Christovam Colombo e o descobrimento da America
Part 6
Não tardaram em promptificar-se seis grandes navios convenientemente armados e tripolados no porto andaluz de S. Lucar, vizinho do de Cadix. Foram carregados de armamentos e viveres em abundancia, de obreiros e mineiros para a extracção do ouro, e de missionarios para a catechisação dos gentios.
Confiados de novo á Colombo, transmittiu-lhe a Rainha instrucções para que não parasse na empreza de abrir commercio com o Japão e a China.
Partiu assim Colombo para sua terceira viagem de descobrimento das Indias em julho de 1498, e agora do porto de S. Lucar.
Já algumas nações da Europa agitavam-se, no entanto, com o pensamento de relacionar-se tambem com as Indias. Por que Hespanha e Portugal seriam as unicas a ganhar louros gloriosos na historia do mundo, a dilatar os conhecimentos e sciencias cosmographicas, a opulentar-se e enriquecer-se em commercio e navegação? Faltavam á ellas elementos e meios para emularem e competirem com os dous povos da peninsula iberica? Não dispunham egualmente de homens habituados aos azares maritimos, de temerarios chefes e soldados intrepidos para tomarem parte no movimento assombroso e conquistador, cujas noticias causavam o espanto e a admiração geral?
Que poderiam, porém, Francezes intentar quando seu rei, Carlos VIII, vivia occupado em reunir á corôa franceza a Bretanha, no desejo de completar a obra de seu finado pai, Luiz XI, que anciara unificar a França em um só reino? Quando, além disso, iniciara guerras com Fernando de Aragão por ciumes de dominar a Italia, e apoderar-se de Napoles e Sicilia? Atrevidos eram ainda como sempre o haviam sido os normandos, marinheiros audazes, e pois, em despeito das ordens régias, e apoiados só em suas energias e temeridades particulares, começavam espontaneamente á devassar as aguas do Atlantico, seguindo primeiramente os passos dos portuguezes pelas Costas da Barbaria e da Guiné.
Adeantou-se-lhes, porém, Henrique VII de Inglaterra: resolvido á partilhar as glorias de abrir caminho á seus subditos para a India, convidou a um venesiano, de nome João Caboto e a seus filhos, residentes em Bristol; autorizou-os á tripolarem navios, que seguindo como os hespanhóes o rumo de Oeste, descobrissem terras e dellas se apossassem em nome da corôa britannica. Não perdeu Caboto tempo; aprestou navios, e ousou viajar affoitamente, antes que terminasse o anno de 1496. Foram-lhe propicios os ventos, e acertada a direcção. Descobriu em principios de 1497 terra na America Septentrional aos 58 gráos de latitude; encaminhou-se dahi para o Sul e verificou varios pontos; chegando á bahia de Cheasepeake, aos 34 gráos, no sólo fixou postes declarativos do dominio britannico. Voltou para Inglaterra levando á seu bordo algumas madeiras e bastantes gentios. Pararam ahi por alguns annos as explorações por parte de Inglaterra, porque não resultavam da viagem beneficios correspondentes ás despezas effectuadas. Si fôra Colombo o primeiro que descobrira a America em 1492, e se apossara das ilhas do mar das Antilhas; foi Caboto o primeiro europeu que avistou, em 1497, a terra firme, bem que já no Haity se houvesse Colombo estabelecido e ahi fundado a primeira povoação européa. Tanto, porém, um como o outro, conjecturavam que tudo aquillo eram ilhas asiaticas e não propriamente terra firme, ou um continente separado e novo.
Deixado este incidente, que muito esclarece, todavia, a historia do descobrimento da America, acompanhemos á Colombo em 1498, na sua terceira viagem executada, já depois da partida de Vasco da Gama, que em 1497 deixara a barra do Tejo, largando de Lisbôa, em busca egualmente das Indias.
Com seus seis navios fundeou Colombo, segundo seu costume, na ilha Gomera. A tres ordenou seguissem directamente para a cidade de Isabel, no Haity. Com os outros tres, dirigiu-se para o Sul e arribou ás ilhas de Cabo Verde. Dahi caminhou para OSO., e a 31 de julho descortinou aos 9 gráos de latitude terra desconhecida. Era a ilha que tomou o nome de Trindade. Deslumbrando para o sul montanhas longinquas e que se perdiam no espaço, para ellas proseguiu sua rota, e achou-se deante de um canal rodeado de rochedos e recifes.
Espantou-se de ver o mar, bem que não agitado por ventos, levantar-se em ondas altanadas e subir e descer furiosamente, banhando terras cobertas de vegetação robusta e deslumbrante.
Passou instrucções aos commandantes dos navios e aos pilotos para se acautelarem contra as correntes e impetos das vagas, emquanto elle tratava de examinar o phenomeno.
Ordenou que das lanchas lançadas ao mar se examinasse seu fundo. Provadas as aguas, percebeu-se que eram doces inteiramente. Comprehendeu logo que se precipitavam alli rios caudalosos, que só de terras vastas e não de pequenas ilhas podiam nascer tão possantes e tão abundantes.
Não se enganava. Alli rebentava o famoso Orenocco por suas numerosas e tumultuarias boccas, despejando aguas altivas no Oceano e fazendo recuar as salgadas do mar, prestando assim gosto adocicado ás vagas e causando esse phenomeno de elevações extraordinarias, de correntes perigosas e de ondas assoberbadas.
Communicou com a terra e pelos seus interpretes, que se entenderam com os gentios, soube que penetrara no golpho denominado Pariá, que o paiz era cultivado, e os indigenas mansos. É ponto ainda duvidoso si desembarcou então o proprio Colombo, ou si apenas mandou pisar o continente por seus officiaes. Como quer que seja, avistou emfim a terra firme, travou relações com os indigenas, presenteou aos caciques com innumeras bugigangas e vestimentas coloridas, e recebeu em troca fios de perolas, que diziam os naturaes vinham do Oeste. Maravilhado e satisfeitissimo, continuou sua viagem, tratando de sahir do golfo em que se achava. Deparou caminho pela Bocca do Dragão, e penetrou no mar das Antilhas: numerosas ilhas se lhe apresentaram ainda. A costa do Pariá seria ainda uma ilha, ou era já parte do continente das Indias que por alli se estendiam? Posto que mergulhado em duvidas, tomou as alturas, verificou as localidades, e tratou de recolher-se ao Haity, para mais tarde e acuradamente proceder á escrupulosa exploração.
Chegado á Isabel, soube que seu irmão Bartholomeu fundara uma nova cidade ao sul da ilha, á qual dera o nome de S. Domingos, nas proximidades das minas de Hayna, e que resultados mais compensadores alcançavam suas fadigas, tendo-se extrahido já bastante ouro. Para lá partiu incontinenti Colombo, e converteu S. Domingos em séde do governo. Fundações de novas aldêas e fortes militares determinou tambem, assegurando assim a posse da ilha e curvando os gentios a seu governo. Concedeu a uns liberdade, com obrigação de pagar tributos; declarou captivos os remissos, e empregou-os nos trabalhos da mineração. Quanto aos prisioneiros de guerra, perseverou no systema de envial-os para Hespanha, afim de lá se venderem como escravos.
Não viviam, porém, tranquillos os hespanhóes; intrigas, tumultos, rixas entre si, ameaças de revoltas, tinham roubado muito tempo á Bartholomeu, durante a ausencia de seu irmão. A presença deste não extinguiu as tentativas sediciosas. Um capitão, Roldan, havia levantado o estandarte da rebellião, e á frente de gente bastante tinha-se fortificado em um posto militar, atacando dahi e assaltando as povoações hespanholas vizinhas, e incitando as tribus de gentios a se não resignarem ao jugo dos hespanhóes, que muitas eram e dirigidas todas por caciques particulares. Foi o almirante compellido a guerrear de novo. Á frente de numeroso corpo de soldados e servindo-se de cães de fila, e agora tambem de cavallaria, de que já dispunha, e que muito assustavam e maltratavam os gentios, dirigiu-se ás possessões do cacique Guarionez e desbaratou-o completamente. O mesmo não pôde, porém, fazer no tocante aos revoltosos hespanhóes capitaneados pelo chefe Roldan. Conjecturou ser melhor politica transigir e conciliar-se, fingindo acredital-o arrependido de haver-se levantado contra Bartholomeu, que elle accusava de injustiças praticadas.
Era um bravo e ousado soldado, que Colombo poderia conter com geito, e aproveitar para emprezas de vulto, bem que dahi podesse resultar quebra de seu prestigio. Não seria mais desastrosa uma guerra civil, caso o tratasse como qualquer outro rebelde e elle resistisse, como se deveria temer?
Cumpre aqui dizer que o ouro e perolas enviadas para Hespanha, e as communicações officiaes feitas por Colombo de que descobrira as terras opulentas do Golfo do Pariá, e que dahi esperava colher copiosas riquezas, incitaram os animos de muitos audazes aventureiros, que se propuzeram logo aos reis catholicos para á suas expensas particulares emprehenderem descobrimentos novos. Não annunciara o governo que concederia patentes para suas emprezas? Animava-os, além disso, o bispo Fonseca, e á um delles, Alonso Ojeda, seu protegido, antigo companheiro e subordinado de Colombo, mas de quem agora se manifestava inimigo, concedeu-se carta régia patente para por sua conta aprestar navios e explorar continentes novos.
Quatro caravellas aprestou Ojeda, e partiu do porto de Santa Maria, defronte de Cadiz, em maio de 1499, levando como seus socios e companheiros um basco atrevido, por nome João de la Cósa, que aprendera ás ordens tambem de Colombo, e o florentino Americo Vespucio, que residia em Hespanha, e era muito applicado á estudos cosmographicos e á confecção de cartas maritimas, e ambiciosissimo de tomar parte em expedições da India. Foi esta a sua primeira viagem, sob o commando de Ojeda, bem que elle em cartas particulares, que se publicaram, e que muito teem illudido os historiadores, declarasse falsamente que já em 1497 viajara nas Indias Occidentaes: com quem e quando, nunca exhibiu provas e nem deu ou deixou o menor esclarecimento, cahindo em contradicções palpaveis, e em inexactidões á respeito dos gráos de latitude, o que prova imaginara e não vira com seus olhos. Conseguiu Ojeda do bispo Fonseca cópia do roteiro da terceira viagem de Colombo, e dirigiu-se inteiramente por elle. Descahiu um pouco para o sul, e, segundo affirma, descobriu terras que se conjecturam ser as Guyannas, bem que credulos escriptores pensem ter elle chegado ao Brazil. Volveu das Guyannas para o Norte, sem ter ultrapassado a linha, como elle proprio o assevera. Atravessou o golfo de Pariá, e foi cosendo-se com a terra firme. Desembarcou perto da Bocca do Dragão, e encontrando valentes oppositores nos gentios, travou com elles combates sanguinolentos, e perdeu bastante gente. Continuou, e ao entrar no golfo de Venezuela, simularam os indigenas que o acolhiam amistosamente, levando para bordo dos quatro navios hespanhóes cerca de vinte mulheres. Confiadamente desceu á terra Ojeda. Foi então assaltado repentinamente, e com difficuldades inauditas pôde voltar para seus navios. Revelaram-se os indigenas valentes lidadores, e usavam de flexas, escudos e lanças, batendo-se com alguma estrategia, e matando bastantes soldados adversos.
Proseguindo em suas aventuras, sem nenhum proveito, chegou ao Cabo da Vela: faltando-lhe viveres, dirigiu-se ao Haity, quando recebera ordens positivas em Hespanha para lá não desembarcar nessa ilha que era privativa de Colombo.
Que decepção apoderou-se de Colombo ao saber que navegavam hespanhóes por aquellas aguas e terras que elle reputava de seu governo e que lhe não prestavam preito e homenagem! Não infringira a Corôa hespanhola seus contratos concedendo-lhes licenças? Não se lhe desprestigiava a autoridade?
Quantas difficuldades, perigos e desgostos para Colombo! Não lhe bastavam as permanentes sedições de rebeldes hespanhóes contra sua dominação. Não se haviam levantado Guemara e Moxica em 1500? Moxica e seus companheiros haviam sido condemnados á morte e executados, e Colombo precisava tornar-se mais severo e inexoravel com os conspiradores. Felizmente para Colombo, occupou-se Ojeda em concertar seus navios e refazer-se de viveres e aguada, e voltou para Hespanha sem causar-lhe o menor desgosto.
As noticias, porém, que á Hespanha chegavam á respeito da situação do Haity, das sublevações alli verificadas, e dos actos rigorosos que fôra Colombo compellido á commetter, suscitaram de novo clamores do povo contra Colombo, e impressionaram forte e desagradavelmente a propria rainha Isabel á seu respeito. Não ouvia ella sómente queixas de seus inimigos e relatorios parciaes do bispo Fonseca? Por elles julgou conveniente decretar uma providencia destinada á syndicar o procedimento de Colombo, e á averiguar a verdade das accusações, que constantemente se lhe dirigiam. Nomeou á Bobadilha para seu representante nas Indias Occidentaes, e muniu-o de plenos e geraes poderes para castigar quantos julgasse criminosos, e retirar até das mãos de Colombo o governo da colonia, caso o considerasse indispensavel.
Em julho de 1500 partiu Bobadilha para o Haity.
Apenas desembarcado em S. Domingos, chama as autoridades, mostra-lhes seus plenos poderes, e declara-se na posse das conquistas, aproveitando-se da ausencia de Colombo e de seu irmão, que estavam no forte distante da Conceição.
Todos curvam-se á sua voz e ás ordens régias. Manda então Bobadilha intimar á Colombo para que venha defender-se de accusações que contra elle haviam sido endereçadas á Corôa. Não se temeu Colombo de partir para S. Domingos. Bem, todavia, não havia chegado, foi preso com seus irmãos e amigos, carregados todos de ferros, e encarcerados em uma fortaleza. Processos se organizaram, ouviram-se como testemunhas quantos se suspeitavam adversos ao almirante. Não houve crime de arbitrio, tyrannia, concussão, ou roubo que lhe não fosse imputado. Embarcados em uma caravella foram Colombo e seus companheiros de infortunio mandados para Hespanha, com ferros aos pés, e ordens para serem vigiados por guardas, quaes réos de horrorosos attentados. Assim pagavam os reis de Hespanha á Christovam Colombo seu grande feito de descobrir um novo mundo!
QUINTA CONFERENCIA
12 de julho de 1891
Entramos no seculo XVI. Resplendia elle, e corria seu primeiro anno, o de 1500.
Devia, com certeza, ter-se fundamente impressionado a Europa com as novas continuadas de expedições effectuadas por hespanhóes e portuguezes em mares nunca até alli devassados, e descobrimentos de terras inteiramente desconhecidas.
Portugal começara ao principiar o seculo XV. Unica nação persistira, durante elle, em aprestar e atirar ao oceano uns apoz outros navios. Tinha conseguido desencerrar os segredos dos mares; tinha conseguido dissipar os terrores da zona torrida, corrido a costa d'Africa para o sul, dobrado--primeiro povo--a linha equinocial, e attingido e reconhecido emfim o Cabo da Boa-Esperança, ao sul, aos 34 gráos de latitude. Abrira, portanto, o commercio da Guiné e da Mina, e avassallara as copiosas ilhas, que desde os Açores ramalhetam o Atlantico, em ambos os hemispherios. Hespanha começara, em 1492, á explorar continentes novos, sob a direcção de Christovam Colombo, e alcançara no curto espaço de oito annos penetrar no mar das Antilhas, dominar importantes ilhas e avistar a terra firme do Pariá e Venezuela.
Estaria só á Hespanha e á Portugal destinada a gloriosa tarefa de retalhar os mares, deparar terras novas, aperfeiçoar as sciencias mathematicas e physicas, abrir relações commerciaes com povos desconhecidos? E o que é mais, gravar na historia universal as paginas mais deslumbrantes e proveitosas para a civilisação e a humanidade?
Certo é que, á excepção de Inglaterra, que em 1497 fixara marcos de posse na costa Norte-Americana, graças ás ousadias dos Cabotos, mas que ahi parara, nada mais promovendo; nem a França com seus destemidos marinheiros normandos, que durante a edade média assolavam as praias de Hespanha, Portugal, Napoles e da Sicilia; nem qualquer outra nação européa se movia ao raiar do seculo XVI, primeiro dos tempos chamados modernos, á seguir-lhes o exemplo.
A corôa hespanhola firmara o principio de concessões á particulares que proseguissem na carreira das explorações, entendendo que era mais conveniente politica aproveitar-se dos seus trabalhos, sem dispendios, antes com vantagens para o thesouro.
Logo após Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon, munidos de cartas patentes de concessão. Colombo aprendera na escola maritima portugueza. Creara, porém, em Hespanha, ao devotar-se ao serviço das corôas de Castella e Aragão, uma escola notavel egualmente de marinheiros intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a vida maritima muitos hespanhóes ambiciosos que posteriormente commetteram portentosas façanhas. Nino com uma só pequena caravella do porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcançara dos gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubiça. Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro á dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando quatro caravellas. Navegando então para o Oeste, descobriu a 28 de janeiro de 1500, á varios gráos de latitude sul, uma terra, que denominou Santa Maria da Consolação, e que parece ser o actual Cabo de Santo Agostinho.
Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte, porque nos assentos do diario de bordo se não fixou exactamente a latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante á Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declarações no processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Corôa, ultimamente publicado, resulta prova de que não passou a Equinocial para o sul. Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com denodo e lhe mataram dez homens da tripolação dos navios, teve que abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas, entranhando-se nas do oceano, e repellindo-as com força, subiam e desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com medonho estampido. Saltou ahi em terra, e não encontrando opposição dos gentios, apanhou por surpreza á muitos que embarcou nos navios, seguindo logo depois para o Pariá. Um terrivel tufão causou o naufragio de duas de suas caravellas. Salvaram-se á custo as restantes, que aportando felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides não passou do golfo do Pariá, bem como Leppe, posto que este declarasse em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa não tomara os gráos de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas, quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.
Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhóes pelos mares do Oeste, não cessavam, por seu lado, os portuguezes de continuar em descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto. As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho, o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moçambique, Melinde, Mombaça na Africa Oriental. Não contente ainda El-Rei D. Manoel com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real, em 1500, praticasse uma excursão ao Norte pelo Atlantico no proposito de acompanhar os hespanhóes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do Labrador, e o rio S. Lourenço. Em segunda viagem, a que de novo se arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.
Á 9 de março de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral, commandando armada importante, afim de continuar as explorações de Vasco da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo e ao O. para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperança, descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gráos de latitude. Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relações com os indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.
Allegou Hespanha seus direitos á terra do Brazil, descoberta antes e ao N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em consideração do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mão, considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no futuro para ahi se dirigissem.
Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciação das terras que ao Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na crença de que eram ilhas sinão costas da Asia, e portanto as denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de indios.
Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente novo, inteiramente então desconhecido, habitado por uma raça diversa, e onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e innocentes, residiam nações civilisadas como os Incas do Perú e os Aztecas do Mexico!
Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos gigantescos. Si após Colombo, denodados Hespanhóes, como Ojeda, Vasco Nunez de Balboã, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe importantissima parte do continente Americano, e conquistaram até reinos civilisados como os do Mexico e Perú, ao lado e no centro de povos barbaros; Bartholomeu Dias não se manifesta tambem arrojado navegador, e não commettera façanha reconhecendo o Cabo das Tormentas? Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e João de Castro não perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas, não submetteram as nações poderosas e opulentas do Malabar e golfo Persico de Malaca? Não levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?
Deviam, portanto, ao saberem dessas excursões prodigiosas de Portuguezes e Hespanhóes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus. Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo XVI, para que Portuguezes e Hespanhóes não fossem os unicos que dominassem o mundo até alli ignorado. Que importava que os feitos dos filhos da Iberia produzissem admiração e espanto, formassem verdadeiras epopéas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambições. Havia espaço para todos. Convinha não se conservarem tranquillos espectadores do movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes, Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.