Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II)

Part 3

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«Que ahos trinta e hum dias do mez de Novembro da era de mil trezentos cincoenta e sete annos, ante ha porta de Sancta Maria de Magazella, presente Johaõ Pires, que aquelle anno fora Algoazil, e Diogo Dias, e Vasco Fernandes Alcaides, e Johaõ Preto, Tabaliam do Lugar, nove vaqueiros que vinhaõ por si nomeados, com outros vaqueiros de Ruy Sanches Davilla, trouxeram prezos aho dicto Lugar de Magazela cinco homens do Senhorio de Portugal, antre hos quaaes vinha hum acavallo, que parecia de rezão, e boom entendeer, e que hos dictos vaqueiros disseram, que no Lugar que dizem Aguama termo da Magazela, aquelle homem de cavallo com outros traziam prezo outro homem Portuguez, que tinha feiçaõ Descudeiro, ho quaal bradando dizia, homens do Senhorio de Castella acorreime, que Portuguezes me levam prezo pera em sua teerra me matarem, e que ha estes brados hos dictos vaqueiros acodiraõ, e querendo livrar ho prezo Portuguez daquelles Portuguezes que ho traziam, que o dicto homem de cavallo dicera apressadamente ahos seus de pee: «Matai este tredor porque nom fique com vida.» E que hum delles lhe dera huma lançada por hum braço, e que o de cavallo sobresso lhe arremessara ha lança que trazia, e ho atrevessara por detraaz atee hos peitos, e que os vaqueiros vendolhe fazer taal crime lançaram maão logo de quatro homens seus, e que ho de cavallo querendolhos tirar, e defender, hum dos vaqueiros arrancou hum dardo, e ho ferio, e ho Escudeiro quando vira hos seus homens prezos, dicera ahos vaqueiros, que nom tinham rezaõ de prenderem, nem fazerem maal ha elle, nem ahos seus, pois nom fizeraõ mais maal, que matar seu imigo, e que pera verem que elle demandava rezaõ, que ho deixassem, e que elle era contente de ir ha cavallo perante os Juizes de Maguazela, e que elles depois de ho ouvirem mandariam ho que fosse justiça.

E que ante de irem pera ho dicto Lugar, que ho Cavalleiro rogou ahos vaqueiros, que pera certidão do que dizia, chegassem aaquelle lugar onde jazia ho ferido Portuguez, hos quaaes chegando ha elle ho Cavalleiro dicera aho ferido. «Amigo eu saão Pero Gonsalves, Escrivão do Ifante D. Affonso de Portugal, e voos sabeis beem ha maaldade, e treição que tendes feita, com Garcia Dalmuche, que eu fiz matar nas manchas Daragam por ambos buscardes, e ordenardes peçonha pera mataarem ho Ifante meu senhor, e agora lembrevos, que estais em tempo da rependimento, e de dizerdes ha verdade, por nom perderdes ha alma, pois jaa perdestes o corpo.» E que ho ferido respondera, que tudo era verdade, e que por esto elle tinha tratado, e buscado contra ho Ifante aquelles Portuguezes que ho traziaõ prezo, ho quaal logo falecera, e que sobre esto em chegando ahos Alguazis do lugar, ho dicto Pero Gonsalves mostrara huma carta aberta patente do Ifante, porque geraalmente fazia sabeer, que elle enviava ho dicto Pero Gonsalves contra alguns que procuravam de fazer maaos feitos contra elle, e que porem ho encomendava aas Justiças dos Lugares pera que lhe dessem ha ajuda, e favor, que elle requeresse, e aalem desto, que ho dicto Pero Gonsalves requeria mais ahos dictos Juizes, que perguntassem hos vaqueiros aacerqua do que ho Escudeiro morto em morrendo confeçara, hos quaaes diceram todo ho que atraaz hee escrito, e mais que ho dicto ferido em querendo morrer dicera.

Eu naci em na maa hora antre todolos homens da teerra, de que saõ naturaal, e assi aquelle por cujo concelho esto fiz, porque certo hee que Garcia Dalmuche, e eu com outros buscamos, e compuzemos peçonha pera matar ho Ifante, mas quiz ha sua booa ventura, que por ella se nom obrou couza, que lhe danasse. E com tudo diceram, que ho Ifante se guardasse, e que perguntado ho ferido pelo nome daquelle do sangue do Infante por cujo concelho, e mandado esta peçonha se ordenava, que elle respondera, que pera que era perguntar ho que todo ho mundo sabia, e que mais nom deria, e com esto pedira confissam, e em lhe tirando ha lança, que tinha atravessada logo morrera, pelo quaal hos dictos Alguoazis, e Alcaide, visto esto mandaram que ho dicto Pero Gonsalves, e hos seus se fossem em booa ora, e livres, e lhe mandaram daar hos estromentos pubricos, com muitas testemunhas, que sobre esto pediram.»

E depois que estes estromentos em Coimbra se pubricaraõ, de que todos foraõ hi espantados, ho Ifante mandou mostrar ho treslado delles ha seu padre, por Nuno Martins Barreto, e por Ruy Garcia do Cazal, e pedir-lhe que logo desse ha Affonso Sanches ha emenda, e castigo, que em tam feio cazo merecia. Do que ElRei foi asaaz maravilhado, e posto em mui tristes pensamentos, ainda que logo conheceo, que tudo eram manhozas envençoens, e maal compostas, e ahos messageiros do cazo, respondeu por maneira, que foraõ elles contentes, e sobresto ElRei enviou logo aho Ifante, Fernam Rodrigues Bugalho, e Lopo Esteves Dalvarengua, pessoas de que fiava, pelos quaaes lhe enviou certificar ho nojo, e tristeza que do cazo passado tinha recebido, ho quaal era de calidade, que fazendose contra ho mais pequeno vassallo seu, elle ho estranharia, e puniria mui gravemente, quanto mais contra elle seu filho, que elle amava de coração, e suas couzas assi lhe doiam, e tocavam como se fossem feitas, e ordenadas contra sua Reaal pessoa, e que fosse certo, que quaalquer seu irmaão lidimo, se ho tivera, que contra elle fizesse semelhante treiçam, que seem nhuma piedade lhe mandaria tirar ho coraçaõ pelas espadoas, como aho mais vil homem de sua teerra, e que porem ElRei lhe rogava, que hos proprios originaes de que vira hos treslados lhe quizesse mandar, que logo lhos tornaria, e porque por elles se queria beem informar pera sabeer ha verdade donde tanto maal nacera, e quaaes eraõ hos participantes nelle, pera tudo emmendar, e castigar com penas, e rigores que elle viria.

Aho que ho Ifante respondeo, que se maravilhava muito delRei seu padre, hum feito tam craro, e de taal importancia querelo poor em vagarias, nas quaaes elle nom queria poor seu corpo, vida, e honra, porque se ElRei tivesse vontade de ho estranhar, e punir como lhe enviava dizer asaaz provado estava ho erro pera na exequçaõ delle nom procederem interlucutorias nem tantas delongas, e que jaa em cazos, que menos relevavaõ, e comprova que nom era tam abastante, mas por soo prosunçam lhe vira proceder contra muitos, e punillos, e que assi ho devia fazer neste cazo, e que hos originaes por seerem escritos em papel, e por se nom perderem tinha mui beem guardados antre duas tavoas, e que ha ElRei hos mostraria quando fosse necessario, e que porém, que sobresso mais se avia de fazer com mostranças da meaça.

CAPITULO XX

_Da diligencia que ElRei fez pera saber ha verdade dos estromentos de Maguazella._

Com esta reposta do Ifante em que pareceo que elle se cerrava pera prefeitamente se nom saber ha verdade do cazo, que desejava, ElRei pera tirar de si sospeiçoens, e escrupulos da vontade, antes de tudo ouve por beem denviar, como enviou, por messageiro avizado com sua carta de rogo ahos do Concelho de Maguazella, encomendandolhes, que do cazo que nos estromemos era particularmente apontado, lhe mandassem dizer ha verdade, e que viesse por todos beem autorizada, hos quaaes juntos todos em seu consistorio maravilhados primeiramente de taal novidade, responderamlhe sustancialmente, que todalas couzas conteudas nos dictos estromentos nem soomente huma nom fora, nem era verdade, porque naquella Villa nom avia, nem nunca ouvera taaes homens, que fossem justiças, nem Tabalians, nem taaes vaqueiros, nem memoria de taal feito, como aquelle acontecesse em Maguazella, nem em seu termo, nem em toda aquella Comarqua, sobre que fizeram grandes deligencias de que enviaram ha ElRei D. Diniz suas certidoens asinadas por todos, e aseladas com ho selo do Concelho.

E com esta reposta de Maguazella, em ha falcidade foi ho Ifante beem compreendido, e ElRei foi muito maravilhado, e recebeo grande nojo, que lhe pareceram começos, e fundamentos que ho Ifante lançava, e fazia pera descobertamente lhe desobedecer, e ho desservir, e pera alguma temperança, e resguardo desto ElRei fez ajuntar em sua Camara ha D. Johaõ Mendes de Briteiros, e Martim Affonso de Souza, e Gonçalo Anes de Berredo, seus sobrinhos, e D. Pedro Estaço Mestre de San-Tiago, e D. Gil Martins Mestre de Christo, e D. Vasquo Mestre Daviz, e Vasquo Pereira, e Vasquo Martins de Rezende, e outras pessoas nobres de sua Corte, e em Concelho, e perante elles todos fez leer ha carta, e titolo que hos de Maguazella lhe enviaram, e acabada de leer, ElRei perante todos logo dice.

«Certo hee, que ha alguns pareceraa esta minha fala escuzada, pois ha faço com paixam, que nom posso dizer has muitas mercees, e grandes beneficios que tenho feitos aho Ifante meu filho, que apoz elles nom diga hos erros, e desobediencias, e desagradecimentos, que contra mi teem cometidos, e cada dia comete, e porém ha door, que tenho em minha alma, e ha sanha que encende ho meu coraçam, são tamanhas, que me forçam meu proprio sizo, pera que has nom possa encobrir, e dellas me fazem que vos diga algumas, aho menos pera saberdes minha fortuna, e minha desculpa, e sobresso procurardes, e dardes ha esto algum remedio, e concelho pois eu jaa nom sei, nem posso.

Beem sabeis todos, quam honradamente, e com quanta prosperidade sempre criei ho Ifante, e quanto de coraçam sempre ho amei, e por este grande amor, que lhe tinha nom seendo inda em idade de seis annos, lhe dei caza apartada com muita teerra, e grande contia, e com boons e honrados vassalos, ho que hos Rex de Portugal meus antecessores, ha seus filhos erdeiros de tam pouca idade nunqua costumaram fazer, porque cazados, e em moores idades sempre andavam com seus padres em sua caza, atee que lhe apartavam has suas sem teerem vassalos, nem servidores proprios, e pera prova desto sabeis, que como quer que ElRei D. Affonso meu avoo, filho delRei D. Sancho sendo Ifante, fosse cazado com ha Ifante Dona Orraqua, e tivesse filhos, sempre porém andou em caza delRei seu padre, e se ElRei D. Affonso Conde de Bolonha ho fez ha mi, foi em tempo que eu avia jaa dezoito annos, e avia catorze que elle jazia em cama seem se poder soster e alevantar, de maneira que depois, que me apartou caza, e asinou teerra nom viveo mais que dezanove mezes, e quantos trabalhos, perigos, e despezas, eu com muitos de minha caza, e teerra passei, por se fazer seu cazamento com ha Ifante Dona Breatis sua molher, vós todos ho sabeis pois tambeem ho passastes comigo e ho conhecimento, que elle desto teem, e ho galardam que por esso me daa, sam nojos, e desobediencias que andando em minha caza, e fóra della sempre me fez, e que todas aqui nom diga algumas por minha satisfaçam seraa forçado, que ha aponte.

Primeiramente despedindose de mi, e de meu serviço ho Conde D. Martim Gil pela contenda, que antre elle e Martim Sanches meu filho avia sobre partilha derança, por seerem ambos cazados com duas irmãas posto, que eu soubesse que o dicto meu filho fora maltratado, e deserdado contra direito, eu fui favoravel aho dicto Conde, por amor do Ifante meu filho por seer seu, aacusta do muito dinheiro meu que por composiçam, que dei ao dicto Affonso Sanches, hos concordei, e seendo ho Conde meu vassallo, e meu Alferes moor, e Mordomo do Ifante, que eram officios pera me teer muito em mercee, e avia por ello obrigaçam pera me lealmente sempre servir, elle antes, que se de mi espidisse, errando nesso ha lei de nobreza, e fidalguia, que como nobre devera guardar, se foi fazer vassallo delRei de Castella, e lhe fez preito, e menagem contra mi sopena de tredor, que toda sua vida ho servisse contra mi, quando elle mandasse, convocando pera si alguns homens honrados do meu Regno, pera que fossem contra meu serviço.

E como quer, que ho Ifante desto fosse beem sabedor, nom estimou o grande dano, desserviço, e deshonra, que se desso podia seguir ha mi, que sam seu pai, e aa Coroa de meu Regno de que hee successor, mas antes por estos erros ho ama, e estima, e fia mais delle do que antes fazia, e ihe escreve cartas de grande favor, e lhe faas mercees como se ha mi, e ha elle has merecesse, ha quaal couza nom sei ha quem nom pareça muito estranha se nom ha elle, que sendo meu filho, e vassallo, e ha quem meus Regnos pertencem de direito ho aa por beem sem teer lembrança destas obrigaçoens polas quaaes de razam naturaal, e divina, devia querer maal, e desamar muito ha quem cõtra miuza de tanta treiçam. Tambem sabeis, que estando Affonso Sanches meu filho, concertado com Dona Isabel sobre escaibo de Medelim por Aguiar, e seendo dia antre elles certo, e asinado pera ho dicto concerto se fazer sopena de dous mil marquos de prata, e indo ha esso ho dicto Affonso Sanches por meu mandado, e consentimento ho Ifante saio ha elle com voos, e tençaõ de ho matar, posto que Ihe eu mandasse dizer por Johaõ Rodrigues de Vasconcellos, que o nom perseguisse, e ho deixasse, que hia por meu mandado, elle ho nom quiz fazer, e me mandou dizer, que ho que começar a havia de acabar, aho que eu por evitar tamanho maal como se aparelhava, aahi fóra em pessoa, e voos comigo, e porém nom se pacificou ho cazo seem ho dano que vistes.

E outro si Vasquo Paaes Dazevedo, que em Castella contra mi, e meu serviço dice algumas couzas, que nom devia, querendose dellas alimpar perante mi, poz ha culpa de maao ha Martim Reimondo, e porque Affonso Martins Reimondo seu sobrinho, que era presente lhe dice que lhe poeria de praça has maãos, e ho corpo, por prova que seu tio nunqua taal dicera, e que lhe faria confessar, que nom dizia verdade, ho Ifante tomou a parte de Vasquo Paaes, e falou por elle palavras descompostas, e por Affonso Martins querer alimpar, e escuzar seu tio, hos do Ifante ho quizeraõ logo matar, e perante mi seem acatamento de minha pessoa ho fizeraõ, seem meu filho tornar a esso, como devera, consentindo em tamanha injuria, como ha mi era feita. E sabeis mais, que dous sabrinhos do Bispo de Lixboa confiando, e esforçandose como nom deviam, que pela parte que de mi dava, e booa vontade que tinha ha seu tio, poderiam por favor escapar de quaalquer crime, e maleficio que cometessem, e fizessem, elles sobre segurança mataram pubricamente no meio do dia, e da Cidade hum filho do nobre homem, e boom Cavalleiro Estevam Esteves, e por ha fieldade, e graveza do cazo seer taal hos mandei logo prender, e fazer pubricamente justiça, e de todos aquelles que foram em su ajuda, e por esso ho dicto Bispo com meu desamor, porque eu quiz fazer justiça, se foi ha Roma onde por todalas maneiras que pode procurou ho meu nojo, e desserviço do quaal ho Ifante perdeo toda suspeita, e ho teem por boom, e leaal servidor, e fia delle, e lhe faaz honra, e mercee, e ha todolos seus, sabeendo notoriamente que nisso me desserve, e anoja.

E além destas couzas que dice, outras mais desta calidade teem ho Ifante contra mi feitas, que atee qui soportei, esperando que com crecimeto dos dias, e da honra, e estado que tinha se temperasse, e emendasse, porque com ha emenda desso, que em si fizesse refreasse ha mi que nom dicesse maal de pessoa de meu sangue, especiaalmente delle, que depois de minha morte aa esta teerra de soceder em meu lugar: mas porque vejo que elle cada dia, tira ho beem do beem, e acrecenta maal ha maal, ho descubro ha voos outros pera que nesso me deis concelho com remedio».

Aho que cada hum dos Senhores, que eram prezentes, responderaõ com ha door, e tristeza que por esso tinha, e pera booa paaz, e concordia antre ElRei e ho Ifante, deram seu voto, e offereceram suas forças, e booa vontaade. Mas ho Ifante veendo que has couzas passadas pera morte, ou desterro de Affonso Sanches seu irmaão, nom tinham socedido aa sua vontade pera esprimentar se com ho poovo do Regno ho podia fazer, ordenou estando elle em Coimbra, e assi em Santarem onde ElRei era, que se dicesse como por muitos dos seus pubricamente se dizia, que ElRei com asinados, e selos seus, e de trinta, e duas Cidades, e Villas principaaes de seus Regnos, enviara cartas de certidaõ aho Papa porque lhe certificava, que ho Ifante D. Affonso por falecimento de sizo naturaal, e por outros grandes defeitos que tinha, nom era auto pera seer Rei, porque como parvo, e desmemoriado andava tirando, e comendo has aranhas das paredes, e que por esso pedia ha Sua Santidade por merecee, que lhe tirasse a socessaõ, e abilitasse ho dicto Affonso Sanches pera depois de sua morte Regnar, porque pera taal socessaõ era mui pertencente, e que elle das rendas do Regno mantivesse ho Ifante seu irmaão em sua vida.

Das quaaes couzas sendo ElRei D. Diniz certificado, recebeo por ello grande pezar, e muito sentimento, e enviou logo Lourence Anes Redondo, e Pero Esteves seus vassallos aho Ifante, ha que diceram todo o passado, que os seus diziam, e ho nojo em que por esse ElRei estava, por difamarem seem cauza de sua boondade, e conciencia, e da lealdade, e boom nome das Cidades, e naturaaes de seus Regnos, e ho que desto mais sentia assi era que ho Ifante sabeendo que estas falcidades assi se diziam, nom has extranhar, e castigar com grandes penas, e muita aspereza, como taal cazo requeria, por onde parecia, que ellas naciam de toda sua vontade, e consentimento, mas que pera todos sabeerem craramente desso ha verdade, e que nunqua taal malicia, e treiçaõ por elle, nem pelos seus fora, nem soomente cuidada, que elle daria por esso taaes penas por dezafio, e reto posessem hos corpos, e has vidas, aaquelles que esto diziam, e asacavam, e que por suas bocas lhe fariam confessar que eram mui falsos, e tredores, e que pera mais abastança, e moor comprimento elle escrevera logo aho Papa em quem nom avia paixam dodio, temor, nem afeiçaõ, pera que por suas Bullas, e letras patentes, e com outorgua, e aprovaçam dos Cardeaes, enviassem desto testimunho, e dizer ha verdade. E esto passou na era de mil trezentos e vinte annos. Mas ho Ifante respondeo que taaes couzas nunqua ouvira, nem sabia dellas parte, e porém ElRei notificou tudo aas Cidades, e Villas de seus Regnos, que sobre esto enviaram logo pubricos estromentos de muita lealdade, afirmando cada hum que combateriam em campo ha quaaesquer que contra ElRei, e seu Regno taaes treições, e falcidades asacassem, porque nunqua passaraõ assi, nem elles por sua lealdade has consentiriam.

CAPITULO XXI

_Dalgumas couzas mais, que ho Ifante fez contra vontade, e serviço DelRei seu padre._

Como ho Ifante andava posto em desobediencia, e com pouquo acatamento delRei, nom olhava has couzas de seu serviço, e da justiça com aquelle resguardo, que devia, pelo quaal ElRei era posto em grande cuidado, e muita pena, porque ho Ifante pera mais danamento de sua boondade soltamente trazia, e acolhia em sua casa muitos maalfeitores obrigados grandemente por seus crimes aa justiça, com que hos do Ifante tomavam grande ouzadia de fazerem ho maal que queriam, porque nom receavam pena, nem castigo dos maales que fizessem, nem ElRei podia delles tomar ha emenda, que mereciam, e antre estes era hum Estevão Gonçalves Leitaõ, vassallo do Ifante, e outro seu irmãao, e com outro em sua companhia, partiram de caza do Ifante seendo elle aallem do Douro, e foram teer oo caminho ha Estevaõ Fernandes Cavalleiro, e vassallo delRei, e ha Gonçalo Fernandes, vassallo de Fernaõ Sanches, e seem cauza ha ambos hos mataram, e acolheraõ-se aa caza do Ifante, que hos nom quiz entregar ha ElRei, que com grande instancia lhos mandou pedir pera delles fazer justiça. Outro si, hum Paio de Meira, e Johaõ Coelho vassallos do Ifante, hum de huma parte, e outro de outra, sem algum temor delRei, e de suas justiças, fizeram de Cavalleiros, e de outras muitas gentes, hum grande ajuntamento, e ambos ouveraõ peleja em que morreram muitos, antre hos quaaes foi Lopo Gomes Dabreu, que era hum dos melhores Cavalleiros, que avia em sua linhagem.

Pelo quaal insulto, ElRei por seu meirinho hos mandou desterrar fóra do Regno, e elles foraõse logo pera Castella, mas dahi a pouquos dias se tornaram pera caza do Ifante, em que acharaõ boom acolhemento, e muita mercee. Outro si, hum Xeres Portel vivendo com o Ifante, com outro foi roubar ho Moesteiro do Marmellar de quanto tinha, e elles, e hos seus por força se lançaram aas molheres cazadas, e virgens, que acharam pela teerra, e quizeram matar ho Comendador do dicto Lugar se nom se escondera, e cheios de roubos, e de maleficios se foram pera casa do Ifante que hos emparou, e favoreceo. E assi depois Affonso Novaes, e Mem Martins Barreto, vassallos do Ifante, e seus moradores partiram de sua caza, e com homens de cavallo, e de pee armados, foram sem cauza matar D. Giraldo Bispo Devora, que era do Concelho delRei, e vivia com elle, e tambeem muitos homiziados, e maal feitores, que por seus homizidios, e fugidas de cadeas, e delitos andavam fóra do Regno, vinhaõse soltamente pera caza do Ifante de quem recebiam emparo, e merecee, hos quaaes em grande numero ali asinou, e hos cazos porque eram obrigados aa justiça, cuja mais particular declaraçam nom hee aqui necessaria.

E posto que ElRei por muitas vezes, e por muitos com cauzas evidentes enviasse rogar, e mandasse estreitamente aho Ifante, que lançasse de sua casa hos taaes homens maalfeitores, e que dali em diante nom acolhesse outros semelhantes, elle ho nom queria fazer, antes insistia, e faria tudo contra vontade delRei, pela notificaçam, que ElRei fez aho Papa Johaõ XXII das desobediencias, e pouquo acatamento de que ho Ifante aacerqua delle uzava. E assi do que neste Regno falsamente se dizia, que ElRei asaquando defeitos do dicto Ifante lhe suplicara pela legitimaçam do dicto Affonso Sanches pera Regnar, e Sua Santidade em reposta desto enviou ha ElRei D. Diniz pera si, e assi a todolos Estados de seus Regnos, suas Bullas patentes, em que cõ palavras de padre boom, e piedozo se doe, e maravilha da discordia antre o pai, e ho filho, e assi afirma, e daa testemunho da verdade, que aquellas difamaçoens, elle como Vigairo indinho de Christo, que do Ceo decendeo por dar testemunho da verdade, afirmava seerem falsas, e que em seu tempo taaes requerimentos, e suplicaçoens nunqua lhe foram feitos, nem has provizoens de taal couza nom se concedaram, nem passaram em seu tempo, nem dos Papas Clemente V e Benito XI seus Predecessores, cujos registros pera moor justificaçam desto mandara com deligencia buscar, e porèm que ha todos por muitas, e booas cauzas, que apontou, encomendava que por serviço de Deos, e por boom asecego do Regno procurassem antre todos paaz, e amizade, e concordia, como era rezaõ, ha quaal Bulla ElRei por sua limpeza mandou mostrar aho Ifante, e assi publicar em sua caza, e por todolos Lugares principaaes do Regno, ha que hos poovos respondiam conformes aa verdade, de que se tiraram estormentos pera limpeza delRei, e do Regno.

CAPITULO XXII

_Como o Ifante se partio de Coimbra pera Lixboa, e do que lhe aconteceo com ElRei no caminho._