Christovam Colombo e o descobrimento da America
Part 7
Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos referido, bem que pareçam estranhos á primeira vista, mas que estudados coincidem e explicam os relativos á Colombo e ao descobrimento da America, prosigamos na narrativa de sua prisão e remessa para Hespanha.
Chegara, em 1500, a Cadix, após viagem curta, o navio, que conduzia preso a Colombo. Nada mais natural que a mudança repentina das impressões dos animos populares. A opinião corria em Hespanha desfavoravel á Colombo, accusado por quantos Hespanhóes regressavam do Haity, despeitados de se não terem enriquecido, quando haviam partido da patria arrastados pela idéa de um Eldorado certo e immediato, que lhes compensaria os trabalhos e sacrificios. Ninguem o defendia, e secretas se guardavam suas communicações officiaes, noticiando-se, apenas, seus procedimentos que pareciam tyrannicos.
Ao vel-o, porém, os moradores de Cadix, desembarcar preso, com ferros aos pés, em andrajos despreziveis, e ser transportado da caravella que o trouxera para o calabouço dos grandes criminosos, lembraram-se de subito do quanto elle havia praticado de importante e portentoso, descobrindo as Indias Occidentaes, lançando gloria imarcessivel sobre Hespanha, e creando uma escola de marinheiros e exploradores, que levavam a bandeira régia aos confins da terra! Quantos o accusavam até alli começaram por delle apiedar-se, observando sua situação do momento; não tardaram em tomar seu partido, e em declarar-se contrarios aos que o perseguiam!
Modificou-se assim de novo em Hespanha a opinião publica, sem que esperasse informação, nem esclarecimentos, nem provas; por instinctos de justiça, porém; por opposição á violencias, á arbitrios e despotismos. Um grito unisono soou desde Cadix até ás mais distantes cidades e povoações dos dous reinos de Castella e Aragão.
Logo que soube do acontecimento em Granada, onde estava então a Côrte hespanhola, mostrou-se pezarosissima a rainha Isabel e arrependida do que havia praticado. Tratou incontinente de remediar o mal, passou ordens terminantes para Cadix, afim de soltarem-se os presos vindos de S. Domingos; mandou entregar á Colombo a quantia de dous mil ducados, pois que devia carecer de dinheiro, e por seu proprio punho escreveu-lhe, convidando-o a dirigir-se á Granada, afim de explicar-lhe os desgraçados successos, que tinham motivado tão desagradaveis occurrencias.
Cumpriu Colombo a ordem de Isabel, satisfeito por lhe ser dirigida tão distincta demonstração de affecto da Rainha. Cumpre dizer aqui que á bordo já o commandante da caravella o tratara cordial e respeitosamente, e quizera tirar-lhe dos pés os ferros que o apertavam e opprimiam: elle, porém, o não consentira, declarando que obedecia ao que haviam os reis de Hespanha ordenado á Bobadilla, como seu delegado, e só uma nova decisão régia poderia allivial-o dos seus soffrimentos.
É curioso ler-se ainda em um escripto de Fernando Colombo, publicado posteriormente em Hespanha, que no seu gabinete em Sevilha tinha pendurados ás paredes aquelles ferros que manietaram a seu pae desde S. Domingos até Cadix, e que este lhe pedira que á sua morte fossem com seu corpo encerrados na sepultura, que se lhe abrisse. Seria invento do filho para gloriar o pai? Posto que em nenhuma das obras impressas á respeito de Colombo se falle deste incidente, e nem do destino que os ferros tiveram, é verosimil a narrativa, desde que se estuda o caracter altivo e o espirito heroico de Colombo.
Acolheu-o a Rainha benevolamente no magestoso edificio do Alhambra, antigo palacio e fortaleza dos Arabes, edificado sobre montes apraziveis ao lado da cidade de Granada, e dominando uma formosa e extensissima veiga, entrecortada pelos dous rios Darro e Xenil, verdadeira maravilha da architectura! Não lhe permittiu que se lhe lançasse aos pés; levantou-o e affirmou-lhe sua confiança e amizade com palavras repassadas do maior sentimento. Assegurou-lhe egualmente que jámais elle desmerecera do seu conceito e que ella continuaria a dar-lhe provas do seu affecto.
Destituido foi logo Bobadilla da sua commissão, e mandado recolher á Hespanha; nomeado Ovando para substituil-o no governo das Indias Occidentaes, durante a ausencia de Colombo, com ordens expressas de partir immediatamente. Não tardou Ovando em seguir para seu destino, á frente de imponente frota, no proposito de executar as ordens régias em seus dominios das Indias Occidentaes.
Reclamou, no entanto, Colombo autorização de voltar para S. Domingos, e auxilios poderosos com que pudesse dilatar os dominios de Hespanha nas terras descobertas, convencido cada vez mais de que navegando ainda para o Oeste encontraria por fim o continente da Asia, de que lhe pareciam ser ilhas proximas os logares até então reconhecidos. Prometteu Isabel acceder-lhe aos desejos, logo que houvesse recebido noticias da commissão confiada á Ovando, e se certificasse de que a ordem publica e a autoridade legal se tinham restabelecido em S. Domingos. Não pesaria nessa resolução da Rainha influencia de Fernando de Aragão, que considerava já dispensaveis os serviços de Colombo, porque novos argonautas hespanhóes se applicavam, á seu exemplo, em excursões exploradoras de terras, que, sem quasi sacrificios do thesouro, continuariam e talvez completariam a obra por elle iniciada?
Qualquer que fosse a causa, certo é que arrastou-se muito tempo ainda Colombo pela côrte, sem conseguir satisfação a seus projectos. Durante os longos dias que assim decorriam, antes que alcançasse deferimento, lembrou-se de uma ideia antiga, que sempre lhe ruminava o espirito, e que era a de libertar o tumulo de Jesus Christo em Jerusalem; propunha-a constantemente á Rainha, e escrevia egualmente á respeito ao Summo Pontifice de Roma, implorando-lhe as bençãos e a intervenção protectora para que podesse realizal-a! Ao terminar o anno de 1502 é que resolveu a Rainha deixal-o partir para as Indias Occidentaes, influida pelos seus discursos de que era necessaria para Hespanha uma descoberta que excedesse á de Vasco da Gama e á de Pedro Alvares Cabral, afim de que a Hespanha se não deixasse sobrepujar pela nação portugueza. Quatro pequenas caravellas se lhe confiaram de novo, de cerca de 60 toneladas cada uma, tripoladas por 150 homens.
Não era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia um aventureiro obscuro, como o fôra na sua primeira viagem, e como o haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instrucções para cuidar de novos descobrimentos, dirigir-se á terra firme das Indias, pelo rumo de Oeste, e abrir emfim relações commerciaes entre ellas e Hespanha; prohibia-se-lhe, porém, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.
Resignou-se Colombo a tão estranhas resoluções. Que faria elle em Hespanha, não querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e não o interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava, inspirava e electrisava?
Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta viagem ás Indias Occidentaes. Estava já avelhantado, contava entre 60 a 70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de forças physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do espirito, que conservavam a robustez, a força, a energia da primitiva mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepções, trabalhos e soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, então possessão portugueza na costa de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que começava a ser frequentada e habitada pelos Hespanhóes como sua propriedade. Refeitos ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de Martinica, ou, como pensam alguns chronistas, na proxima de Santa Lucia.
Posto que contrariamente ás ordens da Rainha, pensou que poderia tocar em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.
Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando autorisação para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de navegar, e declarar-lhe na mesma occasião que tinha necessidade tambem de receber viveres.--Acredital-o-heis?--Prohibiu-lhe Ovando que se approximasse de S. Domingos!--Era assim expellido brutalmente das terras de que se reputava pelo seu contrato com a corôa governador exclusivo e almirante!--Mandou de novo Colombo supplicar á Ovando que permittisse, pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que ameaçava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de seus pequenos e miseraveis navios! Até para tão legitima supplica foi-lhe denegada a licença!
Como não transbordaria de dôr e de indignação sua alma, tão susceptivel de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratidão de homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos memoraveis! Para com elle que fôra chefe e mestre de todos esses entes secundarios, que agora dominavam!
Não teve remedio sinão fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como pela experiencia maritima antevia a explosão de temporaes, e particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a tormenta que approximava.
Ella não faltou á seus calculos previdentes. O proprio porto de S. Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla exhalou a vida no seio das vagas em que foram as embarcações submergidas.
Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da Hespanha, e travou relações com os indigenas. Pisava em terra firme Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a costa para Léste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graças á Deus, e dahi seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa quantidade de ouro em joias, corôas, braceletes, que elles trocavam por ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua até Porto Bello e Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de que a não encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a localidade mais apropriada para a fundação de uma colonia européa, e para ahi descançar algum tempo, concertar suas caravellas bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.
Póde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias começavam á esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via só terras habitadas por selvagens, não deparava as cidades opulentas, o commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japão, como o haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente esbarrava em regiões incultas e desprovidas de toda a civilisação! E entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se não conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Açoutado pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia, posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais perigosos parceis.
Em Veragua deparou um excellente porto banhado por um rio navegavel, ao qual deu o nome de Belém. Devia o solo conter ouro, e ser o sitio apropriado para descançar das fadigas maritimas, que já agora tanto lhe pesavam! Resolveu-se a edificar ahi uma povoação hespanhola, que servisse á projectos futuros.
Escolhido o local, desembarcou com sua gente, e applicou-se á edificação de uma cidade, fortificada convenientemente e sita ás ribas do rio. Acolheram-no agradavelmente os indigenas ao principio; pouco tempo, porém, depois, mudaram de procedimento, assaltaram-lhe a povoação, e bem que repellidos voltaram por varias vezes como inimigos francos. Pensou Colombo que lhes imporia a paz com a força de armas; collocou-se á frente de setenta e cinco homens, e assaltou-os em sua aldêa mais proxima. Destroçou-os em luta pertinaz e arrasou-lhes quasi inteiramente a aldêa. Difficil, porém, tarefa a de domar gentios tão destemidos, e que pertenciam á raça valente dos Caraibas, tanto mais audaciosos quanto do interior precipitavam-se hordas e hordas no intuito de se soccorrerem, e auxiliarem. E como poderia Colombo resistir-lhes com um tão pequeno numero de hespanhoes, bem que suas armas de fogo e seu denodo e valentia o amparassem? Preferiu abandonar seus intentos de ahi fixar uma povoação européa, que não poderia sustentar-se por muito tempo. Embarcou-se de novo, agora decidido a voltar para a Hespanha, e a exigir melhores embarcações e mais poderosos elementos com que podesse proseguir em seus designios. Não perdera ainda as esperanças de dilatar sua gloria por novos feitos que praticasse! Um temporal, porém, o assaltou logo depois da partida de Veragua. Tão maltratados ficaram seus navios, que o almirante com dôr reconheceu-os innavegaveis. Faziam agua por todos os poros; não havia meio de segurar-lhes as costuras; a cada momento ameaçavam naufragar, e nem dia nem hora e nem minuto tinham de descanço os navegantes occupados em esgotar as embarcações que se afundavam á olhos vistos.
Difficultosamente arribou á Jamaica. Examinando com cuidado o estado das caravellas, percebeu-as perdidas de todo, incapazes até de arrostar aguas tranquillas. Não havia para ellas salvação, qualquer que fosse a viagem. Não descobriu remedio sinão em abandonal-as por impossivel o concerto. Conhecendo quanto eram bravios os indigenas da Jamaica, não ousou desembarcar. Formou plano novo. Enterrou nas areias da praia as suas caravellas, para que ao menos lhe servissem de morada. Encalhadas assim e firmemente, para o convez transferiu os depositos de armas e o resto de mantimentos e munições, e ahi armou leitos para si e para a tripolação, como casas improvisadas. Por este modo poderia conter os indigenas e defender-se quando assaltado, em quanto lhe não viessem soccorros do Haity. Mandou apromptar a melhor lancha de bordo, nella embarcou intrepidos navegantes e incumbiu-lhes fossem á S. Domingos pedir embarcações, que o viessem buscar, compromettendo-se com Ovando que não lhe disputaria o governo da ilha, e só queria navio, em que podesse recolher-se á Hespanha. Pediu-lhes toda pressa em trazer-lhe auxilios, e animou-os á seguir a costa meridional do Haity até chegar á S. Domingos.
É mais facil que imagineis do que me seria pintar-vos os soffrimentos do infeliz almirante: doente e obrigado a apasiguar a uns, consolar a outros, animar os companheiros prostrados, desesperados, irritados, que delle se queixavam, imputando-lhe temerarias e fantasticas emprezas. Não menos de duas revoltas francamente irromperam; resultou de uma que se embarcaram cerca de vinte e cinco sediciosos em escaleres e canôas de gentios, e atiraram-se aos mares para se acolherem á S. Domingos, sem se importarem com o commandante e companheiros que deixavam. Ao segundo motim conseguiu Colombo oppôr resistencia, e feriu-se combate á bordo dos navios encalhados; abandonados estes pelos sediciosos, foi mister continuar a luta em terra, á vista dos gentios que se espantavam de assistir á brigas entre os invasores. Houve mortes de parte á parte, mas Colombo venceu e sustentou ainda sua autoridade! Exasperava-se, todavia, porque mezes e mezes estavam decorrendo sem que lhe viesse resposta de S. Domingos! Mais penosa e attribulada tornava-se ainda sua situação, sómente alimentando-se com os vegetaes e fructas, que por bem ou ameaças conseguia dos indigenas!
Felizmente que de S. Domingos chegou, no fim de um anno de soffrimentos na Jamaica, uma pequena embarcação que se conseguira fretar, destinada a receber á seu bordo Colombo e os tripolantes dos navios naufragados! Seguiu então para S. Domingos; ahi recebeu-o Ovando convenientemente, e prestou-lhe uma caravella em que seguisse viagem para Hespanha.
Que sentimento, que dores agudas não supportou Colombo, revendo a terra que elle tanto amara, curvada agora pela mais terrivel tyrannia e perseguidos e maltratados os gentios como animaes bravios! Tanto Bobadilha como seu successor Ovando tratavam exclusivamente de escavar o solo, procurando minas de ouro.
Para conseguir melhor seus intentos, aprisionavam indigenas, obrigavam-n'os á fadigas superiores ás suas forças, atormentavam-n'os com castigos atrozes, trucidavam-n'os á menor relutancia. Não parecia sufficiente o arbitrio e violencia da autoridade official. A horda hespanhola existente na ilha, famelica de riquezas, visionaria de opulencias, atirava-se ás minas por si e por sua conta particular, arrastados pela avidez de arrancar-lhes o thesouro. Para realizar seus desejos não só escravisavam por seu lado, como com castigos barbaros obrigavam os desditosos selvagens á trabalho excessivo á que não estavam acostumados; resultava-lhes a morte mais ou menos apressada, conforme a robustez dos corpos.
Taes foram os horrores praticados contra os infelizes indigenas, que a voz eloquente de Las Casas acordou por fim os sentimentos religiosos da Rainha. Impressionada Isabel com as noticias, ordenou que em vez de escravisar os gentios, se mandassem buscar ás costas africanas pretos afim de os substituirem no captiveiro. Infelizmente só com a extincção dos miseros americanos é que socegou a tyrannia dos invasores, e se puderam executar as ordens régias! Doze annos depois da descoberta do Haity, cerca de um milhão de naturaes haviam perecido, victimas da cobiça hespanhola, porque Ovando ao receber ordens régias terminantes para não escravisal-os, e para substituil-os por pretos arrancados á Africa, entendeu que a segurança dos hespanhoes exigia a diminuição de seu numero, e então pretextando levantes e rebeldias delles, moveu-lhes guerras continuadas, e permanentes assaltos. O exterminio augmentava de fórma que a olhos vistos desappareciam os mal aventurados indigenas! Horrorisa ainda hoje a noticia da matança em massa denominada de Xaragua, em que mais de tres mil, velhos, moços, mulheres, crianças, foram esmagados á passos de cavallo, despedaçados pelos cães de fila, fuzilados pelos arcabuzes dos soldados, e cortados pelas espadas dos hespanhoes, sem que se lhes attendesse ás vozes implorando misericordia, e sem que os gentios oppuzessem a menor resistencia quando surprehendidos em sua aldêa!
Que arrependimento não seria agora o de Colombo! De que lhe servia a gloria do descobrimento da America deante do painel tenebroso, que aos olhos se lhe desfraldava! Não fôra o algoz dos americanos. Fôra, porém, quem ahi levara os carrascos para que exterminassem barbaramente uma raça de homens innocentes e pacificos!
Desembarcado em Cadix, dirigiu-se Colombo para Sevilha, onde foi obrigado a demorar-se alguns dias por se lhe aggravarem os padecimentos physicos. Escreveu, no entanto, á Rainha, summariando-lhe os desastres de sua ultima viagem. A morte inesperada de Isabel de Castella, em 1504, cortou-lhe, porém, todas as esperanças de conseguir justiça ás suas reclamações. Estava pobre, e tinha sido despojado do seu governo e dos seus bens no Haity. Logo que pôde emprehender viagem, seguiu, todavia, de Sevilha para Segovia á procurar D. Fernando de Aragão, que, além do seu reino, governava como regente o de Castella, na ausencia da filha D. Joanna, herdeira de Isabel. Bem que encontrasse frieza no acolhimento que lhe fez o Rei, perseverou em suas supplicas, acompanhando-o a Valhadolid.
Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se não levantou mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver tranquillo no tumulo. Após alguns annos seus herdeiros o transportaram para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795, cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam, transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde então repousam.
Minhas senhoras e senhores.
Até aqui historiámos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor delles, o resultado que o mundo colheu de tão trabalhados e heroicos esforços.
Muitos são e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e de Colombo, e em todas as linguas européas. Bibliothecas importantes formariam as collecções de livros publicados á respeito. E portanto varias versões, differentes apreciações, contrarios juizos, factos differentemente recontados e opposições manifestas, encontram-se, desde os chronistas que só o cobrem de elogios até aquelles que procuram a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.
Soffreu numerosas injustiças durante a vida. Não menos clamorosas se levantaram contra sua reputação depois de sua morte.
Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados á arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia e insoffrida temeridade.
Ousou-se negar-lhe até a gloria do descobrimento da America, asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.
Que é das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses exploradores primitivos? Que é das narrações que elles fizeram? Como antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava então na Europa?
Ainda da Atlantida de Platão encontraes o mytho, a legenda, que o grande philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que não acredita. Quanto, porém, ás viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que só depois da morte de Colombo é que nellas fallou-se. É muito possivel que um ou outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sinão o acaso? Como, porém, só se espalharam estas noticias depois que Colombo baixara á sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se sagas, decantaram-se expedições de aventureiros que da Groelandia se communicavam com a America; minuciaram-se tradições, e fabricaram-se noticias escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?--Não, nada delles se sabia, nem mesmo por meio de tradições oraes e que se propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando ellas fossem reaes, não eram conhecidas.