Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II)
Part 4
E estas Bullas autentiquas, que ho Papa enviou por certeza que has sospeitas do Ifante contra ElRei, e contra Affonso Sanches, nom eram verdadeiras, nom asocegaram ha vontade do Ifante pera deixar de ter odio, e desamor aho dicto Affonso Sanches, porque quando ho defamava, e queria matar, e desterrar, beem sabia que has cauzas, que contra elle punha, todas eram fingidas; nem abrandou de sua dureza pera com hos rogos do Papa seer obediente ha ElRei seu padre, como por Prégadores, e grandes homens em pubriquo, e em secreto lhe era dicto, antes continuava no que tinha começado, pelo quaal deixando ha Ifante sua molher em Coimbra, e com ella ho Conde D. Pedro seu irmaão, partio da i, e levando cõsiguo hos maalfeitores, e degradados, e outra gente armada, foi caminho de Leiria com fama de ir ha Lixboa em romaria a S. Vicente, mas ha verdadeira tençam de sua ida, era pera tomar, e teer Lixboa contra ElRei seu padre, e ElRei estando em Santarem, e seendo certifiquado da maneira em que ho Ifante ia, ouve taal atrevimento por grande seu desprezo, ca parecia nom aver algum temor, nem vergonha delle, nem de sua justiça, especiaalmente pelo Ifante vir com tantos omiziados tam junto delle, e como quer que ho seu primeiro movimento foi acodir logo ha esso com mais trigança, e moor aspereza, porém ouve por beem enviar-lhe primeiro dizer por Pero Esteves, e Gomes Anes seus vassallos, que lhe rogava lançasse fóra de sua companhia hos maalfeitores que levava, porque com elles mais parecia ir fazer almogavaria em teerra de imigos, que comprir com devaçaõ sua romaria em sua teerra propria.
Aho que ho Ifante nom quiz satisfazer, e neste cazo estes mesageiros levaraõ provizoens porque em nome delRei ouveraõ hos dictos maalfeitores por degradados fóra do Regno, ho que com favor do Ifante nunqua quizeraõ fazer, e ha cazo ElRei por este cazo em muita sanha, moveo logo contra Lixboa, e ha Rainha Dona Isabel sua molher com elle, e indo jaa ho Ifante diante, em chegando ElRei aho Lumiar, que he huma legoa de Lixboa, soube que ho Ifante seendo avizado da ira delRei, com seu medo se partira pera ha Villa de Cintra, e ElRei dice contra hos seus. «Pareceme que ho Ifante meu filho, sabeendo quanto me anojava por elle trazer estes omiziados afastado oito legoas, que agora por me mais desprazer, e menos acatar se foi com elles, e hos tem comsigo nom mais de quatro, e porque são maales, que pera Deos, e pera ho mundo jaa se nom podem sofrer hee beem, que pera mais nom creccerem, vamos logo sobrestes homens, que saõ cauza desto, e trabalhemos polos aver».
Pelo quaal ElRei mandou logo fazer prestes sua gente, que muito ante manhaã armados partiram, e foram contra ho lugar onde estava ho Ifante, e dice, que ElRei ordenou esto seer feito mui cedo, e secretamente, porque ha Rainha ho nom soubesse, e da sua ida nom avizasse ho Ifante. Mas ha Rainha maravilhada por sentir no Lugar tanta revolta, e veer tanta trigança, e rumores daparelhos darmas, e cavallos, como soube que era contra ho Ifante seu filho, foi posta em muita angustia por taal, que nom sabia que remedio pozesse, e porém se diz, que tantos homens mandou aho Ifante, e pera tantos Lugares, e com taal pressa que ante delRei chegar ha Cintra elle era jaa avizado de sua ida. E em tanto ha Rainha se socorria ha Deos, ha que em Missas, e orações com muitas lagrimas pedia guardasse ho Ifante da ira delRei seu padre, e por beem de todos hos pozesse em paaz, e amor.
E como ElRei chegou ha Cintra onde era ho Ifante, elle como vio seu pendão, e suas gentes, armouse logo, e mandou armar hos seus, e pozeraõse contra ElRei em dous lugares com mostrança daspera peleja, ha quaal nom ouve, porque ho Ifante, e hos seus por quaalquer cauza, que fosse partiraõ dali, e nom esperaraõ ha ElRei. E esta se acha, que foi a primeira vez, que ho Ifante se armou contra ElRei seu padre pera com elle pelejar em cazo, que nom pelejasse. ElRei tomou por satisfaçaõ, partirse ho Ifante, e pera ho seguir nom deu lugar ha grande sanha, que contra elle tinha. ElRei partiose tambem de Cintra, e em chegando aa Aldea de Bemfiqua, soube que ho Ifante estava da i huma legoa em huma Aldea, que dizem Alvogas, de que ElRei foi muito mais anojado, porque lhe pareceo que ha soberba do Ifante, e seu desprezo contra elle, ia cada vez em maior crecimento, pelo quaal ElRei determinou de ir sobre ho Ifante ho quaal porque desta determinação foi logo avizado, tambem com hos seus maalfeitores, e com outras gentes com maao concelho esforçado, asentou logo em sua vontade esperar ElRei, e dar-lhe batalha, como se fora a hum imigo estranho.
ElRei como soube ha maneira em que ho Ifante estava lhe mandou dizer: «Que pois ho diabo cujas carreiras elle seguia, ho punha em taal determinaçaõ contra elle, que era seu pai, e seu senhor, que esso nom era salvo pera lhe dar ho castigo, que por seus grandes erros merecia, e que por esso esperasse, e nom fogisse». Pelo quaal ho Ifante vendo, que por forças, e por rezaõ tinha contra ElRei, seu partido mais fraco, nom esperou El-Rei, e se tornou pera Coimbra, e ElRei ha Bemfica, e da i ha Santarem, e nom seem muitas lamentaçoens, e grandes maravilhas por ver seu filho tam seem razaõ contra si, seem nunqua querer amançar.
CAPITULO XXIII
_Como ho Ifante levou ha molher, e hos filhos ha Castella, e hos Lugares, que tomou ha ElRei seu padre._
Como ho Ifante foi em Coimbra, logo levou sua molher, e filhos a Alcanizes, que hee em Castella, ho quaal tinha hum Fernam Martins Dafoncequa, e ali ha deixou acompanhada dalguns Escudeiros, e se tornou pera Coimbra, onde por suas cartas cheias de piedades, e palavras, promessas, e necessidades, que apontou logo fez chamamento de todos seus vassallos, e servidores dizendo, que o socorressem, porque ElRei queria vir sobrelle, e destroilo, ou matalo, sem causa. E ElRei que estava em Santarem quando soube ha mudança, que seu filho fizera da molher, e dos filhos pera Castella, e percebia seem cauza tantas gentes, era por esso cada vez mais anojado, porque como prudente sabia, que nom podia delle tomar vingança, que pera todos nom fosse mui periguoza, e porém pareceolhe que hos taaes ajuntamentos nom eram se nom pera ho Ifante vir sobre elle incitado de algum espirito diabolico ho tentar pera batalha, maravilhado de ho Ifante jaa nom cançar de seus odios, e perseguiçoens.
Ha esto proveo, e atalhou com cartas geraaes, que logo enviou ha todalas Cidades, e Villas do Regno encomendandolhes, que se nom enganassem das palavras coradas, que ho Ifante mandava semear, com que hos enganasse, e desviasse de seu serviço, porque hos afagos, e promessas, que em suas cartas aas gentes fazia nom era pera com elles conquistar, nem guerrear se nom ha elle seu padre, e com esto mandou ElRei geraalmente pubriquar por tredores todos aquelles, que pera taal ajuntamento mais acodisseem aho Ifante, nem com elle andassem, ainda que fossem proprios seus vassallos, contra hos quaaes assi asperamente procederia, como contra aquelles, que cometessem treiçaõ contra ha Reaal pessoa de seu Rei e Senhor, e que da i por diante mandava ha todos seus Alcaides, e justiças, e ha todolos outros seus naturaaes que ha todos estes que desobedecessem seu mandado, matassem sem receo dalguma pena, que por esso ouvessem, e assi mandou, e defendeo que nom acolhessem ho Ifante, nem os seus nas Villas, e Castellos, nem lhes dessem mantimentos, nem outra couza alguma, antes assi ho esquivassem, e fizessem contra elles, como contra imigos delRei, e de seus Regnos, e desto se passaram muitas provizões, e cartas que foraõ enviadas, e pubriquadas por todo ho Regno.
Mas ho Ifante nos Lugares onde se achava nom consentia daremse taaes cartas, nem serem feitas suas pubriquaçoens, nem obedecer ha couza que ElRei mandasse. E andando has couzas neste danamento, ElRei apartou de si ha Rainha, e ha mandou Alanquer, com fundamento de fazer seus negocios secretamente seem ho saber ha Rainha sua molher, de quem prezomia, que ho Ifante era logo avizado, e logo foi certifiquado, que hos da Villa de Leiria, deram nella entrada aho Ifante, e que tinha jaa ho Castello, e irado ElRei por este feito moveo, logo contra Leiria com tenção de queimar, e destroir todos aquelles, que foram em consentimento da entrada do Ifante, porque ha pena destes fosse ahos outros exemplo, e quando chegou ha Alcobaça jaa i achou muitos moradores de Leiria, que com medo de sua ira ali se acoutavaõ, como ha Caza sagrada, que lhes podia valer, hos quaaes posposto todo acatamento Daltares, e das sepulturas dos Rex seus avoos, ha que se abraçavam, mandou ElRei logo tirar, e estando pera irozamente delles mandar fazer crua justiça lhe chegou recado, que ho Ifante por força entrara ho alcacer de Santarem, ha que ElRei com grande pressa logo acodio e ho Ifante receozo delRei, e de sua ira, e poder que trazia, deixou ha Santarem, e se foi ha Torres Novas, onde se diz, que foi ho enterramento de Affonso Vaas Pemintel, que era seu Cavalleiro, ha que queria grande beem.
E tanto que ElRei chegou ha Santarem, logo mandou ha Lourence Anes Redondo, que jaa estava no alcacer de Leiria, que logo dece passe, e matasse todos aquelles que deraõ entrada da Villa aho Ifante, em comprimento do quaal, decepou, e queimou nove homens dos melhores, e mais principaaes da Villa. ElRei mandou tornar aho Moesteiro Dalcobaça hos prezos, que da i levara pera justiçar, que depois de sua ira seer temperada, ouve por beem que lhes valesse ha Egreja, e mais Alcobaça, em que tinha singular devação. Ho Ifante nom menos perseguido, que desobediente, e contumaas partio de Torres Novas, e chegou ha Thomar, onde pera si, nem pera hos seus, e suas bestas nom achou algum genero de mantimentos, nem forragem, porque atee hos moinhos, e acenhas achou de suas ferramentas, e engenhos, de todo desconcertados, por taal que nom podessem moer mantimentos pera ho Ifante, e com esto elle se foi aho Castello da Villa, e seem ho poder tomar tomou por força todolos mantimentos, que nella achou, e da i se foi pera Coimbra.
Da quaal se apoderou, e tomou ho Castello ho derradeiro dia de Dezembro de mil trezentos e vinte hum annos, (1321) e logo da i tomou ho Castello de Monte moor ho Velho, donde mandou dizer aho Conde D. Pedro seu irmaão, que andava em Castella desterrado, que se viesse aa Cidade do Porto, porque elle hia pera laa, e no caminho tomou ho Ifante ho Castello da Feira, que hee em teerra de Sancta Maria, de que era Alcaide por ElRei Gonçalo Rodrigues de Macedo e da i foi tomar ho Castello de Guaia, do quaal e assi do outro de Monte moor que jaa fora tomado, era Alcaide por ElRei Gonçalo Pires Ribeiro, e da i se foi aho Porto, e ho tomou, e ali chegou o Conde D. Pedro, que sempre andou em sua companhia, e da i se foi aa Villa de Guimaraens esforçado de hum Martim Anes de Briteiros, que fez crer aho Ifante que por inteligencias, que tinha dentro na Villa, lhe faria entregar, mas ho Ifante chegou ha ella, achou defensor dentro Mem Rodrigues de Vasconcelos, que era nobre homem, e boom Cavalleiro, e com elle boons Escudeiros, e outra gente da Villa, e com quanto foi pelo Ifante grandemente requerido com dadivas, e mercees, e ameaçado com morte, e outras penas pera que lhe entregassem ha Villa, e ho Castello, elle ho nom quiz fazer, dizendo que em quanto ElRei seu padre fosse vivo, ha quem tinha feito menagem, nom entregaria ha Villa, nem o Castello, se nom ha elle, e que atee sobresso morrer ho defenderia.
Ho Ifante mandou combater ha Villa da quaal couza seendo ElRei avizado, ajuntou logo muitas gentes dos Concelhos da Estremadura, e das Ordens, e se veio lançar sobre Coimbra, que estava pelo Ifante, e nom entrou logo na cerqua, porque estava beem guardada, e lha defenderam, mas passou no alcacer, que estava acerqua de Saõ Lourenço. E avendo jaa dez dias que ho Ifante jazia em cerquo sobre Guimaraens, foi avizado, que ElRei tinha cerquada Coimbra, pelo quaal deixou ho cerquo da Villa, e se veio ha Coimbra pera ha socorrer, e com elle ho Conde D. Pedro, e ante que chegasse aa Cidade se preitejou com ElRei, que se alevantasse, como alevantou, e se fosse ha S. Martinho do Bispo, e ho Ifante chegou aa Cidade, e pouzou em Sancta Cruz, e ElRei porque ho Ifante dilatou ha concordia, que prometera, veio-se logo pera S. Francisquo donde se fez muito dano, e grande estrago no arrabalde, e nos olivaes, porque de huma parte, e da outra eram ali juntos hos mais dos Fidalgos, e gentes que avia em Portugal, e antre huns, e outros avia barreiras, e repairos, de que escaramuçavam, e pelejavam, em que de huma parte, e da outra com door de muitos, morria muita gente, porque hos pais seem vontade, e certa sabedoria matavam hos filhos, e hos filhos ahos pais, e huns irmaãos, e amigos ha outros seem alguma piedade, nem misericordia.
CAPITULO XXIV
_Como ElRei, e ho Ifante foram concordados por meio, e intercessaõ da Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que pera segurança desso se fizeram._
E por esta discordia, que antre ElRei, e ho Ifante avia, ha Rainha Dona Isabel era triste, e anojada, e por aver antre elles booa paaz, e amor como era rezaõ fazia ha Deos, e mandava fazer muitas oraçoens, e devaçoens, e seendo certifiquada destas mortes, e maales tam grandes que desta desaventura se seguiam, ella de sua propria, e virtuoza vontade partio Dalanquer donde estava, e se veio ha Coimbra, e por si falou a todolos Senhores, que eram com ElRei, e com ho Ifante, e assi com ho Conde D. Pedro, e com elles por sua sancta intercessam banhada com piedozas lagrimas, asentou que era beem fazerse logo paaz, e concordia, e ha Rainha com ElRei, e com ho Ifante concordou, que ambos se partissem da li, e se fossem ha outros lugares, dõde por pessoas seem sospeita se veriam has couzas que ho Ifante requeria pera dellas lhe serem outorgadas aquellas que fossem de razam, e onestidade, e ElRei com prazer, e consentimento desto, se foi ha Leiria, e ha Rainha, e ho Ifante e se foram da i ha Pombal, e ali concertaram.
Que ElRei desse aho Ifante Coimbra, e Monte moor com seus Castellos, e ha Fortaleza da See do Porto, porque ha Cidade ainda entam nom era cerquada, e por ellas fez ho Ifante menagem ha ElRei, pera de todas fazer guerra, e manter paaz, como elle mandasse, e assi acrecentou aho Ifante pera seu soportamento, mais contia de dinheiro, e panos aalem do que tinha, e ElRei perdoou aho Ifante, e ahos seus todo ho passado, e ho Ifante ahos delRei, e ha rogo do Ifante foi tambem perdoado ho Conde D. Pedro, que foi restituido ha todo ho que tinha, e lhe era tomado, e destas couzas mostrou ho Ifante seer mui ledo, e mui contente, e dice, que nom menos obrigava, e tanta alegria tomava das mercees, e acrecentamentos, que delRei seu padre entam recebia, como de seer seu filho, pera por ellas dahi em diante, beem, e leaalmente ho servir sempre seem algum nojo, nem escandalo. E sobresto lhe fez pobriqua, e solene menagem, e tomou por esso juramento dos Sanctos Evangelhos sobre que poz has maãos e no Altar de S. Martinho do Pombal prezente ha Rainha, e muitos Fidalgos, que sobpena de seer tredor, e de encorrer na maaldiçaõ de Deos, e na sua, dali em diante sempre ho servisse, e lhe fosse obediente assi como deve seer boom filho, e leal vassalo ha seu padre, e ha seu Senhor, e que da i em diante nom acolhesse mais nhuns maalfeitores, antes hos que podesse aver prenderia, e entregaria ha ElRei, e ha suas justiças, e hos que trazia lançaria fóra logo de sua caza, e de seu favor.
E pera mais firmeza, e moor segurança rogou, e encomendou aho Conde D. Pedro seu irmaão, e ha Martim Anes de Souza, e ha Gonçale Anes de Briteiros, e Affonso Telles, e ha Gonçale Anes de Berredo, e ha Lopo Fernandes Pacheco, e ha Paio de Meira, todos riquos homens de Portugal, e ha outros nobres seus vassallos, que fizessem, como fizeram outro taal juramento, e menagem, como elle tinha feito, e ho Ifante tambem pedio aa Rainha por mercee, que pera maior, e mais seguro penhor desta concordia, e porque ElRei da i em diante mais descançasse sobre ello, que tambem ella quizesse fazer por elle este juramento, e menagem ha ElRei, e ella tambem assi ho fez, com cada hum dos outros. E outro si ElRei pera satisfaçam do Ifante, e de todos tambem fez no Altar da Capella de S. Simaõ de Leiria, solene juramento de nunqua falecer aho Ifante em alguma destas couzas, que lhe prometera, e outorgara. E foram estes juramentos feitos no mez de Maio, no anno de mil trezentos e vinte tres, (1323) e acabadas estas concordias de que todo Regno pareceo, que recebia muito prazer, e descanço, ElRei, e ha Rainha, e ho Ifante se foraõ ha Santarém, e da i ha Lixboa, onde todos estiveraõ atee Sancta Maria Dagosto, e da i ho Ifante se tornou pera as teerras, que ElRei lhe dera.
CAPITULO XXV
_De huma carta ao Papa Johaõ XXII aho Ifante D. Affonso filho delRei D. Diniz, sobre has dezavenças com seu pai._
Destas dezavenças, e roturas, que avia antre ElRei, e seu filho, ante de assi seerem concordados, ho Papa por quaalquer maneira que fosse, foi muito inteiramente informado do que lhe muito pezou, porque tinha grande, e particular afeição ha ElRei D. Diniz, que ho avia em todo por Rei excellente, e por ha Sua Santidade parecer, que seus Sanctos conselhos, e booas amoestaçoens podiaõ nisto muito aproveitar, enviou sua carta de Bulla aho Ifante D. Affonso, cujo theor tirado por mi fielmente de Latim em lingoagem hee ho que se segue.
JOANNE BISPO
Servo dos servos de Deos
«Aho amado em Christo filho D. Affonso enviamos este escrito de mais saaõ concelho, com muita torvaçam de nossa alma, mui ameude ouvimos como ho imigo semeador de odio, e enveja, por estorvar ho boom estado, e paaz do Regno, e seu louvado regimento com sua maaldade te poz em coraçaõ de te levantares contra teu pai, e como primeiramente soou em nossas orelhas taal fama de desobediencia, que por toda ha teerra hee jaa mui espargida, fez a noos grande nojo, e encheo de muita amargura nossa paternal afeiçam, e pois noos teemos nesta vida taal lugar, e poder porque aho Rei pacifico no dia do grande Juizo, avemos de dar conta das almas, aprazate, e nom te agraves se ha tua duramente por seu beem reprendermos, e porque ha palavra de Deos nom seja atada na nossa boca, e falemos com espirito de liberdade, por esso nom podemos encobrir tamanho maal como hee perseguir aquelle que te criou, e gerou, e estragares tam seem tento ha teerra (que atee espargeres por ella ho sangue) devias sempre defender, quem hee aquelle que seem grande torvaçaõ do epirito possa ouvir, que hum Rei tam nobre ha juizo do quaal hos Rex isentos doutras teerras com grande vontade se sometem, e obedecem a seu mandado, e concelho, seja por ti com injurias seem razam, e seem seus merecimentos tam anojado, e perseguido, e porem nom sabemos quaal couza agora digamos primeiro, ou quaal recontaremos por derradeiro, nem sabemos se choremos ho beem que perdes, ou se nos doamos do maal que fazes, dize em que te errou teu padre, ou de que ho reprendes, e que te nom fez de graças e beneficios que devesse fazer, cremos por sua confiança, que nhuma couza de erro te fez, mas afirmamos, que avondança de booa vontade, que te sempre mostrou, foi verdadeira cauza de lhe seeres tam desobediente, mas agora prouvesse ha Deos, que ainda melhor soubesses, e entendesses com melhor aviso, e esguardasses no que te compria de fazer, quem he aquelle que seem grande door, e tristeza possa recontar, que hos direitos, e obrigaçõens do parentesco antre aquelles, que sam conjuntos com tanta afinidade de sangue, sejam assi quebrantados, quem consentiraa seem amargozo coraçam, que ho filho ante do tempo, nom soomente queira abreviar hos annos de seu padre, mas ainda que com maliciosos cometimentos se trabalhe de hos acabar mais cedo, ho quaal tu sabe, que jaa mais vive por teu proveito, que pelo seu, porque qualquer couza de beem que faz, e ajunta jaa todo he pera ti, e com muitos trabalhos, e despezas afirmou e acrecentou seu Regno, porque tu depois de sua morte podesses viver nelle, grande, e poderoso, porque te trigas ante tempo por cobrares aquillo, que ha natureza ainda te nom quer dar? Nom sabes, que diz Salamaõ, que nom averraa ha bençam no fim dos dias, ho que aa erdade se atrigar primeiro que deve? Tu juntamente perdes ha alma, e ha fama por averes antes de tempo ho que depois aas de perder, e segues ho contrairo desto nom curando de tua propria saude.
Has lex, e direitos de todalas naçoens mandam que hos filhos em quaalquer estado alto, e baxo sempre obedeçam ha seus padres, e hos amem. Pois dize, onde hee aqui ho amor, onde hee ha reverencia do filho aho padre, onde ha lei de natureza, onde finalmente he ho temor de Deos? Ha elle aprouvesse ora que soubesses quam alegre, e quam doce couza hee ho filho obedecer, e honrar ha seu padre, e quam maa, e desventurada hee ha desobediencia, e desprezo, que ho filho contra elle mostra, de maneira, que como se afasta de obedecer, logo nom parece filho. Nom sabes, que Felipo dos Emperadores ho primeiro Christaão, posto que desse ho regimento do Imperio ha seu filho delle em sua vida, lhe nom era menos obediente, que cada hum de seus Cavalleiros, e avia por grande prazer teer vivo seu pai, e lhe obedecer? E ho Emperador Decio, quiz em sua vida Coroar seu filho, e elle ho refuzou, dizendo: Receo tomar Coroa, e ho regimento do Imperio, que me pode esquecer cujo filho sam, pelo quaal mais quero nom seer Emperador, que reger, e seer dicto filho desobediente, Reja ho Imperio meu padre, e ho meu senhorio, de que me mais contento seja em sua vida sempre lhe obedecer.
E muitos que ho contrairo desto uzaram perseguindo, e nom obedecendo ha seus padres, huns morreram maa morte, outros cairam em taal cativeiro de que nunqua sairam, porem meu filho muito amado rogote, que ames, e honres a teu padre, e toma aquillo, que a igualdade da natureza em seu tempo te ofrecer, e nom queiras aver por força destroido ho Regno, que teu aa de seer, beem sabemos que ho arroido da tempestade diaboliqua armou ho filho contra ho pai, e armou hum irmaão contra outro, alevantou hos sogeitos contra ho senhor, e porém hos beens, e fazendas em destroiçam, e hos corpos em estrago, e ho que hee mais amargo, que vos poz has almas em desesperaçam de sua saude, teu padre mostra, e chora has injurias, que por ti lhe sam feitas, e noos em especial avemos compaixam delle, quanto ha opiniam do poovo, elle hee por ti injustamente, e contra razaõ aggravado, e perseguido, que couza hee, que alguns maaldizentes que contigo vivem avorrecidos de Deos, busquando palavras prazenteiras, e maliciosas de suas lingoas por mordeduras peçonhentas, e concelhos enganozos sam ouzados de encher tuas orelhas de vento prazenteiro, e agradavel com que ho amor natural, que ha teu padre, e ha teu irmaão devias, hee todo corrompido, quaal he ho entendimento assi boom como rudo, que nom entenda quam maa, e quam nojoza couza hee andares armado contra teu padre, e ajuntares ha ti omiziados, e maalfeitores, com que te rebelas contra elle? Quaal couza hee mais contra ha Lei de Deos, e da natureza, que ho padre movido pela injuria de seu proprio filho, mover tambem armas contra elle? E que por outra couza nom dizistisses do que fazes, por esta ho devias fazer.