Christovam Colombo e o descobrimento da America

Part 3

Chapter 33,697 wordsPublic domain

A redondeza da terra admittida,--perguntavam elles a Colombo,--como depois de descer de um lado podia-se subir voltando por esse ou pelo outro lado? Nem mesmo os mais propicios ventos conseguiriam prestar forças para se caminhar para cima. Não era sabido que havia zonas torridas inhabitaveis e que só a temperada, que era a septentrional, estava adaptada á moradia dos homens? Dentro da zona torrida não existia o cahos? Quem lá fosse poderia voltar? Admittida a hypothese da possibilidade, quantos annos seriam precisos para atravessar os mares, e como levar mantimentos e agua para sustentarem-se os aventureiros?

A todas estas argucias, erros e prejuizos, derivados da ignorancia e do pedantismo, respondia Colombo com calma e sabedoria, protestando sempre que era conscienciosamente catholico, e pela religião christã estava disposto a morrer. Muitos dias duraram as sessões, e as actas transcrevem todos os seus incidentes e debates, até que o concilio as suspendeu, protestando cansaço.

No entanto continuavam os reis hispanicos a combater o reino de Granada, atacando-o por varios pontos e lados, e a pouco e pouco conquistando-lhe territorios, castellos, praças e cidades, que incorporavam logo em seus Estados.

Voltou Colombo para Cordova, e esperou a decisão dos monarcas. Acompanhava-os á guerra, coadjuvava-os com seu braço e com seu valor; esforçava-se em ser-lhes util para lhes ser agradavel; e não perdia occasião de patentear á rainha seus enthusiasmos religiosos e seus sentimentos catholicos, no intuito de assim affeiçoar-lhe a sympathia e ganhar-lhe a protecção.

Depois de mais de um anno decorrido teve Colombo resposta de que, em presença da opinião e consulta do concilio de Salamanca, não se acceitavam seus projectos.

Acabrunhado deixou a Côrte, e seguiu caminho do convento da Rabida, onde de novo recebeu benigno acolhimento do prior Juan Perez.

Sentiu-se o prior offendido, e tratou de chamar amigos para ouvirem a Colombo e combinarem em qualquer alvitre: um medico illustrado e um navegante rico de Palos, Martim Pinzon, chefe de importante e numerosa familia, formaram com elle e Colombo a sociedade em que se discutiram os projectos e theorias do geographo.

Pinzon que era instruido, e o medico intelligente, convenceram-se, tanto como o prior, de que o plano de Colombo era exequivel, e daria grandes proveitos, riquezas e gloria á Hespanha. Resolveram que se tentassem ainda esforços com os reis de Hespanha para acudirem ao pedido de Colombo. Partiu um emissario com cartas para varios personagens eminentes, rogando-lhes a intervenção.

Bem succedidas foram as endereçadas ao Duque de Medina Celi e ao arcebispo de Toledo: conseguiram estes personagens importantes que Isabel mandasse de novo chamar Colombo á sua Côrte.

Partiu Colombo ao encontro dos monarcas que estavam em Santa Fé, cidade improvisada na Veiga de Granada, junto á capital dos Abencerrages, e destinada á combatel-a, apertando-a em cerco. Corria o anno de 1491.

A guerra absorvia os cuidados de Isabel: era ella a protectora de Colombo, porque Fernando considerava sua idéa de utopia: a guerra foi ainda causa de que nada por emquanto se decidisse. Por fim cahiu Granada em poder de Castella: assistiu Colombo á scena da entrega das chaves do Alhambra e da cidade, da expulsão e desterro para a Africa dos reis Mouros e de quantos subditos seus se não prestaram a ser baptisados christãos. Presenciou tambem a entrada de Fernando e Isabel dentro dos muros da famosa capital que teve de derribar os crescentes Mahometanos das mesquitas e edificios, e erguer em seu logar a Cruz de Christo victoriosa e ufana.

Nada de decisão todavia á respeito dos projectos de Colombo, e já se entrava no anno de 1492. Desanimado com tantas demoras resolveu elle partir, e inesperadamente, de Granada, decidido a procurar outros governos, que lhe comprehendessem as ideias e as coadjuvassem.

Fallava em França e em Inglaterra, como apoios que lhe restavam, e d'ahi provém sem duvida a asserção de que elle se offerecera á Inglaterra para conseguir seus designios.

Bem não havia deixado a côrte quando o Duque de Medina Celi e a Marqueza de Moya obtiveram que Isabel o ouvisse de novo. Não estava a Rainha vencedora de inimigos Mouros? Não estava delles liberta toda a Hespanha? Não havia o Papa applaudido a sua empreza e concedido aos monarcas hespanhoes o titulo de reis catholicos? Augmentasse ella seus louros gloriosos, tentando emprezas maritimas, aproveitando os talentos de Colombo, engrandecendo a Hespanha com conquistas ultramarinas, e abrindo á Europa o caminho das Indias.

Mandou-se procurar Colombo, que partira no proposito de abandonar a Hespanha. Regressou Colombo para Santa-Fé, e ordenou a Rainha se lavrasse contracto na conformidade do seu pedido.

É singular o contracto: tem data de 17 de abril de 1492, escripto e assignado em Santa-Fé. Declarando Fernando que não concorria para elle, Isabel tomou todas as despezas á sua conta e conta exclusiva de Castella, sem que o Aragão participasse.

Dizia no 1.º § que Colombo teria para si durante sua vida o cargo de almirante nas terras que descobrisse e conquistasse; 2.º que seria vice-rei e governador, podendo designar tres pessoas á Rainha para ella escolher o que interinamente o substituisse; 3.º que poderia entrar com um oitavo das despezas do armamento e navios; neste caso lhe caberia mais um oitavo dos beneficios; 4.º que Colombo e seus herdeiros teriam direito a um decimo de todas as pedras preciosas, metaes, perolas, prata, ouro, especiarias e mercadorias; 5.º que á Corôa de Castella pertenceriam exclusivamente os dominios das terras achadas e conquistadas e suas respectivas rendas e beneficios; 6.º que Colombo e seus descendentes, logo que houvessem conseguido descobrimentos de terras, poderiam usar do titulo e honras de Dom, o que em Hespanha significava então fidalguia da primeira plana.

Logo que celebrou-se o contracto, a piedosa Rainha ordenou que se entregassem á Colombo duas caravellas armadas e tripoladas convenientemente, confiando-lhe sua absoluta direcção, e pagando a Corôa os soldos e vencimentos dos officiaes, pilotos, empregados e marinhagem. Partiu Colombo radioso para Palos, porto designado para seu embarque, e levou comsigo as ordens régias necessarias afim de que as cumprissem as autoridades, alcaides, corregedores, e empregados civis e militares.

Ganhara emfim o premio de cinco annos de trabalhos, desesperos, mofas, zombarias, com a paciencia, a resignação, o talento e a pertinacia nos designios, que lhe assoberbavam o animo.

Era Palos um pequeno porto á margem do rio Tinto, quasi em sua juncção com o rio Odiel; apenas reunidos ambos lançam-se no mar, ao occidente de Cadix e quasi nas proximidades da Andaluzia com a provincia portugueza do Algarve. Porto naquella epoca frequentado por mercantes, e abastado de navios e marinheiros, que se entregavam ao commercio e á navegação costeira do Mediterraneo. Hoje acha-se inteiramente decahido e despovoado, porque os moradores transferiram-se para o de Muguer, mais acima no rio e mais apropriado ás necessidades da povoação e ás exigencias da vida maritima. Palos ficava perto do convento da Rabida, e era a patria dos Pinzons, familia poderosa, que alli residia.

Pensaes acaso que custou caro á Corôa de Castella o favor feito á Colombo? Nem um sacrificio, nem o das duas caravellas. Teve apenas que pagar soldadas aos marinheiros e empregados. Havia o povo de Palos commettido, no anno anterior, um motim, um alvoroto contra as autoridades. Foi pela Rainha Isabel condemnado a dar as duas caravellas e toda a tripolação, commutada nisto a pena maior a que estava sujeito.

Comprehendereis agora, minhas senhoras e senhores, quantas difficuldades e talvez perigos ameaçavam ainda á Colombo e á sua empreza! Enfureceu-se a povoação de Palos ao ler o Alcaide, com todas as formalidades da lei, e no adro da egreja, a ordem régia, a sentença comminatoria e decisiva da Corôa. Quasi que houve segundo motim. Foi preciso que o prior João Perez viesse acalmal-o com conselhos e exhortações religiosas; que chegasse força armada de Sevilha com corregedores á frente; que Martim Pinzon empregasse toda a sua influencia, propondo-se á dar uma terceira caravella de sociedade com Colombo afim de perfazer-se oitava parte das despezas da empreza, compromettendo-se tambem a acompanhal-o com seu irmão Vicente na navegação projectada, e provando assim que ninguem se devia temer e assustar diante da viagem projectada.

Não empregassem as autoridades o arbitrio e a força, violentando os povos de Palos, que nada ainda se conseguiria. Uma caravella, a maior, que Colombo denominou _Santa Maria_, de pouco mais de 100 toneladas de carga, de convez corrido, castellos na pôpa e na prôa, dous mastros com velas redondas e latinas, foi arrancada á força a seus donos; a outra, de 80 toneladas, chamada a _Pinta_, custou rateio aos moradores, lançando-se-lhes uma derrama segundo suas posses, e executando-se a pena incontinente sem aggravo nem appellação. Pinzon prestou uma menor, que recebeu o titulo de _Nina_. Estas duas ultimas não tinham convez, eram abertas no centro, com accommodações na pôpa e prôa para os mareantes.

Imaginae que embarcações eram! Superiores lhes são de certo as actuaes sumacas costeiras, os pequenos brigues e escunas de cabotagem de nossos mares interiores e de nossos rios. Não é que faltassem então navios maiores, mas Colombo preferiu os pequenos, afim de poder approximar-se das costas, que exigiriam talvez menor calado de quilha.

Complicaram-se ainda as difficuldades para o calafeto, apparelhos e viveres, e para o recrutamento forçado da marinhagem. Fugiam todos, e foi necessaria uma verdadeira caçada de homens, que se prenderam, e presos trabalhavam diante de tropas que os vigiavam, empregando castigos rigorosos nos recalcitrantes.

A povoação lamentava-se, estremecia, chorava, porque acreditava a viagem uma loucura perigosa para fins desconhecidos, uma perda total dos navios e morte certa dos mareantes, entre os quaes se incluiam numerosos parentes e amigos, obrigados á acompanhar Colombo.

Completou-se por fim a tarefa. Colombo confessou-se com o prior, os empregados e marinheiros com padres particulares. Colombo embarcou-se na _Santa Maria_, e dous dos Pinzons tomaram o commando das duas caravellas mais pequenas, levando todas cerca de 140 homens de tripolação. Soltaram-se as velas no dia 3 de agosto de 1492, e levantadas as ancoras, foram as embarcações descendo vagarosamente o rio e penetrando no mar que proximo e bem perto ahi roncava, emquanto que lagrimas e maldições dos povos de Palos continuavam a mal agourar a viagem.

TERCEIRA CONFERENCIA

14 de junho de 1891

Commandando finalmente tres miseraveis caravellas, affronta Colombo ousadamente as vagas do mar Atlantico em procura das Indias, dessas maravilhosas Indias que elle só conhecia pelos livros errados e mappas defeituosos, que a apresentavam e collocavam defronte da Europa e da Africa, terminadas nas costas do Cathay ou China, e nas ilhas do Cypango ou Japão. Na sua convicção, na sua crença profunda, na sua fé, as Indias não estavam muito longe de Marrocos e de Portugal, separava-se apenas o Oceano Atlantico, e a ellas se podia chegar directamente pelo rumo de oeste.

Velas ao largo, ventos mais ou menos favoraveis, mais ou menos ligeiramente agitadas navegavam as caravellas, engolfando-se no oceano, rumando ao principio ao SO. á procurar as Canarias, situadas á cerca de 27 gráos de latitude, e que lhes deviam servir de ponto intermediario da viagem. Não lhe ensinavam o caminho os mappas geographicos, os esclarecimentos do seu amigo Toscanelli de Florença, e bem assim o globo ultimamente publicado e attribuido ao mestre Behaim, de Nuremberg, que elle conhecera quando em serviço de Portugal?

Não figuravam todos esses documentos o Japão ou Cypango na mesma latitude, pouco mais ou menos, das Canarias, e, na mesma longitude, pouco mais ou menos, em que depois foi encontrada a Florida?

Ao largar do porto de Palos, abriu Colombo um livro em branco, e denominou-o jornal de sua viagem. Dedicou-o aos reis da Hespanha. Conserva-se ainda nos archivos da Corôa este precioso documento, e foi publicado no seculo presente, pelo celebrisado geographo Navarrete em sua interessante collecção de viagens. Escrevia nelle Colombo dia por dia e minuciosamente os successos da sua derrota, desde o momento de deixar a barra denominada de Saltes. Com uma introducção pomposa, assim começa:

--_In Nomine Domini Nostri Jesus Christi_--Encarregado pelos muito altos, poderosos e excellentes reis da Hespanha, etc.--de descobrir os paizes e habitantes das terras das Indias e um Principe poderoso chamado o Grão-Kan da Tartaria, etc.--afim de convertel-os á nossa santa Religião Catholica, Apostolica, Romana--parti de Palos a 3 de agosto de 1492, etc. Cada noite escreverei neste livro tudo quanto se passar durante o dia.--

Devemos, pois, dar todo o credito a estas notas, e assentar sobre ellas nossas observações de preferencia ao que referem muitos escriptores, que, para agradarem ao publico, inventaram episodios que se não encontram no jornal de Colombo e nem se provam documentalmente. Não fallo só dos escriptores contemporaneos de Colombo como Oviédo, Las Casas, Pedro Martyr, Cura de Palacios: refiro-me tambem aos posteros como Herrera, e Garscilaso, e até aos mais modernos como Benzoni, Munoz, Robertson, Prescott e Irving.

Tratou o chefe da pequena frota de captar desde logo a confiança e a estima dos subordinados, de impôr-lhes respeito, e ao mesmo tempo de embeber-lhes no animo a crença de que se não navegava a esmo e sem destino certo, mas que se caminhava direito para as ilhas do Japão encostadas ás Indias e fronteiras ás Canarias. Visto que elle expunha sua vida, que lhe devia ser preciosa, não tivessem os companheiros receio de entregar-se á sua direcção. Encontrou felizmente auxiliar de immenso valor e influencia em Martim Pinzon, que efficazmente o coadjuvou nos mais difficultosos transes e perigos da viagem, e que era muito venerado pela maioria da equipagem, pertencente ao porto de Palos.

Ao correr o terceiro dia de viagem o leme da _Pinta_ desconjuntou-se, e trabalho insano exigiu para se concertar no meio do mar, mais ou menos açoitado pelos ventos. Demorada foi, por isso, a viagem até ás Canarias, e tornou-se necessario moderar e equilibrar a carreira dos navios para que dia e noite navegassem proximos e á vista.

Arribou-se á ilha Gomera; praticaram-se os reparos das caravellas, refez-se a aguada, carregou-se lenha e conseguiram-se algumas provisões. Continuou-se a viagem, e agora rumo directo de oeste, entranhando-se em mares não devassados ainda nem pelos Portuguezes, que se achegavam ás costas africanas para as correrem para o sul, e descobrir-lhes os portos e ancoradouros. As ilhas Canarias, apezar de encontradas pelos Portuguezes em suas excursões maritimas, e de pretender o Duque de Viseu consideral-as por isso de seu dominio, Portugal foi compellido á reconhecel-as propriedades de Hespanha porque navegantes hespanhóes as tinham descoberto antes dos Portuguezes, e dellas tomado posse em nome da Corôa de Castella.

Que sustos assaltaram as tripolações ao passarem pela ilha de Tenerife no momento em que do seu pico saltavam flammas de fogo, que illuminavam a atmosphera! Era para elles novo o espectaculo de uma erupção volcanica, e custou bastante á Colombo explicar-lhes a natureza de phenomeno natural, citando-lhes os exemplos do Etna na Sicilia e do Vesuvio em Napoles.

Iam desapparecendo os dias e as noites, andando-se sempre, e nem um signal de terra! Ás vezes calmarias detinham a marcha dos navios, batendo nos mastros as velas inertes, e soffriam mais que nunca os mareantes incommodos dos balanços descompassados dos navios sobre as aguas aliás tranquillas do oceano!

Adiante caminhava sempre a _Pinta_ por mais veleira, sustendo de quando em quando a marcha para não separar-se das caravellas companheiras. Tinha-se percorrido cerca de duzentas leguas, e apenas se encontrara boiando sobre as aguas um pedaço de mastro de navio! Começavam já a assustar-se os marinheiros, apezar de recontar-lhes sempre Colombo, que na distancia de setecentas leguas das Canarias estavam os opulentos portos e cidades riquissimas do Japão e da China, e ahi se encontrariam thesouros que compensariam os trabalhos! Quantos espiritos começaram entretanto a prostrar-se! Teriam dito adeus ao mundo que deixavam atrás de si? Não veriam mais os compatriotas, os amigos, as familias, o torrão natal, tudo que o homem mais preza e estima em vida! Diante o cahos, o mysterio, o perigo! Mais de um marinheiro velho chorou, lembrando-se da patria!

Quatrocentas, quinhentas leguas tinham-se vencido, e nada de terra!

E o que por alguns momentos abalou um tanto tambem á Colombo foi observar com o cuidado e pericia que elle empregava, que a agulha variava durante as noites e manhãs. Tres dias meditou observando e occultando o phenomeno. Perfeita estava a bussola. Seria causa a estrella polar, que como os demais corpos celestes soffria evoluções e descrevia cada dia um circulo em derredor do polo? Assim o declara em seu jornal haver conjecturado.

Previdente como era, e adivinhando murmurios da tripolação, havia formado desde as Canarias dous cadernos de estimativa, um verdadeiro e exacto para seu uso, e outro para ser a todos aberto e mostrado. Neste ultimo diminuia diariamente as milhas caminhadas, afim de se não amedrontarem os marinheiros com as distancias percorridas.

Felizmente que para infiltrar nos animos alguma coragem, alli appareciam de quando em quando uns monticulos de terra com arbustos balanceados pelas vagas; acolá esvoaçava um passaro aquatico e tambem uma meia duzia delles logo depois se mostravam.

O que produzia alguma esperança nos navegantes era a limpidez, a temperatura da atmosphera, muito menos quente em egual latitude que a das costas de Africa.

De bordo dos navios fazia-se fogo e matava-se um ou outro dos passaros volantes; e ás vezes apanhavam-se peixes que serviam de agradavel repasto.

Em diversas occasiões illudiram-se com aspectos de nuvens accumuladas, que figuravam terras. Disparavam então em gritos de alegria, entoavam canticos de agradecimento aos céos! Tombavam de novo nas apprehensões e sustos ao verificarem o engano. Já claramente se manifestava a decepção dos animos dos tripolantes; terras não appareciam: os indicios que se notavam, bem que se succedessem uns após outros, não bastavam para acredital-as deante de si. Não houve propriamente alvoroto ou revolta, mas a decepção mostrava-se tão intensa já, que se devia temel-o. Propalava-se francamente a opinião de que era mister retroceder, afim de se não perderem todos, homens e caravellas! Colombo quasi não comia e nem dormia, observando durante toda a noite os astros, relanceando os olhos pelo firmamento, e procurando descobrir-lhe o termo no mysterio das aguas!

Uma vez, a 25 de setembro, ao anoitecer, Martim Pinzon gritou da pôpa da _Pinta_ para as duas caravellas, que tinha avistado terra, e queria um premio, apontando para o SO. e mostrando uma longa listra preta por cima dos mares, destacada no fundo do horizonte. Todos proromperam em vivas! Echoou pelo limpido horizonte e em solemnes saudações o cantico de _Gloria in excelsis_, acompanhado pelas vozes de toda a equipagem!

Enganadora illusão! Era uma nuvem que no dia seguinte já se não via no espaço! A aurora desfizera todas as apparencias de terra, bem que durante a noite para ella, que estava ao SO., se navegasse a pannos largos, desviando-se do rumo de O. De quando em quando repetiam-se estas scenas creadas pela imaginação e desejos dos navegantes, e nada de terra, bem que mais de 700 leguas se tivessem já caminhado pelo oceano, pensando a tripolação que só 500 devassara. Eis, porém, que começaram a apparecer passaros de diversas qualidades, e hervas em montes e parecendo frescas, que concorriam bastante para alliviar os sustos!

Corria a noite de 11 de outubro, e estava Colombo encostado á amurada do castello da prôa, meditabundo e abatido, como que desanimado, sentindo apenas rebentar-lhe do peito uma ultima esperança brotada da profunda convicção, que unica o alimentava.

Mais de oitocentas leguas tinham andado desde a ilha de Gomera. Não dava o globo attribuido á Behaim posição das ilhas do Cypango ahi por perto, segundo os livros do viajante terrestre Marco Paulo? A quantidade de passaros que se encontravam no espaço, a direcção de seus vôos para o Oeste, não o confirmavam? Por elles se não regulavam os Portuguezes, com quem aprendera em suas viagens? Não mostravam-se ainda frescas as hervas e arbustos que apanhavam de sobre as aguas? Peixes verdes, só proprios de rochedos, não se colhiam aos anzóes? No estendido horizonte, ao som monotono das ondas rebentando nos flancos dos navios, não adivinhavam seus olhos alguma cousa extraordinaria?

Davam 10 horas quando elle como que deslumbrou em frente uma luzinha, que se movia. Navio não podia ser. Não o havia naquellas paragens. Temendo illudir-se chamou um piloto e mostrou-a. Confirmou-lhe o piloto que era luz. Chamou outro, que foi da mesma opinião. A luz ora desapparecia, ora manifestava-se quasi claramente. Colombo ordenou que a marcha fosse parallela e não em direitura á luz, para melhor se reconhecer a verdade.

Soavam duas horas depois da meia-noite, quando um tiro de peça de bordo da _Pinta_ estrondou repentinamente. Todos levantaram-se, correram, subiram, uns aos mastros, treparam outros por sobre as amuradas. Seria devéras terra? Não equivaleria ainda a uma illusão?

A terra desenhava-se feliz e francamente agora na deanteira dos navios. Revelara-se o grande mysterio do oceano: estava ganha a gloria para o navegador intrepido e arrojado!

Podemos imaginar a scena. Que espectaculo sublime apresentou então a equipagem dessas tres caravellas! Estavam, devéras, deante das Indias? Haviam-nas descoberto? Ou que terra era esta ao Oeste em tanta distancia da Europa, em mares desconhecidos e nunca perturbados pelas quilhas de navios? Mandou Colombo amainar um pouco a carreira das caravellas afim de ir a pouco e pouco melhor observando.

Na sexta-feira 12 de outubro de 1492, ao romper da alvorada, contemplou Colombo o Novo Mundo, o mundo que posteriormente foi denominado America! Que importa que elle pensasse, como sempre pensou, e morreu ainda assim pensando, que descobrira as ilhas e costas Indiaticas, e não um novo hemispherio, collocado entre a Europa e a Asia, e correndo de um para outro polo? Não tinha com o seu genio, com seus estudos e trabalhos, percebido terras novas defronte da Africa e Europa?

Não fôra elle o primeiro Europeu a seguir esse caminho directo do Occidente, em vez de procurar outro pelo Cabo da Boa Esperança, dobrado em 1486 pelos Portuguezes que persistiam em por elle continuar, seguindo rumo para o Oriente, o que triplicava, quadruplicava a distancia e duração da viagem? Para Colombo não houve duvida mais, estavam alli as Indias, e ás terras que descobria foi dando o nome de Indias Occidentaes, como costas oppostas ao Indostão que os Portuguezes procuravam.

A terra que via Colombo defronte de si pareceu-lhe uma ilha, não montanhosa, mas coberta de espessos e altos arvoredos. O aspecto encantava, e á proporção que os navios se approximavam, foram apparecendo homens, sahindo dos bosques, e que se collocavam curiosos nas praias a olhar para as caravellas. A atmosphera diaphana, perfumada, mais ainda o enchia de contentamento e enthusiasmo.