Chronica d'El-Rei D. Affonso III

Part 1

Chapter 1 3,959 words Public domain Markdown

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BIBLIOTHECA

DE

*Classicos Portuguezes*

Proprietario e fundador

_MELLO D'AZEVEDO_

BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

Proprietario e fundador--MELLO D'AZEVEDO

(VOLUME LIV)

CHRONICA

D'EL-REI D. AFFONSO III

POR

RUY DE PINA

ESCRIPTORIO

147=RUA DOS RETROZEIROS=147

LISBOA

1907

CHRONICA

DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE

D. AFFONSO III

QUINTO REY DE PORTUGAL,

COMPOSTA

POR RUY DE PINA,

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.

FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL,

Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

OFFERECIDA

A' MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY

D. JOAOO V.

NOSSO SENHOR.

POR MIGUEL LOPES FERREYRA

LISBOA OCCIDENTAL

Na Officina FERREYRIANA.

M.DCC.XXVIII.

_Com todas as licenças necessarias_.

SENHOR

Continuando com a edição das Chronicas dos Senhores Reis de Portugal, gloriosos Predecessores de V. Magestade, continuo tambem na precisa obrigação de as offerecer a V. Magestade. Nesta do Senhor Rei D. Affonso III verá V. Magestade os caminhos que buscou a Providencia Divina para que empunhasse o Scetro um Principe, que para ter menos esperanças do trono se achava cazado em França, e verá V. Magestade a felicidade, com que soube estabelecer nos seus descendentes a Monarchia, que acrescentou com Estados novos, e que soube segurar com a total expulsão dos Africanos. Sirva-se V. Magestade de amparar o meu zelo com a sua Real benignidade, para que animado com tão soberano favor possa dar á luz as Chronicas que faltam. A Real Pessoa de V. Magestade guarde Deos muitos annos como dezejamos.

_Miguel Lopes Ferreira_

AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

*D. FRANCISCO XAVIER DE MENEZES*

Quinto Conde da Ericeira, do conselho de Sua Magestade, Sargento mór de Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres Estados, Perpetuo Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de Ancião, oitavo Senhor da Caza do Louriçal, Commendador das Commendas de Santa Christina de Sarzedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Martinho de Frazão, S. Payo de Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S. Bertholameu de Covilhã todas na Ordem de Christo. Academico da Academia Real da Historia Portugueza, e um dos cinco Censores della.

Meu Senhor aonde não chega a confiança propria, é necessario buscar o amparo alheio. É tão elevada a Magestade, que nem ainda obsequioso me atrevo a chegar a ella: e por esta cauza procuro o patrocinio de V. Excellencia para que com a sua pessoa consiga o que por mim não posso. Espero que V. Excellencia se digne de me fazer esta mercê, porque a continuação dos seus estudos, e a grande livraria que tem junto a sua erudição, justamente me desculpa para lhe pedir a protecção para um livro, que como de Historia da Patria precede a todos na lição, e porque sendo offerecido a Sua Magestade pela mão de V. Excellencia terá a acceitação que dezejo. Deus guarde a V. Excellencia muitos annos.

Criado de V. Excellencia

_Miguel Lopes Ferreira_

*AMIGO LEITOR*

Não me podes accuzar de falto de palavra, pois vês que te dou agora a Chronica del-Rei D. Affonso III que foi o Quinto Rei desta Monarchia. De serem breves as narrações das suas vidas, e summamente compendiadas as noticias dos seus governos, não tenho eu a culpa, tem-na os Chronistas que, ou não quizeram, ou não souberam. Tudo podia ser, porque a falta em semelhante materia procede umas vezes de não haver quem informe, e outras de não escreverem, o que todos sabem. Donde nasce que deste principio experimentamos o dano, porque desprezaram escrever o que era sabido, e desta sorte padecemos uma involuntaria ignorancia. Cazou este Principe em França donde esteve, e assistiu alguns annos, e sendo impossivel que não fizesse naquelle tempo acções dignas da sua pessoa, ou na paz, ou na guerra, tudo ficou sepultado em um profundo silencio, de que são reos os que escreveram primeiro. Ainda depois de nomeado Governador de Portugal, e ainda depois de ser Rei não houve aquelle cuidado nas penas dos Chronistas, que merecia a sua politica, que não foi nesta grande arte inferior aos maiores. Lê, e espera que brevemente te busque com a Chronica de seu filho o famoso Rei D. Diniz.

_Vale._

LICENÇAS

DO

SANTO OFFICIO

Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental o primeiro de Outubro de 1726.

_Fr. Lancastre. Cunha. Teixeira. Silva. Cabedo._

DO ORDINARIO

Vista a informação, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental 4 de Outubro de 1726.

_D. J. A. L._

DO PAÇO

_Approvação do Doutor Manuel de Azevedo Soares, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, do Dezembargo de Sua Magestade, Desembargador da Casa da Supplicacão, Juiz dos Contos do Reino, e Caza, Academico da Academia Real da Historia Portugueza, &c._

SENHOR

Esta Chronica del-Rei D. Affonso III que pertende imprimir Miguel Lopes Ferreira assás recomendação tinha em o nome de seu Author para facilitar a licença que se pede: porque sendo Ruy de Pina Chronista de tão grande opinião, por ella só, ficavam approvadas as suas obras, sendo superfluos todos os encomios com que justamente se podiam encarecer.[1] Não falta com tudo quem affirme que nem todas as obras, que se divulgam por suas, o são. E se em alguma póde ter lugar a conjectura de que o não seja, é esta uma dellas ao que parece; porque sem passar do Capitulo terceiro, se encontra uma inverosimilidade, certamente muito alhea do entendimento de tão grande homem. Diz que sabendo a Condessa de Bolonha Mathilde, que seu marido era obedecido por Rei pacificamente, e não sabendo nada do seu cazamento, confiando, que se elle a visse, a trataria, e honraria como sua verdadeira mulher, aprestara Naos, e que bem acompanhada, e com um filho, que se disse ter do dito seu marido, se embarcara para este Reino, e chegando a Cascaes donde soubera logo, que elle estava em Friellas, e cazado com outra mulher, recebendo grande indignação, e tristesa, arrependida de ter vindo, especialmente depois de saber da condição da segunda mulher, tomando parecer, mandára dous Cavalleiros principais dos que trazia comsigo, para que participassem a El-Rei a sua vinda, e a sua queixa; e pela reposta, que trouxeram, se voltara para França, deixando o filho, segundo diziam uns, e que por certa lembrança achara, o havia levado comsigo, e que depois o mandara a este Reino, com outras mais circumstancias, que se referem no dito Capitulo. Não reparo em que faça menção de filho, e nem ainda que a Condeça tomasse a resolução de vir a este Reino sem premeditar as contingencias do successo, como se foi assim, lhe mostrou a experiencia, porque muitos Historiadores seguiram aquella tradição com circumstancias mais inverosimeis; cujo erro se acha novamente refutado com demonstrações, e authoridades evidentes, pelo eruditissimo Academico o P. D. Joseph Barbosa.[2] Reparo sómente em que se diga, que a Condeça não sabia nada do cazamento de seu marido, porque demais de se affirmar o contrario por muitos Historiadores, sendo aquelle cazamento tão escandaloso, e sendo a grandeza dos delinquentes, a que mais vulgariza os seus delictos,[3] como é crivel o ignorasse a Condeça; e mais por ser entre pessoas de tão alta jerarquia; com instrumentos de dote publicos, e havendo tão pouca distancia para a noticia, como de Portugal a França. Quando ainda os segredos dos Principes, mais reconditos, estão sugeitos á infidilidade dos mesmos a que se confiam,[4] se obrigava a um tal excesso, o seu affecto, sendo deste inseparavel a desconfiança,[5] como é verosimil, se lhe ocultase a sua offensa.[6] Disto sem duvida se origina o pouco credito, que tem muitas historias, porque devendo ser a verdade o seu essencial fundamento,[7] notando-se-lhes algum erro em parte regularmente perdem a fé de todo.[8] E ainda que pelo Historiador a que foram commettidas as memorias deste Monarcha na Real Academia, que V. Magestade instituio para que resuscitassem na memoria dos seculos futuros, aquelles heroes, que sendo na vida esclarecidos, os escureceu a morte, sepultando-os nas tenebrosas urnas de um ingrato esquecimento[9] se restituirá de todo á verdade aquelle successo, conforme a empresa da mesma Academia: com tudo sendo na opinião de Santo Augustinho util que se publiquem livros repetidos sobre a mesma materia, com diversidade de estylo,[10] ainda me parece se póde conceder a licença, que se pede, sendo V. Magestade servido, porque sempre ficará illesa a fama do Author da Historia, na opinião dos que o conhecem, distinguindo na obra o que póde ser parto do seu entendimento. Lisboa Occidental 20 de Julho de 1727.

_Manoel de Azevedo Soares_.

Que se possa imprimir visto as licenças do Santo Officio, e Ordinario, e depois de impressa torne á mesa para se conferir, e taxar, e sem isso não correrá. Lisboa Occidental, 7 de Agosto de 1727.

_Pereira. Oliveira. Teixeira._

[Nota de rodapé 1: Super vacanci laboris est laudare conspicuos. Symach. I*. 3. Epistol. 48.]

[Nota de rodapé 2: Catalog. Chronolog. das Rainhas de Portugal á n. 241.]

[Nota de rodapé 3: Dum in imis est quispiam, ejus quodam modo vitia delitescunt; cum vero ad dignitatis culmen ascendit in superficiem mox erumpunt, et quæ fuerant catenus inaudita jam per ora rumigeruli populi trita vulgantur S. Petr. Damian. Epist. 20 ad Cadol. Qui magno imperio præditi, in excelso ætatem agunt, eorum facta cuncti mortales novere. Salust.]

[Nota de rodapé 4: Areana Regu ipsi predunt Satellites Gruterus. Florileg. c. 2]

[Nota de rodapé 5: Vel alieni amoris æmulus, quod frequentissimum est in amore vitium. Guillielm. Castellus apud Textor. in Epithet.]

[Nota de rodapé 6: Ita Zelotipus in omnes ahorum gressus assiduo intentus totidem suspicionum umbras producit, quoties illos è loco moveri animadvertunt Picinel. mund. Symbol. 1. 16. n. 66.]

[Nota de rodapé 7: Non ostentationi, sed fidei, veritati que componitur Plinio Jun. 1. 6. Epist. 16. lux et evangelium veritatis Cassan. catal. glor. mund. p. 10. consid. 46.]

[Nota de rodapé 8: Et si per currantur horum historicora scripta, tacite reperiuntur multa falso ab eis conscripta, quot fit, ut falsus in uno, in cæteris fide perdant. Menoch. cos. 112. v. 71. Paris. consil. 23. n. 253.]

[Nota de rodapé 9: Historia reru que gestarum descriptio, tubæ clangor, quo jam olim mortui velut e sepulcro excitati, in mediu producuntur. Nicetas. Quia hoc quotidianu, et vulgare est, multi famosi in vita, et clari post obitu, sunt incogniti, et obscuri. Petraca de prosper. fortun. Dialog. 117.]

[Nota de rodapé 10: Utile esse plures libros a pluribus diverso stilo, de eisdem quæstionibus fieri, ut ad plurimos res ipsa perveniat ad alios quidem sic, ad alios vero sic. D. August. in quæstion. de Trinit. c. 3.]

_Coronica do muito alto e esclarecido Principe D. Affonso III quinto Rei de Portugal_

CAPITULO I

_Como se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e como accrecentou os Castellos no Escudo das Armas Reaes, e a causa porque_

Por falecimento del-Rei Dom Sancho deste nome o segundo, a que disseram Capello, porque delle não ficou herdeiro do Reino legitimo descendente, que o succedesse, foi alevantado, e obedecido por Rei na Cidade de Lisboa o Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, seu irmão, a que o Reino de Portugal por sucessão direitamente pertencia, em idade de trinta e oito annos na era de mil e duzentos e quarenta e sete, (1247) o qual era, filho legitimo del-Rei Dom Affonso o Segundo, irmão menor do dito Rei Dom Sancho, por cujos defeitos, e por não reger como devia elle veo de Bolonha a este Reino de Portugal, e o governou, e defendeo dous annos, não se chamando Rei, mas Procurador, e Defensor delle por mandado do Papa, como na Coronica del-Rei Dom Sancho claramente se disse, e depois que o dito Rei Dom Affonso Reinou durando os primeiros annos de seu Reinado, e antes de ter cazado a segunda vez com a Rainha Dona Breatiz, sua sobrinha, filha del-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de Castella, se intitulou sómente Rei de Portugal, e Conde de Bolonha, e trouxe seu Escudo com as sós Quinas sem a Orla, e bordadura dos Castellos, assi como os outros Reis de Portugal até este tempo trouxeram, segundo eu Coronista o vi nos sellos pendentes de algumas suas Cartas, que naquelle tempo passaram, e as achei na Torre do Tombo destes Reinos, de que por o officio sou Guarda-mór.

Porque depois que com a dita Rainha Dona Breatriz lhe foram dadas as Villas, e Castellos do Reino do Algarve, elle foi o que primeiro se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e poz na orla do dito Escudo, e Quinas os Castellos dourados em campo vermelho, que logo elle, e depois os outros Reis de Portugal que delle decenderam sempre atégora trouxeram, e esto afirmo assi por declaração da duvida, que por muitos sobre os ditos Castellos já ouvi mover, a saber, se são Castellos por esta rezão, que disse, ou pelos de Riba de Coa, que a este Reino creceram, ou se eram com folões, ou bandeiras, que se dizem as Armas do Condado de Bolonha, e assi disputar sobre o numero dos ditos Castellos, a que digo, e afirmo que não podem ser Castellos pelos de Riba de Coa, porque El-Rei Dom Diniz filho del-Rei Dom Affonso os ganhou, e houve depois que Reinou, como em sua Coronica se dirá, nem menos pareçam, que sejam por respeito das Armas de Bolonha, que por seu cazamento, posto que em sua vida as trouxesse, ellas não ficavam, nem podiam ficar depois de sua morte á Coroa Real do Reino de Portugal, quanto mais que a honestidade, e rezão contrariavam elle trazer em Portugal as Armas de Bolonha, por memoria da Condeça sua molher de que contra direito, e em desprezo della se apartou, e nunca depois a quiz ver, por onde é mui certo que sómente são pelos ditos Castellos do Reino do Algarve como disse.

Os quais Castellos, posto que na primeira doação del-Rei de Castella ficam del-Rei Dom Affonso, seu genro a seus filhos, estão por numero certo, e assinados, nem por isso obrigam serem trazidos nas Armas por aquelle numero certo, porque naquelle tempo El-Rei de Castella lhe deu os mais que ganhasse, como ganhou sem os declarar, assi que estes Castellos são postos na Orla, não por numero certo, mas o que nella em boa proporção bem podesse caber, e porém El-Rei Dom Affonso logo como Reinou, e assi depois que a segunda vez cazou foi bom Rei, verdadeiro, e prudente, e de coração mui esforçado, e muito amigo da Justiça, por a qual a muitos mal feitores, que foram prezentes, e em seus crimes comprehendidos, deu suas devidas penas, com medo das quaes outros se foram da terra, e regeo bem o Reino com devida, e inteira equidade, e proveo o povo em inteira Justiça, e sua real Caza, e Fazenda com singular regra, e louvada ordenança, e fez muitas boas, e novas povoações em muitas partes do Reino, que eram despovoradas, e mandou lavrar, e aproveitar os termos de muitas Villas, e Castellos para repairo, e culto da terra, que dos tempos passados estava mui denificada, e quaes foram as obras dinas de memoria que fez além dos feitos grandes darmas de sua conquista do Algarve, no fim desta sua Coronica em soma particular estão declaradas.

CAPITULO II

_Como El-Rei D. Affonso sendo casado com a Condessa de Bolonha em França a leixou, e casou com a filha del-Rei de Castella_

Este Rei Dom Affonso sendo casado com Dona Matildes Condessa de Bolonha em França, elle a leixou no dito Condado, e se veo a Portugal, como na Coronica del-Rei Dom Sancho seu irmão é declarado, e depois de sua vinda a poucos annos casou outra vez com a Rainha Dona Breatiz, filha bastarda del-Rei de Castella, a qual elle houve em Dona Mayor Guilhelme de Gosmão, sua manceba, a que foi muito afeiçoado, e a que fez mui firmes, e grandes doações de muitas Villas, Castellos, e rendas de Lugares no Reino de Castella, para depois de sua morte ficarem á dita Rainha D. Breatiz sua filha, e a seus filhos herdeiros para sempre, porque, segundo parece pelas palavras do testamento que o dito Rei Dom Affonso fez, elle antre todolos filhos, e filhas que teve, a esta Rainha Dona Breatiz, sua filha mostrou elle querer mór bem, e a que mais se devia por serviço e beneficios, e soccorros que della em suas tribulações mais que doutro algum tinha recebidos, e a que mais desejou galardoar, e dar muito do seu se pudera, o qual casamento del-Rei, e da Rainha Dona Breatiz, quando se concertou, e se fez foi assás maravilha dos homens que o sabiam, assi pela grandeza do dote delle, não sendo a Rainha filha legitima, como principalmente por casar em tempo, que a Condessa, sua primeira molher ainda era viva, e sobre este passo se acha por lembrança que um privado del-Rei Dom Affonso havendo este casamento por estranho, e muito contrairo a sua conciencia lhe disse que não fizera bem em casar com a rainha Dona Breatiz, pois sabia que era cazado com a Condessa de Bolonha, com quem já se muito contentára, e honrára de cazar, e que El-Rei lhe respondera, que se não espantasse do que tinha feito; porque ao outro dia ainda cazaria com outra molher, se com ella lhe dessem outra tanta terra, porque mais acrescentasse em Portugal.

CAPITULO III

_Como a Condessa de Bolonha veio a Portugal, e como El-Rei seu marido a não quiz ver, e ella se tornou, e do que sobre esso fez_

E passados alguns annos depois que El-Rei Dom Affonso partiu de Bolonha a Condessa sua molher, soube lá o falecimento del-Rei Dom Sancho, e assi como o Conde seu marido pacificamente era alevantado, e obedecido por Rei de Portugal, e não sabendo nada do cazamento del-Rei, e confiando que elle se a visse a trataria, e honraria como a verdadeira sua molher, que era, fez-se logo prestes, e em Naos bem aparelhadas, e de Cavalleiros, e nobre gente, e doutras gentes bem acompanhada, e com um seu filho, que se diz que tinha de seu marido, partio de sua terra, e veo ancorar ante a Villa de Cascais, cinco legoas de Lisboa, onde perguntando ella, e os seus por El-Rei onde era? Foi logo certificada que El-Rei estava em Frielas, duas legoas de Lisboa, cazado já com outra molher, com as quaes novas a Condessa recebeo muita torvação, e grande tristeza, e pezou-lhe muito de sua vinda, e assi aos de sua companhia, especialmente depois que soube o estado, e condição da segunda molher, que era filha del-Rei de Castella.

E tendo concelho ácerca do que neste caso faria, acordaram, que antes de tudo era bem que fossem a El-Rei dous seus Cavalleiros principaes, que vinham com ella e delle eram bem conhecidos e a que por seus serviços, que nas guerras de França lhe tinham feitos, e por outros merecimentos, queria grande bem, e que estes lhe fizessem saber da vinda da Condessa, e assi o nojo, e espanto que por seu cazamento tinha com rezão recebido, e soubessem delle finalmente a detreminação de sua vontade. Estes Cavalleiros em chegando a El-Rei foram logo delle por seu conhecimento mui bem recebidos, mas depois que lhe propuzeram a Embaxada da Condessa com a graveza, e estranhamentos, que ella mandou, e disseram o mortal sentimento, e deshonra em que estava, e lhe pedia que por comprir sua bondade, e conciencia a recebesse no Reino, e tratasse por sua molher como merecia.

El-Rei avendo-se delles por escandalizado, por ouzarem de lhe trazer em tal tempo tal mensagem com o rostro irado lhes disse, que de não perderem as vidas com suas cabeças cortadas os relevava naquella ora o grande bem que lhes queria, e os muitos serviços que lhe tinham feitos, e que porém não fizessem ante elle mais detença, antes que logo se tornassem á Condessa, e lhe dissessem que não saisse em seu Reino, mas que delle logo sem nenhuma delonga se partisse, e se tornasse para sua terra donde viera, que se o assi não fizesse elle teria com ella tal maneira de que lhe muito pezaria.

Com esta reposta chea de tanta aspereza, e fóra de toda a humanidade, os Cavalleiros se tornaram para a Condessa, a qual maravilhada, e atemorizada da sem rezão, e indignação del-Rei, e das mais cousas, que elles em seu cazo mais passaram, e lhe contáram; mandou fazer prestes suas naos, e embarcou nellas, e se tornou para Bolonha, e o tempo que a Condessa veo a Cascais se diz, que ella trazia um filho seu, e del-Rei Dom Affonso, como já disse, cujo nome, vida, nem feitos não achei declaradamente escritos, porque uns dizem, que quando a Condessa se partio de Cascais, que o leixou em terra, para que o levassem a seu pai, dizendo que não quizesse Deos, que com ella tornasse cousa del-Rei, e por outra certa lembrança achei, que ella tornou a levar seu filho comsigo, e que depois o mandou a Portugal, onde El-Rei o mandou bem criar, e que saio muito bom Cavalleiro, e mui amado del-Rei, e dos Nobres do Reino, e que foi cazado com uma filha do Ifante Dom Pedro de Castella, que era a mais fermosa molher Despanha; mas qual era este Ifante Dom Pedro, e sua filha, e os nomes delles, e em que tempo cazaram, e que terra tiveram, e o que se delles fez depois eu o não soube.

A Condessa como chegou á sua terra manifestou logo sua querella a seus parentes, que eram Nobres, e grandes homens no Reino de França, por cujo concelho, e ajuda, ella se enviou logo querelar ao Papa, que então era em França, noteficando-lhe largamente todo o que com seu marido passára no Reino de Portugal, pedindo a Sua Santidade que com suas Excommunhões, e Cençuras mandasse apartar El-Rei Dom Affonso seu marido, da Rainha Dona Breatiz, que como Christãos, não podiam cazar, como cazaram; e mandasse que recebesse a ella para ter a honra, dinidade, e terras que de direito, como sua verdadeira molher lhe pertencia. E o Papa maravilhado da novidade por seu Breve o enviou muito estranhar a El-Rei Dom Affonso, e lhe rogou, e amoestou com palavras catholicas, e mui honestas, que logo se apartasse do segundo cazamento, e quizesse estar pelo primeiro, conforme a justiça, e petição da Condessa, e porque El-Rei não satisfez com efeito aos mandados Apostolicos, o Papa enviou sua comissão ao Arcebispo de San-Tiago, porque lhe mandou que outra vez requeresse, e amoestasse El-Rei Dom Affonso ácerca de seu apartamento, e quando logo o não fizesse, que o citasse, e emprazasse, que a quatro mezes parecesse em pessoa perante elle em sua Côrte, para ser ouvido com a Condessa, e estar a todo comprimento de Justiça, e o Arcebispo fez inteiramente todo o que neste cazo o Papa lhe mandou, mas El-Rei não foi á citação em pessoa, mas cresse que mandaria seu Procurador por elle sobre este negocio. Foi na Corte do Papa ordenado processo, e foi por elle tanto procedido que em favor da Condessa, e contra El-Rei foi dada sentença do apartamento seu, e da Rainha Dona Breatiz, e porque não obedeceram a ella, foi pelo Papa posto antredito em todo o Reino que durou muitos annos, acabados os quaes andando a era em mil e duzentos sessenta e dous (1262), a Condessa de Bolonha Dona Matildes faleceo em França, por morte, que em Portugal foi logo sabida.

CAPITULO IV

_Como depois da morte da Condessa de Bolonha foi despensado com El-Rei Dom Affonso que cazasse com a Rainha D. Breatiz, e dos filhos que della houvesse_