# Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. I)

## Part 2

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Ha quem ElRei D. Pedro com escuzas coradas das couzas passadas se mandou defender em Roma por seus Embaixadores, hos quaes por guanharem tempo, e escuzarem ha ida dos Francezes sobre Cezilia, porque estavam muito poderosos concordáram em nome delRei D. Pedro por juramentos solenes, que ha contenda desse Reino se partisse por desafio dambos hos Reis em pessoas, e com cem Cavalleiros cada hum sôomente, e que fosse em Bordeos, que ha esse tempo era delRei Dingraterra, e que aho Rei vencedor fiquasse livremente, e sem contradiçam ho dito Reino de Cezilia, do que ElRei Carlo foi mui contente, para concordarem ho desafio, e ElRei D. Pedro deixou Guovernador, e como Rei de Cezilia ElRei D. James seu filho, e veose Araguam, e Carlo para regimento, e defençam deixou tambem seu filho Carlo Principe de Salerno, e passou em França, para cada hum com suas valias, que levavam por segurança do campo irem comprir ho desafio para que era assinado dia certo no mez de Junho, ho qual dia Carlo pareceo em Bordeos com hos seus Cavalleiros armados, deixando a huma jornada ElRei Felippe de França cõ grande seu exercito por segurador.

Mas ElRei D. Pedro nom pareceo pubriquo em Bordeos, e porém se diz, que por nom quebrar ho juramento que fizera, se mostrou ahi a alguns em secreto, e que de como parecera tomou por sua escuza estormentos, se volveo ha seu Reino com grande pressa, e por este enguano de que ElRei de França, e Carlo seu tio, e ho Papa juntamente foram muito escandalisados, ho Papa escommungou ElRei D. Pedro, e deu contra elle Cruzada, e concedeo o Reino Daraguam com grande solenidade, e com grande doaçam ha Felippe Conde de Valois, segundo genito delRei Felippe de França, que cazou com huma neta delRei D. Carlo seu tio Principe de Salerno. E neste tempo antes de se executar ha Cruzada contra ElRei D. Pedro, hum Rogerio Delora, Almirante delRei D. Pedro com grande frota se foi á vista de Napoles, onde Carlo filho delRei Carlo fiquara por Guovernador, ho qual por seu mui riquo sangue de que descendia nom podendo sofrer has muitas injurias que do Almirante Daraguam em sua pessoa recebera, guiado mais do favor de seu esforço, que do verdadeiro sizo, nem dos preceitos de seu pai, que nom guardou, sahio com sua frota, que tambem consiguo tinha, e pelejou no maar com ho Almirante, ho qual por ser de si mesmo tam afouto, e nas pelejas do maar mui afortunado venceo, e prendeo Carlo com muitos homens de sua companhia, e prezo com hos seus, loguo foram levados ha Cezilia, e postos em carcere em Mecina.

Aho qual infortunio de Carlo, ElRei Carlo seu pai querendo proverse se foi ha Guaieta, e porque com effeito nom podia seu dezejo satisfazer, de nojo adoeceo, e segundo se diz morreu de tristeza, pelo qual hos de Mecina, porque eram por este caso apertados pelo Papa com grandes escõmunhões, e antreditos sabendo ha morte delRei Carlo por mais sua vinguança se foram ahos carceres, onde estavam hos Francezes para hos matarem, e porque hos prezos eram homens, e bons Cavalleiros se poseram em defençam, e resistencia, e foram dos Cezilianos nos mesmos carceres mortos sem piedade, e queimados, e assi quizeram fazer aho Principe Carlo, se ha Rainha Dona Costança molher delRei D. Pedro, que ha esse tempo era em Cezilia lhe nom valera, porque estranhou fazerse tam crua justiça, sem mandado, nem autoridade delRei D. Pedro seu marido, dalli concordaram, que Carlo fosse levado prezo, como foi a Araguam, onde era, e avendo quatro annos, que ho dito Carlo era prezo depois da morte delRei D. Pedro, Reinando em Araguam ElRei D. Affonso seu filho, foi por meio delRei D. Duarte Dingraterra solto sobre ha refens, que Carlo deu de tres filhos seus legitimos, e sinquoenta Cavalleiros nobres do Condado de Proença, e pelas despezas trinta marquos de prata, com condiçaõ, que elle renunciase ho direito que tinha em Cezilia, e fizesse renunciar ha Carlo de Valois ho direito que ho Papa lhe dera em Araguam.

E por esto, e por cazamentos que depois antre elles se fizeram fiquou ahos Reis Daraguam ho direito no Reino de Cezilia; como quer que sobre esta mesma contenda antes de se fazer ha mesma concordia ElRei Felippe de França, e este Rei D. Pedro Daraguam faleceram ambos sobre ho cerquo de Girona, ha saber, ElRei de França por doença, e ElRei D. Pedro por dezemparo, e treição dos seus, foi morto ha ferro, como nas Coronicas de Frãça, e Daraguam mais larguamente se decrara. E deste Rei D. Pedro Daraguam, e da Rainha Dona Costança sua molher fiquaram estes filhos, ha saber D. Affonso filho primeiro ha que disseraõ ho Casto, que apoz este Reinou, e sem cazar morreo Frade no abito de S. Francisquo, e D. James ha que fiquou ho Reino de Cezilia, depois que elle foi Rei Daraguam, e Dona Violante, que depois cazou com ElRei Carlo, irmam de S. Luis Bispo de Toloza, e Dona Isabel molher delRei D. Diniz de Portugual.

E tornando ho processo aho fio de seu cazamento, que atraaz leixeei aho tempo, que este cazamento se fez em Araguam, eram grandes guerras, e differenças em Castella, antre ElRei D. Affonso ho decimo e ho Ifante D. Sancho, seu filho, cuja parte ElRei D. Pedro Daraguam favorecia, e siguia, e por este caso receando enviar sua filha por terra ha seu marido ElRei D. Diniz, ordenava que viesse por maar, mas por outros pejos que da vinda do maar se offereciam, ordenou de toda via vir por terra, e em sua companhia enviou ho Bispo de Valença, e muitos outros Cavalleiros dos milhores de sua terra, e lhe deu mui riquas joias douro, e de pedraria, e grande baixella de prata, e com ella veo tambem ElRei seu padre atée ho estremo de Castella, onde ante de se espedirem falaram ambos apartados por grande espaço, e em se espedindo ElRei della, elle com olhos cheos de mui saudosas lagrimas lhe dice.

_Filha, Deos que te chamou pera este cazamento, e lhe prouve que de minha caza saisses Rainha, elle neste caminho te queira guardar, pera que nom recebas pejo, nem dano algum, e Deos que na terra onde nasceste te amou, e quis que de todos sempre fosses amada, enderessa tua vida, e teus feitos nessa pera onde vaaz de maneira que sempre faças couzas de seu santo serviço, e te dèe sempre avença, e boa concordia com teu marido_.

E com esto soltando-a dos braços com que ha teve apertada, chorando lhe deitou ha bençam de Deos, e ha sua, e assi se despedio della com sinaes de muito saudoso, e como entrou em Castella, veo ha recebella aho caminho, ho dito Ifante D. Sancho, seu primo com irmão, porque fora filho da Rainha Dona Violante molher delRei D. Affonso de Castella, que era mãa delRei D. Pedro Daraguam, e do dito Ifante D. Sancho de que ha Rainha Dona Isabel, e todolos de sua companhia receberam muita honra, e boom trato, e ho Ifante lhe dice: _Senhora ElRei vosso padre meu tio, em minhas necessidades me fez sempre tanto favor, e me deu tam grandes ajudas, que por esso, e principalmente por quem vós sois, eu com boa vontade atèe Portugual fora com vosquo, mas por estas guerras em que ando, que hee necessario que sempre proveja com minha pessoa, ho nom posso aguora fazer, e peço-vos que desta culpa me releveis, e sabei que pera has cousas de vossa honra, e serviço sempre me achareis deligente, e muito aguardecido, mas eu enviarei com vosquo ho Ifante D. Jarnes meu irmaõ, que vos acompanhe_.

E assi proseguiram sua viagem atée cheguarem ha Braguança, onde sua entrada fora concordada, e alli eram jáa, que esperavam por ella ho Ifante D. Affonso, irmaõ legitimo delRei D. Diniz, e ho Conde D. Guonçalo, cazado com Dona Lionor, tambem sua irmãa, filha bastarda delRei D. Affonso Conde de Bolonha, e assi outros Perlados, e riquos homens do Reino de Potugual, e dalli se despedio delia ho Ifante D. James, e se tornou pera Castella, e ho Ifante D. Affonso, e hos Perlados, e Senhores de Portugual trouxerao ha Rainha ha Tranquozo, onde veo ElRei D. Diniz, e ha recebeo em pessoa, e depois de feitas suas benções ordenadas pela Egreja, fizeram alli vodas com mui grandes festas, e com mui grandes alegrias no mez Daguosto do anno de mil duzentos oitenta e dous annos,(1282.) pera ho que no campo de Tranquozo se fizeram grandes, e custozas cazas, e ElRei se partio dalli com ella, e lhe ordenou loguo caza, e deu seus officiaes, terras, e assentamento segundo ha sua honra, e estado compria.

E esta Rainha Dona Isabel posto que por obediencia, e mandado delRei seu padre, e por necessidade de bem, e paz destes Reinos, fosse corporalmente cazada com ElRei D. Diniz ha que tinha grande amor, ella porém com todalas obras, e sinaes de mui Santa, nom leixava espiritualmente de ser cazada com Deos, ha quem com tanta abstinencia, e continuas orações sempre servia, e contemplava como sempre fizera, sendo donzella em caza delRei Daraguam seu padre, porque sendo cazada, por hum Breviairo por devoto costume, tinha por seu desenfadamento mais familiar, em todolos dias rezava todolas oras Canonicas, e depois desso tomava outros livros de couzas espirituaes, e devotas, e por elles lendo retraida muitas vezes com muitas lagrimas de devaçam ha viram chorar, e depois deste virtuoso officio, que cada dia ordenadamente tinha, por nom estar ocioza custumava por suas mãos lavrar, e fazer cousas douro, seda, e prata, e sobresso com suas donas, e donzellas praticava sempre em cousas devotas, e onestas, e porque sua fée fosse por obras mais prefeita, e de moormerecimento, ella ha moor parte de suas rendas dava secretamente ha pessoas miseraveis em que sabia, que avia verguonhozas necessidades, e ha estas era tam liberal, e piedoza, e com tam limpo coração, e tam graciozo rosto lhe dava ho seu, que por ella mui verdadeiramente se dizia, que das viuvas, e orfans era piiedoza madre; e ella foi sempre em todas suas averssidades, e descontentamentos, que lhe socediam, mui armada de paciencia, porque nella nunqua foi conhecida ira, nem sanha, huma ora mais que outra, e has vinguanças, que tomava dos males, e descontentamentos que dalguem recebia, eram graciosos perdões sem querer tomar per si, nem por outrem alguma outra emenda.

Era em suas palavras mui mansa, e em suas obras mui conforme ha toda humildade, sem algum alevantamento de soberba, de maneira, que a graça do Espirito Santo, de que era aceza de todo, causava em sua alma hum louvado assosseguo, e grande devaçam, com que hos dias que ha Egreja mandava guardar ella sem quebra dalgum hos jejuava todos ha conduto, sem comer mais que huma sóo vez, e alem desso fazia jejuns de paõ, e aguoa todalas sestas feiras do anno, e Vesperas dos dias de N. Senhora, e sobresso em toda huma quarentena, que vem em cada hum anno de S. Joaõ Baptista, atèe Sãta Maria Dagosto, e atèe ho S. Miguel, e outra quoresma dos Anjos, que hee des ho dia de N. Senhora Dagosto, e assi de dia de todolos Santos atée Vespera de Natal nom comia, nem bebia se nom paõ, e aguoa huma sóo vez no dia, de maneira que fazia este tam aspero jejum has duas partes do anno, e assi teve outras muitas, e mui singulares virtudes, com que pareceo que venceo suas forças humanas, e por ellas aprouve ha N. Senhor fazer em sua vida muitos milagres, e depois de sua morte muitos mais, e dos de sua vida segundo achei por inquirições de testemunhas dinas de fée, e mui autorizadas foi, que em Lisboa ha veo ver huma dona do Moesteiro Dodivelas, que por huma apostemaçam, e inchaço que tinha no estamago, era muito doente, e desposta ha morte, e ha Rainha aho espedir della lha vio, e benzeo com ho sinal da Cruz com que no Moesteiro se achou loguo assi sam, como se daquelle mál nunqua fora toquada.

E porque esta dona ha todos ho proviquava por milagre, ha Rainha ha mandou chamar, e reprendeo-à, e lhe mandou, que mais ho nom dicesse, porque se algum bem recebera nom fora de sua maõ, nem della, que era peccadora, mas sóo da virtude de Deos, que ho louvasse. E esta Rainha por sinal da sua humildade custumava em todas has sestas feiras da quoresma lavar por si hos pées ha doze homens, hos mais leprozos, que se podiaõ achar, e esto fazia assi secretamente que ElRei particularmente ho nom soubesse, e estando em Santarem depois, que hum dia fez este lavatorio, mandou dar bem de comer ahos pobres, como sempre fazia, e em se elles saindo escuzos do Paço acertouse, que hum porteiro com sanha deu ha hum cuidando que era outro homem, tal golpe na cabeça de que loguo cahio em terra asaaz ferido, e huma dona, que esto vio, recolheo ho pobre em sua caza onde loguo ha Rainha ho foi ver, e depois de ho curar por sua mam, e lhe dar dinheiro pera sua despeza se despedio, e aho outro dia que mandou saber de sua disposiçam acharaõ no de todo saõ.

E na Semana Santa, na Quinta feira de Lava pées, em lavando ha treze molheres pobres enverguonhadas, huma dellas acertou, que tinha hum pée comesto de pragua, e dous dedos afistolados, que estavam para cair, depois que ha Rainha lhe lavou ho são, ella escondia ho doente, e escuzandose por seu mal de ho querer mostrar, forçada dos roguos, e despejos da Rainha, lho mostrou, e nom sóomente lho lavou mansamente, mas humildosamente lho beijou na propria chagua, e depois que ha todos deu de comer, e vestir, como tinha por costume, em se saindo do Paço aquella molher doente indo na companhia das outras se achou de todo sam. E huma Orraqua Vasques molher da Rainha, era de muitos tempos doente de tal dor, que cahia amortecida, e com tormentos, que lhe davaõ escassamente, e com difficuldade ha faziam retornar à vida, e sabendo ha Rainha, que has muitas meizinhas, e remedios dos Fisiquos lhe nom aproveitavam, ella no dia de sua paixam ha benzeo cõ ho sinal da Cruz, e aprouve ha Deos, que loguo acordou, e depois foi sempre em sua vida livre de taes acidentes. Estando ha Rainha era Alamquer muito doente de humores frios pera que hos Fisiquos por meizinha lhe mandavam beber vinho no puquaro porque bebia, ella ho nom quiz fazer, trazendolhe aguoa pera ella beber milagrosamente se tornou duas vezes vinho no puquaro porque bebia. Estes, e outros milagres muitos se achaõ, que N. Senhor pelos merecimentos desta Santa Rainha fez em soa vida, e muitos mais depois de sua morte, de que aho diante por sua devaçam, e louvor darei alguma particular, e breve conta.

*CAPITULO III*

_Do fundamento, e cousas, que ouve pera ElRei D. Diniz aver alguas Villas, e Castellos de riba Dodiana, que foraõ de Castella_.

Aho tempo que ElRei D. Affonso Conde de Bolonha faleceo, e depois em alguns primeiros annos do Reinado delRei D. Diniz, ElRei D. Affonso de Castella, seu avoo atée hos derradeiros dias de sua vida, sempre foi perseguido de grandes guerras, e muitas necessidades, causadas pela errada desobediencia, e desleal alevantamento, que o Ifante D. Sãcho seu filho, e hos do Reino de Castella, e de Liam contra elle usavam, pelo qual ha Rainha D. Breatiz sua filha, como Rainha virtuosa, e aguardecida filha mui piedosa, e por lhe paguar em alguma maneira has dividas, que por obriguaçam Divina, e humana lhe devia, loguo como ElRei D. Diniz seu filho foi cazado, foi ha ElRei D. Affonso seu pai, que estava em Sevilha, pera em tantas suas aversidades, e infortunios, como padecia, ella ho soccorrer, e confortar, e aconselhar, sem o nunqua leixar atée ora da morte delRei, ha que ella foi prezente, e cuja testementeira principal com outro fiquou, e porque ella lhe soccorreo com todo ho dinheiro de sua fazenda, e com todolas joias de sua pessoa, e com todalas rendas, e gentes, que tinha, e podia aver de Portugual, pelo qual neste meio ElRei D. Affonso pelo grande amor, que tinha á Rainha sua filha, como jáa dice, e por lhe satisfazer has boas obras, que della recebera fez ha ella especial doaçam da Villa de Niebla, que hee em Andaluzia ha que chamam Reino, com todolos Castellos, e rendas que ha ella pertencem, e assi lhe fez mais doaçam das Villas de Serpa, Moura, e Mouram, Noudar, que saõ em riba Dodiana, por carta que foi dada em Sevilha quinta feira quatro dias de Março do anno de mil duzentos trinta e tres annos. (1233)

E porque Moura, e Serpa, e Mouram eraõ da Ordem do Esprital de S. Joaõ de Castella ho dito Rei D. Affonso pera milhor, e mais livremente poder dar has ditas Villas á dita Rainha sua filha, por serem conjuntas aho dito Reino de Portugual ante algum tempo, que se fizesse ha dita doaçam elle por autoridade, que se ouve do Gram Mestre, e por consentimento do Prior, e Freires da dita Ordem em Castella fez com elles escaibo das ditas Villas pera lhe fiquarem livres, e por ellas deu em Castella pera fiquarem á dita Ordem pera sempre Touro, e ha Egreja de Santa Maria da Veiga, e hos direitos de Cairola e has Martineguas, e direitos de Guaronha, e de Feerne, e de Paralyves, com outros Luguares, e outras muitas rendas, e direitos, que saõ expressamente decrarados, ho qual escaibo ante da doaçam se fez por carta feita em Santo Estevam de Guormas, terça feira onze dias de Março de mil duzentos oitenta e hum annos (1281) sobescrita por Guarda de Toledo, Secratairo, ha qual doaçam destas Villas ElRei D. Affonso antes tres annos, que falecesse, fez á Rainha Dona Breatiz sua filha. Depois da morte delRei D. Affonso Conde de Bolonha seu marido, em Reinãdo ElRei D. Diniz, como atraas dice, e por virtude destas doações ElRei D. Diniz tinha aquerido ho direito destas Villas, que por El Rei D. Sancho de Castella seu tio, e por ElRei D. Fernando seu filho lhe foram empedidas, e embarguadas, como aho diante direi.

*CAPITULO IV*

_Dos filhos legitimos, que ElRei D. Diniz ouve da Rainha D. Isabel, e assi doutros bastardos_.

ElRei D. Diniz sendo cazado com muito amor, e concordia com ha Rainha D. Isabel, ouve della estes filhos, ha saber, ha Rainha Dona Costança molher que foi delRei D. Fernando deste nome ho Terceiro de Castella, de que aho diante direi, e ho Ifante D. Affonso filho erdeiro delRei D. Diniz, que apoz elle Reinou, ho qual nasceo em Coimbra ha oito dias do mez de Fevereiro de mil duzentos e noventa, (1290) de que aho diante em sua propria Coronica farei inteira decraraçam. E alem destes filhos legitimos, ElRei D. Diniz sendo cazado, ouve doutras molheres com que teve afeiçam sete filhos, e filhas bastardos, cada hum dos quaes foi filho de huma madre, ha saber D. Affonso Sanches, que se chamou Dalbuquerque, ha que ElRei D. Diniz quiz grande bem, e por quem o Ifante D. Affonso foi com seu pai em grandes desvairos, como aho diante direi, e D. Pedro que foi depois cazado com Dona Branqua, filha de Pedre Annes de Portel, filho de D. Joaõ de Boim, e de Dona Costança Mendes, filha de D. Mem Guarcia de Souza, e outro D. Pedro, que depois foi Conde em Portugual, este foi ho que fez ho livro das linhagens Despanha, e foi singular homem, e D. Joaõ Affonso, e D. Fernam Sanches, e Dona Maria, que cazou com D. Joaõ de Lacerda, e outra Dona Maria, que foi Monia no Moesteiro Dodivellas.

Hos quais filhos bastardos ElRei D. Diniz assi ouve, vencido da sobeja deleitaçam de sua propria carne, com que afastandose da Rainha sua molher nom lhe guardando ha inteira lei do matrimonio, seguia por indusimentos falsos, e máos, ha que se inclinava mais por sua vontade, do que sua dinidade Real, e por sua consciencia, e onestidade, sobresso devia, e por culpa, e peccado desso se diz, que em quanto ElRei D. Diniz se deu ha estes apetitos nom licitos, sempre decrinaram has cousas da justiça, que muito amou, e boa guovernança de sua caza, e fazenda, que sobre todos soia melhor ter, e ha Rainha posto, que neste tempo era em idade, e feições, e desposiçam pera ElRei se della muito contentar, e ella dever sentir hos taes apartamentos, e solturas delRei, porém se diz, que ella nom mostrava receber por esso paixam, nem escandalo algum, antes como esquecida, e nom toquada de dores, e paixões tam comuas ha molheres, nom perdia ha devaçam, e exercicio de rezar, e encomendarse ha Deos, e de partir alegremente com suas molheres em cousas honestas, e de serviço de Deos, e sobre esto fazia ho que parecia mais duro, e menos pera fazer, que era dar de vestir às amas, que criavam hos taes filhos delRei, e fazer, e procurar merces ahos aios, que hos ensinavam.

E estas virtudes pera outras molheres nom costumadas, vendo-as fazer tam sem paixam á Rainha sendo mui moça, cauzavam ha todas mui grande maravilha, mas ElRei D. Diniz averguonhado destas suas fraquezas, e temendo ha Deos pór emenda de sua justiça, e assi por apaguar nodas, que tanto danavam ha limpeza de sua Real dinidade, e singular condiçam se apartou dellas inteiramente, e com grande serenidade se privou de todos estes defeitos, e se poz no direito, e verdadeiro caminho, que devia, e sempre atée sua morte ho seguio, e guardou.

*CAPITULO V*

_Do desacordo, que ouve antre ElRei D. Diniz, e ho Ifante D. Affonso seu irmaõ_.

ElRei D. Diniz tinha hum irmaõ lidimo ho Ifante D. Affonso, filhos ambos delRei D. Affonso Conde de Bolonha, e da Rainha Dona Breatiz, e ha este Ifante D. Affonso fez ElRei seu pai doaçam mui solene das Villas de Portalegre, e Marvam; e de Castello Davide, e Darronches, pera elle, e seus filhos lidimos, ho qual Ifante em vida delRei seu padre, foi cazado com ha Ifante Dona Violante, filha do Ifante D. Manuel, filho delRei D. Fernando II de Castella, e da Ifante Dona Costança, filha do primeiro D. James Rei Daraguam, e ouve della hum filho D. Affonso, que foi senhor de Leiria, e faleceo sem filhos, e ouve mais tres filhas, Dona Isabel, e Dona Costança, e Dona Maria, que todas cazaram grandemente em Castella, ha saber Dona Isabel cazou com D. Joaõ ho torto, filho do Ifante D. Joaõ, que se chamou Rei de Liam, que morreo na Veigua de Grada, e de Dona Maria sua molher, filha do Conde D. Lopo, senhor do Bisquaia, e Dona Costança cazou com D. Nuno Guonçalves de Lara, filho de D. Joaõ Nunes de Lara, ha que diceram ho Bom. Estes nom ouveram filhos, e Dona Maria cazou com D. Tello, filho do Ifante D. Affonso de Molina irmaõ da Rainha Dona Maria molher delRei D. Sancho, e ouveram Dona Isabel, que cazou com D. Joaõ Affonso Dalbuquerque neto delRei D. Diniz, filho de Affonso Sanches, seu filho bastardo.

E avendo jáa sinquo annos, que ElRei D. Diniz era cazado, e sete que Reinava, ouve grande desacordo antre elle, e ho Ifante D. Affonso seu irmaõ, e ha cauza principal, era porque ElRei D. Diniz nom queria, nem nunqua quiz legitimar, e abilitar has filhas do Ifante D. Affonso pera erdarem suas Villas, e Castellos de Portugual depois de sua morte, sobre que ha Rainha Dona Isabel molher delRei D. Diniz, e ho Ifante D. Affonso seu filho erdeiro, sendo ha esso ambos conformes fizeram solenes protestações, e requerimetos pera esta abilitaçam, e legitimaçaõ nunqua se fazer por ElRei, nem pelo Papa, aleguando muitos inconvenientes se se fizesse, e ouvesse efeito, e ho principal era ha grande deminuiçam, e perda que seria do Reino, e Coroa de Portugual se has sobreditas Villas, e Castellos, estando no estremo de Portugual, passassem com suas filhas do Ifante, que eram cazadas com homens grandes, e poderosos de Castella, e ainda se diz, que avia receo do Ifante, que pubriquamente dizia, que ho Reino de Portugual lhe pertencia, porque nacera lidimo depois da morte da Condeça de Bolonha primeira molher delRei seu padre, e que ElRei D. Diniz ainda nacera em sua vida della, e nom podia erdar, mas com este defeito era jáa despensado pelo Papa, como na Coronica delRei D. Affonso, Conde de Bolonha jáa dice.

