Chronica d'El-Rei D. Affonso III
Part 2
Logo todos os Prelados, e Nobres homens, e povo do Reino enviaram sopricar ao Papa, e pedir-lhe que pois a dita Condessa era falecida mandasse alevantar o antredito que no Reino por muitos annos era posto, e quizesse dispenssar sobre o cazamento del-Rei com a Rainha Dona Breatiz, porque ambos como marido, e molher podessem licitamente viver, e ficassem lidimos os filhos, que já tinham havidos, e os que dahi por diante ouvessem, para com sua despensação poderem direitamente soceder no Reino de Portugal, depois da morte del-Rei seu padre, e assi quizesse revogar todalas doações que El-Rei Dom Sancho Capelo em fraude, e detrimento da Coroa de Portugal em suas necessidades tinha feitas ao Ifante Dom Affonso de Molina, e a outras quaesquer pessoas, por quam sem cauza, e contra direito eram, a que o Papa em todo logo satisfez, sobre que mandou passar suas Provisões Apostolicas, que vieram a este Reino, e estão em guarda na Torre do Tombo, sómente se acha que pela legitimação do Ifante Dom Diniz filho primeiro, e erdeiro, porque nacera em vida da Condessa de Bolonha, El-Rei Dom Affonso seu pai deu em especial, muita parte de seu thesouro.
El-Rei Dom Affonso houve da Rainha Dona Breatiz sua molher estes filhos, a saber o Ifante Dom Diniz, que foi depois seu herdeiro, e sucessor, e nasceo em Lisboa dia de São Diniz, a nove dias de Outubro de mil duzentos sessenta e um annos (1261), e por a devação deste Santo, em cujo dia nasceu, elle mandou depois fazer o seu Moesteiro de São Diniz de Odivellas, onde se mandou sepultar, como em sua Coronica direi mais inteiramente. E ouve mais o Ifante Dom Affonso, que foi Principe mui honrado, e de grande estima, e teve neste Reino boas Villas, e Castellos, e terras, e foi cazado com Dona Violante, filha do Ifante Dom Manoel de Castella, e da Ifante Dona Costança Daragão, de que houve um filho barão, e tres filhas, que foram grandemente cazadas em Castella, de que na Coronica del-Rei Dom Diniz farei mais larga declaração; e assim houve mais El-Rei Dom Affonso da Rainha Dona Breatiz a Ifante Dona Branca, que sendo mui moça, foi recebida por Senhora do Moesteiro de Lorvão, assi como o fora a Rainha Dona Thareja, sua tia que nelle jaz, e o reformou, como já tenho dito, e depois do falecimento del-Rei Dom Affonso seu pai, ella foi recebida por Senhora das Olgas de Burgos, onde sem cazar faleceo, e ahi jás sepultada; e della porém se acha que um Cavalleiro dito o Carpiteiro houve um filho, que houve nome Dom João Nunes do Prado; e este foi Cavalleiro da Ordem de Calatrava, e depois foi Mestre della, quando Dom Garcia Lopes, que era Mestre, foi por seus desmerecimentos privado de Mestre.
E com tudo esta Ifante Dona Branca foi Princeza de mui louvadas virtudes, e teve em Castella boa terra, e neste Reino boa fazenda, porque ella foi senhora de Montemór-o-Velho, por doação del-Rei seu pai, que em seu testamento lhe leixou mais dez mil livras, que são quatro mil cruzados, e assi foi senhora de Campo Maior, que El-Rei Dom Diniz seu irmão lhe deu em sua vida, e El-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de Castella, seu avô tambem lhe leixou em seu testamento muito dinheiro, e alguns dizem que ella jás em Lorvão, mas eu vi Cartas e Provisões, que ella nos derradeiros dias de sua vida passou para Portugal, feitas dentro no Moesteiro das Olgas de Burgos, onde tambem recolheo algumas filhas do Ifante Dom Affonso de Portugal seu irmão. E assi houve mais El-Rei Dom Affonso a Ifante Dona Costança sua filha, a qual a Rainha Dona Breatiz sua madre levou comsigo a Sevilha, quando foi ver El-Rei Dom Affonso seu pai, e lá faleceo, e foi trazida a Alcobaça, onde jás sepultada. E houve mais um filho bastardo, que houve nome Dom Fernando, que foi Cavalleiro da Ordem do Templo, e jás sepultado em S. Bras de Lisboa.
CAPITULO V
_Das terras e Lugares que se acrescentaram a Portugal por este casamento_
Pelo cazamento del-Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Breatiz muitas Villas, e terras do Reino de Castella creceram, e se ajuntaram a este Reino de Portugal, e destas as que são na Comarca de Riba Dodiana, a saber Moura, Serpa, Mourão, Noudar, Olivença, Campo Maior, e Ouguela, direi na Coronica del-Rei Dom Diniz, porque em seu tempo elle por concordias, e por escambos as houve, e depois atégora sempre pacificamente, e sem contradição foram, e são pussuidas por a Coroa de Portugal, mas porque é claro, e mui notorio que por bem do dito cazamento, ainda creceram mais ao Reino de Portugal, o Reino do Algarve; de que este Rei Dom Affonso nova, e primeiramente se intitulou, e por cujo respeito em ladeo a borla dos Castellos ás Quinas de Portugal, como atraz já toquei, para dizer os principios que teve, para boa declaração dos que esto virem farei meu fundamento um pouco mais alto, que será verdadeiro, e breve, como se segue.
El-Rei Dom Fernando de Castella deste nome o segundo, depois de ter pacificos os Reinos de Castello, e de Lião, que nelle a segunda vez se ajuntaram, ganhou dos Mouros a Cidade de Cordova, na era de mil e duzentos e trinta e cinco annos, (1235) na qual tomada foi com El-Rei Dom Fernando Dom Payo Correa, natural de Portugal, Mestre da Ordem Daviz, que é a de San-Tiago em Castella, por mui principal e de grande Caza, e mui esforçado guerreiro contra os imigos da Fé, e porque El-Rei Dom Fernando desejou muito de cobrar a Cidade de Sevilha, e assi a terra Dandaluzia, que toda era de Mouros, tornando-se para Castella leixou por Fronteiro contra ella Dom Payo Correa em São Lucar Dalbayda, e um Dom Rodrigo Alveres das Asturias, em Alcalá da Guardara, donde com muitas gentes que tinham, e com a guerra aturada, que faziam, poseram a Cidade de Sevilha em tanta estreiteza que o Rei della lhe deu gram soma de ouro, por tregoa de um anno, qua os ditos Freires lhe outorgaram, dentro do qual os Mouros com fundamento de se proverem por muitos annos, semearam todo o pão, e sementes que tinham de que esperavam haver novidades, com as quaes recolhidas lhes pareceo que se segurariam, e manteriam por vinte annos, ainda que nelles fossem guerreados, e cercados, o qual os ditos Fronteiros notificaram logo a El-Rei Dom Fernando, e o avizaram, que para ter esperança de cobrar em breve a Cidade antecipasse logo a guerra contra os Mouros, ou a colheita das ditas novidades para si mesmo, o qual logo El-Rei satisfez, e com grande poder, que ajuntou por mar, e por terra, veo cercar a Cidade, e depois de estar dezaseis mezes sobre ella, com cerco bem afrontado a tomou, ca se deu por partido, com segurança das vidas, e fazendas em dia de São Clemente, vinte e dous dias de Novembro, na era de mil duzentos quarenta e oito annos, (1248) treze annos depois da tomada de Cordova; e o dito Rei Dom Fernando, por mais segurança da terra, não sahio mais de Sevilha, e ahi faleceo no anno de mil duzentos e cincoenta e dous, tres annos e meio depois da tomada de Sevilha, e ahi jás sepultado.[1]
E foi logo alevantado, e obedecido por Rei de Castella, e de Lião, El-Rei Dom Affonso seu filho, sogro deste Rei Dom Affonso Conde de Bolonha; e o meio tempo que houve antre a tomada de Cordova, e Sevilha, e em que o Mestre Dom Payo Correa, era Fronteiro em Andaluzia contra os Mouros, elle guerreando e correndo as terras dos imigos, que eram a sua frontaria conjuntos, entrou pela Lusitania junto do campo Dourique, que dentro era da conquista de Portugal, Reinando ainda Dom Sancho Capello, e por força de armas o dito Mestre tomou em desvairados tempos as Villas de Aljustrel, e de Mertola, que eram de Mouros, as quaes a requerimento do dito Rei Dom Sancho, e por mandado del-Rei Dom Fernando de Castella, seu primo com Irmão, foram entregues ao dito Rei Dom Sancho por pertencerem a Portugal, o qual por sua devação, e pelas almas de seu pae e de sua mãi segundo diz em sua doação, e assi por comprir ao dito Mestre Dom Payo Correa, que era seu servidor, as deu logo á Ordem de San Tiago, cujas hoje são.
[Nota de rodapé 1: Está beatificado por Santo.]
CAPITULO VI
_Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Correa começar de conquistar o Algarve, que era dos Mouros_
Depois que o Mestre Dom Payo tomou estes logares da conquista de Portugal, até se ganhar o Algarve, passaram dous tempos em que reinaram dous reis de Castella, a saber o dito Rei D. Fernando, em cujo tempo o dito Mestre tomou primeiramente Tavilla, e Silves e alguns outros Lugares do Algarve, e apoz elle Reinou o sobredito Rei Dom Affonso seu filho, que reinando em Castella depois de fazer sua doação para sempre a El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha seu genro, e a Dom Diniz, seu filho se ganharam todolos outros Lugares do Algarve, em que tambem foi o dito Mestre como Vassallo, e Compadre, que era do dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, e foi por esta maneira. Quando o Mestre Dom Payo Correa ganhou dos Mouros Aljustrel, como é dito, se acha, que estando ainda no dito Lugar, elle como bom Cavalleiro, e catholico guerreiro, desejando conquitar esta parte do Algarve, que confinava com Portugal, que toda era de Mouros, para saber se o poderia fazer, e como o faria, teve concelho com seus Cavalleiros, em que não achou conforme acordo, assi porque alguns contrariavam a empreza, e passagem da terra do Algarve, como porque era mui povorada, e os Mouros della tinham pelo mar seu grande soccorro e ajuda Dafrica.
Mas o Mestre, cujo coração era já favorecido da vontade de Deos, prepoz entender na conquista, e não a leixar, e para esso falou apartado com Garcia Rodrigues, Mercador, que de contino tratava neste Algarve com os Christãos, e com os Mouros suas mercadorias, e secretamente lhe disse que seu desejo era com a ajuda de Deos, e por seu serviço cobrar dos Mouros esta terra do Algarve se podesse, para que então havia singular disposição pelo desvairo, e discordia em que sabia que estavam os Reis, e Senhores, que os senhoreavam, mas que o não commettia porque não sabia, nem tinha quem soubesse as entradas, e caminhos da terra, e por tanto lhe rogava pois elle esto tudo sabia que lhe dicesse seu parecer verdadeiro, como delle por Christão, e bom homem confiava. E Garcia Rodrigues, em que havia bom espirito, lhe deu para esso tão bom concelho, e tanto esforço, e tal aviamento, que o Mestre apartou logo alguns seus corredores por maneira dalmogavaria, para que fossem adiante, os quaes partiram Daljustrel, e passaram á terra pela Torre Dourique, e andaram de noite mui attentadamente por os Mouros não aventarem delles alguns sentimentos; e o primeiro Lugar a que chegaram foi á Torre Descoubar, que por estar despercebida, e sem algum receo de Christãos prouve a Deos, que sem muita força, nem perigo foi logo tomada, donde enviaram logo recado ao Mestre, o qual não com menos alegria, que pressa fez prestes seus Cavalleiros, que nas armas trazia assás costumados, e bem ensinados, com que logo partio, e com suas guias que levava, chegou á dita Torre, que era tomada, e dahi sem muita detença cobrou mais o Lugar Dalvor, que é antre Silves e Lagos, e destes Lugares ambos depois de serem de Christãos se fazia grande guerra aos Mouros, que estavam em Silves, e nos outros Lugares comarcãos.
Sentindo-se os Mouros do Algarve mui perseguidos, e assás denificados do Mestre, elles sobre consultação, que antre si fizeram, lhe commetteram, que selle quizesse lhe dariam o Lugar de Cacella junto com Tavilla por os Lugares Destombar, e Alvor, que tinha tomados, e a conciração, que os Mouros tiveram foi dos Lugares tomados, por serem no meo do Reino, e mais juntos do Cabo de São Vicente, onde a terra era então mais povorada se podia fazer, e fazia mais dano, que de Cacella, que era mais no fim da terra, e principalmente junto com Tavilla, que por ser Lugar forte, e de grande povoração os Mouros, e visinhos, e moradores delle poderiam mais facilmente lançar os Christãos, do qual partido, e escambo prouve muito ao Mestre, que logo entregou aos Mouros os Lugares tomados, e cobrou para si Cacella, que era Lugar forte, e bom, onde se fez logo prestes, e sahio com suas gentes para ir cercar, e tomar Paderne.
E como quer que até li os Mouros eram antre si em grandes desconcertos, como atraz se disse, porém á necessidade, e perigo em que a ida do Mestre os poz, os fez logo amigos, e concordes para com iguaes corações defenderem suas pessoas e terras, pelo qual sabendo os Mouros de Farão e Tavilla, e assi os dos outros Lugares de redor, como o Mestre era fóra de Cacella, para correr, e guerrear sua terra, avisaram tambem os de Loulé para que todos no dia seguinte tivessem ao Mestre o passo, e pelejassem com elle, os quaes ao outro dia sobre este acordo se ajuntaram, e partindo foram dormir contra a serra a um logar que dizem o desbarato, e deste ajuntamento, e acordo não sendo sabedor o Mestre passou de noite mui secretamente por Loulé sem ser sentido, seguindo seu caminho direito, que vem para Tavilla, porque as suas escutas que iam de diante sentiram os Mouros naquelle lugar onde jaziam, o Mestre não quiz mais abalar, e ali de noite se deteve, e ao outro dia, como foi manhã o Mestre com sua singular, e costumada destreza de guerra ordenou suas gentes em batalhas, e guiados de sua bandeira, que levavam tendida não andaram muitos passos que logo não houveram vista dos Mouros, que jaziam em um valle escuro, os quaes vendo a pouca gente dos Christãos em comparação da muita sua que tinham, foram mui alegres, ca tiveram grande esperança de haverem victoria.
E o Mestre sem mais detença rijamente deu nelles, em que logo achou grande esforço, e mui perigosa resistencia, pelo qual antre todos se travou mui crua e bem ferida batalha, em que a victoria por grande espaço esteve em balança, mas em fim não podendo os Mouros já soffrer aos Christãos nem ás mortes, e feridas, que de suas mãos recebiam, volveram-lhe as costas, e com desacordada fogida, cada um procurou de salvar sua vida. Nesta batalha foram dos Mouros muitos mortos, e feridos, e os que escaparam acolheram-se a um Lugar, que chamam _o Furadoiro_, que vem donde foi esta peleja caminho da fonte que ora dizem do Bispo, e porém os Christãos por a qualidade da fronta não ficaram sem sua parte de dano, mas este não acho escrito quanto seria, sómente que o Mestre e os seus pelo grande trabalho, e muito cançasso da batalha não seguiram o alcanço dos Mouros, e se recolheram.
CAPITULO VII
_Do acordo que os Mouros fizeram contra o Mestre, e como houveram com elle batalha em que foram vencidos_
Os Mouros de toda a terra, por este destroço, e desbarato, que houveram mostraram muito nojo, e grande tristeza, em especial os de Tavilla, porque tinham imigos tão fortes junto comsigo, os quaes naquella ora juntos em seu concelho diceram: «Estes christãos não temem, antes nos menos prezam, e não é sem rezão, porque ou por nossa muita fraqueza, ou por nossa grande dezaventura sempre somos delles vencidos, mas agora porque elles eram seguros, e despercebidos pela victoria, que hontem de nós houveram, cuidam já que não ha em nós esforço, nem acordo para nossa vingança, ajuntemo-nos outra vez, e sem medo os vamos commetter e sem duvida nós os desbarataremos, e com sua perda os lançaremos da terra, que é nossa».
E no outro dia o Mestre, que destas consultas, e ardis, não foi nem podia ser avisado, partio do lugar, onde fora a batalha para Cacella, e vindo por seu caminho direito, que dizem _o Almargem_, junto do qual os Mouros estavam prestes com seu ardil de os saltearem, e o Mestre já não trazia toda sua gente, que salvou da peleja, porque alguma leixara no monte, em que agora é Crasto Marim, para dahi recolherem alguns seus, que passavam pela ribeira, e porém em chegando ao logar do Salto, onde os Mouros os esperavam, elles sahiram a elle tão de supito, e o commetteram com tantas gritas, e forças, que o poseram em muita torvação, e perigo, pela qual conveo ao Mestre e aos seus por força se recolherem a um monte alto, que é junto de Tavilla, a que depois chamaram _a Cabeça do Mestre_, donde pela fortaleza do lugar se defendiam dos Mouros milhor, e os ofendiam com mais sua aventagem.
Mas comtudo elles não afrouxavam os Christãos, antes por todalas maneiras de fazer mal os combatiam, trabalhando com todas forças por lhes cobrar o monte, que os salvava, e com tanta fortalesa afrontavam o Mestre, que se não sobreviera a noite que os apartou elle, e os seus se despunham, e estavam em mortal perigo, e os Mouros apartados do combate lançaram-se ao pé do monte alongados da vista dos Christãos, logo com determinação de ao outro dia tornarem á peleja, mas elles neste primeiro proposito não perseveraram, porque praticando antre si sobre as gentes que ao Mestre logo viriam em seu socorro, e o perigo, que nesso corriam alevantaram-se, e foram-se tristes para os logares donde partiram, o que assi fizeram sem vista nem sabedoria do Mestre, o qual na noite passada já tinha avisada sua gente, que leixara em Cacella para que e viessem socorrer, como logo vieram com fundamento de dar batalha aos Mouros se o esperassem, quando soube que eram partidos alegre, e a seu salvo se foi para Cacella.
CAPITULO VIII
_Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que fundamento cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete Cavalleiros Martyres, e o Mestre tomou Tavilla_
Os moradores de Tavilla, e assi os Mouros das outras Villas seus comarcãos, vendo-se perseguidos, e mal tratados do Mestre, por seus meos que antre si tiveram concordaram, que por quanto a este tempo estavam já cerca do mez de Junho em que haviam de recolher seus pães, e dahi a pouco se achegava o outro de seu alacil para secarem e aproveitarem suas passas, e fruitas, era bem de procurarem poer com o Mestre tregoas até o São Miguel de Setembro, que vinha, no qual tempo acabariam inteiramente de recolher suas novidades, e dahi por diante teriam milhor disposição para lhe fazer a guerra, e o lançar fóra da terra. Da qual tregoa que pelos Mouros foi requerida, e apontada prouve muito ao Mestre, e lha deu, de que fizeram suas certidões com fundamento, que não sómente neste tempo daria descanço aos seus dos muitos trabalhos que tinham passados, mas que ainda nelle se perceberia das mais gentes, que para o dezejado fim de sua empreza lhe eram neccessarias.
E sendo por bem desta tregua os Christãos, e os Mouros de uma parte, e da outra seguros, D. Pedro Rodrigues, Commendador mór de San-Tiago, que era na companhia do Mestre dice aos outros Cavalleiros, que por seu desenfadamento, pois estavam em tregoa fossem com suas aves á caça ao lugar das Antas, que era terreno de Tavilla, e está dahi tres legoas. Ao que foi o Mestre como pessoa mui prudente, contrairo, dizendo-lhe que escusassem em tal tempo sua ida, porque os Mouros, por suas condições, não eram menos ciosos da terra que das molheres, e por esto com qualquer paixão destas sendo homens sem fé, e sem verdade lhe poderiam fazer dano, que custaria depois mui caro. A que o Commendador-mór tornou dizendo, que pois estavam com os Mouros em treguas delles tão desejadas e requeridas, que não havia rezão para elles se recearem, quanto mais que elles para segurar esse pejo iriam á caça de paz, e de guerra.
Com esta confiança o Commendador, e cinco outros Cavalleiros com elle a cavallo se partiram de Cacella, e trazendo o caminho direito de Tavilla, passaram pela ponte, e entraram, e seguiram pelo meio da praça da Villa, e chegaram ás Antas, lugar da caça, que é uma legoa da Villa a cerca da ribeira, onde começaram de caçar, e haver prazer sem alguma maginação nem sospeita da morte, que se lhes aparelhava, porque os Mouros de Tavilla quando daquella maneira viram passar os Christãos, havendo que era em seu manifesto desprezo, receberam por esso grande dor, porque sua vista lhes fizera viva lembrança das mortes, e males, que delles já muitas vezes tinham recebidos, e diceram antre si: «Certamente os homens, que somos, que sofrem tanta mingua, e tanto desprezo quanto estes Christãos com soberba nos fazem são mais que mortos, e não tem siso, vergonha nem coração, assi passam por aqui os Christãos nossos imigos tão seguros como se fossemos bestas, e elles senhores da nossa Villa».
Sobre as quaes palavras de murmuração se ajuntaram muitos com grande honra, e determinaram ir logo como foram com grande ira, e com passos mui apressados sobre os Christãos, os quaes andano á caça, quando viram tantos Mouros, ca a grande sua pressa, e alvoroço com que iam, em cazo que ainda fosse de longe logo presumiram a má, e indinada tenção, com que vinham, pelo qual leixadas as aves, e seu officio ocioso se ajuntaram, e diceram: «Claro é que estes Mouros vem sobre nós, e o principal remedio é o de Deos, que por sua piedade nos queira esforçar, e soccorrer, e apoz este concelho seja que nos percebamos, e esperemos como Cavalleiros qualquer afronta, que nos vier, e prazerá a Deos, que pois somos Christãos, que não sómente nos defenderemos, mas que com sua ajuda os venceremos, e quando a ventura for tão contraira que não possamos salvar as vidas, ao menos vínguemol-as primeiro com mortes destes, e hajamol-as por bem empregadas em seu serviço».
Com esto enviaram logo ao Mestre um mensageiro com grande trigança pedindo lhe que os soccorresse, e com aquella pressa, e deligencia que em tão breve tempo foi possivel, e para elles em tanto se defenderem e pelejarem, fizeram um palanque de paos de figueiras velhas a que se recolheram, onde os mouros com muita furia os vieram logo commetter, em que acharam muito esforço, e grande resistencia, e não tão leves como elles cuidavam, e estando os Christãos nesta afronta acertou-se, que Gracia Rodrigues, o Mercador, com que o Mestre se aconcelhara na vinda do Algarve, como atraz dice, indo de Farão para Tavilla com suas cargas de mercadorias segundo costumava, quando vio o desassosego, e ajuntamento dos Mouros seguio o fio delles para saber o que era, e quando vio a peleja, e grande perigo em que os Christãos estavam, volveu rijamente onde deixara suas cargas, e dice aos seus servidores: «I vos e leixai essas arrecovas, e tomai essas mercadorias que partireis antre vós, ca se eu viver não me falecerá de que viva, e se morrer esso me basta, pois é em serviço de Deus».
E com esto acabado, arremeteo, e se lançou ao palanque, e dentro delle se ajuntou com os Christãos, e que ajudou e esforçou quanto a um bom homem era possivel, onde por grande espaço se defenderam, e pelejaram, dando e recebendo muitas feridas, e assi eram afrontados, e por tantas partes combatidos, que um não podia dar fé do que o ouro fazia, e em fim por as forças dos Christãos serem já de grande trabalho vencidos, o seu palanque foi roto, e entrado, e elles todos sete por desfalecimento da virtude corporal cortados de mortaes feridas acabaram as vidas como Cavalleiros, e bons Christãos, o que não foi sem publica vingança de suas mortes, de que os corpos dos Mouros sem almas déram alli verdadeiro testemunho.
Durando a peleja dos Christãos chegou seu recado ao Mestre que era em Cacella, donde com grande trigança logo partio com desejo de os soccorrer, porque bem sabia que os Cavalleiros eram taes, que sem medo, nem outro seu desfalecimento, ou haviam de viver, ou morrer, e seguiu o caminho porque elles vieram, e sem contradição, nem defeza dalguma pessoa entrou pela Villa, e praça della, e tão intento, e acezo ia no dezejo que levava de soccorrer aos Chrystãos, que passando por ella não lhe lembrou, que dessa vez livremente, e sem perigo a podia tomar se quizera, e quando chegou ás Antas, onde achou, e vio todolos seus Cavalleiros mortos, anojado e mui iroso por tão feio feito houve com os Mouros, que ainda topou mui crua peleja, onde matou tantos, que os ossos delles foram depois por longos tempos ali vistos em grande soma, e aos outros, que fogiram, foi seguindo o alcance fazendo nelles grande estrago até á Villa, cujas portas os Mouros acháram fechadas, porque os visinhos, e gentes que em ella ficaram, quando viram passar o Mestre ao soccorro dos Cavalleiros a que ia, bem entenderam qual seria sua determinação como soubesse parte do cazo.