# Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. I)

## Part 1

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Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo

(VOLUME LXXI)

CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ

POR

RUY DE PINA

2.ª edição

VOL I

_ESCRIPTORIO_

147--RUA DOS RETROZEIROS--147

LISBOA

1912

BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

Proprietario e fundador

_MELLO D'AZEVEDO_

CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE DOM DINIZ

SEXTO REY DE PORTUGAL,

COMPOSTA

POR RUY DE PINA,

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.

FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL,

Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

OFFERECIDA

Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY

D. JOAÕ O V.

NOSSO SENHOR.

LISBOA OCCIDENTAL

Na Officina FERREYRIANA.

M.DCC.XXIX.

_Com todas as licenças necessarias_.

SENHOR

Aos Augustissimos pés de V. Magestade chega a minha obrigaçaõ a offerecer-lhe a Chronica do senhor Rei D. Diniz seu duodecimo Avô. Esta, Senhor, he a Historia de hum dos mais gloriosos Principes, que teve a Monarchia Portugueza, porque se fez taõ conhecido pela sua prudencia, que dous grandes Reis o elegeraõ por arbitro, e Juiz das contendas, que lhe perturbavaõ a paz de seus Vassallos, e foi taõ venturoso, que mereceo ter por Espoza uma Matrona, que pela grandeza das suas virtudes, e dos seus milagres a veneramos hoje coroada no Ceo. Se me fora licito passar dos limites de uma Dedicatoria, bem podia mostrar ao mundo a semelhãça do Neto com o Avô, mas bastarmeha dizer, que aquella virtude verdadeiramente de Principe, qual he a liberalidade, sendo por ella tam celebrado El-Rei D. Diniz, V. Magestade a tem praticado de sorte, que o deixa infinitamente excedido. A Real Pessoa de V. Magestade guarde Deos como seus vassallos lhe dezejaõ.

_Miguel Lopes Ferreira_

AO EXCELLENTISSIMO SENHOR *D. FRANCISCO XAVIER DE MENEZES*

Quarto Conde da Ericeira, do Conselho de Sua Magestade, Sargento mór de Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres Estados, Perpetuo Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de Anciaõ, oitavo Senhor da Caza do Louriçal, Commendador das Commendas de Santa Christina de Sarzedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Martinho de Frazaõ, S. Payo de Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S. Bertholameu de Covilhã todas na Ordem de Christo, Academico da Academia Real da Historia Portugueza, e um dos cinco Censores della, &c.

Meu Senhor, buscar o amparo de V. Excellencia he effeito da mais prudente rezaõ, porque na sua pessoa se achaõ todas aquellas circunstancias, que seguraõ a protecçaõ. He V. Excellencia taõ affavel, e taõ benigno para todos, que suavisa, e facilita com estes dotes aquelle justo temor que se acha nos que ao mesmo tempo, em que os anima o dezejo de conseguirem o que pretendem, os detem, e suspende a grandeza de quem procuraõ como valedor. Porém V. Excellencia de tal sorte he inclinado a favorecer aos que se valem do seu patrocinio, que lhes está offerecendo as occaziões de o occuparem, como se unicamente nacera para todos. Naõ fallo na excessiva generozidade, com que V. Excellencia faz publica para todo o genero de pessoas a sua copiozissima, e selectissima Livraria, beneficio, com que tem attrahido geralmente a todos. E porque eu Excellentissimo Senhor, sou hum daquelles que com mais frequencia, e com muita especialidade tenho recebido os favores de V. Excellencia tomo a confiança de lhe pedir queira pôr na Real presença de Sua Magestade esta Chronica delRei D. Diniz, porque desta sorte por meio de taõ illustre valedor ficará desculpado o meu atrevimento. A Excellentissima pessoa de V. Excellencia guarde Deos muitos annos.

B. as mãos de V. Excellencia

Seu criado

_*Miguel Lopes Ferreira*_

*PROLOGO*

AMIGO LEITOR

Aqui te dou na Chronica do Serenissimo Rei D. Diniz de Portugal outro argumento da palavra, que te empenhei quando te prometi dar impressas todas as Chronicas manuscriptas dos Reis deste Reino. Entre ellas era muito digna deste beneficio a delRei D. Diniz, porque sem duvida entre os Soberanos desta Monarchia mereceo elle hum lugar de maior distincçaõ. Aqui verás hum Principe taõ altamente respeitado, que pela sua grande prudencia foi o arbitro para o ajuste de pezadas contendas de dous Principes, o que conseguio com a dezejada felicidade, cujos documentos poderás ver na Sexta parte da Monarchia Lusitana, e em D. Diogo Jozè Dormes nos seus Discursos varios de Historia, impressos em Çaragoça em 1683, em quarto a folhas 135. Pelo seu conselho foi taõ venerado, como temido pela sua espada; com a qual entrou taõ felizmente pelas terras inimigas, que mais parecia triunfante, que combatente. Foi taõ venturoso, que mereceo ser Espozo da Rainha Santa Isabel, sendo tantos os pretendentes daquella Princesa, que parece que lhes prognosticavaõ os corações, que havia de ser a gloria da Monarchia, que a tivesse por Soberana. Tudo isto he a materia desta Chronica, que se a naõ achares escrita em estillo elegante, naõ ponhas a culpa ao Author, põe-na ao tempo, que tudo desfigura com as suas necessarias mudanças, porque he certo que os Reis de Portugal, que elegeraõ ou a Fernaõ Lopes, ou a Ruy de Pina para Chronistas móres deste Reino, haviaõ de eleger a huns homens, que fossem merecedores de taõ authorizada occupação pelas suas letras, e pela sua elegancia.

_Vale_.

*LICENÇAS*

DO SANTO OFFICIO

Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica delRei D. Diniz, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual naõ correrá. Lisboa Occidental 29 de Agosto de 1727.

_Fr. Lancastre. Cunha. Silva. Cabedo_.

DO ORDINARIO

Vista a informação pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual naõ correrá. Lisboa Occidental 9 de Outubro de 1727.

_D.J.A.L_.

DO PAÇO

SENHOR

Já na cençura da Chronica delRei D. Affonso III que V. Magestade foi servido commeter-me, disse, que a maior recomendaçaõ para o prelo, era o nome de seu Author. Nesta delRei D. Diniz, e nas mais facilmente se distinguirá o que for parto do entendimento de taõ grande Chronista, pois de alguns escritos se duvida serem seus. E sendo quem os ler juis recto, ficará ao arbitrio da sua prudente critica o exame da verdade delle: sendo sempre muito util que se imprimaõ por ser a lição das Historias estudo da maior utilidade, porque nellas se achaõ todos os principios da verdade, da prudencia, e da sabedoria. Isto mesmo me parece quanto ás Historias delRei D. Affonso o IV e delRei D. Duarte em que concorrem os mesmos motivos, por naõ multiplicar cençuras. V. Magestade mandará o que for servido. Lisboa Occidental 25 de Outubro de 1727.

_Manoel de Azevedo Soares_.

Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Officio, e Ordinario, e depois de impressa tornará á Meza para se conferir, e taxar, e dar licença que corra sem a qual naõ correrá. Lisboa Occidental 15 de Novembro de 1727.

_Pereira. Oliveira. Teixeira. Bonicho_.

* * * * *

Nec ut credatur omnibus numeris absolutü, aliud praeter nomé Authoris desideratur Augustinus de Castro apud. Sosors. incensur. Emblem.

Librorü Judex statim quicunque voluerit erit Rulãd. de cõmisl. 1 p.l 1 c. 13. Ex Dionisio Halicasnas. Rulãd. supr. c. 18. n. 5.

_Coronica do muito alto, e esclarecido Principe Dom Diniz sexto Rei de Portugual_.

*CAPITULO I*

_Como ElRei D. Diniz sendo Ifante, foi levantado por Rei, e obedecido, e das virtudes que teve_.

ElRei D. Affonso Conde que foi de Bolonha, faleceo em Lisboa ha vinte dias de Março do anno de mil e duzentos setenta e nove annos, (1279) em idade de setenta annos, como em sua Coronica jáa se dice, e por seu falecimento na mesma Cidade, e tempo foi loguo alevantado, e obedecido por Rei de Portugual, e do Alguarve ho Ifante D. Diniz seu filho legitimo maior, em idade de dezoito annos, avendo nove mezes, que sem ser cazado tinha jáa por ElRei sua caza apartada. Este foi do começo de seu Reinado atée ho fim delle sempre em todos seus feitos mui excellente, e por seu bom nome conhecido, e estimado por tal antre todolos Reis do mundo, que teve em perfeiçam tres virtudes, ha saber verdade, justiça, e nobreza, pelo qual hos homens que has tem, como elle teve, claramente sam avidos de humanos, por divinos, e de mortais por immortais; e porque cada uma destas elle fez com tal temperança, e assi sempre uzou, que em cada huma dellas mereceu de ser, e foi com rezam muito louvado, e na justiça foi o seu primeiro intento, e cuidado, e punições, da qual quiz loguo reparar alguns insultos, e desmandos, que dos tempos de seu padre, e avoo ainda avia no Reino, e principalmente em punir, e castigar ladrões, e malfeitores, que com merces, que dava, e deligencias, que fazia, aos que eram tomados punia com mortes, e grandes escarmentos, e a outros com seu temor, espantou, e desterrou da terra, especialmente hos que em quadrilhas em alguns ermos onde salteavam tomava, assi como na montanha que se diz de Açor, e na serra da Mendigua, e em Alpedris, que por suas culpas, e maleficios receberam em suas pessoas cruas penas, de que davam testemunho has muitas forcas do Reino que delles estavam cheas.

Foi Principe de bom saber; porque amou ha justiça sobre todalas cousas, e por esso foi para todos mui justiçoso, e para si sobre todos justiçado, e sua justiça nom era sempre tam severa, que quando alguns casos, e tempos ho requeriam nom misturasse com ella muita misericordia, e piedade. Nunqua delle se achou que dicesse mentira, nem quebra de sua verdade, e defendeo, e favoreceo muito hos lavradores, ha que chamou nervos da terra, e do Reino, e teve grande cuidado dos pobres, e minguados, ha que sempre proveo com suas ajudas, e esmolas, e nas cousas de sua fazenda, e caza foi sobre todos ho mais provido, e solicito, com que deu maravilhoso exemplo, para que em seu Reino todos ho fizesem, por esso se fez Rei de grandes tezouros, porque has gentes do Reino foram tambem em seu tempo mui riquas, e fez muitas leis por bem, e regimento da terra, e todas sem alguma quebra por si sempre guardou, e mandou inteiramente guardar, e foi Principe tam liberal sem algum vicio de prodigo, que por todalas terras elle por sua grande nobreza foi de todos mui celebrado, e lembrado, e por ella muitos Senhores de Nações diversas vinham á sua Corte pelo ver, e elle assi hos honrava, e tratava, e com suas grandes dadivas assi os despedia que da fama, e esperança, com que ha elle vinham, nom se achavaõ enganados, e ha todolos outros Fidalguos, e Senhores Estrangeiros, que por alguns casos tinham de sua ajuda emparo, e soccorro alguma necessidade, elle nunqua em seu Reino lho negou, e ha todos recebia com muita honra, e fez grandes merces.

E alguns destes foram ho Ifante D. Joaõ de Castella seu tio irmaõ da Rainha Dona Breatiz sua madre, e de D. Reymaõ de Cardona Daraguam, que desses Reinos de Castella, e Daraguam eram desterrados, e no de Portugual acolhidos, e tambem D. Joaõ Nunes de Lara, Senhor de Bisquaya, que ElRei D. Diniz teve prezo, e depois por grandeza ho soltou, e mandou poer em sua terra com muitas dadivas, e grandes merces que lhe fez, com que honradamente, e com muitos Cavalleiros ho soltou, e mandou poer em sua terra, como aho diante se dirá. Este Rei, porque sempre dezejou de fazer guerra ahos infiéis, e elle nom tinha terra, que jáa fosse de sua conquista trabalhava de lhe fazer continuadamente por maar com armadas, e frotas, que contra hos Mouros Dafriqua, e de Grada sempre trazia, e nunqua se acha que contra elles fizesse paz, nem lhe desse treguoas, e has mais cousas que em sua vida fez por acrescentar e enobrecer seu Reino, no cabo desta sua Coronica bremente ha somarei, porque verdadeiramente se saibaõ.

*CAPITULO II*

_Como ElRei D. Diniz cazou com Dona Isabel, filha delRei D. Pedro Daraguam, e da Rainha Dona Costança, e de suas grandes virtudes, e santidade_.

Sendo ElRei D. Diniz de vinte annos, idade asáas conveniente para casar, foi aconselhado da Rainha Dona Breatiz sua madre, e assi requerido por parte do Reino de Portugual, que cazasse para teer esperança de lhe dar Deos erdeiro legitimo, que ho succedesse, e loguo lhe foi apontado na Ifante Dona Isabel Daraguam, que estava por cazar filha del Rei D. Pedro deste nome ho IV, e dos Reis Daraguam houndecimo, e da Rainha Dona Costança, filha de Manfreu Rei dambas has Cezilias, que fora filho do Emparador Federiquo, ha qual Ifante Dona Isabel por suas muitas bondades, e grande fremosura era nas Cortes dos Reis, e Principes Christãos muito louvada, e por esso se requeria delles grandes, e mui altos cazamentos, no que ElRei D. Pedro seu pai nom podia consentir vencido sóomente de grande affeiçam, que lhe tinha, com que nom podia padecer ha privaçam de sua santa conversaçam, e da graciosa prezença de sua vista, e sendo ElRei D. Diniz por estes respeitos della muito contente, estando em Estremoz no anno de mil duzentos oitenta e hum annos, (1281) avendo dous annos que jáa reinava, ordenou seus Embaixadores, e Procuradores para hirem requerer ha dita Ifante D. Isabel; Joaõ Velho, Vasquo Pires, e Joaõ Martins, homens de seu Concelho, e pessoas acerqua delle, de grande autoridade, e boa estima, hos quaes chegaram á Corte delRei Daraguam, que estava em Barcelona, onde sobre ho mesmo caso se acertaram outros Embaixadores delRei de Frãça, e delRei de Ingraterra, que para cazamentos de seus filhos erdeiros enviavam requerer a dita Ifante.

Pelo que ElRei D. Pedro vendo que algumas destes Principes jáa se nom podia escuzar consirando, que com ho filhos delRei de Frãça, e de Ingraterra pelos muito conjunctos dividos de sangue, que com elles tinha, elle sem dispensação Apostoliqua a nom podia dividamente cazar, e que em caso que com cada hum delles cazasse nom saia de sua caza Rainha, mas Ifante, ouve por bem de outorgar, que cazasse com ElRei D. Diniz, porque sem mais longuas esperanças, ella fosse logo Rainha. Pelo qual ho dito Joaõ Velho, que dos sobreditos Procuradores era pessoa para esso especialmente deputada, recebeo ha dita Ifante por molher delRei D. Diniz, e depois de assinarem tempo certo em que avia de ser trazida, hos Embaixadores se tornaram ha Portugual, e porque antre hos grandes guostos, e muitos proveitos das Estorias, ha declaraçam verdadeira das linhagens, e descendencias dos Principes, e Senhores consegue ho mais pequeno, e vejo que hos Istoriquos, que dos Reis, e seus feitos, que eram prezentes escreveram elles, porque semilhantes declarações de gerações serem ha estes tempos rezentes pubriquas, e mui notorias, has calaram, e nom escreveram, e por esso aho diante por ha longura do tempo, e has fraquezas das memorias se cauzam duvidas, e confuzoens, que muito descontentam.

Por tanto nom sóomente nom pareceo couza injusta mas mui necessaria declarar algum tanto de mais longe ha geraçam de que esta Rainha Dona Isabel descende, e com que geraçoens Reaes foi liada. Porque he de saber, que ElRei D. Pedro deste nome ho terceiro, e dos Reis Daraguam ho noveno, cazou com ha Rainha Dona Maria, filha de D. Guilhemo de Mompilher de que ouve hum filho, que ho socedeo dito D. James deste nome o primeiro, e dos Reis Daraguam ho decimo, este D. James, como nas Coronicas Daraguam se affirma, foi concebido ha caso, e seu nome posto por milagre, porque ElRei D. Pedro por sua natural condiçam, ou por seu vicio era muito dado ás molheres estranhas, e muito pouquo á Rainha sua molher, ha que por consentimento de hum Camareiro delRei escondida, e mui secretamente se lançou de noite na cama delRei em luguar de huma moça, com que elle tinha affeiçam, e aquella noite concebeo do marido, e conhecida por ElRei, que do caso foi enverguonhado, ella se nom quiz alevantar da cama atée ho outro dia mui claro em que de muitas gentes se fez alli vir conhecer, e daquelle proprio dia de que mandou tornar pubriquos testemunhos ha nove mezes pario hum filho, com que ElRei ouve muito prazer, e por devaçam, e mais segurança de sua vida, mandou loguo offerecer ho menino ha huma Egreja, e encomendallo ha Deos.

Preguntando ElRei pelo Officio, ou Psalmos, que se rezevam aho entrar della, foi certifiquado, que a este tempo hos Sacerdotes cantavam _Te Deum laudamus_, e daquella primeira Egreja ho mandou levar ha outra segunda, onde pela mesma maneira soube, que aho entrar della com ho menino se dizia _Benedictus Dominus Deus Israel_, e sendo ambos pai, e mãi em consulta do nome, que lhe poriam, ha Rainha sua madre dice, que sua vontade, e devaçam era parindo filho, que ouvesse ho nome de cada hum dos doze Apostolos, e para esso mandou loguo fazer doze cadeas de cera por igual medida, e pezo, e em cada hua hum escrito, e em cada hum escrito ho nome de cada hu dos doze Apostolos, e com ellas juntas, e ha hum proprio momento acezas mandou dizer huma Missa solene do Espirito Santo, e no cabo della has candèas todas arderam, salvo ha que em nome de San-Tiaguo foi posta, que fiquou mais inteira, e por esso no seu nome de James, foi loguo cazado com ha Rainha Dona Lionor, filha delRei D. Affonso deste nome ho noveno de Castella, irmãa da Rainha Dona Orraqua de Portugual, de que ouve hum filho D. Affonso, que faleceo, e foram ambos depois pela Egreja apartados, e depois elle cazou com ha Rainha Dona Violante, filha que foi de D. André Rei Dumgria, de que ouve estes filhos ha saber: D. Pedro, que apoz elle Reinou em Araguam, e D. James, que foi Rei de Malhorqua, e Menorqua, e D. Sancho que foi Arcebispo de Toledo, e foi morto em huma batalha em Andaluzia, que ouve com hos Mouros, e Dona Costança, que foi cazada com ho Ifante D. Manoel de Castella avoo da Ifante D. Costança, molher, que foi delRei D. Pedro de Portugual, e D. Violante, que cazou com ElRei D. Affonso ho decimo de Castella, avoo delRei D. Diniz de Portugual, e Dona Isabel, que cazou com D. Filippe Rei de França, filho e erdeiro delRei S. Luís.

E este Rei D. James foi ho que tomou segunda vez Valença Daraguam ahos Mouros por cerquo, e força, porque da primeira vez, que por ho Cide Ruy Dias foi tomada, elles Mouros no proprio tempo de sua morte ha tornaram ha cobrar, e atée este Rei ha tiveram. E este Rei D. James depois de muito velho, e nom podendo jáa sofrer ho pezo, e carreguo do regimento de seu Reino fez alevãtar, e obedecer por Rei aho Ifante D. Pedro seu filho, e elle meteose Monge no Moesteiro de Santa Cruz, de Monges branquos, onde jáas sepultado.

Este Rei D. Pedro seu filho deste nome ho quarto, e dos Reis Daraguam ho onzeno, contra vontade de seu pai cazou cõ Dona Costança, filha delRei Manfreu, que foi dambas as Cezilias, filho bastardo de Federiquo II Emparador Dalamanha, e Rei de Cezilia, e de Napoles, que foi Erege, e máo homem, e cruel, e perseguidor da Egreja, assi como fora seu avoo, ho outro Federiquo, que diceraõ Barbarroxa, ho qual Emparador Federiquo II, sendo doente em Fruelmela Luguar do Reino Dapulha por consentimento de hum seu Camareiro foi afoguado, e morto por este seu filho Manfreu, que se chamava Principe de Tarento, para loguo aver como ouve, seus tezouros, que eram mai grandes, e esta abominavel maldade fez por tal que em algum testamento, que o pai podera fazer, nom despozesse de suas riquezas ho contrairo do que dezejava.

E deste Emparador fiquou hum filho legitimo, que chamavam Conrado, que era em Alemanha, e vindo para Nopeles de Cezilia, que direitamente lhe pertencia tambem Manfreu seu irmaõ em hum pastel ho fez matar com peçonha, e deste Conrado fiquára hum filho menino erdeiro dito Conradino, que em mistura de certos prezentes, e joias tambem seu tio ho quizera matar cõ peçonha, mas ha Rainha mãi do menino como mui prudente, e receosa das manhas de Manfreu aprezentou em luguar do filho outro menino em tudo conforme, que por elle loguo morreo, ho qual Manfreu por morte de Conrado seu irmaõ com has muitas riquezas, que tinha occupou loguo, e ouve o Reino de Cezilia, que sendo sobre esso pelo Papa Alexandre escommunguado, e perseguido com exercito para que deixasse ho Reino, elle por sua ajuda meteo em Italia muitos Mouros de Tunes, e Dafriqua cõ que desbaratou ha gente do Papa, e fez em Italia grandes destroições, e levou della grandes despojos.

Pelo qual ho Papa Urbano IV, enviou em França chamar ha Carlo irmaõ delRei S. Luis ha quem fez Alferes da Egreja, e lhe deu hos Reinos de Napoles, e de Cezilia, porque os cobrasse de Manfreu, que tiranamente hos usurpava, e Carlo ajuntou muita gente, e com ajuda do Papa ouve batalha com Manfreu junto de Benavente em Italia onde ho dito Manfreu foi morto, de que hos Reinos de Cezilia, e de Napoles fiquaram loguo pacifiquos ha Carlo, especialmente, que depois da morte de Manfreu tambem Carlo matou em outra batalha ho Conradino neto de Federiquo, ho que Manfreu quizera nas joias matar, porque com grande exercito veo contra Carlo para cobrar hos Reinos que dizia lhe pertencerem de direito, e na contenda foi morto, e sendo Carlo nessa posse dambos hos Reinos sobreveo, que por quãto hos Francezes tratavaõ has gentes de Cezilia com inhumanos roubos, e cruezas, e desprezos, desonestidades, dissoluções: elles todos de que ha Cidade de Palermo, foi ho principio, indinados contra hos Francezes sendo jáa para esso secretamente exortados, e favorecidos delRei D. Pedro Daraguam, em hum dia hos mataram todos, e para vinguança desta rebeliam, e mortindade dos seus, ElRei Carlo, que nom era em Cezilia ajudado de grandes potencias veo ha Cezillia, e cerquou estreitamente ha Cidade de Mecina, que loguo com has outras Cidades da Ilha enviaram pedir soccorro aho dito Rei D. Pedro, ha quem pediam amparo, e ajuda, e por esso lhe offereceram ha entregua do Reino, que diziam lhe pertencer direitamente pela Rainha D. Costança sua molher, filha do dito Rei Manfreu, de que nom fiquara outro erdeiro legitimo, que o socedesse.

Por cujas preces, e requerimentos, commovido ElRei, D. Pedro, principalmente por cobrar o Reino de Cezilia, que lhofereciaõ, elle com grandes frotas veo loguo ha Palermo onde recebeo ha obediencia, e Coroa do Reino, e dahi ordenou loguo descerquar Mecina em cuja perda se ha perdesse, toda Cezilia se perdia, primeiro mandou requerer ha ElRei Carlo, que se partisse, e lhe deixasse seu Reino, que por sua molher direitamente lhe pertencia, ho que Carlo desprezou, como ha Embaixada, e requerimento de grande soberba, e porém com medo delRei D. Pedro, que pelo maar, era muito mais poderoso, receoso de lhe colher hos mantimentos para seu exercito, deixou ho cerquo de Macina, e se foi ha Calabria, e dahi mandou chamar ha Carlo Principe de Salerno, seu filho que era em França, ho qual com grande poder se ajuntou com seu pai em Roma, onde se queixaram delRei D. Pedro aho Papa Martinho IV da força, e danos de Cezilia feitos contra direito, dizendo que Carlo por armas, e em campo lhe faria conhecer seu erro, e tirania.

