Christovam Colombo e o descobrimento da America

Part 2

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Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir ás Indias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por D. João II, na ponta sul da Africa.

Não tinha Marco Paulo collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um seculo antes? Não ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?

As cartas e mappas de então apresentavam a Asia como mais extensa para o lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade.

Os arabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam estas theorias erradas. Ellas, todavia, mais animavam, excitavam e firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do Atlantico de duas a tres mil milhas maritimas; tendo, além disto, ouvido em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido naufragados, cadaveres de dous homens de organisação physica diversa da Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as Indias, atravessando o Atlantico e seguindo para o Occidente.

Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde D. Henrique trilhavam arrojadamente os mares e commettiam grandes e façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de animo.

Como sábio, não excedia tambem nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim, geographos eminentes da epoca e empregados em Portugal, e menos ainda ao Infante D. Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e fazer executar sublimes emprehendimentos.

Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação, proveniente de profundissima convicção.

Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu proprio executor. É nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporaneos.

Propoz-se então Colombo a D. João II para emprehender uma viagem directamente ás Indias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam alli defronte de Portugal as Indias com a China e o Japão? Mais depressa e menos perigosamente se não chegaria lá?

Convocou D. João II a conselho seus mais reputados sabios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa, e se navegaria seguro para as Indias, e que assim continuasse El-Rei nos seus planos anteriores; que si não era sonho de Colombo a viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo fructo da imaginação mais que da sciencia humana.

Indeferiu D. João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da empreza.

Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza, abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já era 1486 seguiu viagem para Genova.

SEGUNDA CONFERENCIA

31 de maio de 1891

Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fôra recusado por D. João II seu projecto de viagem directa ás Indias pelo Atlantico, seguindo rumo de Oeste.

Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Genova. Amargurava-se porque desde o principio do seculo era Portugal a unica nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de terras novas e desconhecidas; e pois lhe parecia difficil encontrar, outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio continentes ignorados.

Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em que a edade média acreditava; que mostrara enfim que era fabula a existencia de monstros marinhos recontados por Endrisi,--de estrellas luzentes, por Rogerio Bacon,--do cahos impenetravel nas proximidades da linha segundo Albi,--de basiliscos descriptos por Averrhoes,--de gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Arabes, que assim pintando o Atlantico affastavam os espiritos de ousadias de affrontal-o?

Chegado a Genova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus planos maritimos, tratou de obter do governo da republica meios para executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu espirito, affiançando ao estado grandiosas vantagens e glorias immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido, quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolabio e do quadrante, que, no reinado de D. João II, juntos á agulha, unica empregada no tempo de D. Henrique de Vizeu, facilitavam agora as emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres, podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e ficar-se certo da posição maritima.

Com razão escolhia Colombo a Genova por ser sua patria, no intuito de dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se quanto antes pois que os portuguezes proseguiam na sua rota, e com suas diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias proximas ao Mar Vermelho e ao golfo Persico.

Genova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais republicas maritimas da Italia, que tanto poderio e commercio haviam exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do imperio grego de Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos, senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Genova não se achava habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas.

Dissemos que Genova era sua patria. Foi elle sempre em sua vida considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse o faz nascer na Saboia! Para esclarecer a questão de um modo terminante, e provar-se claramente que em Genova e dentro da cidade nascera, e de familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no seculo actual, seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a corôa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido varios fidalgos e familias italianas, que pretendiam ser reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa; publicaram-se egualmente em Genova, nos nossos dias, umas linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviario, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma.

Duas vezes no testamento falla Colombo de sua patria Genova, em uma verba legando uma pensão á qualquer membro de sua familia alli residente, casado e pobre; e exigindo expressamente em outra verba que seus descendentes amassem e venerassem a cidade de Genova, porque em Genova elle nascera e de lá sahira.

Na nota do breviario citado depara-se egual declaração por elle firmada.

Dos processos, que mencionamos, resulta tambem a prova de que não pertenciam á sua familia os Colombos de Escaro e nem outros de Piemonte que reclamavam os titulos com que elle fôra agraciado pelo governo hespanhol, e que para conseguirem seus fins allegavam falsamente que elle nascera, uns em Escaro, e outros em Savona.

Por que mostraria Colombo tamanho amor á Genova, si não fosse alli nascido? Tanto interesse pela republica, onde apenas passara os primeiros annos da mocidade, e que, como Portugal, lhe recusara os meios de ganhar a gloria? Não pulsava-lhe o coração com os impetos do patriotismo?

Já vos declarei que se ignoram os feitos de sua vida até á edade de 35 annos, quando á Portugal chegara e lá se estabelecera. Uns escriptores fallam de suas navegações á bordo de navios, sob as ordens do Duque de Anjou, que pretendia apoderar-se de Napoles; outros referem combates maritimos em que elle entrou contra armadas Venezianas; minuciam os francezes o nome de um Colombo que servira em suas náos de guerra.

Nada, porém, se demonstra com esses ditos. Não podiam haver outros Colombos? Não enganaria o nome ou o appellido?

O que se sabe de certo no tocante á vida de Colombo começa só da chegada delle á Lisboa, em 1470. Nem mesmo se póde fixar a data do seu nascimento, por ausencia completa de elementos comprobatorios.

Não esmoreceu Colombo com o indeferimento de Genova; continuou cada vez a convencer-se mais da exequibilidade de seus planos, com as correspondencias que então estreitou com um eruditissimo geographo de Florença, chamado Toscanelli. As cartas de Toscanelli animavam-no resolutamente á não recuar delles. Enviava-lhe, para fortalecer seus designios, livros, escriptos, esclarecimentos e mappas, dos quaes resultava a idéa de que a Asia estava fronteira á Europa; os mares que as separavam, não comprehendiam distancia maior de duas á tres mil leguas, e continham em seu seio as ilhas de Cypango ou Japão, e banhavam a costa da China, que Marco Paulo visitara, e estudara, seguindo por terra pela Armenia e Persia; declarava-lhe ainda Toscanelli que o Indostão não era tão opulento e rico como o Cathay e Cypango, e o Indostão é que deviam os portuguezes encontrar, logo que dobrassem o Cabo ultimo da Africa, e seguissem rumo do Oriente.

Dizem sem o menor fundamento alguns escriptores que Colombo se offerecera tambem á Veneza e á Inglaterra: nada consta dos arquivos de Veneza que o comprove, e, de certo, alli se encontraria qualquer indicio ou documento, porque guardavam-se preciosamente quantos esclarecimentos obtinha a republica sobre factos ainda de muito menor importancia. No tocante á Inglaterra, escriptores referem que Colombo mandara para lá seu irmão Bartholomeu propôr-lhe o projecto.

Bartholomeu estava então empregado no serviço de Portugal e acompanhara a Bartholomeu Dias na viagem e descobrimento do Cabo da Boa-Esperança: do serviço portuguez sahira para o de Hespanha, quando chamado pelo irmão, no anno de 1493. Nem um documento apparece que mostre sequer apparencia de presumpção a semelhante asserto. Não derivaria esta opinião do dito dirigido por Colombo aos reis de Hespanha, quando pela primeira vez lhe indeferiram a pretensão, de que procuraria auxilio de Inglaterra ou França? Mas que se não verificou, porque conseguira afinal que se aceitassem seus serviços?

Como quer que seja, o que está provado é que, dissuadido Colombo de servir á Genova, partira para a Andaluzia, no dizer de uma testemunha que depuzera em processo, a procurar em Huelva um parente mareante que alli se retirara e com elle entender-se á respeito de seus projectos; que, passando pelo convento franciscano da Rabida, situado quasi á margem do rio Tinto, pedira e alcançara agazalho dos monges; que, conversando com o prior, Juan Perez, captou-lhe as boas graças pela sciencia que patenteara, versado como tambem era Juan Perez em estudos cosmographicos.

Resultou da residencia de Colombo no convento da Rabida, que se lhe affeiçoou Perez, e este, que entretinha boas relações com o confessor da rainha Isabel de Castella, D. Fernando Talavera, animara Colombo a partir com cartas suas de recommendação, em que affirmava que seria gloria para Hespanha coadjuval-o na empreza do descobrimento das Indias, para que Portugal não monopolisasse a navegação e os louros de proveitosas conquistas ultramarinas.

Partiu Colombo do convento da Rabida para Cordova, onde se achava então a rainha, D. Isabel de Castella, occupada em aprestar meios de guerrear os Arabes e Mouros de Granada.

Para bem se comprehender a somma enorme de trabalhos e paciencia que Colombo empregou, mister é examinar a situação de Hespanha naquelle momento.

Isabel herdara a Corôa de Castella, que comprehendia em Hespanha as Duas Castellas, Leão, Galliza, Asturias, a Extremadura, as provincias Vascongadas, e a parte occidental da Andaluzia, que se divide de Portugal pelo rio Guadiana, e a oriental que segue para Murcia e Valencia. Fernando herdara o Aragão, Catalunha e Napoles, e á força de armas apoderara-se, depois, da Navarra. Tantos principados, portanto, em que se dispersara outr'ora a Hespanha christã, formavam agora unidos tres reinos christãos sómente: Portugal, o Aragão e Castella. Ao lado e no meio delles conservava-se independente, todavia, o reino Arabe de Granada, que possuia a melhor parte da Andaluzia com excellentes cidades e portos maritimos sobre o Mediterraneo, pelos quaes se communicava com os Mouros da Africa septentrional.

Tinham-se casado Fernando e Isabel, bem que continuassem a governar cada um separadamente seus reinos e dominios. Fernando era guerreiro, astucioso e desleal, repleto sobretudo de ambições; Isabel possuia um excellente coração, qualidades viris, talentos selectos: posto que todos os actos do governo contivessem os nomes dos dous monarcas e elles combinassem quasi sempre em vistas politicas, a administração gyrava independente tanto em Castella como no Aragão.

Zelo religioso e fanatismo exaltado animavam a ambos os soberanos. Anciavam estabelecer a unidade da fé e da Egreja catholica em todos os seus dominios: não admittiam divergencias religiosas, e quantos não fossem orthodoxos deviam ou receber o baptismo ou ser expellidos do sólo.

Accórdes neste pensamento, deportaram para fóra de Castella e Aragão a todos os judeus em numero de mais de trezentos mil, os quaes até então alli viviam á sombra de tolerancia governamental, exerciam officios proveitosos, praticavam a medicina e cirurgia, mostravam-se distinctos em varios ramos das sciencias, e das industrias. Perdera muito a Hespanha com esta barbara e atroz expulsão de uma raça de homens, que muito concorriam para sua felicidade e engrandecimento. Logo, após, no desejo sempre de extirpar toda a heresia implantaram em Hespanha a instituição do Santo Officio da Inquisição, reformada sobre a que o Papa Innocencio III fundara para exterminar os Albigenses, que se tinham separado da obediencia devida á Roma. Deram a esse hediondo tribunal faculdades civis de processar, prender, empregar torturas, condemnar, queimar em fogueiras todos quantos não obedecessem escrupulosamente aos mandamentos ecclesiasticos, e não prestassem inteira crença a seus dogmas; ou faltassem aos deveres mesmo exteriores que a Egreja impunha e recommendava. Pretenderam, incitados por seus prejuizos religiosos, que D. João II de Portugal lhes imitasse o exemplo. Este grande rei, porém, não admittiu a inquisição, e no tocante aos judeus, até acolheu em Portugal benignamente os que Hespanha expellira, e que imploraram sua protecção. Durante seu governo ella lhes foi constantemente dispensada.

Executadas estas medidas, cuidaram os dous reis hespanhóes de repellir tambem do solo a raça Arabe e Moura que ainda lá viviam, e pois apromptavam-se em Cordova para uma guerra de exterminio contra Granada, no intuito de se apoderarem do unico estado Mahometano que ainda durava, e de empurrarem para a Africa os proselytos do Korão.

Achavam-se, pois, em Cordova, organizando os exercitos que deviam guerrear os Mouros de Granada, quando ahi chegou Colombo.

O confessor da rainha, D. Fernando Talavera, tomou a Colombo por um visionario, e quiçá por um aventureiro, e não fez caso das recommendações do prior João Perez. Pobre e desconhecido, cuidou, então, Colombo de esperar do tempo melhor exito á suas pretensões, e para viver dedicou-se a desenhar e traçar mappas geographicos que pela curiosidade eram já então muito procurados. Conseguiu, após bastantes mezes, introduzir-se nas sociedades do nuncio do Papa, e do intendente-mór das finanças de Castella, aos quaes agradou com sua instrucção scientifica e seu enthusiasmo religioso.

Decorridos alguns mezes, conseguiram os dous personagens apresental-o ao arcebispo de Toledo, e este á Isabel e á Fernando. A rainha ao ouvil-o impressionou-se favoravelmente, Fernando, porém, oppoz logo duvidas. Deliberaram sujeitar, todavia, seus projectos a uma junta ou concilio de geographos doutos e de professores da universidade de Salamanca, afim de prestarem consulta. Ordenaram que D. Fernando de Talavera installasse um concilio em Salamanca, á elle Colombo expuzesse seus planos, e o concilio formulasse opinião á respeito.

Passaram-se ainda alguns mezes antes que em Salamanca se reunisse o concilio, composto de bispos, principaes titulares da Egreja, frades eruditos e lentes da universidade. Foi o local escolhido para funccionar o concilio o convento de Santo Estevam. Isabel fixou desde logo á Colombo uma pequena pensão pecuniaria no proposito de auxilial-o.

Nada ha de mais curioso que as actas das sessões do concilio de Salamanca. Então, e em Hespanha particularmente, a religião estava ligada á sciencia. Á sombra daquella é que esta caminhava. A religião dominava pelas consciencias, pelo fanatismo e pelas superstições e prejuizos da epoca. Os bispos e sacerdotes, ao mesmo tempo que representantes da Egreja, eram guerreiros, empunhavam armas, cobriam-se de capacetes para as guerras contra os Mouros, acompanhavam os reis, e tomavam parte nos combates. Nos ecclesiasticos estava além disso concentrada toda a instrucção, toda a sciencia: dahi a importancia que adquiriram e que lhes abria as portas de todos os altos empregos da politica, da administração, do ensino nas universidades, e da direcção dos estudos. Não encontravam rivaes para os cargos publicos sinão em poucos fidalgos da denominada grandeza hespanhola. Na administração publica predominava quasi exclusivamente o clero pelo numero e pelo saber, e era ouvido em todos os assumptos, e até nos de guerra.

Installou-se a veneravel assembléa. Foi introduzido Colombo e começou á expôr suas idéas e á fundamentar seus projectos. Muitos adormeceram, não as comprehendendo; outros o consideravam com prevenção, pensando que era elle um visionario, um allucinado, um impostor aventureiro. Os mais eruditos tomaram-no até por herege em doutrinas religiosas. Não lhe faltaram immediatamente contestações e contrariedades, e ellas eram extrahidas quasi sempre dos livros sagrados, das noções canonicas, dos axiomas theologicos, das crenças inherentes ao culto e á consciencia!

Colombo fundava sua theoria na redondeza do globo, que tinha a fórma espherica, e que, dividido em terras e aguas de mares e rios, e circumdado pela atmosphera celeste, sustentava e cumpria a lei physica da gravitação attrahindo ao centro o menor peso. Esta theoria, que já haviam apregoado philosophos Gregos e Romanos, e afamados geographos e astronomos Arabes, não era em toda a Europa adoptada porque a edade média influenciava-se com as interpretações e lettra da Biblia, e com as doutrinas apregoadas pelos padres doutos da egreja catholica.

Não era nem orthodoxa e nem possivel essa theoria--clamavam os sabios do concilio de Salamanca.--A Biblia, que é o primeiro dos livros sagrados, a contradizia. Não se lia nos psalmos que os céos estendiam-se por sobre a terra como uma pelle ou tenda? Não affirmava S. Paulo que formavam um tabernaculo? Não estavam accordes neste ponto todos os commentadores e theologos como S. Basilio, S. Jeronymo, Santo Athanasio, Santo Ambrosio, S. Gregorio e Santo Agostinho? Não podia a terra ser sinão rasa, coberta pela atmosphera ou céos. Admittida a theoria de que era redonda, dahi resultava logo a da existencia de antipodas que lhes parecia extravagante. A theoria de Colombo não passava de erros, em que viveram alguns intitulados philosophos da antiguidade Grega e Romana, erros demonstrados pela religião christã, que representava toda a verdadeira sciencia.

Citavam em seu apoio os seguintes trexos das obras de Santo Agostinho:

«--A doutrina de antipodas--dizia o lumiar da Egreja--é incompativel com os fundamentos historicos da nossa fé. Dizer que ha terras habitadas da outra parte do globo, equivale a dizer que ha nações que não descendem de Adão, pois é impossivel que passassem o oceano intermediario. Equivale a negar a Biblia, que declara expressamente que todos os homens derivam de um só pai.»

Referiam ainda a passagem extrahida dos escriptos do grande theologo Lactancio, que assim se exprimia:

«--Ha absurdo maior que acreditar que existem antipodas tendo os pés em opposição aos nossos? Pessoas que andam com os tacões para o ar e a cabeça para baixo? Que haja logares no mundo, em que tudo é ás avessas, as arvores estendem para baixo seus ramos, e chove e neva de baixo para cima? A ideia da redondeza da terra deu nascimento á fabula dos antipodas, com os pés para o ar. Cahidos os philosophos pagãos nessa crença extravagante, de absurdos passam a absurdos, e para defender uns, inventam outros.»

Nada ha que estranhar nessas ideias. As sciencias dos antigos Gregos e Romanos haviam sido esquecidas com o desmoronamento do imperio de Roma, com a invasão e victorias dos barbaros do seculo IV em diante, que avassallaram toda a Europa Occidental e cobriram o mundo de trevas. O Christianismo foi semeando nova luz sobre esse cahos formado pelos Godos, Francos, Slavos, Germanicos, Hunos e Lombardos. Mas o Christianismo ia esclarecendo o mundo sob a influencia de superstições, prejuizos e fanatismos. A sciencia desenvolvia-se quasi exclusivamente na egreja e nos claustros e impressionava-se, portanto, de espirito devoto e fanatico. Nessa atmosphera é que progrediu, e dahi a ignorancia de muitas verdades que a antiguidade pagã propagara pelos Aristoteles, Platões, Plinios e mais escriptores, que os Gregos do imperio de Constantinopla, christãos separados, conservavam, e que eram egualmente adoptadas pelos Arabes que em seu tempo foram os mais instruidos dos povos.

Com os descobrimentos, com os estudos cosmographicos, com os progressos da astronomia e da nautica, que Portugal conseguira, que o principe D. Henrique de Vizeu favoneara, era corrente entre os eruditos Portuguezes a theoria da redondeza da terra. Alguns Allemães e Italianos que tinham travado relações com os pilotos portuguezes, ou que se applicaram a estudos serios nos seus gabinetes, admittiam-na tambem, e alguns globos que já se fabricavam, bem que informes e errados, apresentavam a terra sob a fórma espherica. Hespanha porém nunca se aventurara á descobrimentos de terras, nunca se entregara á estudos geographicos; combatera sempre e constantemente em terra, mostrando-se heroica nação, na gloriosa luta contra os Arabes e Mouros que se haviam assenhoreado do seu solo, e o dominaram sete á oito seculos, até que foram de todo repulsados da peninsula Iberica. A marinha que até então Hespanha contava era essencialmente costeira.

Fernando de Aragão conseguira formar, todavia, na Catalunha, pequenas esquadras com que vigiava suas costas contra Mouros, continha o estado subjugado de Napoles, e encommodava os Bereberes das costas visinhas da Africa.

Não é, pois, para espantar-nos a relutancia dos sabios hespanhóes contra a doutrina da redondeza da terra.

Não se contentaram os membros do concilio de Salamanca, apoiados nas doutrinas da Egreja Catholica e nos livros dos Prophetas e dos santos padres do Christianismo, rebatendo a possibilidade de ser a terra redonda.