras voltas, e desobediencias, que ho Ifante cometeu se pubriquou com que ha final paaz antre elles se comprio, como aho diante direi.

CAPITULO XXVI

_Como ha Rainha Dona Maria de Castella depois da morte delRei D. Fernando seu filho, teve vistas com ElRei D. Diniz, ha que trouxe ElRei D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram._

ElRei D. Fernando de Castella, genro delRei D. Diniz faleceu de morte supitanea em Jaem emprazado de dous seus vassallos, que segundo se diz mandara injustamente matar, como atraaz brevemente toquei, e por sua morte fiquou seu sucessor, e erdeiro ho Ifante D. Affonso seu filho primogenito em idade de hum anno, e vinte e seis dias, ho quaal fiquou logo em poder da Rainha. Dona Constança sua madre, filha delRei D. Diniz, e tambem em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, e porque ha dicta Rainha Dona Constança da i ha pouquos annos logo faleceu, ho dicto Rei D. Affonso fiquou pricipaalmente em poder da dicta Rainha Dona Maria sua avoo, e sobre estas titurias deste Rei, ouve antre hos Ifantes, e grandes Senhores de Castella, grandes competencias, e muitas differenças, e discordias, de que se seguio muito maal, e estrago nos Regnos de Castella, e em fim se tomou por concruzam, que com ha dicta Rainha Dona Maria fossem juntamente tutores, como foram, ho Ifante D. Pedro, filho da dicta Rainha Dona Maria, e ho Ifante D. Johaõ tio delRei, filho que fora delRei D. Affonso Decimo, ho quaal Ifante D. Johaõ, que em outro tempo esteve em Portugal, e se chamava Rei de Liam durando sua titoria, e depois da morte da Rainha Dona Constança, Dona Maria confiando da muita verdade, e grande poder delRei D. Diniz, e assi na razam, que tinha daconcelhar, e ajudar ha ElRei D. Affonso seu neto, concertou em Guinaldo Lugar de Castella vistas com elle, aas quaaes contra vontade dos grandes de Castella trouxe ho dicto Rei D. Affonso seendo mui moço, e ali pratiquaram sobre hos desvairos de Castella, em fim dos quaaes ha Rainha lhe pedio, que se lembrasse delRei seu neto, e de seus Regnos, e que lhos ajudasse ha conservar, e defender polas grandes necessidades, que desso tinham.

Aho que ElRei respondeo: «Que lhe agradecia muito taal confiança, e quando suas forças, poder, e sabeer pera esso lhe comprissem, que nunqua com tudo lhe faleceria, como pelas obras poderia ver.» E com esto concordado ha Rainha, e ElRei D. Diniz se tornaram pera Portugal, e sobre esto passado logo da i ha pouquos dias hos dictos Ifantes D. Pedro, e D. Johaõ tutores, e juntamente com grande poder entraraõ na Veiga de Grada, pera fazerem guerra ahos Mouros, onde seendo elles perseguidos ambos dafronta, e desmaio, e seem seer feridos morreram em huma soo hora, ha saber ho Ifante D. Pedro, e logo ho Ifante D. Johaõ, como atraaz brevemente jaa dice, e na Coronica de Castella mais compridamente se contem da quaal morte dos Ifantes como ElRei D. Diniz foi sabedor, mostrou receber por esso sentimento, porque eram boons Princepes, e com elle muito conjuntos em sangue, e logo enviou seus Embaixadores ha ElRei, e aa Rainha de Castella, ha notifiquarlhe, que da morte dos Ifantes, lhe pezava muito porque eram boons Cavalleiros, e aviam com elle tam grande divido, e que pois era chegado ho tempo em que lhe compria sua ajuda, e favor, que lhe tinha ofrecido, lhes pedia que lhe fizessem sabeer ho que delle lhes compria, e que fossem certos, que elle em pessoa, e com ajuda, e poder de seus Regnos, contra todos hos iria ajudar, e ElRei, e ha Rainha lhe responderaõ, que taal lembrança com taal vontade, e ofrecimento lhe gradeciaõ singularmente, que eraõ sinaaes com que ho cazo parecia, que lhes tinha grande amor, e que quando lhes comprisse ho enviariam requerer. E pera mais favor das couzas delRei D. Fernando, ElRei D. Diniz notifiquou aho Papa ho estado perigozo em que has couzas de Castella pela morte dos Ifantes estavam, pedindo ha Sua Santidade, que ho favorecesse certifiquandolhe com esso ha vontade com que estava pera em tudo ho ajudar, e defender, e ho Papa lhe respondeo, dandolhe muitas graças, e louvores por sua boondade, e manificencia por querer com tam boom dezejo encarregarse da defenssaõ, e emparo dos Regnos de seu neto.

CAPITULO XXVII

_Como ho Ifante D. Affonso se aparelhou pera pelejar com ho Ifante D. Felipe, que contrariava ho asecego de Castella, e como ho Ifante D. Felipe se foi._

Por morte destes Ifantes, e tutores, que dice ElRei D. Affonso, fiquou inda em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, pelo quaal D. Johaõ, que diceram o Torto, filho do Ifante D. Johaõ, que morreo na Veiga de Grada, e assi D. Johaõ Manuel, filho do Ifante D. Manuel, e ho Ifante D. Felipe tio delRei, filho da Rainha Dona Maria, todos tres tambem contenderaõ pera seer tutores delRei com ha Rainha, sobre que outro si ouve grandes discordias, debates, e partiçoens de que por seus desvairos, ha que se nom achava rezoado meio, que elles quizessem se seguiram outros muitos maalles, e danos ha Castella, porque cada hum sojugava, e mandava ausolutamente ha parte do Regno, que podia antre hos quaaes era ho Ifante D. Felipe, que seem outorga delRei, e do Regno, e por sua soo vontade, e cobiça procurava sojugar, e mandar sua parte do Regno, assi como fizera aa Cidade de Badalhouse, que tinha cerquada, com que sua teerra estragava de todo.

E estando ElRei D. Diniz em Santarem, ElRei D. Affonso seu neto lhe enviou pedir que por quanto elle estava em Valhadolid donde ainda nom podia sahir, nem remediar por si ho maal, e danos, que ho Ifante D. Felipe fazia, que lhe rogava mui afiquadamente, que se lembrasse da ajuda, e defença que muitas vezes lhe prometera, e que em comprimento della mandasse dizer aho Ifante D. Felipe, que ceçasse, e se apartasse daquella teerra, e dos maalles que nella fazia. E quando por respeito delRei D. Diniz ho nom quizesse fazer, que entam ho fizesse por aquella Cidade, e por seus vizinhos, como em similhante cazo elle faria por outros seus naturaaes, que taal padecessem.

Aho quaal ElRei D. Diniz respondeo, que mui degrado ho faria como elle por obra logo veria, pelo quaal escreveo com trigança aho Ifante D. Affonso seu filho, ha que quiz dar este cargo por moor autoridade, que elle mandasse, como mandou dizer aho Ifante D. Felipe, que por muitas cauzas, que lhe apontou, nom fizesse dano, nem maal ahos da Cidade de Badalhouse, e se alevantasse de sobre ella, e que se o fizesse, que lho gradecceria muito, e quando nom quizesse que elle em pessoa lho defenderia, e porque ho Ifante D. Felipe respondeo aho Ifante, mais duro que temperado, ElRei D. Diniz, que desta reposta foi avizado ouve della, e do Ifante D. Felipe grande desprazer, e mãdou logo ha todos seus vassalos, que com suas gentes, e armas se fossem pera ho Ifante seu filho, aho quaal se ajuntou grãde poder, cõ ho quaal moveo pera Badalhouse, e ho Ifante D. Felipe sabendo de sua ida, e do poder que levava, alevantouse forçado, e foi pera Sevilha, e ho Ifante D. Affonso chegou ha Elvas onde vio algumas duvidas, que antre hos da Villa, e Badalhouse sobre seus termos, e tomadias avia, e depois de hos concordar, se tornou pera Santarem onde era ElRei, e da i se foi pera Coimbra onde tinha sua molher, e asento de sua caza.

CAPITULO XXVIII

_Como ho Ifante D. Affonso requereo ha ElRei D. Diniz seu padre, que fizesse Cortes aas quaaes depais nom quiz vir._

Avendo jaa hum anno, e sete mezes, que ha concordia antre ElRei, e ho Ifante era feita por algumas cauzas, e razoens, que alegou da minguoa de Justiça, e outros defeitos, que dizia aver no Regno, lhe pedio, que pera remedio de tudo fizesse, e quizesse fazer Cortes, has quaaes ElRei por nom aver dellas tanta necessidade quizera escuzar, em fim por satisfazer aho Ifante, e assi pera notifiquar ahos fidalgos, e poovos hos aggravos, e nojos, que do Ifante depois de suas avenças recebera, prouve-lhe fazelas em Lixboa pera onde chamou seus poovos, como em taal cazo hee costume, onde tambem foi ho Ifante, e ho dia em que se ouve de fazer ha fala pubriqua, e proposiçaõ costumada, ElRei mãdou dizer aho Ifante, que viesse aas Cortes pera nellas estar como ha elle em taal auto convinha, e ho Ifante se escuzou fazelo, e de tantas delongas, e sem razoens uzou aacerqua desso, que ElRei ouve por beem cometelas seem elle, e porque ElRei vio que ho Ifante em todo se desviava do que lhe tinha jurado, e prometido porque ho Conde D. Pedro seu filho, era pessoa de grãde credito aacerqua do Ifante, e tinha grande caza lhe dice: «Que se lembrasse da menagem, e juramento, que em Pombal fizera, e que hos nom quebrasse, nem fosse por algum respeito contra seu serviço». E esto lhe dise por alguns alevantamentos, que no Ifante jaa sentia. E ho Conde lhe respondeo: «Senhor, eu sei beem ho que sobresso devo fazer, e de mi se dee seguro, que nunqua vos venha nojo, nem desprazer, nem desserviço, porque bem conheço, que nom aa pessoa neste mundo ha que tam obrigado seja como ha voos». E sobresta segurança dice, que com sua licença se queria ir ha Santarem com ho Ifante, e que na jornada ho nom desserveria, e que logo se tornaria pera elle, e assi ho fez.

CAPITULO XXIX

_Como ho Ifante sobre huma vinda, que contra vontade delRei quisera fazer ha Lixboa, foram perto de pelejar, e porque ho leixaram de fazer._

Passadas estas couzas, e has Cortes acabadas estando ainda ElRei D. Diniz em Lixboa foi certifiquado, que ho Ifante seu filho de Santarem onde estava queria i vir, e porque soube que nom vinha com sam propozito lhe mandou rogar, e encomendar por sua bençam, sobpena de maldiçam de Deos, e da sua, que por aquella vez escuzasse sua ida, e ho nom quizesse nesso anojar, pois sabia que taal ida ha elle nom relevava, e podia cauzar muito maal, e ho Ifante lhe enviou dizer, que nom sabia razaõ porque lhe pezasse sendo seu filho, que viesse ha Lixboa, onde elle estava pera ho ver, e servir, e que por esso nom avia de leixar dir. E desta determinaçam que ho Ifante tomou, pezou muito ha ElRei, e foi por esso contra elle acezo em grande sanha, e sabeendo que ho Ifante toda via proseguia seu caminho, e que era jaa no Lumiar, saio contra elle com suas gentes armadas, e em saindo, lhe mandou dizer, que logo se tornasse por beem, e quando nom que ho faria tornar por maal, e com seu pezar. E ho Ifante ho nom quiz fazer, antes abalou, e se poz junto com ElRei procurando todavia contra sua vontade entrar em Lixboa, e hos delRei concertandose por seu mandado pera lhe defender ha entrada, foram de huma parte, e da outra postas, e ordenadas suas azes pera batalha, e nellas alevantadas humas mesmas bandeiras das Quinas contrairas, e pera esso jaa toquadas trombetas, e anafins, que traziam em se começando alguma rotura antre hos homens baixos, alguns dambalas partes se diz, que morreram de pedras, e dardos, que se arremessavaõ.

E com esta triste nova, que aa Rainha chegou, ella por escuzar com sua sancta pessoa outra maior rotura antre ho pai, e o filho, com grande pezar cavalgou em huma mula, e passando por meio das azes seem alguma pessoa ir diante, nem ha levar pela redea, nem tam pouquo esperar pela companhia, que ha ella por sua Reaal pessoa se devia, e seem medo dos muitos perigos ha que se oferecia, chegou logo aho Ifante seu filho, ha que estranhou ho cazo muito de taal vinda pois era contra vontade delRei seu padre, acuzando-o pela quebra da menagem que dera, e dos grandes juramentos que em Pombal ha Deos fizera, rogandolhe que se tornasse, e nom anojasse ha ElRei em tantas couzas, e aho menos ho fizesse por seu amor della que por elle, e por seu rogo tinha feitos hos juramentos, e prometimentos, que sabia, hos quaaes porposta ha conciencia, e honestidade hos via por elle de todo quebrados, e sobresto tornou logo ha ElRei cuja ira poz em taal temperança com que outra vez tratou avença antre elles.

Donde se diz, que ho Ifante jaa sobre concordia com soo seis de cavallo veo falar ha ElRei, e pedirlhe perdam, dizendo, que lhe obedeceria em todo, como ha ElRei seu padre, e seu Senhor, e que ElRei lhe respondera, que ha elle nom agradecia sua taal obediencia, mas aaquelles seus boons, e naturaaes vassallos que com elle estavam, dizendolhe que se partisse se quizesse, e seria beem aconcelhado fazello, e que onde quer que fosse se mais lhe dezobedecesse laa ho iria tomar pela garganta. E com esto ho mandou ir ha Santarem, e ElRei se tornou ha Lixboa.

CAPITULO XXX

_Como has gentes delRei, e do Ifante pelejaram sobresto em Santarem e do que se fez._

Passados alguns dias depois deste alvoroço, ElRei se foi de Lixboa pera Santarem, e entrando no termo da Villa foi avizado no caminho, que hos moradores della por mandado do Ifante que i era, estavam pera ho nom acolher na Villa, mas ElRei com quanto avia entam grandes chuvas nom leixou por esso de continuar seu caminho, e foi pouzar ha humas cazas, que foram de Rodrigo Affonso Redondo, e hos seus se agazalharam em mui estreito lugar que hos do Ifante lhe leixaram, e sobre comer por razoens, que hos do Ifante ouveram com hos del-Rei, se alevantou hum grande, e perigoso aroido ha que ElRei, e ho Ifante acodiram em pessoas cada hum ha seu bando apartado, e porém depois de alguns mortos, e feridos dambalas partes foi procurada, e posta tregoa sobre ha tarde antre ElRei, e ho Ifante, e hos seus, e porque hos Cavalleiros, e nobres homens que se acharaõ nestas roturas, e pelejas, vendo ho grãde dano, que delles seem cauza se seguia, pediram ha ElRei por mercee, que por muitas cauzas, e razões mui urgentes, que lhe alegaram lhes desse licença pera entenderem finalmente em sua concordia com ho Ifante.

Aho que ElRei respondeo mui aspero: nom querendo que sobre tantas paazes, e tantas concordias firmadas, e menagens taõ seem cauza quebradas se fizessem mais outras com tanta quebra, e desprezo, mas que queria castigar ho Ifante como merecia, e como faria ha hum seu imigo mortaal. E porém tanto aprofiaram aquelles Senhores com ElRei, e assi terçaram Affonso Sanches, e ho Conde D. Pedro seus filhos, que ElRei aprouve estar ha todo boom remedio, e aseceguo que antre elles se desse, pelo quaal se diz, que hos Cavalleiros, e Escudeiros que ElRei consigo ali tinha, eram por todos quorenta, e hos do Ifante trezentos e vinte, e huns destes se ajuntaraõ aho Moesteiro de S. Domingos das Donas, e hos outros em Sancta Maria de Marvilla, e estes escolheram vinte e coatro pessoas, homens de beem, e de conciencia, e de booa inclinaçam, ha saber, doze por parte delRei, e doze por parte do Ifante, que logo foram nomeados, hos quaaes determinassem, e compuzessem todolos debates, e contendas, que entam avia antre ElRei e ho Ifante, e que sua determinaçam, e composiçaõ fosse inteiramente guardada, e comprida, e fosse por maneira feita, que della nom se seguissem mais desvairos, segundo se logo apontaram, e nomearam outras pessoas, que tudo dentro de sessenta dias tornassem logo ha concordar em toda sua prosperidade, e qualquer dos delRei, e do Ifante que contrairo fosse, que pelo mesmo feito caisse em cazo de treiçam, e nom se de livrar se nom poendo seu corpo ha quatro Cavalleiros, que lho quizessem combater, e nom ho fazendo, que ficasse encartado, e quaalquer do povo ho podesse matar seem pena.

E ali pedio ho Ifante ha ElRei, por grande mercee, que tirasse ha Affonso Sanches seu filho, ha teerra, e has quantias dos maravedis, que delle tinha, e assi ho officio de seu Mordomo, e ha Mem Rodrigues de Vasconcellos ho Meirinhado moor. Ha que ElRei respondeo: «Que lhe parecia couza muito contra razaõ, e seem justiça dar ha estes pena sem culpa, e fazerlhes maal tendolhe beem mercee merecida, e que fazendolho nom sabia, que conta daria desso ha Deos, e aho mundo, aho que por sua Reaal dinidade era obriguado», e porém por comprir, e asegurar ha vontade do Ifante seu filho prouvelhe outorgar todo o que quiz, e lhe pedio.

E desta vez se partio Affonso Sanches pera Albuquerque cujo era, e fiquou vassallo delRei de Castella. E assi foram de huma parte, e da outra perdoados nesta concordia todos aquelles que serviram, e seguiram quaalquer partido, e assi que se fizesse entrega das couzas, que nas pelejas foram tomadas. E concordaram mais, que se ho Ifante D. Pedro filho do dicto Ifante D. Affonso, que jaa era nacido viesse em taal idade, que sahindo do mandado de seu padre quizesse vir contra ElRei D. Diniz seu avoo, que ho Ifante seu padre sempre fosse contra elle com ElRei seu padre, e seem elle. E assi concordaram, que fosse dado mais certa contia de dinheiro aho dicto Ifante D. Affonso, e que nunqua mais lhe podesse pedir, nem ElRei dar, e que pera segurança de todo se pozessem de cada parte dous Castellos, dos quaaes ho Ifante polla sua poz ho Castello de Gaya, e ho Castello da Feira, e ElRei ho Castello de Celorico da Beira, e ho de Faria.

E foram assinados quatro Juizes logo nomeados pera determinaçaõ, seem revogaçaõ de todalas duvidas e debates que antre ElRei, e ho Ifante ouvesse, hos quaaes nom podessem estar, nem estivessem nos Lugares onde taaes Juizes se ouvessem de fazer, e que ha parte desobediente, e danifiquada hos Castellos da outra revel fossem logo entregues, e que ha parte desobediente pagasse mais duzentas livras de pena has quaaes repartissem hos Juizes, e Fidalgos do Regno antre si, e que hos Fidalgos, e nobres do Regno sob pena de treiçaõ hos fizessem pagar inteiramente ha quaalquer, que esta concordia quebrantasse, e com ha dicta pena logo elles se viessem, e servissem ha ElRei, ou aho Ifante quaalquer destes, que aas determinaçoens dos Juizes fosse obediente, e estas concordias, e convenças foram feitas em Santarem ha vinte e sinquo de Fevereiro do anno de mil trezentos e vinte e quatro (1324), hum anno antes da morte delRei, que se tornou ha Lixboa, e ho Ifante ha Coimbra.

CAPITULO XXXI

_Da morte delRei D. Diniz._

Depois destas concordias acabadas, ElRei D. Diniz se foi ha Lisboa como dice, e da i ha hum anno se partio da dicta Cidade, e se tornou pera Santarem, e indo aacerqua do Lugar, que se diz Villa nova adoeceo de infirmidade, que consigo traaz todalas dores, e accidentes mortaaes de que se sentio mais maal tratado, e ho Ifante seu filho, que era em Leiria avizado desso por ha Rainha D. Isabel sua mãi, que era com ElRei ho veo logo vizitar, e concordaraõ de ho levarem ha Santarem em andas, e em colos de homens, e ha i jouve doente por algum tempo seem algum melhoramento, na quaal ha Rainha sempre foi prezente, e nas couzas de sua cura, e remedios era mais diligente, e humildoza que quaalquer outra simpres molher, que em semilhantes necessidades nom teem quem has escuze, e vendo ella que has afiquadas dores, e paixoens da doença delRei eram continuas, e pareciam mortaaes, duvidando da vida delRei estando em sua Camara, e prezente alguns, que i eram, dice ha todos nesta maneira.